EVERGREY | SILVER DUST – SÃO PAULO (SP)

Por Fernando Queiroz

Fotos: Daniel Agapito

O Bangers Open Air oferece uma experiência; dentro dessa experiência, há experiências próprias com as bandas. Duas dessas puderam ser vivenciadas em side-show alguns dias antes: o Silver Dust e os lendários “metaleiros progressivos” do Evergrey, essa última com setlist completo, para deleite dos fãs, ambas atrações do maior festival de heavy metal do Brasil. Se uma delas é lendária, a outra é uma novidade para o público em geral, não apenas o brasileiro. A grande questão é se essa combinação, no palco do Manifesto Bar em uma quarta-feira à noite, daria certo ou não. Bem, vamos ver!

Uma quarta-feira não é um dia muito bom para shows, sejamos francos. Sempre falo isso quando ocorre. Dessa vez, porém, foi diferente: é a semana do Bangers Open Air e este ano os side-shows estão a milhão, como não aconteceu em nenhuma outra edição do festival. O público realmente está no clima, e isso é muito bonito de ver. Assim como foi bonito chegar cerca de meia hora antes de as portas abrirem e ver uma grande fila para a entrada das pessoas no Manifesto. Uma fila tranquila, organizada, sem exaltação ou qualquer tipo de agitação – como se espera de um show de prog metal. A pontualidade foi impecável, e às 20h já estávamos entrando. Não demorou para a casa encher. Honestamente, eu não esperava menos da produção do Bangers, sempre muito competente.

Pontual também foi o início do primeiro show, e às 21h50 os suíços do Silver Dust subiram ao palco. Um tanto diferentes da atração principal, apresentam um som muito mais focado no gótico visualmente e no industrial sonoramente – coisas que se complementam, diga-se. A primeira impressão que ficou realmente foi do visual e da própria estética proposta para o show, lembrando algo como a banda Avatar, mas mais “malvado” – algo que se reflete no som. São ao mesmo tempo pesados e modernos, e impressionam com uma ótima presença de palco. Gostei, também, da mensagem demonstrada no telão, com a frase “stop animal abuse” (parem os maus tratos contra animais, em tradução livre), uma mensagem que não apenas nós aqui apoiamos, mas temos que dar destaque.

Devo dizer que houve um exagero em relação ao destaque em cima do vocalista Lord Campbell, que apenas canta, mas às vezes pega uma guitarra apenas para fazer um solo ao fim ou no meio da música – desnecessário, se me permitem dizer, já que é apenas o vocalista, e se quisesse ter destaque na guitarra, poderia também assumir o instrumento como vocal/guitarra.

Fora isso, sem erros, e uma produção técnica de som impecável. Tocaram por cerca de quarenta minutos, sete músicas muito bem executadas, mas talvez um pouco fora de lugar, pois o som que fazem não pareceu exercer grande efeito nos fãs do Evergrey, e casaria melhor, em se tratando de shows do Bangers, com o Nevermore. Mesmo assim, valeu a apresentação!

Novamente pontual, a banda da noite, atração do palco principal do Bangers Open Air, o Evergrey começou às 22h. Luzes se apagam, os suecos vêm ao palco e começam o show com Falling From the Sun, do seu último disco, Theories of Emptiness, de 2024. A sequência inicial depois não foi fora do esperado, focando em sua fase mais recente, como já vinham fazendo. Mas havia novidades! Tivemos logo no começo, na quinta canção apresentada, a estreia ao vivo de The World is on Fire, do vindouro álbum Architects of a New Weave, a ser lançado ainda neste ano – um privilégio para nós!

Era nítido que o público gosta dessa fase mais recente da banda, pois cantavam junto grande parte das letras, e se animavam a cada som; mas não podemos deixar de criticar não tocarem mais material antigo – a primeira das mais velhas foi Words Mean Nothing, lançada em 1999. De resto, quase apenas músicas lançadas após 2010. Não entendo muito bem por que não dar espaço para as mais antigas, mas é a proposta, e fazem bem o que se propõem.

Quem mais estava animado no palco era nitidamente o guitarrista Stephen Platt, o “novato” da banda, assim como o baterista Simen Sandness, que já em 2024, quando entrou, demonstrava muita energia. Os outros obviamente cumprem seu papel, e tocam impecavelmente – Johan Niemann, devo dizer, considero um dos grandes e mais subestimados baixistas que tem por aí. Tom Englund, logicamente, é o “ator principal” e, apesar de não ser o mais agitado, ainda tem domínio do palco e do seu público; e Rikard Zander, um grande tecladista, também merece destaque, pois reproduz ao vivo timbres bem interessantes sem o uso de VS. No mais, a crítica fica por conta do som: as bases de guitarra estavam completamente encobertas pelos graves do baixo e do bumbo da bateria – os solos, em compensação, soavam cristalinos! Destaco, também, a iluminação primorosa de ambos os shows.

Mais uma estreia ao vivo foi da faixa-título do próximo álbum, Architects of a New Weave, e então a banda saiu do palco. Mas logo volta para, então, tocar aquela que talvez seja seu maior clássico, A Touch of Blessing – a preferida deste que vos fala, diga-se de passagem. Outra grata surpresa foi tocarem mais uma faixa ainda não lançada do vindouro álbum, e essa foi a primeira vez que o público, em qualquer lugar do mundo, pode ouvi-la, como o próprio Englund falou: chama-se Leaving the Emptiness! Fecharam, então, a ótima noite com OXYGEN!.

Esse encontro da novidade com as lendas, no fim das contas, não dá para dizer que combinou. Percebia-se o público um pouco deslocado com o som do Silver Dust, embora tenha respeitado e exaltado a banda ao fim de seu show. Por outro lado, ambas as bandas fizeram seu papel muito bem, e creio que valeu muito a pena terem juntado esses dois atos, pois, sim, o Silver Dust merece mostrar seu bom trabalho. Já o Evergrey priorizou o momento mais atual da carreira, ignorando um tanto os clássicos, mas fazendo uma apresentação tecnicamente ótima, e trazendo novidades, com a estreia ao vivo de músicas do próximo disco; isso, por si só, valeu muito a pena. Sem dúvida, quem foi não saiu decepcionado!

Setlist Silver Dust

Fire!

I Am Flying

Devil’s Dance

Salve Regina

Lucifer’s Maze

No Matter How Far Away

Symphony of Chaos

Setlist Evergrey

Falling from the Sun

Where August Mourn

Weightless

Say

The World Is on Fire

Eternal Nocturnal

Call out the Dark

King of Errors

A Silent Arc

Words Mean Nothing

I’m Sorry

Misfortune

Architects of the New Weave

Encore:

A Touch of Blessing

Leaving the Emptiness

OXYGEN!

 

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