Por Fernando Queiroz
Fotos: Amanda Sampaio
Há algumas coisas na vida que acabam mal resolvidas. Aquele sentimento de que poderia ter sido diferente, e que por anos você fica remoendo isso por dentro, e em poucas dessas situações temos a chance de dar um ponto final digno, e de tirar essa sensação ruim de si, que te assombra no dia-a-dia. Relacionamentos geralmente são assim, acabam assim. Formações de bandas também são relacionamentos, e a maioria acaba sem uma resolução pacífica. Vivemos e morremos com aquilo pendente, e com o arrependimento de não termos tido a oportunidade de solucionar e ter a paz interna sobre aquela história. Mas alguns casos são diferentes e provam que não precisa ser necessariamente assim. Eis aqui uma história com final feliz.
O Angra foi, durante muito tempo, assim em relação à formação “Nova Era” (2001 – 2007): algo mal resolvido e cheio de mágoas e ressentimentos. Para alegria de todos, esse desfecho digno tardou, mas não falhou! Em 2026, a banda fez dois shows de reunião dessa formação para acabar com esse término mal resolvido, uma como headliner do Bangers Open Air, e esta em questão, em show de três horas no Espaço Unimed. Mas não foi apenas uma reunião, foi a despedida respeitosa que faltava; tudo com a dignidade merecida pela banda e sua história, e para nós, fãs (pois, sim, aqui também falo como fã). Edu Falaschi, Aquiles Priester e Kiko Loureiro precisavam desse último show juntos com os colegas de sua época no grupo – os ainda membros Felipe Andreoli e Rafael Bittencourt –, assim como nós também precisávamos vê-los juntos.
Mas tão importante quanto essa despedida digna, era o vislumbre do futuro. A passagem de bastão para a nova formação, com novo vocalista, era algo que precisava ser feito e testemunhado; e foi em grande estilo, num primeiro ato dos mais interessantes, e até mesmo “perigosos”, de um show que pude ver. Agora é a vez de Alírio Netto tomar as rédeas à frente, e ele precisava mostrar do que é capaz enquanto membro do Angra, assim como nós precisávamos ver sua demonstração.
E este é o testemunho desses dois fatos históricos que ocorreram juntos! É tanto um relato dos acontecimentos, quanto uma expressão da emoção vivida de quem tem uma história com o Angra do lado da plateia. Também por isso, a responsabilidade de traduzir aqui como foi é grande; ao mesmo tempo, é uma daquelas responsabilidades que dão grande prazer, afinal, é história sendo feita – uma terminada e outra começada ao mesmo tempo. Três atos, duas formações, uma banda. Vamos conferir como foi!
Poucas das vezes que estive no Espaço Unimed, tradicional casa de espetáculos de São Paulo, a vi tão cheia. Não foi surpreendente, porém; dias antes já soubemos que os ingressos estavam esgotados. Meia hora antes das 19h, horário previsto para a abertura das portas, havia uma multidão quase fechando o entorno do metrô Barra Funda, na zona oeste da capital – some isso ao fato de ter jogo do Palmeiras no mesmo dia e horário, bem ali do lado. O trânsito definitivamente não estava para amadores, mas quem é paulistano já se acostumou. Segue o jogo! O importante é que o show era, incontestavelmente, um sucesso, independente da performance da banda no palco. Pessoas de várias partes do Brasil, até de fora do país, estavam lá para conferir a apresentação. Bem, foi com pontualidade que, finalmente, começou a “correria” para pegar o melhor lugar possível na grade. Mas definitivamente sem confusão ou bagunça! Tudo tranquilo como deve ser uma festa; exatamente como me lembro que foi quando estive, quase vinte anos atrás, entrando no antigo Via Funchal para ver essa mesma formação, em 2006. Dentro, uma cena curiosa: duas baterias no palco, uma pequena, com apenas um bumbo, do atual baterista Bruno Valverde, e outra gigantesca, com quatro bumbos, de Aquiles Priester!
O que posso criticar, porém, era o horário: portas abrindo às 19h era bem justo, mas começar apenas às 21h, para um show de três horas, não acho correto para com o público, no meio do qual muitos dependem de transporte coletivo, e trabalhariam ou estudariam no dia seguinte – e mesmo se não o fizessem, ficar na rua de madrugada não é seguro; estamos no Brasil, em São Paulo, que mesmo sendo estatisticamente a capital menos violenta do país, ainda há bastante risco. Começassem às 20h, terminando às 23h, no máximo, seria o ideal. De toda forma, foi também pontualmente que as luzes se apagaram e começaram aquelas horas de história sendo feita.
O primeiro ato da noite foi a novidade: essa foi a primeira vez que essa formação do Angra faria um set mais longo, e sem interrupções – no Bangers Open Air, alguns dias antes, havia também tido a despedida de Fabio Lione, que cantou algumas músicas com a banda; agora, seriam apenas eles, e são os músicos que veremos daqui para frente ao vivo em shows completos. Os já citados Alírio Netto no vocal, Rafael Bittencourt na guitarra, Felipe Andreoli no baixo e Bruno Valverde na bateria subiram ao palco acompanhados do também já veterano Marcelo Barbosa, guitarrista há mais de dez anos na banda. A escolhida para o início foi Nothing To Say, clássico do disco Holy Land, que foi precedida por uma introdução especial feita para esses shows; logo em seguida, a faixa-título do álbum de estreia, Angels Cry. Era nítido que o foco era a fase original do grupo, com o finado Andre Matos na voz principal. Também, até então, tudo se repetia como havia sido no Bangers Open Air, mas dá para fazer algumas considerações.

Primeiramente, era bem claro que a banda estava mais à vontade, mais leve, e isso valia para todos os músicos. Alírio, o novato da noite, estava muito bem, e até mesmo seu estilo visual – que foi criticado pelo público no Bangers Open Air – estava melhor. Inclusive, achei a jaqueta branca com a qual ele entrou extremamente estilosa; passava até mesmo uma vibe de Andi Deris (Helloween), no melhor sentido possível, como bem reparou um colega de redação. Sua voz era impecável, e nem mesmo a falha no microfone, que estava desligado quando ele começou a cantar, prejudicou a performance; aliás, se ele tivesse deixado, o público cantaria por ele, já que a letra inteira era cantada por todos os presentes. Uma vez, um grande amigo e cantor me disse que, embora Andre Matos fosse, sim, um vocalista genial, cantar as músicas dele não era algo impossível como muitos dizem, basta ter a tessitura e a técnica certas para isso. Alírio claramente tem ambos!

O desafio de Alírio viria agora, pois teria que cantar as duas partes de Tide of Changes, que foram gravadas por Fabio Lione. O italiano tem um estilo de cantar e uma tessitura bem diferentes, então como o brasiliense se sairia? Saiu-se muito bem, obrigado! Não tentou imitar seu antecessor, mas ao mesmo tempo não descaracterizou a música, que foi um hit do disco Cycles of Pain. Ali tínhamos um vocalista que cantava muito bem ao menos duas fases da banda, até o momento. Faltava uma fase, mas ainda não. Lisbon, não podia ser outra, representou Fireworks, e Vida Seca, mais uma do último álbum, com Rafael Bittencourt fazendo as partes em português originalmente gravadas pelo cantor de MPB Lenine. Em se tratando de partes não tão boas, diria que a próxima foi desnecessária: Wuthering Heights, cover da cantora Kate Bush, na qual o vocalista também tocou piano, poderia ter sido trocada por, possivelmente, Time ou Gentle Change; com certeza cairiam melhor. Fenomenal foram os dez minutos de Carolina IV, que, mesmo longa, não é cansativa, e após um curto e honesto solo de bateria de Bruno Valverde, veio a primeira música que não esteve no festival de domingo, a belíssima Make Believe! Será que já estamos tendo um “esquenta” para a turnê de aniversário do álbum de 1996? Espero que sim.

Agora sim, Alírio mostrou que consegue fazer todas as fases, e mesmo com Edu Falaschi presente (ele entraria em instantes), foi o novo vocalista que cantou Waiting Silence, faixa que exige muito da voz e que ele tirou de letra. Temos o cantor ideal para o Angra! E foi assim que essa formação saiu de campo para a entrada do segundo ato: a nostalgia para uns velhos como este que vos fala, e a chance de poder ver a lendária formação “Nova Era” pela primeira (ou segunda, se você esteve no Bangers), e possivelmente última vez. Até o momento, o grande show do Angra que faltou em muitos e muitos anos. A única coisa que estava faltando no palco: um tecladista. Não apenas para as bases, mas o solo de Lisbon tocado na guitarra não fica tão bom quanto em um teclado, e isso é um dos maiores pecados que o Angra vem fazendo há anos.

Com luzes apagadas, a introdução In Excelsis começou; chegara hora de Nova Era, tanto no nome da próxima música tocada, quanto referindo-se à formação que agora entraria. Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester substituíram os três integrantes que estavam no palco para trazer uma época antiga, nostálgica, gloriosa de volta por uma última noite em solo brasileiro. Um momento que remete a uma época mais simples da vida de muitos lá, e que muitos outros não viveram, mas sonhavam com isso. Quanto ao setlist, dispensa apresentações. Simplesmente tivemos o álbum Rebirth tocado em sua totalidade, na ordem exata original — destaque para Millenium Sun, em que o público foi surpreendido com Kiko Loureiro ao piano no início.

O que podemos comentar mais? Bem, é inútil tentar pôr em palavras o que aquilo representava, e o que seria possível, já foi falado. O que dá para analisar é a performance, e nisso há pontos a destacar, positivos e negativos – mesmo que nenhum deles tenha muita importância perante a emoção. Para começar, Edu estava cantando melhor que no Bangers Open Air. Mais confiante, mais calmo, não tentava passar de seu limite atual, e isso é uma ótima atitude. A banda como um todo estava mais bem ensaiada, mais “redonda” como dizemos. Até mesmo na hora de se dirigir ao público, Edu e Rafael estavam mais confortáveis. Nem tudo são flores, porém; diferente do curto e direto solo de Valverde, o de Aquiles foi longo, com quase cinco minutos, um tanto desnecessário. Parecia ser apenas para preencher tempo, e acabou sendo cansativo demais – algumas pessoas, inclusive, podiam ser vistas indo para a área de fumantes esperar acabar, para então começar Judgement Day. O microfone de Edu também estava muito baixo, e em muitos momentos sua voz acabava sendo encoberta; até mesmo quando falava com a plateia parecia estar sussurrando em algumas partes. Ao final da reprodução do disco, era nítido seu cansaço, mas ele ficou firme, e continuou com performance competente. O discurso sobre Bleeding Heart, após o final do álbum, também já está repetitivo, uma vez que ele o faz em todo show, até com sua banda solo. Mas é divertido ver o pessoal gritar “Calcinha Preta” em coro, assim como é legal ouvir as partes em português da versão forró da música como brincadeira – outra coisa que, apesar de legal, para quem já viu algumas vezes, ficou repetitivo. Fiquei feliz, também, de ver que o disco Aurora Consurgens não foi esquecido, sendo representado por Ego Painted Grey. O hit Spread Your Fire, cantado por todos presentes a plenos pulmões, terminou aquele ato. Ali também terminava a última vez, até o presente momento, que o Brasil poderá ver aquela formação no palco.

Após a banda ter saído toda do palco, quem ficou ali foi o guitarrista e líder Rafael Bittencourt, com apenas um violão na mão. Fez alguns agradecimentos a diversos envolvidos naquele evento, e então apresentou a próxima música a ser tocada: Reaching Horizons. Aparentemente, seu instrumento estava desafinado, então passou alguns minutos resolvendo aquilo, junto com algum problema de captação de áudio. Resolvido, ele mesmo cantou e tocou a dita canção, sendo acompanhado nos refrães por todo o público presente.
Novamente, luzes apagadas, e no telão, um vídeo em preto e branco. Nele, aparecia uma figura saudosa tocando piano; o mais importante nome do metal melódico brasileiro, e entre os maiores do mundo: o falecido Maestro Andre Matos. Junto ao vídeo, sua voz era ouvida nos auto falantes cantando Silence and Distance. Neste momento, todos gritaram. Pessoalmente, meus sentimentos quanto a isso são mistos, conflitantes, mas não é de minha alçada falar sobre esse ponto aqui e agora. O que importa é que ele nunca, jamais será esquecido. Enquanto sua música viver, ele também viverá – sempre falo isso. Depois, ainda com as imagens do maestro no telão, todos os integrantes, com exceção de Aquiles, voltam ao palco para tocar a íntegra dessa mesma música.

Sai Bruno Valverde, entra Aquiles, e então tocam Late Redemption, com o próprio público cantando as partes em português que Milton Nascimento gravou no disco Temple of Shadows. Final de show? Não! Faltava algo! Vocês já ouviram aquela clássica “Toca Carry On?” em qualquer lugar por aí? Pois bem! Com todos os integrantes no palco, inclusive dois bateristas, o show é encerrado com a música que lançou a banda, e seu maior hino, Carry On. A última nota da canção foi tocada exatamente à meia-noite. Agora era só correr pro abraço!

Aquele fim de relação turbulento, com mágoas, situações e problemas não resolvidas entre as partes, teve seu ponto final com pendências resolvidas. O peso que se tinha quanto àquilo não se tem mais. Após isso, cada um volta para o seu canto, mas com o peito leve, sem ter o passado assombrando-o. Se a amizade continua, eu não sei. Nem preciso saber, e na verdade ela nem precisa de fato continuar; o importante é que o respeito existe, e agora a separação foi, para todos os efeitos, oficializada em paz. Se eu puder resumir em poucas palavras, eu diria: “Adeus, Angra!” E: “Olá, Angra!” O velho Angra dá seu adeus digno, com uma boa apresentação, em que nem mesmo os erros tiraram o brilho, e o novo Angra dá seu olá mostrando que ainda tem muito a criar e apresentar; com uma apresentação grandiosa, mostrou que tem tudo para continuar sendo um dos bastiões do metal no Brasil.

Setlist
Angels Cry
Tide of Changes – Part I
Tide of Changes – Part II
Lisbon
Vida seca
Wuthering Heights
Carolina IV
Make Believe
Waiting Silence
In Excelsis
Nova Era
Millennium Sun
Acid Rain
Heroes of Sand
Unholy Wars
Rebirth
Judgement Day
Running Alone
Bleeding Heart
Ego Painted Grey
Spread Your Fire
Reaching Horizons
Silence and Distance
Late Redemption
Carry On
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