MAGNOLIA – MELODY OF A NEW DAWN [9,5/10]

Por Alessandro Bonassoli

Toda banda que, no Brasil, dedica-se seriamente à música pesada merece respeito. E isso vale para cada um dos múltiplos estilos dessa apaixonante forma de arte. Esse reconhecimento é ainda mais importante aos que estão fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte, cidades historicamente reconhecidas como berço e definição para o heavy metal nacional, como polos de exportação de gigantes da cena, de palcos para grandes festivais e turnês, de formação de mão de obra. Estados do Nordeste, Centro-Oeste, Norte e do Sul vivem à distância, com dificuldades maiores em termos de falta de oportunidades para shows e até de divulgação, mesmo em plena era da Internet. E, nestes territórios, quem também precisa ter reconhecimento são os artistas que, apesar de tantos obstáculos, enfrentam tudo isso com a coragem de abrir seu espaço sem tentar ser um genérico de ídolos consagrados. Esse é o caso da Magnolia, que surgiu na cidade catarinense de Blumenau, em fevereiro de 2023, e tem seu álbum de estreia, Melody Of A New Dawn, resenhado em primeira mão pela ROADIE CREW e que você só poderá ouvir no próximo dia 15 de maio, quando estará disponível exclusivamente nas plataformas de streaming.

Joana Guimarães (voz), Leandro Eidt (guitarra), Bill Schepers (baixo) e Auro Gadotti (ex-Hopeless Army e, desde abril de 2026, substituto de William Schepers, que gravou a bateria) investem no metal sinfônico, uma linha musical que vive o desafio de uma aparente estagnação. E digo isso levando em conta que os padrões estabelecidos pelos precursores desta vertente são tão rígidos quanto os dogmas do metal extremo. Qualquer coisa fora das linhas primordiais pode gerar rejeição e descaso, tanto por parte do público que é fã quanto dos que desdenham do estilo e até da mídia especializada. Isso, no entanto, parece motivar o quarteto a revelar de peito aberto que limites e barreiras existem para ser superados.

Isso vem, certamente, da experiência deles. Joana afirmou à ROADIE CREW que sua primeira influência musical veio do período em que praticou balé clássico. “Foram 10 anos de estudo de dança regado a música clássica e sei que minha paixão pelo erudito nasceu na sala do balé”, explicou. A vocalista passou por bandas autorais independentes da cidade, tais como, Not Falling e No One Else, mas foi em uma banda de rock setentista que fez os primeiros shows profissionais como voz da banda Purple Sky com repertório voltado ao pop internacional. Isso foi antes de entrar para a Magnolia, que em seu primeiro ano era um tributo ao Nightwish, algo logo transmutado para a busca pelo som próprio.

Bill começou a carreira nos anos 1980 tocando em bandas de rock nacional, incluindo a Grifo, que obteve espaço nas rádios e TVs de Santa Catarina e fez vários shows no Sul do Brasil, compartilhando palcos com nomes destacados do underground nacional como Cólera. O baixista passou também por grupos covers de rock, passando por gêneros como hard rock, heavy metal e até grunge e punk. Nos anos 2000, relatou, vieram as bandas de metal progressivo e melódico. “Neste ponto se definiram as preferências musicais que seguem até hoje: Nightwish, Épica, Dream Theater e muito metal japonês”, esclareceu.

Eidt, por sua vez, está em uma trajetória de 17 anos. Integrou grupos de pop rock, incluindo um projeto cover do Paramore. “Minhas influências vão do punk rock de Green Day e Blink-182, ao metal de Epica, Kamelot, Spiritbox, Within Temptation, Beyond The Black e Enemy Inside”, atestou.

E será que esse vasto espectro sonoro, incluindo tantas características não metálicas, funciona? Sim, pode acreditar. Magnolia é mais uma grata revelação da música pesada nacional. A faixa inicial, The River, tem uma rápida intro que, de tão épica, me fez lembrar de Fortuna Imperatrix Mundi, o antológico movimento de abertura e encerramento de Carmina Burana, obra-prima de Carl Orff. A partir daí é uma rifferama impactante e as nuances da voz de Joana. Ela vai de vocalizações mais suaves à amplitude de tons mais altos com facilidade.

E lembra do que disse no parágrafo inicial sobre não ser um mero similar? Ao longo do álbum a vocalista não esconde suas influências: Tarja Turunen, Sharon Del Adel (Within Temptation), Simone Simons (Epica) e Cristina Scabbia (Lacuna Coil). Ela faz questão, porém, de assegurar que também ouve muito Nevermore, Dream Theater, Helloween, Sonata Artica e os clássicos das décadas de 1970, 1980 e 1990. Isso certamente explica o fato de que, em nenhuma das 12 faixas, você vai ouvi-la tentando ser um clone. Joana é… Joana!

Na sequência, Awakening (In The Beyond), primeiro single lançado em 2025, me encantou por remeter minha memória auditiva diretamente à Losing The Ground, faixa de abertura do ótimo Gone, lançado em 2001 pelos finlandeses do Entwine. Nos primeiros 39 segundos a pegada é quase pop e isso não é demérito algum. Com um refrão forte e um solo brilhante, a canção é um dos destaques. Mas seria o gothic metal uma das raízes do Magnolia? De acordo com Eidt, as referências são bem claras ao estilo de grupos como HIM, Sirenia, The 69 Eyes, Elysion e Within Temptation. “Nossa sonoridade vem muito mais dessa mistura de atmosfera melancólica, refrões marcantes e aquele clima sombrio romântico típico do gothic metal do que de uma influência direta específica”, garantiu o guitarrista. Tire suas próprias conclusões assistindo ao videoclipe disponível aqui na resenha.

Em Path Of Life, recheada de riffs e teclados, o metal sinfônico vem com força total. E nesta, After Forever é o nome referencial, talvez pelos backing vocals guturais de Schepers. O ritmo de qualidade não cai e surge Eternal Memories, que não é uma balada, mas é sobre amor.

Segundo a banda esse é o caminho: sim, a mensagem aqui é sobre o sentimento maior, mas não daquele jeito água com açúcar. É sobre amor que continua mesmo depois da dor, do tempo e até da morte. É sobre conexão de verdade, daquelas que marcam pra sempre. Uma música intensa e profunda mostrando que, quando o sentimento é real, ele não acaba fácil, vira memória eterna, energia, algo que permanece além do que a gente pode tocar. Quase como se o amor fosse uma força espiritual, que atravessa dimensões e nunca deixa de existir.

O instrumental impecável, forte e pesado, rivaliza com a performance de Joana, que brilha em um refrão alto seguido por uma redução de tom. Cada instrumento parecer conduzir ao outro: riffs levam à cadência da dupla bateria e baixo; que levam para mais riffs e um solo de puro feeling e tudo se complementa perfeitamente.

Comentei com os integrantes da Magnolia que Pain Of Love é outro típico ‒ e excelente ‒ reflexo do metal sinfônico a la Nightwish. A resposta? “Ficamos muito felizes com esse comentário! Nosso som nasce da junção de várias influências que carregamos ao longo dos anos. Quando você absorve referências fortes, como as que sempre nos inspiraram é natural que alguns elementos soem familiares ou tragam uma certa semelhança. Mas nunca foi sobre copiar ou tentar ser ´a próxima´ banda de alguém. É sobre transformar tudo o que nos marcou em algo com identidade própria. No fim, as influências moldam o caminho… mas a essência é nossa”, comentou o guitarrista.

Comento agora minhas duas favoritas. A primeira é Secrets Buried Deep, com seu riff pesadaço e um piano no início que acena para King Diamond. A temática presente também tem a ver com amor, mas versão dolorosa. Sabe quando a gente não quer deixar a outra pessoa… ir embora e passa a viver a tenebrosa dependência emocional?

 

Your eyes, they haunt me, they hold the key [Seus olhos, eles me amedrontam, seguram a chave]

To unlock the secrets buried deep with me [Para desbloquear os segredos enterrados comigo/

But in the end, it’s the death of me [Mas, no fim, é a minha morte/

Trapped in your gaze, I can never be free [Prezo em seu olhar, eu nunca poderei ser livre]

 

Echoes of your whispers linger in my mind [Ecos dos seus sussuros prolongam-se na minha mente]

A maze of emotions, that’s hard to find [Um labirinto de emoções, que é difícil de encontrar]

In the silence, I hear your silent voice clear [Em silêncio, ouço claramente sua voz silenciosa]

But in the darkness, I can’t set you free [Mas, no escuro, não posso te deixar livre]

Chaos In My Mind é minha outra predileta. Não só pelo instrumental mas, também, pela interpretação de altíssimo nível de Joana, que recorda o estilo de Carla Domingues em Nine Mirrors, do No One Spoke, cuja resenha você pode ler aqui. Não é que a frontwoman da Magnolia vá pelo lado lírico da

experiente e talentosa cantora que nasceu na cidade de Pelotas (RS) e desde 2008 é radicada na capital catarinense. Me refiro aos arranjos elaborados que a respeitada e aclamada vocalista da Camerata Florianópolis (aquela que foi a banda de Steve Vai no Rock In Rio de 2015) sempre criou em grupos como Enarmonika, Vetitium e M-26.

Ainda é necessário destacar In The Silence, que apesar de ser uma power ballad, não tem uma temática romântica. A música fala sobre superação, redenção e união para vencer a escuridão. É sobre quebrar correntes, encontrar força nas dificuldades e acreditar que, mesmo no silêncio, existe propósito e um novo começo esperando.

Segundo single e com o clipe também disponível aqui, Melody Of A New Dawn é a mais pesada e mais épica. E na faixa-título, Joana desafia os limites da sua voz com a força de uma veterana e o apoio e suporte de uma banda que é sinônimo de pura segurança para quem está no microfone.

Atente para o refrão e solo excelentes, além do contraste dos guturais.

Para finalizar, não posso deixar de citar Symphony Of Death e I Am The One, bem mais cadenciadas e, aparentemente, menos pesadas. Mas é só uma aparência, pois a pegada em ambas tem peso sim. Por fim, destaco Fly Away, que é puro power metal. Mas não espere castelos, dragões ou espadinhas.

Don’t be afraid to lose [Não tenha medo de perder]

It’s part of life [É parte da vida]

Pain make us endure to grow [Dor nos faz suportar crescer]

 

Fly away, fly high above the clouds [Voe longe, mais alto que as nuvens]

Search for your destiny! [Procure pelo seu destino!]

 

Don’t be afraid to lose; it’s part of life [Não tenha medo de perder; é parte da vida]

What doesn’t kill us makes us more stronger [O que não nos mata, nos faz mais fortes]

O recado é motivacional: procure o seu destino, lute por seus sonhos, não tenha medo de perder, de se reinventar, exatamente como a Magnolia faz.

 

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