THE ADICTS – SÃO PAULO (SP)

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Texto: Rogério SM

Fotos: Daniel Agapito

Ver ídolos e pioneiros se despedindo virou algo comum no mundo do rock, infelizmente. Quando pensamos naquela primeira onda do punk inglês, do final dos anos 70, muitos grupos que pavimentaram a cena já não estão mais por aí. E agora chegou a vez de outro gigante do estilo dar adeus: The Adicts.

Liderados pelo teatral e carismático vocalista Keith “Monkey” Warren, o grupo, que mostrou ao mundo a força de suas melodias por mais de 50 anos, agora anunciou sua derradeira turnê. Batizada emocionalmente de Adios, Amigos! (quem se lembrou de Ramones?), os ‘droogs’ passaram pela última vez por terras brasileiras no dia 18 de março, no Carioca Club.

Só que, como era de se esperar, o Adicts transformou essa quarta-feira cinzenta em um carnaval sem precedentes. Para começar, outro pioneiro, dessa vez daqui mesmo, fez as honras de iniciar essa noite histórica: Lixomania. A banda fundada em 1979 e capitaneada pelo lendário vocalista Moreno empolgou os presentes com seu punk direto, ríspido e old school. Clássicos como Zé Ninguém, Estado de Sítio e Presidente fizeram os punks presentes pogarem e pularem, cantando junto os refrãos. Moreno continua com seu discurso anarquista afiado e garganta em dia, como ficou claro em Os Punks Também Amam e a derradeira O Punk Não Morreu, hino absoluto do punk nacional.

Em seguida, fazendo a transição entre o punk direto do Lixomania e o som mais melodioso do Adicts, Supla subiu ao palco com sua banda Punks de Boutique. Podem dizer o que quiserem do Papito, mas não lhe falta carisma. Começando com Charada Brasileiro, Supla soprava sem constrangimento um trompete junto ao microfone. Com uma banda afiada e bem entrosada, foram destilando sons autorais como Suplaego, Green Hair e Você Não Vai Me Quebrar, com covers em versões punk de Dancing With Myself (Billy Idol), Stand By Me (Ben E. King) e Imagine (John Lennon). Tudo rápido, divertido e bem-humorado. É como se alguém tivesse colocado “show punk” no ChatGPT, tamanha a aleatoriedade do show. Isso, entretanto, não tira o profissionalismo da banda e dos músicos, que arrebentavam em sons como Trip Scene, da antiga banda do Supla, Psycho 69, que ele regravou recentemente com Jyrki 69 e Bazie, do The 69 Eyes. Para fechar, Clemente (Inocentes e Plebe Rude) sobe ao palco para cantar os maiores sucessos do Papito: Humanos e Garota de Berlim, ambas do Tokyo. Descontração total que preparou os presentes para a atração principal.

Após uma longa introdução, que inclui trilha do filme “Laranja Mecânica”, as cortinas do Carioca Club abrem para receber The Adicts uma última vez. Assim que os primeiros acordes de Let’s Go foram ouvidos, a casa vem abaixo. O público gritava tão alto que, em alguns momentos, era até difícil ouvir a banda. Mas eles estavam no palco, com Money à frente abrindo sua fantasia com asas de mariposa enquanto canhões jogavam papel picado na galera. Se existe uma forma melhor de começar uma apresentação, eu desconheço. Para reforçar, emendaram Joker in the Pack, com Monkey atirando as tradicionais cartas de baralho, e Horrorshow. Público ensandecido e sem tempo para respirar, pois logo depois a banda fez outra trinca absurda, com Tango, Don’t Exploit Me e Johnny Was Soldier, essa última levando os mais emocionados ao delírio. Em 15 minutos o Adicts já tinha servido mais clássicos que muitas bandas não oferecem em todo set.

Bom, mas também precisamos falar: o Adicts possui muitos sons que já se tornaram hinos do punk, o que facilita o trabalho. Mesmo assim, ver a banda no palco, vestida em seus tradicionais uniformes de ‘droogie’, a gangue de Alex no filme “Laranja Mecânica”, com Monkey e suas tradicionais pinturas no rosto e chapéu coco, executando músicas como How Sad tem um valor especial. Monkey, com seu estilo totalmente flamboyant e um tanto esquizofrênico, é sem precedentes até hoje no estilo. Sua voz marcante e presença de palco dominam as atenções, enquanto o guitarrista Pete Dee rege a orquestra do caos que é o Adicts. Os dois fundadores ditam o ritmo e conduzem a plateia na palma das mãos.

Isso fica claro quando vemos o grupo emendar 4321 e Numbers. Aqui o barulho vindo da plateia ficou ensurdecedor. E tome confetes, serpentinas e mais papel picado. Monkey tem sempre um adereço a mais para compartilhar, dando o tom teatral típico do grupo. Um exemplo é o boneco que segura enquanto canta Troubador e os corações de papel em I Am Yours, outros dois clássicos tocados na sequência com perfeição. A emoção foi tanta que um fã invadiu o palco e ganhou um beijo de Monkey.

Aos poucos, o vocalista vai se desfazendo de peças de seu extenso vestuário, mas sem perder o carisma e a irreverência teatral de sua performance, cheia de descontração e até certa sensualidade. Mas, no caso do Adicts, a música vem sempre em primeiro lugar. Angel e Telepathic People agitaram mais os presentes. Um dos pontos altos também foi na emocional Daydreamers Night, que arrancou lágrimas de alguns.

Antes de Pucked up Woreld, Pete pediu para a produção iluminar a plateia, mas não foi atendido prontamente, o que fez com que os fãs acendessem seus celulares, em mais uma prova da sintonia perfeita entre público e banda. Rocking Wrecker e The Odd Couple mantiveram o clima lá em cima, mesmo com Monkey errando partes dessa última, tudo com risos e descontração. Era um momento de festa e empolgação, que continuou com a divertidíssima My Baby Got Run Over by a Steamroller.

Em seguida, Just Like Me mostrou que a plateia ainda tinha fôlego para cantar junto. Os fãs, aliás, não perderam o pique em nenhum momento, cantando e pogando em clássicos como Who Spilt My Beer? (com direito a uma caneca inflável), Fuck it Up e Crazy, que contou com trechinhos de Falling in Love with You e Be Bop a Lula.

Com o show se encaminhando para o final, banda e público passaram a se entregar de forma ainda mais intensa. Chinese Takeaway foi uma das que mais empolgou, servindo também para Pete apresentar a banda rapidamente. Em seguida, mais um momento emocional com Bad Boy e, aí sim, a catarse com o clássico absoluto Viva la Revolucion. A entrega de Monkey foi tamanha que aqui ele já estava sem camisa, esgotado e feliz. E ainda havia o final com a indefectível You’ll Never Walk Alone (Rodgers & Hammerstein), em que a conexão fãs e grupo chegou ao ápice, com chuva de papel picado, balões, serpentina e um coração gigante que Monkey jogou para os fãs.

Enquanto o público olhava ainda para o palco, maravilhado, a banda dançava ao som de Bring Me Sunshine que rolava dos PAs. Se algumas bandas saem de cena de forma triste, o Adicts resolveu dar adeus com uma das maiores festas já vistas. O único ponto negativo foi a retirada dos fotógrafos do pit, sem justificativa e com alguma animosidade, antes mesmo da primeira música. Infelizmente, uma falta de respeito que manchou uma noite quase perfeita.

Obrigado, Monkey, Pete Dee e todos os músicos que fizeram e fazem parte dessa verdadeira instituição do rock chamada The Adicts. Vocês farão falta, droogies!

 

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