
Por Fernando Queiroz
Fotos: Roberto Sant’Anna
Podemos ficar horas, dias até, divagando sobre o legado de Andre Coelho Matos, mais conhecido como Andre Matos – de todas as bandas, no Brasil e no mundo, que existem por causa dele, por todos os músicos que começaram por conta de sua obra, e até para nós jornalistas do meio (eu incluso) que aqui estamos por causa dele. Direta ou indiretamente, ele é aquela pessoa que pavimentou tudo que conhecemos do metal como ele é hoje no país. Até mesmo este veículo de comunicação, a ROADIE CREW, existe por isso! Nosso amigo Claudio Vicentin pode confirmar. Tudo isso é parte do quanto ele fez por todos nós. Seu marco maior, porém, é sua música, e é isso que deve ser celebrado. E foi! Da forma mais bonita, digna e honesta possível, o maior músico do heavy metal brasileiro foi lembrado como deveria por alguns dos músicos mais gabaritados, talentosos, notórios e competentes do mundo, em uma produção de dar inveja a qualquer evento “gringo” que possamos imaginar – não à toa, este show estava sendo gravado para virar DVD.
Assim, é para esses craques do All Metal Stars que passamos a bola.
Alguns músicos dispensam apresentações. É o caso da maior parte dos que tocaram nessa noite. Mesmo assim, merecem ter seus nomes e suas carreiras exaltadas. E quem merece apresentações com honras, na verdade, é Guilherme Torres, guitarrista do Noturnall, e agora deste projeto, que começou sua carreira no YouTube antes de ser descoberto pela banda. E que deleite ver o garoto tocando! É também o caso de Saulo Xakol, baixista de longa data também do mesmo Noturnall, que dividiu o instrumento com ninguém menos que Daniel Matos, do Viper, e irmão do nosso maestro. Outro grande músico assim como o irmão! Todos esses precisam ser exaltados! Assim como precisa ser Aquiles Priester, lendário baterista do W.A.S.P. e do Hangar, mesma banda de onde vem o conhecido tecladista Fábio Laguna. Já Edu Ardanuy, bem, eu poderia ficar horas falando sobre ele: o cara é um dos meus ídolos na guitarra. Em especial em seus tempos de Dr. Sin, um dos melhores do mundo nas seis cordas! Por último, e não menos importante, o idealizador do projeto, Thiago Bianchi, vocalista do Noturnall, ex-Shaman, é inegavelmente a pessoa certa para estar ali à frente da coisa. Quem o viu nos tempos da clássica banda substituindo Andre, sabe – e acreditem, sou uma das pessoas que mais o viu cantando músicas do maestro ao vivo por aí. Sua voz tem uma tessitura semelhante à do falecido cantor, mas, ao mesmo tempo, ele não soa como um cover já que tem personalidade própria. Resumindo, ali não tem ninguém abaixo da excelência! Feitas as introduções, vamos ao evento.
Era um dia morno e agitado em São Paulo. Morno pela temperatura e agitado por conta de uma série de coisas ocorrendo ao mesmo tempo. No esporte, bem perto da casa de shows onde o All Metal Stars tocou, no Allianz Parque, havia jogo do Palmeiras, e por isso o metrô estava bem caótico àquela hora; nas artes, além dos shows ocorrendo, os brasileiros ficaram de olho nas premiações do Oscar 2026, em que o Brasil concorria com cinco indicações. O Brasil não levou os prêmios, infelizmente, mas no metal tínhamos o que comemorar! Foi com pontualidade que às 19h as portas abriram para um público já bem respeitável. Dentro da casa, tudo muito organizado também, com duas bancas de merchandising – uma para as bandas, outra só com produtos de Aquiles Priester, e acreditem, tinha bastante coisa dele. Estranho também foi não ter o pit dos fotógrafos; de todas as vezes em que estive na Audio, essa foi a primeira vez que vi um show sem o espaço. Também destaco que a própria escolha do local poderia ter sido melhor (claro, não sei de disponibilidade, então não dá para afirmar que não foi tentado), pois não é o primeiro show que vou lá e não se tem o melhor som possível. Sim, há pontos na casa em que você ouve cristalinamente tudo, em outros fica bem embolado.
É bem comum bandas de abertura tocarem para cinquenta pessoas, às vezes menos, mas não foi o caso. Dez minutos antes do previsto, a casa não estava com público completo, mas os goianos do Krakkenspit tocaram para um número considerável de espectadores, e não decepcionaram. Tanto sonora quanto visualmente, há claramente um zelo muito grande no som que fazem. Com bom humor e confortável no palco, o talentoso vocalista Márcio Cruvinel até brincou sobre as pessoas acharem que em Goiânia só tem sertanejo, e só ter isso mesmo (risos). No geral, foi uma excelente apresentação para um público que ia aumentando no seu decorrer. Valeu muito conhecê-los nesses trinta minutos de show, e já deixo a recomendação. O som foge um pouco do que um fã de power metal espera, mas não tem problema, eles têm qualidade e não fazem o “mais do mesmo”.

Foi também com outros dez minutos de antecedência que o Phornax subiu ao palco. A banda do vocalista Cristiano Poschi, produtor executivo e realizador da turnê, também apresentou um som diferente do que o público esperava ali. Igualmente competentes como a anterior, os gaúchos tiveram um pouco de tempo a mais para apresentar seu ótimo material, incluindo canções de seu vindouro álbum, que sairá nos próximos meses – é daqueles lançamentos para ficarmos de olho, inclusive! Outra banda, vale dizer, que tem um ótimo foco no visual, em especial do vocalista, mas aí entra algo curioso. Acho que faltou harmonia visual! Enquanto Cristiano tem uma identidade visual, o resto da banda não acompanha. Teria sido mais harmônico se todos estivessem na “mesma página” em se tratando do como se vestem em cena. Apenas um detalhe, pois em termos sonoramente estão bem redondos. Outra banda que vale a pena conhecer quando tiver oportunidade.

E chegava a hora, finalmente, daquela seleção entrar em campo – e não, não me refiro à péssima Seleção Brasileira de futebol, mas à seleção de músicos brasileiros homenageando Andre Matos: o All Metal Stars! Ali era certeza de boa atuação “em campo”. Dito e feito. A introdução Unfinished Allegro deu a dica, e logo os instrumentistas entraram já com Carry On, do Angra. Sem tempo para descanso, Here I Am, do Shaman. Interessante que são duas músicas que, em suas épocas de lançamento, abriam os shows – claro, por também abrirem seus respectivos álbuns. Como diriam os jovens, era “apelação”, já que não tinha como alguém não se animar com essa dobradinha. Mais legal ainda foi ver Carolina IV, com seus dez minutos, na íntegra, canção que dificilmente é apresentada ao vivo pelo Angra. A primeira parte do show terminou com a balada Time.


Após essas músicas, já era possível ter um parecer preliminar. Edu Ardanuy pode ser mais conhecido por seu trabalho no Dr. Sin, mas isso não quer dizer que ele não tenha uma pequena história com o power metal e especificamente com o Angra – ele tocou músicas da banda com Edu Falaschi na primeira turnê do Almah, em 2007. Exímio guitarrista que é, eu não esperava menos do que vi! Solos executados à risca, e seu timbre com aquela “alma hard” dão vida nova às músicas. Isso é compartilhado por seu parceiro das seis cordas, Guilherme Torres, que não só “segurou o rojão”, como mostrou-se um guitarrista à altura dos grandes. Saulo Xakol vem da mesma escola daquele som que tocam ali, então tudo que se esperava, se teve. Ele promete e entrega excelência, algo que vem inclusive de antes de sua entrada no Noturnall. A dupla Aquiles Priester e Fábio Laguna está cansada de tocar Angra! Foram anos com a banda, mas ouvi-los tocar Shaman também foi bem interessante. Uma pena, já ressalto aqui, ter tido tão poucas canções dessa que foi o auge da popularidade de Andre Matos, graças à Globo e à MTV, no começo dos anos 2000. Teria sido muito bacana ver mais temas dela com Aquiles tocando.

Quanto a Thiago Bianchi, bem, é uma homenagem a Andre Matos, então a voz ali é o principal fator, e também o que mais está sob escrutínio. Até hoje, tem aqueles que torcem o nariz para ele. Bobagem! Para quem o acompanha desde o Shaman, é possível ver como sua voz amadureceu, envelheceu bem, é afinada e a tessitura ajuda, já que é bem próxima da de Andre. Está em sua melhor forma, e vai bem do começo ao fim, em todas as músicas que cantou, sem exceção. Timbre à parte, que é algo subjetivo, tecnicamente não havia outra pessoa melhor para essa ocasião – além disso, poucas pessoas nesse meio têm tanta experiência cantando tantas músicas de tantas épocas da carreira de Andre. Em se tratando dessas canções, teria sido uma boa escolha para o Angra, se por acaso tivesse acontecido. Ele não tenta copiar ninguém, dá sua própria interpretação – como já fazia no Shaman e agora também para as músicas do Angra. Afinal, se eu quisesse ouvir algo igual ao disco, eu simplesmente entraria no Spotify e ouviria lá; em um show, quero ver interpretação. Para todos os efeitos, é hoje um dos nomes perfeitos para interpretar essas músicas. É também interessante ver sua evolução visual. Para quem, no começo de seus dias no power metal usava calça de couro normal, uma camiseta de banda qualquer, e depois passou para uma camisa vermelha (como visto em Anime Alive, de 2008), adotar esse estilo foi a melhor escolha que fez. É autêntico, o deixa com realmente o aspecto de “frontman” e combina com sua personalidade no palco, assim como as camisas de manga bufante combinavam com a personalidade de Andre.

Então, subiu ao palco, no lugar de Saulo, o baixista Daniel Matos, irmão de Andre, e hoje membro do Viper. Entrou e já foi ovacionado! Não entendi exatamente a razão de tocarem Wuthering Heights, que facilmente podia ter sido trocada por Innocence ou Baby Doll (Virgo), algo do tipo! De toda forma, foi muito bem executada.

Daniel foi para o microfone, cantou e tocou Living for the Night, o “primeiro sucesso da carreira de Andre”, como ele disse. Vale lembrar que o próprio Viper já havia feito show naquele mesmo dia, ou seja, ele teve jornada dupla. Mas, para ele era festa! Não apenas uma homenagem a seu irmão, mas a mãe dele e de Andre, dona Sônia, estava lá presente. Foi aplaudida e ovacionada por todos.

Essa sessão de Daniel tocando consistiu de baladas, algumas das melhores da carreira de Andre: Stand Away, Make Believe – essa realmente me surpreendeu a forma como Thiago a deixou simplesmente idêntica à original – e, finalmente, Fairy Tale, provavelmente a música mais famosa da carreira dele (lembrando que ela foi tema da novela “O Beijo do Vampiro”, de 2002/2003).

A banda toda, com exceção de Laguna, saiu do palco, e quem subiu foi o cantor Guy Antonelli, da banda Tierramystica. Ele cantou, em versão piano e voz, Letting Go, faixa de abertura do primeiro álbum solo de Andre Matos, Time to Be Free. Foi uma interpretação muito legal, mas que deveria ter sido feita com banda completa, especialmente por se tratar daquelas músicas rápidas que funcionam perfeitamente em show. Com a banda de volta e Cristiano Poschi, do Phornax, no palco, Lisbon é tocada. Outra boa interpretação, mas que deveria ter sido cantada por Thiago – se eu fosse escolher uma música para Cristiano cantar, teria sido Turn Away, do Shaman, que não esteve no set.
Thiago chamou Aquiles para fazer as honras de apresentar a banda, o que ele fez com muito bom humor, mas foi um tanto longa sua fala. A última antes do bis foi For Tomorrow. Vale ressaltar, essa música tem importância muito grande na carreira da banda, tanto pela letra quanto para pavimentar aquele rótulo muito legal de ‘mystic metal’ que a banda ganhou na época. Saíram do palco sob gritos de “All Metal Stars!”


Claro que voltaram, e após a introdução Crossing, veio Nothing To Say, clássico do Holy Land. Terminaram a apresentação, todos claramente emocionados, com Angels Cry. Boa escolha, apesar de ter mais cara de meio de show.

Dando um parecer, agora completo, a palavra que eu usaria seria “surpreendente”. Lembro-me de que, quando fiquei sabendo do projeto, tive a impressão que era algo que não fazia sentido, e muitas outras pessoas compartilharam dessa sensação. Alguns dias depois, refletindo melhor, pensei “por que não?” Vejam quantos covers “all star” de Dio temos por aí ou de Led Zeppelin ou do Queen. E está tudo bem! São músicos que gostam daquilo e tocam o que querem. Digo mais: duzentos e tantos anos depois, ainda há shows com a obra de Bach, Beethoven e Mozart. Por que com Andre Matos seria diferente? Para a nossa confraria, ele foi um ícone – ele é um ícone e merece ser homenageado quantas vezes for. Ainda mais dessa forma, com grandes músicos, produção excelente e extremamente profissional, uma performance tão boa vocal e instrumental, com a presença da família de Andre e com ótimo público – não lotado, mas muito bom! Uma pena tão poucas músicas do Shaman terem sido tocadas, ainda mais levando em conta que é a única banda de Andre que realmente não existe mais. De toda forma, ainda bem que a performance foi registrada, pois merece sair como audiovisual! O Brasil não ganhou o Oscar naquele dia, mas o metal brasileiro sem dúvida ganhou uma produção de respeito.
De todos nós, para você, onde quer que esteja: Andre Matos, nós te amamos e você merece tudo isso!

Setlist
Carry On
Here I Am
Carolina IV
Time
Wuthering Heights
Living for the Night
Stand Away
Make Believe
Fairy Tale
Letting Go
Lisbon
For Tomorrow
Bis
Nothing to Say
Angels Cry
Clique aqui e siga o CANAL “Roadie Crew” no WhatsApp
Clique aqui e faça parte do GRUPO da ROADIE CREW no WhatsApp





