
Não foram muitas as passagens do Testament pelo Rio de Janeiro – antes, em 1989, 2007, 2015 e 2017 –, mas a julgar pelo que fizeram Chuck Billy (vocal), Eric Peterson e Alex Skolnick (guitarras e backing vocals), Steve Di Giorgio (baixo) e Chris Dovas (bateria) na noite de sábado no Circo Voador, palco de quatro das cinco apresentações da banda em solo carioca, só nos resta dizer: sejam sempre bem-vindos. E não demorem para voltar!
Sim, porque o quinteto estadunidense passou o rolo compressor numa lona abarrotada por fãs que, do início ao fim, responderam com entusiasmo a um repertório de tirar o chapéu. Ok, não rolou “Disciples of the Watch” nem uma música sequer do excelente Titans of Creation (2020), álbum mais recente da banda até o próximo dia 10 de outubro, quando Para Bellum chegará às lojas físicas e on-line, além de plataformas de streaming.

Porém, veja bem: a trinca de abertura, extraída de Practice What You Preach (1989), fez com que “(You Gotta) Fight for Your Right (To Party!)”, clássico do Beastie Boys escolhido para avisar que o show ia começar, virasse canção de ninar. “Practice What You Preach”, “Sins of Omission” e “Perilous Nation” foram mais do que um presságio de que a noite seria especial. Foram a confirmação, especialmente “Sins of Omission”, agradabilíssima surpresa que levou o público ao delírio.
“The Pale King” foi a primeira confirmação da força e relevância do que o Testament tem feito desde 2005, quando reuniu a formação clássica numa trajetória que hoje, 20 anos depois, felizmente manteve Skolnick na formação. Afinal, Brotherhood of the Snake (2016) é um dos ótimos trabalhos lançados desde então. E quando Peterson anunciou uma música composta “há quase 40 anos”, dividindo memórias ao microfone com Skolnick, entendemos por que uma hora e 40 minutos de show não fazem jus à discografia do grupo.

“The Haunting” foi mais uma bela surpresa para todo e qualquer fã do Testament, que ainda pinçou mais duas joias de seu álbum de estreia, The Legacy (1987), sendo uma nova surpresa, “First Strike is Deadly”, e um clássico, “Over the Wall”. E por falar em clássico, registre-se que as mencionadas força e relevância mais recentes não são exagero, “Rise Up” comprovou seu lugar no rol de clássicos da banda, porque é possível, sim, ser contemporâneo e escrever o nome na história.
Foi lindo ver a ponte ‘When I say rise up, you say war!’ levar à catarse no refrão, com ‘Rise up, war!’ sendo entoado em uníssono. Outro grande momento da noite também saiu de Dark Roots of Earth (2012): “Native Blood”, que veio com a mensagem de Billy de apoio aos povos nativos dos Estados Unidos e a todos os “indígenas ao redor do mundo”. De origem indígena, o vocalista, que arriscou uma dança típica durante a canção, ainda estendeu a mensagem ao público para que “a sua voz seja ouvida” – e para quem ainda não entendeu a ideia, o público-alvo são as minorias, os marginalizados e oprimidos.

Entre uma e outra, duas das melhores criações do Testament: a massacrante “D.N.R. (Do Not Resuscitate)”, do maravilhoso The Gathering (1999), e “Low”, do muitas vezes subestimado Low (1994), foram feitas para machucar o pescoço e deixar a voz rouca. E tudo bem que houve uma frustrada expectativa por “Legions of the Dead” – obra-prima do metal extremo presente em The Gathering e tocada no Rio somente em 2007, no Canecão –, porque de Low veio a bonita semibalada “Trail of Tears”, dedicada ao ex-Matodon Brent Hinds – uma das mentes mais criativas da safra mais recente do heavy metal, o guitarrista e vocalista morreu num acidente de moto no dia 20 de agosto.
Em seguida, a era da formação clássica do Testament ganhou um bloco para fazer o fã mais emotivo suar pelos olhos, mas não antes de Skolnick vender o peixe ao anunciar que Para Bellum está a caminho, e que o primeiro single e videoclipe, “Infanticide A.I.”, já está disponível – e como todos esperamos o retorno do Testament na iminente nova turnê, você pode assistir ao clipe logo abaixo.
Feito o reclame, por um momento foi possível imaginar Skolnick puxando “Signs of Chaos”, mas isso seria o mais que perfeito, porque “Electric Crown”, de The Ritual (1992), sozinha já é um arregaço. E o guitarrista ainda colocou o público para cantar parte de seu magistral solo, o que Di Giorgio só não fez com a antológica introdução de “Souls of Black”, porque estavam todos de boca aberta com o pequeno solo que precedeu a faixa que dá nome a Souls of Black (1990).

Aliás, é impossível não falar da excelência técnica dos integrantes do Testament, uma vez que estamos diante do ‘Dream Theater do thrash metal’, título mantido mesmo com a saída de Gene Hoglan, uma vez que Dovas se sai muito bem sentando no mesmo trono outrora ocupado também por Dave Lombardo, Paul Bostaph, John Tempesta, Nick Barker e Jon Dette, todos nomes de muito, mas muito peso na bateria. E a dupla que carrega a banda nas costas desde 1986 é referência: Billy é um dos melhores e o mais versátil vocalista do estilo, enquanto Peterson, sempre um mestre dos riffs, hoje é também um ótimo solista.
E é esse nível acima da média que permite ao Testament criar algo como “Return to Serenity”. A balada de The Ritual é simplesmente uma das músicas mais bonitas da história da humanidade, também com sua letra de uma sensibilidade tocante e um solo de guitarra prova inconteste da capacidade do homem de criar algo para a eternidade. Sim, porque o que Skolnick faz em “Return to Serenity” deveria ser encapsulado para as futuras gerações entenderem o que Friedrich Nietzsche quis dizer quando sacramentou que “sem a música, a vida seria um erro”.

E numa noite cheia de grandes surpresas, a banda resolveu puxar “The Ballad”, mais uma de Practice What You Preach. “Vamos tocar essa próxima a pedido do Eric”, disse Billy, revelando o receio de ele próprio errar ao cantá-la. “Mas não estou nem aí se eu estragá-la. É uma grande música, e eu a adoro.” “The Ballad” não estava no setlist da turnê e acabou sendo apresentada pela primeira vez no Rio, e o resultado? Banda e plateia em comunhão.
Depois de um desnecessário solo de bateria – porque solos de bateria são desnecessários, a não ser que fossem os de Neil Peart e sejam os de Tommy Aldridge –, a grandiosa despedida veio com mais um clássico recente da banda, “More Than Meets the Eye”, de The Formation of Damnation (2008), e seu corinho impossível de resistir, e um clássico tirado de The New Order (1988), “Into the Pit”, que amplificou as rodas de pogo que começaram a ser abertas desde “Practice What You Preach”. Uma noite de sorriso no rosto de cada presente ao Circo Voador, incluindo Billy, Peterson, Skolnick, Di Giorgio e Dovas, e o sentimento de que este foi a melhor das cinco apresentações do Testament no Rio de Janeiro. Alguém aí falou em força e relevância?

Setlist
1. Practice What You Preach
2. Sins of Omission
3. Perilous Nation
4. The Pale King
5. The Haunting
6. Rise Up
7. D.N.R. (Do Not Resuscitate)
8. Low
9. Native Blood
10. Trail of Tears
11. Electric Crown
12. Souls of Black
13. Return to Serenity
14. The Ballad
15. Solo Chris Dovas
16. First Strike is Deadly
17. Over the Wall
18. More Than Meets the Eye
19. Into the Pit
