Na primeira pausa, Murillo comentou: “Não está escrito aqui” — referindo-se à ausência de um backdrop ou de qualquer elemento visual com o nome da banda, esquecendo-se do logo no bumbo da bateria de Herbert —, “mas nós somos o Genocídio. Estamos aqui desde 1986. Esperamos que vocês estejam curtindo e vão curtir com a gente os próximos minutos”. Em seguida, do presente para o passado o quarteto conduziu a plateia — ainda tímida, que chegou a ensaiar um coro com o nome da banda — a uma viagem de 35 anos, revisitando o álbum de estreia, Depression, com a curta e cavernosa Synthetic Screams, de pegada grindcore. Uma nova reação do público foi imediata: “Genocídio / Genocídio…” ecoava agora em alto e bom som, fazendo jus à história e ao legado da banda. A sequência trouxe a indispensável Pilgrim, música que abre Posthumous (1996), disco em que o Genocídio explorou novos caminhos, mesclando suas raízes no death metal com elementos do gothic e do doom metal.
Uma das músicas mais impactantes do set foi The Sole Kingdom of My Own, do novo álbum. Era de arrepiar ouvir o instrumental inicial em notas dramáticas, enquanto Murillo, como num canto gregoriano maquiavélico, deixava o gutural de lado para brilhar com um barítono gótico que lembrava cantores como Andrew Eldritch (The Sisters of Mercy), Aaron Stainthorpe (My Dying Bride), Tilo Wolff (Lacrimosa) e Peter Steele (Type O Negative). Fica aqui um pedido: que o Genocídio mantenha sempre essa música no repertório! De volta à porradaria, as duas seguintes foram verdadeiros cruzados no queixo: Kill Brazil, de In Love with Hatred (2013), e Rebellion, do álbum de mesmo nome, lançado em 2002.
Rumo à parte final do show, outro ponto alto foi quando o Genocídio apresentou sua ousada versão de aura gótica para a belíssima Never Tear Us Apart, clássico dos anos 1980 dos australianos do INXS, recebida com entusiasmo pelos headbangers presentes. Contrastando com esse breve momento romântico (por que não?), a porradaria sonora voltou a rolar solta com as duas músicais finais. A primeira delas, Uproar, me remeteu de imediato a uma memorável época do metal nacional, quando conheci o Genocídio através do clipe dessa faixa presente no segundo álbum da banda, Hoctaedrom (1993) — marcado na história por ter sido antecipado por um EP lançado em 1991, o primeiro trabalho de uma banda brasileira a ganhar versão em picture disc (fruto da parceria entre a Hellion do Brasil e a Hellion da Alemanha). The Clan, faixa-titulo do sexto álbum de estúdio do Genocídio, lançado em 2010, encerrou a apresentação. Em apenas meia hora, o grupo mostrou vitalidade para seguir dedicando ainda bons anos de metal pesado aos fãs – e, quem sabe, também com novos lançamentos.
Em conversa exclusiva com a Roadie Crew, Murillo Leite comemorou à recepção do público: “Foi uma noite muito especial para o Genocídio. O Carioca Club estava abarrotado e o público respondeu ao nosso set com muito entusiasmo. Estávamos há quase três anos sem tocar em São Paulo e esse hiato acabou criando uma sinergia incrível”.
Ele também comentou a resposta para o cover do INXS e compartilhou o gesto simpático que a banda recebeu do vocalista Chuck Billy: “O cover do INXS surpreendeu a muitos presentes e vimos diversos vídeos das pessoas curtindo essa “novidade”. Mas, para nós, a maior novidade e um motivo de enorme orgulho foi ter o camarim visitado pelo Chuck Billy, que veio nos parabenizar pela performance. Certamente, isso jamais sairá das nossas mentes. Histórico!”.

Foi nesse clima de memória e expectativa que Chuck Billy, Eric Peterson e Alex Skolnick — o trio remanescente da formação de Practice… —, mais Steve DiGiorgio e Chris Dovas surgiram no palco, visivelmente contagiados pela recepção calorosa dos fãs. Esbanjando simpatia e agitando bastante, abriram a apresentação justamente com Practice What You Preach e, logo em seguida, emendaram a vibrante Sins of Omission — minha favorita de toda a discografia, executada por DiGiorgio com palheta (algo que não é muito comum nele). A resposta veio imediata: o público uniu-se em coro, entoando “Tes-ta-ment / Tes-ta-ment” em alto e bom som. No embalo, Dovas entrou no jogo marcando no bumbo, enquanto Skolnick se divertia na tentativa de acompanhar com o riff de Shout at the Devil, do Mötley Crüe.
Já Billy aproveitou para comentar que a noite anterior no Rio de Janeiro havia sido uma loucura. Pronto, tirou o pino da granada que acendeu o bairrismo, culminando nas primeiras vaias ao público carioca (claro, era brincadeira dos paulistas – pero no mucho). Percebendo a provocação, Billy riu e convocou todos a detonarem na próxima música: Perilous Nation. Antes, ele fez sinal para DiGiorgio assumir a dianteira. O “viking hippie”, com sua calça boca de sino e empunhando um belo baixo fretless (sem trastes ou marcações), avançou até a beira do palco, bateu nas cordas inflamando ainda mais o público e, sob os olhares de Peterson, deu início ao ótimo riff criado originalmente por Greg Christian, baixista da formação clássica.
Depois de detonar a trinca inicial, parecia que — assim como nos outros shows pelo Brasil, Chile e Argentina — estava concluída a homenagem ao álbum Practice What You Preach. Mas Billy tratou de surpreender a todos ao dizer: “Como vocês estão? Certo, esse foi um trechinho do disco Practice What You Preach. Então essa noite pensamos em algo extra especial para vocês, ok? Tudo bem, vamos tentar essa agora”. Em seguida, anunciou The Ballad, pegando o público de surpresa. Petersou iniciou o dedilhado da música, uma das famosas baladas thrashers que se tornaram marca registrada do Testament. Logo depois, Skolnick se juntou a ele, também dedilhando, até emendar no belo solo ‘clean’ que antecede a entrada dos demais instrumentos — com destaque para a cativante linha de baixo criada por Greg Christian e revivida com maestria por DiGiorgio —, e a bela melodia vocal de Chuck Billy que, na minha visão, sempre foi e ainda é o melhor vocalista de thrash metal de todos os tempos. É assombroso o que ele, no alto de seus 63 anos, continua cantando! Ah, Billy também é o melhor ‘air guitarist’ das redondezas — pena que ele não esteja usando mais seu microfone de meio pedestal, com o qual se divertia nos shows emulando com precisão imaginária os riffs e solos de Alex e Eric.

Aliás, o Testament em si é um supergrupo, no qual cada um dos cinco integrantes tem brilho próprio e é até difícil decidir para qual olhar durante o show. O ideal é assistir de um ponto mais central, de onde se possa ter uma visão panorâmica e uma imersão na performance completa, já que em qualquer lateral há sempre a sensação de estar perdendo algo. Antes de dar sequência, Chuck Billy alertou o técnico de iluminação, dizendo que as luzes brancas atrapalhavam lá de cima do palco. Após pedir para desligá-las, ele anunciou: “Vamos tocar outra musica, uma do Brotherhood of the Snake agora. Chama-se The Pale King. Mesmo durante a execução, o grandalhão voltou a pedir que as luzes claras fossem desligadas.
No encerramento de The Pale King, um momento curioso: Alex Skolnick soltou sua guitarra no ar e a segurou rapidamente, exibindo sua ESP LTD AS-1FR Lime Burst, modelo signature. E já que o assunto agora é Skolnick, 2025 marca 20 anos desde seu retorno ao Testament, após 13 anos afastado — período em que teve uma breve passagem pelo Savatage e se aventurou no jazz. Mais recentemente, ele até se arriscou como rapper sob o alter ego Skoly-D, disparando versos ácidos contra Donald Trump, a mídia conservadora e a desinformação política nos EUA. Na guitarra, é de brilhar os olhos e ouvidos o que esse cara de eterna alvi mexa continua tocando, extraindo timbres muito bonitos de suas guitarras. Além disso, hoje sua presença de palco está muito mais vibrante e desinibida do que nos primeiros anos da banda.


Cada palavra reverberou pelo Carioca Club, criando um clima de união e emoção. Foi de arrepiar, tanto quanto quando Billy anunciou a próxima: “Vamos tocar outra dedicatória aqui. Vamos dedicar esta ao Brent (Hinds), (ex-guitarrista) do Mastodon — que faleceu no último dia 20 de agosto em um acidente de moto. Perdemos um verdadeiro herói, um gênio da guitarra.”
Em seguida, pediu que todos uivassem ao seu comando, e a cada solicitação durante a música. Assim aconteceu em Trail of Tears, faixa do álbum Low, de 1994.

Depois desse momento de emoção, Chuck apresentou Alex Skolnick, que tomou a palavra: “São Paulo, obrigado! (em bom português!) Eu não poderia estar mais feliz. Ontem à noite estivemos no Rio. Foi um dos melhores shows da turnê” — e tome vaia! Rindo, Alex brincou: “Acho que devemos desculpas, mas agora é sua vez. Mas, queremos dizer que não poderíamos estar mais felizes em terminar a turnê aqui em São Paulo. E isso é inteiramente possível graças ao Brasil. Obrigado aos nossos promoters brasileiros, Marcos e Simone (da Liberation). A turnê aconteceu não só no Brasil, (mas) temos muitos amigos no Brasil — músicos e outros amigos. Em nossa próxima turnê, teremos como apoio a Nervosa, aqui mesmo de São Paulo. A primeira vez que tocamos no Brasil foi com uma pequena banda chamada Sepultura (na verdade, como dito anteriormente, foi com MX e Overdose, não com o Sepultura), e eu desejei um feliz aniversário ao Andreas (Kisser) esta noite” — 0 guitarrista estava completando 57 anos. Depois disso, Skolnick mencionou a presença de Fernanda Lira, da Crypta, e anunciou um dos grandes hits do Testament dos anos 90: Electric Crown, música presente no último álbum que ele havia gravado antes de deixar a banda: The Ritual, de 1992. Nessa, que é uma das músicas mais contagiantes do Testament, foi incrível ver o público fazendo coro junto com o solo brilhante de Alex.

Como todos os integrantes estavam animados para interagir com os fãs, Chuck Billy deu a vez a Steve DiGiorgio. Com o mesmo carisma de seus parceiros, ele se dirigiu ao público em português: “E aí, São Paulo? Tudo bem, meu rei, filho da puta?” — provocando uma gargalhada geral. “Vamos… Do caralho!”.
Então, ele caminhou até a beira do palco e, sendo filmado por Peterson com o celular, iniciou a “brincadeira”. Com acompanhamento de Chris Dovas, executou as linhas iniciais de Kelly Conlon para a música Symbolic, do Death, banda da qual fez parte — embora não no álbum Symbolic. A ovação do público permaneceu até que DiGiorgio desse início a Souls of Black, do álbum de mesmo nome, cuja introdução também foi criada por Greg Christian, um dos baixistas mais subestimados do thrash metal.

Em seguida, a banda tocou uma das baladas mais bonitas do heavy metal: a emocionante Return to Serenity. Assim como Electric Crown, do mesmo álbum The Ritual, essa pérola conta com um dos solos mais bonitos do gênero, além de um lindo acompanhamento melódico na guitarra — uma verdadeira obra de arte guitarrística assinada por Mr. Alex Skolnick.
Restava Chris Dovas ter seu momento particular no show. Após ser anunciado por Chuck, ele iniciou um solo de batera que, instantes depois, recebeu a colaboração de DiGiorgio, que surgiu atrás do praticável segurando uma baqueta e batendo-a em alguns pratos enquanto Dovas dominava o restante do kit. Substituir dois gigantes como Gene Hoglan e Dave Lombardo, bateristas que o antecederam, seria uma tarefa hercúlea, porém Dovas vem tirando de letra. Antes desconhecido do grande público, o jovem baterista de apenas 27 anos tem mostrado que o Testament não errou ao abrir mão de deixar a vaga aos cuidados de algum veterano tarimbado do instrumento. Nesta recente turnê pelo Brasil, ele aumentou a ansiedade dos fãs quanto a sua performance de estreia em Para Bellus, álbum que já está gravado, só esperando pelo dia do lançamento.
Já caminhando para o fim da apresentação, veio outro hino do Testament e do thrash metal que quase fez a casa tremer: Over the Wall, de The Legacy. Em seguida, foi a vez de um clássico já dos anos 2000: More than Meets the Eye, de The Formation of Damnation (2008), disco que marcou o retorno da banda com músicas inéditas após quase dez anos desde o lançamento de The Gathering. Ao final dessa, Chuck Billy comoveu o público com suas falas de agradecimento: “Aqui vamos nós, São Paulo! Nos divertimos esta noite. Muito obrigado, esse é o jeito mais bonito de se encerrar uma turnê, aqui em São Paulo, Brasil.” Sob aplausos, ele prosseguiu: “Esperamos voltar o mais rápido possível para o Brasil. Temos um novo álbum vindo por aí chamado Para Bellum, chegando em 10 de outubro. Estejam certos de conferi-lo, pessoal, certo?”.
Mas ainda não era hora de se despedir do Brasil: havia mais uma carta na manga. Para encerrar a noite, Billy anunciou outra das queridinhas dos fãs: Into the Pit. No refrão final dessa que foi a única representante do segundo álbum The New Order (1988) — considerado por muitos como o ápice da discografia da banda — Fernanda Lira, da Crypta, invadiu o palco e se juntou aos backing vocals, arrancando aplausos.
Em seguida, Chuck Billy apresentou novamente seus companheiros, agradeceu ao público e, em tom de brincadeira, pediu aos paulistas que gritassem “Fuck you, Rio!”. E foi prontamente atendido! A provocação não passou de uma farra, uma gozação descontraída para encerrar a festa. Depois da tracidional foto, da distribuição de palhetas, baquetas e setlists, e de alguns instantes a mais confraternizando com os fãs, o quinteto deixou o palco, encerrando quase duas horas de um show que ficará na memória.
Saldo final: o Testament entregou, na minha ótica, o melhor show que já fez em São Paulo — e também com o melhor repertório. E vale destacar: mesmo deixando de fora músicas que costumam ser consideradas indispensáveis, como Disciples of the Watch e Trial By Fire, a apresentação foi altamente impactante. Se a banda se atrevesse a dar uma de Guns N’ Roses e estendesse o set para três horas, não haveria dúvida de que o público encararia o calor sem hesitar para celebrar outras joias do thrash metal, como Hail Mary, True American Hate, Burnt Offerings, The Preacher, 3 Days in Darkness e outras mais. O Testament encerrou a turnê reafirmando por que segue sendo um dos nomes mais respeitados do gênero: intensidade, entrega, musicalidade de alto nível e uma conexão honesta e direta com os fãs.
Genocídio – setlist:
Fort Conviction
Aside
Synthetic Screams
Pilgrim
The Sole Kingdom of My Own
Kill Brazil
Rebellion
Never Tear Us Apart (cover do INXS)
Uproar
The Clan
Testament – setlist:
Practice What You Preach
Sins of Omission
Perilous Nation
The Ballad
The Pale King
The Haunting
Rise Up
D.N.R. (Do Not Resuscitate)
Low
Native Blood
Trail of Tears
Electric Crown
Souls of Black
Return to Serenity
– Solo de bateria
First Strike is Deadly
Dog Faced Gods
Over the Wall
More than Meets the Eye
Into the Pit
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