GOLPE DE ESTADO – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Roberto Sant’Anna  

O fim de uma grande banda, a permanência de uma história

O dia 21 de dezembro de 2025 ficou marcado na história do rock brasileiro. Foi um misto de tristeza e gratidão. Foi o último golpe. Um golpe direto no queixo. A despedida do Golpe de Estado, uma das bandas mais relevantes, queridas e longevas do cenário nacional. Formado em São Paulo no final de 1985, o Golpe de Estado construiu uma trajetória pautada por letras em português, forte identidade urbana e um som que dialoga com o hard rock clássico e o heavy metal. Ao longo de quatro décadas, a banda consolidou um repertório sólido e respeitado, alicerçado principalmene pelo legado da formação original — Catalau (vocal), Helcio Aguirra (guitarra), Nelson Brito (baixo) e Paulo Zinner (bateria). Discos como Nem Polícia Nem Bandido, Quarto Golpe e Zumbi ajudaram a firmar o nome do grupo no cenário brasileiro, enquanto a postura independente e a ligação direta com o público garantiram ao Golpe de Estado um lugar permanente na história do rock do país.

A trajetória do Golpe de Estado, no entanto, não foi tão linear. Ainda nos anos 1990, a banda sofreu seu primeiro grande abalo com a saída de Catalau, voz emblemática dos primeiros discos e figura central da identidade do grupo. A partir daí, o Golpe passou a viver uma fase de constantes reformulações.

Pouco tempo depois, outra mudança significativa marcou o grupo com a saída do baterista Paulo Zinner. Mesmo assim, o Golpe de Estado seguiu adiante, lançando novos trabalhos e incorporando músicos que ajudaram a manter viva a proposta da banda, ainda que em diferentes fases estéticas e criativas. Ao longo dos anos, passaram pelo grupo diversos outros músicos, cada um deixando sua contribuição em estúdio e nos palcos, num processo de reinvenção constante.

A história ganhou contornos ainda mais duros com a morte do guitarrista Helcio Aguirra — considerado o “Tony Iommi brasileiro” —, responsável por riffs e solos que ajudaram a definir o DNA do Golpe desde o início. Anos depois, a perda de Nelson Brito, baixista, compositor e um dos pilares criativos da banda, representou um golpe profundo, não apenas musicalmente, mas também afetivamente. Ainda assim, em respeito ao legado construído e à ligação com o público, o Golpe de Estado decidiu continuar, agora sem nenhum integrante original em sua formação.

Essa fase final da banda foi marcada por um forte senso de responsabilidade histórica. Os músicos que assumiram o posto tinham plena consciência de que carregavam um nome pesado e uma trajetória que ultrapassava gerações. O Golpe seguiu se apresentando, celebrando seu repertório clássico e reafirmando sua relevância até chegar a esse último show, que simbolizou não apenas o fim de uma banda, mas o encerramento digno de uma história construída com resistência, paixão e compromisso com o rock brasileiro.

Vamos ao show…

O horário marcado para a última apresentação do Golpe gerou certa confusão. Muitos chegaram antes das 18h, acreditando que esse seria o horário do show. Informados na portaria de que a apresentação começaria, na verdade, às 20h, muita gente se dirigiu aos bares ao lado do Carioca Club para acompanhar pelas TVs a final da Copa do Brasil entre Vasco e Corinthians. Corintianos faziam barulho a cada lance contundente da partida; outros, como este repórter, secavam o rival paulista em silêncio. No fim das contas, secar não adiantou — e você já sabe no que deu. Encerrado o jogo, retornamos ao Carioca Club. O público marcou presença em grande número e, pontualmente no horário correto, o telão passou a exibir entrevistas da banda, do fã clube — um dos mais atuantes do país, diga-se de passagem — e de outros participantes. O vídeo se encerrou com um “muito obrigado a todos” projetado na tela, frase que arrancou aplausos emocionados dos fãs, ao som de Quantas Vão. E foi justamente com essa música, que abre o álbum Zumbi (1994), que, ovacionados, João Luiz (vocal), Marcello Schevano (guitarra), Fabio Cezzar (baixo) e Roby Pontes (bateria) deram início ao show. Ao final de Quantas Vão, o vocalista — que curiosamente mais parece irmão gêmeo do também frontman Vitor Rodrigues (Native Blood, ex-Torture Squad e Voodoopriest) — gritou “Golpe de Estado na veia!”, inflamando ainda mais a empolgação do público. Em seguida, completou: “Sejam todos bem-vindos ao último Golpe. Obrigado de coração ao longo desses 40 anos de bom e velho rock and roll”. Como Catalau costumava bradar em seus tempos de Golpe, João Luiz emendou um “Porrada na cabeça!”, dando a deixa para a banda iniciar a acelerada Não Faz Mal. Durante a execução da música, presente no álbum Quarto Golpe (1991), imagens da formação clássica do Golpe foram exibidas no telão, emocionando os fãs de Catalau, Paulo Zinner e dos saudosos Helcio Aguirra e Nelson Brito. Na sequência, João convidou ao palco o primeiro convidado da noite, o experiente tecladista Mateus Schanoski, que fez bonito ao executar os arranjos de Não É Hora. A música, um dos hinos do Golpe de Estado e presente no terceiro álbum da banda, o ótimo Nem Polícia Nem Bandido (1989), foi recebida com histeria pelo púbico e encerrada com um breve solo de Schanoski, rendendo calorosos aplausos ao músico. Assim que Mateus deixou o palco, João, Fabio, Marcello e Roby revisitaram o homônimo primeiro álbum do Golpe, tocando Para Conferir, composição de Catalau e Nelson Brito que brinca com techos de letras de músicas de Raul Seixas, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Barão Vermelho e Caetano Veloso.

Novamente, João agradeceu ao público pelo carinho ao longo da carreira do Golpe de Estado e pela presença mesmo com jogo do Corinthians no mesmo dia. Comentou, inclusive, que o clube havia sido campeão — ele não precisava ter me lembrado disso — e falou da autoria da próxima música: “A próxima canção tem letra de nosso irmão Nelson Brito, e eu tenho certeza que ele e o Helcio estão muito felizes com esse momento mais do que mágico, com a presença de vocês, de todos nós aqui, encerrando essa banda tão maravilhosa que eu posso dizer, como fã, não só como vocal, o Golpe de Estado, com certeza, foi e sempre será a maior banda de hard rock do Brasil”. A resposta eufórica do público foi imediata. João prosseguiu contextualizando a canção: “E o Nelsão, com todas as suas histórias, com todos os seus ensinamentos, disse que essa música, (que) na verdade se chama Janis, era a cama dele. Ele chegava muito louco, começava a escrever, e ela era a maior companheira dele na época.” João se referia a Janis, cuja letra considero uma das mais legais do repertório do Golpe. Com muita qualidade técnica, Fabio Cezzar, baixista conhecido e respeitado também por seus trabalhos com as bandas King Bird e Casa das Máquinas, honrou a memória de Nelson em sua curta passagem pelo Golpe. E não é tarefa das mais fáceis reproduzir os arranjos de baixo compostos pelo velho Nelsão, um dos grandes baixistas da história do rock and roll brasileiro. E por falar em baixistas, para a próxima do set João convocou ao palco Daniel Kid, figura conhecida no cenário paulistano por seus trabalhos com diversas bandas, entre elas o próprio Golpe de Estado, no qual atuou como roadie e chegou a substituir Nelson por alguns meses, quando o músico ficou doente. Além de Kid, João anunciou também Kiko Müller e, em seguida, deixou o palco para o terceiro vocalista do Golpe, que entrou na banda no lugar de Rogério Fernandes e gravou o álbum Pra Poder (2004). Com Kid e Kiko — que ao deixar o Golpe ao lado de Paulo Zinner formou a banda Sangue — veio a faixa-título de Pra Poder.

Ovacionado, Kiko respondeu dizendo: “Vocês são testemunhas que eu amo vocês!”. Com Fabio de volta ao palco no lugar de Kid, Kiko permaneceu para Libertação Feminina, música do primeiro álbum do Golpe de Estado, na qual, em alguns momentos, ele direcionou o microfone para a plateia, que cantou a plenos pulmões. Em seguida, Kiko Müller fez um duo afiado com João Luiz na clássica Forçando a Barra, faixa do homônimo segundo álbum do Golpe, lançado em 1988. Assim que Kiko Müller deixou o palco, João trouxe Daniel Kid de volta e anunciou Tadeu Dias, guitarrista que, por um período posterior à morte de Helcio Aguirra, assumiu as seis cordas do Golpe de Estado. Além deles, um convidado de peso na história da banda foi chamado ao palco: o lendário trombonista Bocato, que colaborou com o grupo desde o primeiro álbum. Enquanto os convidados se preparavam para tocar, João passou a palavra para Roby Pontes que, emocionado, declarou: “Quero agradecer a presença de todos aqui. O que estamos fazendo é uma alegria e uma tristeza, mas acho que a gente está com a sensação de missão cumprida com o Golpe de Estado. Agradeço a todos vocês”. E alertou: “Ainda tem mais show de rock and roll, heim!”. De fato, tinha muito mais por vir. Após a fala do baterista, Tadeu puxou o riff de Olhos Vendados, do álbum Zumbi, e, antes de começar a cantar, João avisou à plateia: “Fiquem à vontade pra dançar, galera!”.

Ao final de Olhos Vendados, Tadeu e Kid deixaram o palco, dando lugar à dupla de sax e trompete Neurozen, que se uniu a Bocato formando um naipe de metais de responsa em Tudo Que Vem Fácil Caosmópolis, ambas do último álbum de estúdio do Golpe, Caosmópolis (2022). O disco é o único trabalho de estúdio da banda com João Luiz e Marcello Schevano, além de ser o primeiro — e único — sem Hélcio Aguirra.

Antes da dobradinha, porém, João foi até a beira do palco para cumprimentar alguns fãs, comentou sobre eles no microfone, voltou a agradecer o público e resumiu o sentimento da noite: “Como o Roby falou, a gente tem um sentimento de tristeza, mas, ao mesmo tempo, também uma honra dentro da gente de poder ter feito parte de uma banda tão icônica que é o Golpe de Estado. E, cara, a gente está muito feliz, essa é a grande verdade”.

Por falar em Roby Pontes, após a morte de Nelson Brito ele passou a ser o integrante da última formação há mais tempo no Golpe de Estado, com 15 anos de casa. Sua missão de substituir o respeitado Paulo Zinner — músico que por pouco não foi parar no Whitesnake em uma de suas andanças pela Inglaterra — também não foi das mais simples. Ainda assim, mostrou-se o baterista ideal para assumir o posto.

Talentoso, versátil e dono de uma identidade própria, Pontes apresenta características que remetem ao ex-baterista, sobretudo no que diz respeito à liberdade e à criatividade na construção e improvisação dos arranjos.

No intervalos entre as duas citadas músicas de Caosmopolis, o vocalista falou sobre o novo CD ao vivo que estava sendo vendido no local, Último Golpe – Ao Vivo, gravado em 2023, em Santo André. Com tiragem limitada a apenas 500 cópias, o disco traz a última performance ao vivo de Nelson Brito com a banda que fundou, além de participações dos vocalistas Catalau, Rogério Fernandes e Kiko Müller. Ao comentar sobre o lançamento, João brincou: “É pra nessas férias, nesse Natal, nesse réveillon, colocar bem alto pra incomodar aquele teu vizinho mala que curte funk: ‘Olha, chupa funk, escute aqui o bom e velho rock and roll do Golpe!’”. Desnecessário dizer que a fala deixou parte do público em polvorosa.

Quando João se deu conta, outro convidado, Rodrigo Hid, já estava no palco. Enquanto o ex-guitarrista da Patrulha do Espaço afinava sua guitarra, preparando-se para Moondog, João pediu ao técnico de som que ajustasse o volume do microfone de Schevano, que tomou a palavra para agradecer ao público: “Galera, muito obrigado, é um sonho para nós estarmos encerrando essa história dessa forma. Vocês são parte disso, muito obrigado!”. Vale aqui destacar a trajetória de Schevano no Golpe de Estado. Músico com histórico marcado também em bandas como Carro Bomba, Ca$ch, Som Nosso de Cada Dia, Casa das Máquinas e — assim como Hid — no Patrulha do Espaço, além de proprietário do estúdio Orra Meu!, ele encarou nos últimos anos a missão de dar continuidade ao legado deixado pelo incomparável Helcio Aguirra. Uma tarefa pesada, que Schevano cumpriu com competência e respeito à história da banda. Enquanto a banda e seus convidados executavam Moondog — apresentada ao vivo pela primeira vez com nove músicos no palco! — foi impossível não se emocionar quando a imagem de Helcio Aguirra surgiu no telão, empunhando sua guitarra.

Uma das músicas mais aguardadas, Zumbi — que em estúdio contou com a participação da saudosa “Rainha do Rock” Rita Lee, lembrada por João Luiz — veio na sequência, com Mateus Schanoski acompanhando João, Marcello, Fabio e Roby. Depois, o vocalista chamou ao palco um grande incentivador do rock nacional: Celso Cardoso, cantor e jornalista mais conhecido do grande público por sua atuação no meio esportivo, com passagens marcantes e de longo período pelos programas Gazeta Esportiva Mesa Redonda, da TV Gazeta. Dono de dois álbuns solos, Deixa Acontecer (2009) e O Outro Lado (2015), Celso contou em seu disco de estreia com a participação do próprio Bocato.

Fã de carteirinha do Golpe de Estado — e vestindo a camiseta do álbum Caosmópolis —, Celso assumiu o microfone e perguntou ao público se havia alguém apaixonado. Diante de algumas respostas afirmativas, brincou: “Sinto muito, mas vocês estão fodidos!”. Foi a deixa para um dos grandes hits radiofônicos do Golpe, Paixão, do álbum Quarto Golpe. Celso mandou muito bem, tanto no vocal quanto na performance. Cheguei a notar a “colinha” da letra em sua mão esquerda, mas, na prática, ele tirou de letra e sequer precisou recorrer a ela.

Após fazer gestos de referência a Marcello, João Luiz, Fabio e Roby, Celso deixou o palco e passou o microfone para Rogério Fernandes, vocalista que atualmente integra o Carro Bomba — ao lado de Schevano — e que, em sua passagem pelo Golpe, assumiu o posto deixado por Catalau. Depois de abraçar João, que novamente se retirou do palco, Rogério cumprimentou o publico e desabafou: “Dia difícil, estou morrendo de vontade de chorar, meu; vou chorar um pouco e vocês cantam, o que vocês acham?”. Em seguida, completou: “É uma honra estar aqui, um dia triste, mas um dia que faz parte da batalha de ser músico aqui no Brasil”.

Vestindo a camisa da banda Malvada, Rogério aproveitou o momento para deixar um recado contundente antes de cantar: “Vou deixar um registro claro aqui: chega de violência contra a mulher no Brasil”. Ovacionado pelo público, ele prosseguiu: “Por isso eu canto com a camisa da banda Malvada, uma banda formada só por mulheres. Pra um país machista do caralho, imagine o que é montar uma banda só de mulheres. Então, viva o rock honesto!”.

Com Tadeu Dias assumindo a segunda guitarra, a trupe mandou Todo Mundo Tem Um Lado Bicho, uma das duas músicas que Rogério gravou com o Golpe de Estado, lançadas como faixas inéditas no álbum 10 Anos (Ao Vivo). Ficou a sensação de que a outra canção registrada com ele, Cada Dia Bate de Um Jeito — tão boa quanto — poderia ter entrado no set.

Rogério, no entanto, permaneceu ao lado de Pontes, Cezzar, Schevano e Dias para mais duas músicas. A primeira foi Cobra Criada, faixa que abre o álbum Forçando a Barra. A segunda veio em duo com João Luiz, que retornou ao palco vestindo outra camisa, para Feira do Rato, única representante do álbum Direto do Fronte (2012) — o último com Helcio Aguirra e o único a contar com o vocalista Dino Linardi, além de ter marcado a estreia de Roby Pontes.

Vale registrar que foi uma pena Dino e Paulo Zinner não estarem presentes neste show de despedida. Também chamou a atenção o fato de nenhum dos músicos participantes ter feito menção aos dois, especialmente a Zinner.

Após Feira do Rato — momento em que arrancou risos ao imitar Bruce Dickinson (Iron Maiden) ao gritar “Scream for me, São Paulo!” —, Rogério se despediu do público, dessa vez imitando o saudoso Ozzy Osbourne: “I love you all!”.

Indiscutivelmente a personalidade mais aguardada da noite, Catalau — único integrante da formação original presente no show de despedida — arrancou risadas ao “estragar o suspense” que João Luiz tentava construir para anunciá-lo. Enquanto lembrava a primeira participação de Catalau após sua saída da banda, em um show na Clash Club, João se virou e deu de cara com o próprio já caminhando pelo palco, sorridente. Diante da cena, João comentou que nem era necessário apresentá-lo e começou a puxar o coro de “Catalau / Catalau / Catalau…”. Comunicativo como sempre, o confundador da banda aproveitou o momento para se dirigir à plateia: “A gente é só faísca, a energia está aí. Vocês são a energia da parada!”. Disse ainda: “A hora que você entende isso você vira frontman; frontman só é frontman se ele entende a banda que ele tem”, apontando para os músicos atuais do Golpe.

João Luiz deixou o palco desejando “quebra tudo” a Catalau, que respondeu de imediato com um “tamo junto!”. Já dono da cena, Catalau comentou com a plateia: “Eu também estava esperando até agora, dá a maior “adrena”, não é mesmo? Você quer estar na parada”. Após agradecer ao público, elogiar as formações que mantiveram o legado da banda ao longo dos anos e brincar ao receber um microfone melhor, deu o comando para a banda iniciar a primeira música da noite com ele: a energética Dias de Glória, que abre o álbum Quarto Golpe.

A resposta do público foi tão calorosa que, visivelmente feliz, Catalau soltou um “I-RA-DO” em elogio aos fãs. Em seguida, fez questão de exaltar os músicos no palco, mandou um recado direcionado a Luiz Calanca — proprietário da Baratos Afins, presente na pista, e responsável por apostar no Golpe de Estado no início da carreira — e seguiu comandando a noite.

O momento seguinte foi bagunçado. Chamaram ao palco o experiente baixista Soneca, irmão de Marcello Schevano, conhecido por seus trabalhos com Carro Bomba e Baranga. João Luiz retornou, deu a deixa para Catalau puxar Onde Há Fumaça, Há Fogo, mas logo em seguida apresentou Roby Pontes, que emendou um solo de bateria enquanto os músicos se movimentavam pelo palco. Quando parecia que o solo havia chegado ao fim — ainda mais após João Luiz gritar o nome do baterista e chamar Rodrigo Hid de volta ao palco —, Roby surpreendeu ao dar continuidade ao solo, sob os olhares atentos dos demais músicos. Sem se alongar demais, o baterista então puxou Onde Há Fumaça…, cantada pelos dois vocalistas.

Antes da próxima música, Catalau sentou-se na beira do palco, cumprimentou várias pessoas e bateu um papo rápido e descontraído com a galera da pista. De volta ao centro do palco, ele, Fabio Cezzar, Schevano e Roby Pontes enlouqueceram a plateia com uma das favoritas dos fãs, Filho de Deus. Ao final, a reação da plateia foi histeria foi geral.

Na sequência, o vocalista voltou a brincar com o público: “Eu sou baladeiro, pra impressionar as menininhas”. Após arrancar algumas risadas, completou com uma provocação: “Quem nunca fez isso?”. Em seguida, fez um paralelo entre as épocas: “Hoje em dia é Eduardo e Mônica. Na minha época era Jimi Hendrix. Você tinha que tirar Little Wing. Pra impressionar, você tinha que tirar Led Zeppelin, The Rain Song…” A conversa deu a entender que Noite de Balada viria a seguir, mas o que veio foi Real Valor, mais uma música de Quarto Golpe, desta vez com Catalau também assumindo o violão. Para a outra guitarra, ele convidou Tiago Claro, proprietário da TC7 produções e guitarrista da banda Seventh Seal — além de sósia de Michael Wilton, guitarrista do Queensrÿche.

Também ao violão, Catalau cantou ainda outras duas que também foram de arrepiar: Olhos de Guerra Caso Sério. Sem o violão e com o retorno de Daniel Kid, veio Velha Mistura — música com uma forte mensagem sobre drogas.

O show já caminhava para o final quando João Luiz e Fabio Cezzar retornaram ao palco e se juntaram a Catalau em Terra de Ninguém. Na sequência, vários dos músicos que participaram da celebração preencheram o palco. Rogerio Fernandes pediu aplausos a Luiz Calanca, que acompanhava tudo na beira do palco. Logo depois, Tadeu Dias puxou um dos riffs mais viciantes de Helcio Aguirra, e cinco vocalistas se dividiram em Nem Polícia Nem Bandido, clássico absoluto do rock nacional. Após a música, enquanto os músicos faziam seus agradecimentos, Catalau voltou a se sentar à beira do palco, desta vez para autografar discos dos fãs.

Pela primeira e única vez naquela noite, todos os músicos se reuniram no palco. Literalmente, era Noite de Balada. Com ela, o Golpe de Estado encerrava sua trajetória. Foi um momento de sorriso, mas também de choro. Eu chorei, muitos choraram. Mas também sorrimos e agradecemos, em pensamento, ao Golpe de Estado pela obra deixada — e pelas tantas “noites de baladas” vividas com a banda no palco.

A despedida do Golpe de Estado foi mais do que um último show: foi um encontro entre gerações, histórias, afetos e cicatrizes construídas ao longo de décadas de resistência no rock brasileiro. Em um palco ocupado por músicos que ajudaram a escrever essa trajetória — e por vozes que deram continuidade a ela —, a banda se despediu após viver seus ‘dias de glória’, reafirmando seu ‘real valor’ não apenas pelo repertório, mas pela postura, pela honestidade e pela conexão real com seu público. Sim, ‘agora é hora’, mas, entre lágrimas, risadas, discursos emocionados e clássicos cantados em coro, ficou claro que o Golpe não terminou naquela noite: ele segue vivo na memória, nos discos, nas histórias compartilhadas e no impacto profundo que deixou em quem esteve ali — e em todos que, de alguma forma, fizeram parte dessa longa caminhada numa curta distância. Golpe de Estado – setlist:
  1. Quantas Vão
  2. Não Faz Mal
  3. Não É Hora
  4. Pra Conferir
  5. Janis
  6. Pra Poder
  7. Libertação Feminina
  8. Forçando A Barra
  9. Olhos Vendados
  10. Tudo que Vem Fácil
  11. Caosmopolis
  12. Moondog
  13. Zumbi
  14. Paixão
  15. Todo Mundo Tem Um Lado Bicho
  16. Cobra Criada
  17. Feira do Rato
  18. Dias de Gloria
  19. Onde Há Fumaça, Há Fogo
  20. Filho de Deus
  21. Real Valor
  22. Olhos de Guerra
  23. Caso Sério
  24. Velha Mistura
  25. Terra de Ninguém
  26. Nem Polícia, Nem Bandido
  27. Noite de Balada
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