
Por Fernando Queiroz
Fotos: Andre Santos
Chame você de black metal, gothic metal, ou até “extreme gothic metal”, como alguns bradam por aí. Na verdade, nunca chegaremos a um consenso do que é o Cradle of Filth. Uma coisa, porém, podemos dizer que são: uma das bandas mais bem sucedidas e populares de metal extremo. Após longos sete anos sem passar pelo Brasil – inclusive com uma turnê relativamente recente pela América Latina, mas que não passou por aqui –, era hora da volta da banda britânica finalmente nos dar o ar da graça.
Em um sábado muito quente e ensolarado, após meses de frio intenso na capital paulista, o show de retorno de Dani Filth e sua trupe à cidade era um dos mais aguardados deste começo de segundo semestre, e o público presente provou isso. Não houve uma concentração tão grande de fãs nas horas que precederam a apresentação, mas ao longo do tempo, especialmente após a abertura das portas do Carioca Clube – também palco das últimas três shows deles por aqui –, pontualmente às 16h30, as pessoas foram chegando. No fim das contas, tivemos casa cheia. Não lotada, mas cheia, e a apresentação, ou melhor dizendo, as apresentações, tinham a responsabilidade de fazer jus à presença em peso dos fãs que aguardaram por tanto tempo o momento.
Fato interessante a ser comentado: em determinado momento, antes de abrirem as portas da casa, três integrantes da banda saíram, atravessaram a rua e compraram camisetas piratas vendidas por ambulantes. Pude ouvir, em determinado momento, um deles falar que eles colecionavam camisetas “paralelas” sempre que as viam sendo vendidas em shows. Curioso!
Apenas meia hora após as portas da casa abrirem, subiu ao palco, ainda para um público tímido, os cariocas do Tellus Terror, representando o Brasil. Mesmo com apenas um álbum lançado, ainda em 2014, a escolha da banda como abertura não foi à toa! Seguem o mesmo estilo de som dos ingleses do Cradle of Filth, até mesmo na característica vocal – sendo bem honesto, não me impressionaria se fizessem, em outras ocasiões, covers da banda principal do dia, tão parecidos que são. Teclados altos e melódicos em cima de um instrumental denso e pesado se saíram bem nos cerca de quarenta minutos de show que tiveram. A qualidade de som decente, especialmente para um ato de abertura, ajudou, com exceção, talvez, da bateria que era irregular, tendo a caixa muito alta em vários momentos, que acabava encobrindo os outros instrumentos. No geral, uma apresentação digna de uma banda que vale a pena conhecer, mesmo que para um público bem abaixo do total que estaria no lugar ao longo do evento. É bom ficar de olho nessa banda, pois qualidade tem – falta lançar mais material inédito.

Já com mais gente presente, os próximos a tocar, poucos minutos depois, foram os norte-americanos mascarados do Uada, vindos da bonita cidade de Portland, no estado do Oregon, em apoio a seu último álbum Crepuscule Natura. Não é a primeira vez que estiveram por aqui: em 2023, tocaram na pequena Jai Club, em apresentação solo, então podemos dizer que esse foi, até o momento, o maior show deles no Brasil. A apresentação, visualmente falando, é o que podemos chamar de “o terror dos fotógrafos” – e pudemos confirmar isso falando com alguns. Ambiente escuro, luzes incolores vindas apenas de trás e os integrantes sempre com capuzes, nunca se consegue uma visão do rosto de qualquer um deles enquanto tocam. Também não se tem, em qualquer ocasião, alguma interação da banda com o público, é apenas música sendo tocada, uma atrás da outra. É uma proposta curiosa e estranha, mas que, de certa forma, faz sentido para a proposta do que tocam, e do que se propõe a ter como imagem perante à plateia e a mídia. E falando em som, num todo, uma boa surpresa para aqueles que não conheciam: um black metal mais “cru”, com maior foco nas guitarras e na bateria, sem muitos teclados, mas ao mesmo tempo, nem tão “cru” assim, com uma parte melódica mais aparente. Você de fato entende o que é tocado, e eles mostraram isso lá, com uma apresentação tecnicamente muito boa e com um momento inusitado, bem no fim, quando o vocalista e guitarrista tropeçou no palco e quase caiu.

Apesar de toda a inegável qualidade, é verdade que fica um pouco estranho ver um show de uma banda que simplesmente não se comunica e não interage. Muito bacana no começo, mas acaba ficando muito parecido com ouvir um disco, e quando se está esperando, majoritariamente, outro artista, fica um pouco entediante quando se tem quase uma hora daquilo. Sem dúvida funciona melhor quando for uma apresentação exclusivamente deles, mas, de toda forma, valeu assistir, ou melhor, ouvir o show. O público pareceu gostar, mas era exatamente como a própria banda, sem muito entusiasmo ou proximidade.

Sete anos e cinco meses de espera. Foi isso que o público brasileiro precisou esperar para assistir o Cradle of Filth, uma das maiores bandas de metal extremo do mundo. Há alguns poucos anos, houve uma turnê pelo continente, que, por algum motivo inexplicável, não passou pelo nosso país. Na última oportunidade, em março de 2018, a turnê era comemorativa do clássico disco dos anos 90 Cruelty and the Beast. Dessa vez, os ingleses de Suffolk promovem o álbum The Screaming of the Valkyries, lançado este ano, e antes disso, em 2021, haviam lançado Existence is Futile, que não foi apresentado aqui. Estávamos atrasados, tínhamos que colocar as coisas em dia! Essa também foi a primeira vez que pudemos presenciar a “atual” formação da banda – atual entre aspas mesmo, e iremos falar disso depois –, que era consideravelmente diferente de quando eles nos agraciaram com sua presença pela última vez.
O intervalo entre o fim do show do Uada e o início da apresentação do Cradle of Filth foi um pouco maior que a pausa anterior, e próximo das 19h30, luzes se apagaram, a introdução começou e logo os britânicos estavam no palco, sob muitos gritos dos agora muitos fãs presentes. Sim, a casa estava bem cheia, com uma média de presença acima do normal em shows do tipo, e creio que maior que da última vez, quando também estive presente. Poucas bandas do gênero mais extremo conseguem colocar aquela quantidade de pessoas na casa! Começaram com a faixa de abertura do último disco, To Live Deliciously, que também foi o primeiro single apresentado antes do lançamento dele. Música inédita no Brasil é sempre legal, mas são os clássicos que indubitavelmente alegram a galera, então após um breve agradecimento aos presentes, Dani Filth introduz The Forest Whispers My Name, canção do seu primeiro disco, The Principle of Evil Made Flesh, que também foi regravada algum tempo depois (qual versão é melhor sempre foi um motivo de disputa entre os fãs). A próxima foi She Is a Fire, que é recente, lançada como primeira faixa de um álbum que, fora essa e mais uma, é ao vivo: Troubles and Their Double Lives – sim, isso é meio confuso. Voltaram ao último disco com Malignant Perfection, e então ao primeiro com a faixa-título. Bem, se o setlist focava em uma mistura de sons muito novos e muito antigos, o que podia parecer que não estavam dando tanta atenção aos grandes álbuns que os fizeram populares, ao menos a performance era impecável! Tanto os vocais de Dani, quanto os instrumentos mostraram o entrosamento entre os músicos, assim como suas qualidades individuais. O som era algo complicado; em determinados momentos, havia problemas em ouvir algumas partes, em outros, era cristalino – irregular demais, mas com mais momentos bons que ruins, no geral.

Prestigiaram um álbum relativamente esquecido, porém dos melhores da discografia da banda, Cryptoriana: The Seductiveness of Decay, com a música Heartbreak and Seance. O momento que uma enorme parte do público esperava veio a seguir com seu maior hit, aquele que os elevou de patamar (embora muitos critiquem por ser “pop” demais): Nymphetamine, do álbum de mesmo nome de 2004 foi a alegria de góticos e góticas nos primórdios das redes sociais. Importante dizer que a agora ex-tecladista e vocalista Zöe Marie Federoff fez uma das versões mais próximas à original, de Liv Kristine, mesmo que em determinados momentos sua voz ficasse baixa demais – sim, estamos falando de um show de poucos dias atrás e nos referindo a ela como ex-integrante; como disse, falaremos disso ao final. Outro grande clássico, Born in a Burial Gown, presente no EP Bitter Suites to Succubi, e White Hellebore, do último disco, foram as saideiras antes do bis.
As luzes se apagaram e teve início um interlúdio instrumental realmente bem longo. Depois de alguns minutos, a banda voltou ao palco. A música de retorno foi introduzida pela voz de Zöe Marie, Cruelty Brought Thee Orchids, do disco Cruelty and the Beast, de 1998. A próxima foi um “lado b” do álbum Midian, a ótima Death Magick for Adepts, que só foi tocada ao vivo pela primeira vez em abril último, mais de vinte anos após seu lançamento. Terminaram o excelente show, um dos melhores que a banda fez em São Paulo, com outro de seus maiores sucessos – há quem diga que é a música mais adorada pela maior parte dos fãs –, Her Ghost in the Fog. Acabava ali o show, o último com a formação em questão, com Dani Filth nos vocais, Marek Šmerda e Donny Burbage nas guitarras, Daniel Firth no baixo, Martus Škaroupka na bateria e Zöe Marie Federoff no teclado e vocal.

Um dos melhores – talvez o melhor – shows do Cradle of Filth valeu a espera de sete anos. Performance excelente, com destaque ao próprio Dani Filth, que aos 52 anos vem cantando magistralmente. Ele teve seus momentos ruins na carreira, é verdade, em especial por volta de 2010, mas aparentemente os anos fizeram bem a ele e está em um de seus melhores momentos. O ponto negativo fica pelo setlist mais curto que o que deveria, com apenas doze músicas, e muitas músicas dos álbuns novos, ignorando alguns clássicos absolutos e não apresentando nenhuma de seu penúltimo disco, Existence Is Futile. A voz de Zöe também em muitos momentos ficou baixa demais, e havia pouca presença do contrabaixo – embora não inaudível.
Outro ponto de destaque era o merchandising à venda da banda britânica. Além das tradicionais camisetas pretas e agasalhos de moletom, havia camisetas humorísticas, peças rosas e azuis com arco-íris, um bode “fofo” em estilo de desenho infantil, um sol com três olhos e o nome da banda escrito no mesmo estilo Napalm Death.

Por motivos ainda não muito claros, no dia seguinte do show, com apenas uma postagem confusa em redes sociais, alegando questões pessoais e mesmo com um show agendado para aquele mesmo domingo em Buenos Aires, na Argentina, a tecladista americana Zöe Marie Federoff anunciou sua saída, com efeito imediato, do Cradle of Filth. Até o momento, ninguém sabe o motivo real. Alguns fãs que foram tentar conseguir fotos e autógrafos com a banda no hotel e aeroporto relataram que ela e seu marido, o guitarrista tcheco Marek Šmerda, brigaram publicamente entre si, havendo até mesmo agressão verbal. Ferderoff, que estava na banda desde 2022 e gravou os teclados e partes vocais em The Screaming of the Valkyries, de 2025, será provisoriamente substituída na função de vocalista pela cantora também estadunidense e membro da equipe técnica da banda, Kesley Peters, como anunciado pelo grupo através de suas redes sociais.

Setlist Tellus Terror
Amborella’s Child
Absolute Zero
Darkest Rubicon
Psyclone Darxide
Empty Nails
Lone Sky Universum
Shattered Murano Heart
Sickroom Bed
Brain Technology, Pt. 2

Setlist Uada
Natus Eclipsim
Djinn
Blood Sand Ash
Cult of a Dying Sun
Black Autumn, White Spring

Setlist Cradle of Filth
To Live Deliciously
The Forest Whispers My Name
She Is a Fire
Malignant Perfection
The Principle of Evil Made Flesh
Heartbreak and Seance
Nymphetamine Fix
Born in a Burial Gown
White Hellebore
Bis
Cruelty Brought Thee Orchides
Death Magick for Adepts
Her Ghost in the Fog
Clique aqui para receber notícias da ROADIE CREW no WhatsApp.





