
Por Fernando Queiroz
Fotos: @pridiabr / @30ebr
O nu metal, ou new metal, chame como quiser, é um rótulo complicado. As bandas desse gênero são um produto específico dos anos 90 até o começo do século corrente, e em poucos elementos têm a ver entre si – veja, por exemplo, quão diferente é o System of a Down do Linkin Park, ou o Evanescence do Soulfly! E são todas creditadas na mesma denominação sonora. Não é muito diferente, nesse específico ponto, do grunge, outro estilo daquela década. Dito isso, todo esse movimento, influenciado por umas e outras bandas mais antigas, começou principalmente com o Korn – ao menos em se tratando de chegar ao mainstream da música mundial. Por isso, podemos falar que é uma das bandas mais importantes da última década do século XX, e talvez até do heavy metal no geral.
Foram esses pioneiros de um gênero todo que, após quase nove anos, retornaram para seu maior show no nosso país, com apresentação única em São Paulo – acompanhados de nomes importantes da atualidade, como Seven Hours After Violet, Spiritbox e Black Pantera; alguns desses acertados, outros nem tanto. Confira como foi.
Falando pessoalmente, sempre me perco nos portões do Nubank Parque (sim, esse já é, oficialmente, o nome do estádio que anteriormente chamava-se Allianz Parque). Neste dia, posso dizer que foi pior. Onde quer que se olhasse, havia filas e mais filas, que chegavam até quase à porta do shopping West Plaza para um lado, e dobravam a esquina no shopping Bourbon, do outro. Não para menos, pois teríamos casa cheia, com ingressos totalmente esgotados em todos os setores. O fluxo, porém, era tranquilo, civilizado e sem relatos de ocorrências – pudera, já que o local estava com bastante policiamento.
Portas previstas para abrir às 16h, foi com pontualidade que a fila começou a andar, e as pessoas foram entrando e se acomodando em seus respectivos setores. Mas esse foi um processo lento, mais que em diversos outros eventos ali, com muita revista, aparentemente a cada um dos que entravam; por isso, enquanto a primeira banda começava a tocar, ainda havia muita gente do lado de fora.
O próprio público era interessante. Via-se gente de todo tipo, de ‘metaleiros’ cabeludos, góticos, pessoas vestidas a caráter com roupas da marca Adidas, que acabou virando certa identidade visual do Korn, àqueles com visuais do dia-a-dia comum, que pareciam ter saído de casa para ir ao cinema; de adultos em meia idade, a jovens e adolescentes. Tal diversidade é prova de que rock e metal não estão mortos como alguns gostam de dizer por aí, assim como foram provas o sucesso de shows de Linkin Park, System of a Down e Avenged Sevenfold. Mas isso é papo para uma outra hora, em uma discussão bem mais profunda sobre o tópico.
Esse mesmo público, porém, vaiou quando houve, nos telões do palco, antes do começo de cada apresentação, um aviso sobre a proibição do uso de sinalizadores em qualquer lugar do estádio, e isso nos leva a um outro ponto importante: sinalizadores têm sido algo recorrente em grandes espetáculos recentes, em especial de bandas do dito nu metal, e é algo pode prejudicar a experiência do próximo, pondo em risco a integridade física de todos presentes. Esta prática é, inclusive, proibida por normas do Corpo de Bombeiros. Infelizmente, novamente neste dia o que presenciamos foram vários focos de uso do artefato por toda a pista, mesmo com a aparente revista rigorosa na entrada.

Voltando ao assunto principal, a música, quem abriu as atividades em um agradável fim de tarde foram os brasileiros do Black Pantera. Entraram com pontualidade, às 17h45, para um público diminuto, já que muitos ainda estavam presos nas vagarosas filas do lado de fora.
Bem, quem já presenciou um show deles sabe quanta energia têm! É inegável a qualidade de todos ali enquanto músicos, e o quanto se dedicam em transmitir sua mensagem político-social através da música, sempre com muita raiva – tanto no que tocam, quanto no que falam. Se focar nisso com afinco, querer passar essa palavra, é uma virtude. O público em geral entende isso, os apoia, os acompanha, e suas falas e ideias são compartilhadas por milhares; para todos os efeitos, são esses pontos que os tornam uma das bandas brasileiras mais bem sucedidas da atualidade.

Mas, em alguns casos, é o show errado na hora errada, como era o Ego Kill Talent, conhecido por ter aberto muitos dos shows desse nicho incessantemente. Animaram, sim, o público em muitos momentos, em especial no começo de sua apresentação, com rodas de bate-cabeça e muitos gritos de aclamação; mas antes da metade de seus cerca de trinta minutos de palco, já se podia ver que muitos preferiram se guardar para o que viria depois. Mesmo com seu digno e necessário discurso antirracista e antifascista, o uso exagerado dessas falas música após música, somado ao som muito diferente do que era o padrão da noite, deixou tudo um tanto cansativo em pouco tempo, e logo já não conseguiam mais ter a plateia nas mãos – vale dizer, foram aplaudidos a todo momento, e não desrespeitados de qualquer maneira.

É uma banda excelente, que deveria estar em um evento mais voltado ao hardcore, no qual teriam cacife para ser uma das bandas principais. Ali, batem de frente com qualquer “gringo” do estilo. De toda forma, tudo foi dentro do esperado, com muita qualidade e energia, como poucas bandas brasileiras conseguem entregar. Espero que não caiam na cilada de abrir tantos shows de estilos diversos, a ponto de pegar a antipatia de boa parte dos presentes, como aconteceu com o outro supracitado grupo.
O primeiro grande nome da noite viria a seguir, e não era a próxima banda per se, mas seu baixista. Formado em 2024, o Seven Hours After Violet tem como líder e principal nome Shavo Odadjian, integrante do System of a Down, e fazia sua segunda passagem pelo Brasil – a primeira foi no Knotfest 2024.
Sua proposta, porém, nada tem a ver com o do trabalho de maior expressão de Shavo, e aposta em um som mais voltado ao metalcore moderno. O público claramente não conhecia o grupo, ou ao menos, não conhecia suas músicas, e isso ficou claro desde o início, com uma recepção tímida. Apenas alguns gritos de “Shavo” podiam ser ouvidos após o fim da primeira canção, Abandon.

Competentes como são, pouco a pouco foram ganhando a plateia, e nos minutos seguintes já conseguiram ter o domínio do estádio, tirando aplausos e gritos dos presentes. O vocalista Taylor Barber era destaque: com um soberbo gutural intercalava muito bem suas partes com os vocais limpos do guitarrista Alejandro Aranda.

Ao final de Sunrise, a saideira, era possível dizer que foi uma boa apresentação. O público que não os conhecia, mas recebeu um ótimo cartão de visitas. Foi um acerto trazê-los, mesmo que estejam em um gênero que não casa muito bem com o da atração principal – como foi o caso da próxima banda.

A última banda de aquecimento era uma bem mais famosa, e já estabelecida em seu nicho: o Spiritbox. Naturais de Victoria, capital da província da Colúmbia Britânica (que diferente do que muitos pensam, não é Vancouver), no Canadá, vieram pela segunda vez ao país, e novamente como banda de apoio – a primeira havia sido acompanhando o Bring Me the Horizon, em 2024.
Ficou claro desde o início que a vinda anterior foi mais bem planejada, em um evento mais condizente com sua música. O grupo britânico, que atualmente se destaca como um dos mais populares do mundo na música pesada, está em um segmento no qual os canadenses se enquadram perfeitamente, e têm maior conforto para apresentar o que fazem.

Algo nítido durante toda sua performance foi a diferença geracional de gostos: enquanto os mais jovens, na casa dos vinte e tantos, conheciam e agitavam durante boa parte do show, o restante do público não parecia associar muito bem o que Courtney LaPlante e seus colegas apresentavam. De fato, seu som é estranho, até um pouco incompreensível se você não for já ligado a esse estilo, vamos dizer, mais pós-moderno, inclusive para os fãs de nu metal – gênero que curiosamente sofreu do mesmo problema de assimilação quando surgiu.

O show apresentou alguns problemas de som, em especial no começo, quando a voz de Courtney começou muito baixa, assim como as guitarras. Praticamente tudo era encoberto por um peculiar som de música eletrônica que dava um teor ‘dance-pop’, colidindo com o peso da parte metal. Pior ainda quando isso tudo se misturava com as partes mais suaves, com vocais melódicos (é aqui que Courtney mais se destaca, aliás, não nos guturais) e passagens leves, momentos em que ficava ainda mais gritante o exagerado volume do sintetizador.
A parte mais interessante foi a participação de Taylor Barber em Holly Roller; o vocalista, com seu gutural bem mais grave, deu uma cara mais agressiva à música, casando muito bem com sua sonoridade.

Os músicos são todos muito competentes e entregaram com maestria o que se propunham, não se importando com a recepção morna que tinham por parte dos fãs do Korn, e saudando os que eram mais chegados ao que tocavam. Fizeram seu trabalho, e entregaram o show que os ouvintes do estilo queriam. O problema é que, na maior parte, esses não eram os que lá estavam, e em vários pontos via-se pessoas sentadas, quase ignorando o que era tocado. Em um evento em que tocassem com, por exemplo, Avenged Sevenfold, ou o próprio Bring Me the Horizon, teria sido algo massivo o presenciado, mas fica a impressão que nu metal e metalcore não são tão compatíveis quanto muitos pensam.

O Spiritbox tem um som moderno, apelativo especialmente à geração Z, o que lhes dá potencial para alcançar ainda mais, basta estarem diante de pessoas abertas à sua proposta. Mais que isso, eles já têm uma base de fãs consolidada, suficiente para um show solo em São Paulo, que deveria já ter acontecido. Em suma, foi a banda certa, com o som certo, no evento errado, para o público errado – e o Brasil é especialmente complicado quando se trata de mistura de vertentes.

Finalmente, quem estava se guardando para a atração principal podia soltar a energia estocada. Após quase nove anos, o Korn voltou ao Brasil, desta vez com o status de gigante! Nem a polêmica saída do baixista Fieldy – substituído pelo músico convidado Roberto “Ra” Díaz – abalou a banda e os fãs.
Anteriormente, os americanos haviam passado seis vezes pelo país, todas em locais fechados ou em festivais – exceção foi em 2010, quando abriram para Ozzy Osbourne –, mas agora tinham a responsabilidade de tocar para mais de 40 mil pessoas em um estádio absolutamente lotado. E após o sucesso esmagador de shows de System of a Down e Linkin Park, mas o moderado êxito de presentes no Limp Bizkit, a responsabilidade de se colocar entre os mais bem sucedidos desses era grande. Felizmente tiveram êxito!

E não se esperaria menos dos pais do gênero, aqueles que trouxeram às massas o nu metal. Desde 1994, com seu autointitulado debut, e com poucos momentos de baixa, o Korn vem influenciando artistas mundo afora, em especial no metal norte-americano – foi com eles, inclusive, que a cena estadunidense deu uma guinada para o alternativo, que perdura até hoje, de uma forma ou de outra; para o bem ou para o mal. Vale dizer que até mesmo o lendário brasileiro Max Cavalera se voltou bastante ao gênero com sua banda Soulfly por conta deles. São realmente um fenômeno cultural e midiático, e os shows anteriores não faziam jus à sua real importância. Foi quase como uma reparação histórica, por assim dizer.

Pontual como todo o evento, em meio a mais vaias por parte do público pela proibição de sinalizadores, às 21h30 o Korn subiu ao palco. Começaram muito bem ao som de Blind, seu primeiro hit da carreira, que contém a frase que foi usada para anunciar a tour: “Are you ready?” Ali já ficou claro que o público estava se guardando para aquele momento. Se nos shows anteriores a plateia se mostrava tímida, o que se via naquele momento era um mar de pessoas exaltadas, com energia, que batiam cabeça e cantavam junto. O mesmo aconteceu com Twist e Here to Stay, outros grandes clássicos do momento mais áureo de sua carreira. Realmente, não estavam ali para experimentos, e entregavam exatamente o que cada um dos fãs queria ouvir.

Jogavam o jogo seguro, e acertavam em cheio nas escolhas. Não tinha momentos tediosos, ou de ‘encher linguiça’; era clássico atrás de clássico, com canções como Did My Time e Coming Undone. O pecado ficou por terem deixado de lado o álbum Korn III: Remember Who You Are, que, apesar de ser amplamente considerado o pior da carreira deles, ainda tem alguns petardos – um grande exemplo é Let the Guilt Go, que se enquadra facilmente naquelas músicas que levantam o público.

Enquanto a banda apresentava um grande espetáculo, daqueles dignos de ficar na memória por uma vida inteira, uma parte do público infelizmente não merece elogios. Mesmo com a revista na porta, todos os avisos, pedidos e tentativas de conscientização contra o uso de sinalizadores, vários focos do uso do artefato foram vistos ali. Pergunto-me se a hora que o cidadão tiver uma queimadura de segundo ou terceiro grau por conta disso, ou machucar algum amigo nessa brincadeira sem graça, ele verá o quanto estava errado. É triste pensar que uma pessoa só se conscientiza após tragédia – e às vezes nem assim. O uso da pirotecnia ilegal só cessou quando a forte chuva começou, ainda nas primeiras músicas, e perdurou durante boa parte do show.

Tal chuva não diminuiu a energia do show. Isso se deve em especial ao carisma e performance do vocalista Jonathan Davis, que é um showman nato: conduz o espetáculo e tem total domínio de palco e plateia. Sua própria personalidade é singular, e momentos como quando entrou com uma gaita de fole para iniciarem Shoots and Ladders (como sempre, com um pedaço de One, do Metallica, no meio), mostram que ele não perde o tato de frontman – mesmo fazendo isso há décadas, sempre consegue fazer deste um momento icônico. Quando falamos apenas de cantar, a situação não muda: sua voz continua potente quase como na juventude, e aos 55 anos mostra que ainda tem anos de carreira em alto nível pela frente.

Outra presença marcante no palco é o adorado guitarrista Brian “Head” Welch, um dos fundadores do grupo, e que apesar de tocar um instrumento que acaba por ser secundário na banda (o baixo é, para todos os efeitos, o principal instrumento nas músicas do Korn), seu timbre distinto sempre foi um tempero que ajudou a destacar o som deles das demais bandas de sua época. Além disso, ele acabou por se tornar uma “marca” da banda enquanto persona e por seu visual.

A espera de quase nove anos, até então, estava valendo a pena, e ao que tudo indica, não teremos que esperar mais tanto tempo para um próximo. Antes de tocar sua mais recente canção, Reward the Scars, feita para a expansão Lord of Hatred, do jogo Diablo IV, Jonathan pediu desculpas pelo longo tempo longe do Brasil, e prometeu que a próxima vinda não demoraria tanto. Só nos resta esperar que isso seja cumprido. De toda forma, aquele momento que vivemos ali dificilmente será superado, pois era daqueles shows que não se podia nem piscar que já se perdia algo legal.
Após Y’All Want a Single, a banda saiu do palco, e no telão, a mensagem “querem mais?” levou o público ao delírio. Voltaram para o bis com mais clássicos: Falling away from Me teve o riff cantado em coro pela plateia, e em seguida a dobradinha final, A.D.I.D.A.S., e Freak On a Leash, seus dois maiores sucessos. Acabava ali o show que contou com quinze músicas e quase duas horas de duração, e com fogos de artifícios no fim, saídos do teto do Nubank Parque – esses, sim, totalmente legalizados.

No fim das contas, a longa espera valeu a pena. O Korn voltou para seu maior show no país com uma apresentação recheada de hits, performance técnica sólida, até impecável, mostrando que é uma banda que envelheceu muito bem. O nu metal, que já não é mais tão ‘new’ assim, mostra que após trinta anos ainda tem força através de suas bandas pioneiras, das quais eles são “a pioneira”. Resta esperar para ver se a promessa de uma volta em menos tempo se concretizará, de preferência com um show com menos bandas de abertura, e mais condizentes com seu som – e que até lá, se tenha dado um jeito no problema dos sinalizadores.

O que se pode dizer mais, além do já dito, é que os anos 90 e os primeiros do século XXI continuam fazendo a cabeça das pessoas, tanto nostalgicamente, quanto para os que não os viveram. Pessoalmente, me fez pensar o quão legal seria um show solo de Jonathan Davis tocando músicas da trilha sonora do filme A Rainha dos Condenados. Além de dar esperanças de possíveis vindas de outras bandas da época, como Mudvayne, Wednesday 13 ou Disturbed. Público para isso, como pudemos ver, existe.

Setlist
Blind
Twist
Here to Stay
Got the Life
Clown
Did My Time
Am I Going Crazy
Shoots and Ladders
Coming Undone
Reward the Scars
Cold
Twisted Transistor
Dirty
Somebody Someone
Ball Tongue
Bis
Y’All Want a Single
4 U
Falling Away From Me
A.D.I.D.A.S.
Freak on a Leash

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