Texto: Rogério S. M.
Fotos: Roberto Sant’Anna
O fascínio do homem pelo sombrio e obscuro vem desde os princípios do tempo. Na arte, não é difícil encontrar obras que marcam desde as artes plásticas, em nomes como Francisco Goya e H.R. Giger, até concepções recentes em cinema e teatro. Na música, toda essa atmosfera pode ser envolta também de um clima melancólico e romântico, como notadamente ocorre em criações de compositores como Frédéric Chopin e Gustav Mahler. Agora, no rock, é impossível não apontar Black Sabbath como o primeiro e principal expoente.
Todavia, se juntarmos todas essas referências e acrescentarmos uma ponta de identidade própria, chegaremos fatalmente ao chamado gothic doom, que teve seu apogeu em meados da década de 90, mas que ainda hoje encontra espaço entre aqueles que procuram a beleza do lado escuro da vida (e da morte). Para esses destemidos fãs, é impossível não pensar no Draconian como um dos principais nomes ainda em atividade.
O peso, o clima soturno e a delicadeza de melodias e linhas de voz que misturam bem o chamado estilo ‘beauty and the beast” torna o grupo sueco uma referência que continua relevante, inclusive lançando excelentes álbuns, como o mais recente, In Somnolent Ruin, que saiu pouco mais de dez dias antes do show de São Paulo. E por isso o evento no Carioca Club também foi histórico, pois várias músicas do álbum estrearam ao vivo em terras paulistanas.

Antes, porém, a surpresa do evento ficou por conta da abertura de Emma Ruth Rundle. Curiosamente, a compositora, cantora, guitarrista e artista americana não pratica nada próximo de algo que possamos classificar como metal. Porém, sua escalação combinou perfeitamente com o som pesado do Draconian justamente pela conexão sombria. Sozinha no palco, apenas com violão e sua poderosa voz, Emma mostrou uma faceta ainda mais bela e poderosa da música melancólica.

Abrindo a noite com Living with the Black Dog, a cantora deu uma geral em quase todos os álbuns de sua carreira. É incrível como Emma montou um show poderoso apenas com um violão, sua voz e alguns efeitos. Nem o problema que teve logo da segunda música, Arms I Know So Well, tirou o brilho do show. “Something die”, ela brincou antes de rapidamente resolver a questão e voltar para terminar a música com a mesma densidade que havia iniciado. Há tanta emoção e verdade em cada acorde que ela magicamente reproduz ao vivo que quase esquecemos que no palco há apenas uma mulher e um violão.

Em um dos destaques da apresentação, Emma mostrou como é dona de uma voz única em Blooms of Oblivion. O público reagia a cada término de canção com aplausos efusivos, gritos e palmas, mostrando que há espaço suficiente para uma volta, quem sabe agora com banda inteira. Depois de duas músicas inéditas, que estarão presentes no próximo full-lenght da artista, ela encerrou sua apresentação de forma emocional com redenções maravilhosas de Darkhorse e Marked For Death. Definitivamente, Emma deixou uma ótima impressão e conquistou diversos novos fãs.

Às 19h em ponto, o clima fúnebre se intensificou com o início de I Welcome Thy Arrow, faixa do recém lançado novo álbum do Draconian. Todo o peso, as melodias ricas e o andamento lento que caracteriza o som dos suecos estavam lá, dando o tom do que seriam os próximos 90 minutos. Entrando no palco por último e com um capuz que o fazia parecer um monge, o vocalista Anders Jacobsson foi o mais ovacionado, e aproveitou para conduzir o show com maestria.

A sequência com The Wretched Tide e The Last Hour of Ancient Sunlight, faixas que há tempos não constavam no setlist dos suecos, mostrou como a noite seria especial. O público vibrava a cada nota e se encantava com os movimentos teatrais e a voz delicada de Lisa Johansson. O contraste das duas vozes, aliás, muitas vezes cantando ao mesmo tempo, dava um tom todo único ao peso absurdo das composições e de suas belas melodias.

Esbanjando carisma, mas sem muito papo, a banda emendou Heavy Lies the Crown, mostrando toda a sincronia das guitarras com peso e melodias na dose certa. Os movimentos de palco ficavam mais a cargo de Jacobsson e Johansson, com o restante da banda fazendo uma parede fúnebre em que o feeling de cada música prevalecia nos PAs. A conexão com o público era total, como ficou comprovado na belíssima interpretação de A Scenery of Loss, do clássico álbum Arcane Rain Fell, de 2005. Aliás, o único ponto a se lamentar na apresentação foi a ausência de faixas do debut, Where Lovers Mourn.

Por outro lado, o Draconian compensou privilegiando os fãs brasileiros com diversas músicas do mais novo play, que foram apresentadas pela primeira vez no Carioca Club, caso das belíssimas The Face of God, Asteria Beneath the Tranquil Sea e Cold Heavens. Aqui também vale um destaque ao estupendo guitarrista Johan Ericson, capaz de criar melodias lindas e melancólicas na mesma medida.

Lentas, pesadas e, muitas vezes, de longa duração, as músicas seguiam com quase ausência de discurso entre elas, fazendo com que os fãs fossem transportados para outra dimensão. O belo trabalho de iluminação, que atuava como uma força extra de obscuridade e elegância, contribuía para o clima de hipnose da apresentação dos suecos. A magia foi quebrada em apenas uma ocasião, mas justificável pela carga emocional: durante a execução de Heaven Laid in Tears (Angels’ Lament), outro clássico de Arcane Rain Fell, Johansson ostentou com orgulho uma bandeira do Brasil, levando os fãs ao delírio.

Após, foi a vez de uma das maiores surpresas da noite: uma belíssima redenção de Claw Marks on the Throne, do álbum Under a Godless Veil, de 2020, que emocionou os presentes. O final derradeiro veio com Seasons Apart e The Sethian, coroando uma noite de elegância melancólica e sombria. O público ainda gritou “one more song” em uníssono, mas o funeral do Draconian já havia encerrado uma noite especial que ficará na memória dos fãs por muitos anos.

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