EARTH – THE LEGENDARY LOST TAPES [9,5/10]

Por Antonio Carlos Monteiro

Toda história clássica começa com “era uma vez”, certo? Então vamos lá… Era uma vez uns garotos de 20 ou 21 anos lá em Birmingham que tinham o sonho de virar profissionais da música. Montaram uma banda chamada Earth e, em 1969, gravaram uma demo. Esse material ficou nada menos que 56 anos inédito até que finalmente acabou de vir a público. O grupo, todo mundo que não morou em Marte nos últimos 60 anos sabe, mudou o seu nome para Black Sabbath e, entre várias outras coisas, criou um estilo musical. Só que naqueles primórdios, antes de descobrirem que havia outra banda chamada Earth e mudarem para Black Sabbath, eles fizeram algumas gravações, financiadas por seu então empresário Jim Simpson. Alguns registros dessa época já haviam sido lançados numa coletânea chamada Sabbath Early Sabbath – Outtakes ’69-’71, que saiu em 2012, mas as canções presentes neste disco eram inéditas até agora. Segundo Simpson, o motivo de não terem saído na época em que foram gravados foi uma questão prática: “A banda estava desenvolvendo seu próprio estilo muito rapidamente” e isso fez com que aquele repertório deixasse de representar o som do quarteto. Com isso, o material permaneceu inédito até os dias de hoje.

Black Sabbath, aqui ainda chamado Earth, em show realizado em agosto de 1969, em Birmingham | Foto: reprodução (X)

As músicas foram gravadas no Zella Studio e lançadas pelo selo de Jim, Big Bear Records, voltado ao blues e ao jazz. E, acredite se quiser, a música de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward naqueles tempos tinha muito a ver com esses gêneros. O disco começa com um clássico de Carl Perkins que se tornou sucesso mundial na voz de Elvis Presley, Blue Suede Shoes. É até um pouco estranho ouvir o Sabbath tocando um rock’n’roll básico de três acordes, mas o fato é que a banda se sai muitíssimo bem na empreitada. A faixa seguinte é ainda mais surpreendente: Evenin’ é um clássico que fica entre o blues e o jazz e que foi gravada por gente como Tony Bennett e Count Basie. O tema conta até com um solo de flauta (!) de Tony e mostra que desde os primórdios o Black Sabbath era uma banda formada por músicos muito acima da média – lembremos que nessa época eram apenas quatro garotos quase sem experiência e ainda criando barba na cara. Já Wee Wee Baby traz outra faceta que era muito cara à banda naqueles tempos (e que muitos ouvidos conseguem identificar em seu material considerado clássico): o blues. Os caras eram fãs do gênero e se deram muito bem nessa canção.

Os quatro garotos que inventaram o heavy metal | Foto: domínio público / Vertigo Records

Também chamam a atenção duas versões para um mesmo tema, Song for Jim (naturalmente, dedicada a Jim Simpson). Trata-se de um boogie que na segunda versão é levada na flauta em vez da guitarra – e aí você consegue perceber com muita facilidade que Geezer já era um baixista estrondoso. De quebra, essa “versão 2” ainda tem um solo de bateria.

No final, surgem duas músicas que estariam no primeiro disco da banda, gravado no ano seguinte. Wicked, que virou Wicked World, e Warning, com seus mais de 12 minutos (no vinil ficou com “apenas” 10…) mantêm estruturas muito próximas ao que veríamos no álbum, o que (sim, serei repetitivo) só comprova a criatividade e a visão musical diferenciada que os quatro sempre tiveram.

Desde o princípio, criativos e à frente de seu tempo | Foto: Warner Bros. Records / Domínio público, via Wikimedia Commons

Segundo Jim, essas gravações ficaram muito tempo desaparecidas e, uma vez localizadas, foram devidamente remasterizadas. E tanto o trabalho de captação, lá em 69, como essa atualização deixaram o som com excepcional qualidade, como se tivesse sido gravado hoje.

“Hoje, depois de quase 60 anos de seu registro, essa gravação acaba se revestindo de enorme importância”, afirma Jim, “mostrando o quanto aqueles quatro garotos, mal saídos da adolescência, já eram músicos excelentes e formavam uma ótima banda, merecendo todo o sucesso que viria em seguida.”

Jim Simpson, hoje com quase 90 anos, continua ativo na indústria musical. Ele permaneceu como empresário do Black Sabbath até o lançamento do segundo disco, Paranoid, que saiu em setembro de 1970. 

Ozzy e Tony: inovadores desde os primórdios – Earth ao vivo no Star Club, em Hamburgo (ALE), julho de 1969 | Foto: reprodução (Black Sabbath/X)

 

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