Nesta quinta-feira (19), o Grave Digger apresentou seu novo guitarrista. Trata-se de Tobias “Tobi” Kersting, integrante do Steelhammer e ex-Orden Ogan.
A banda falou de Tobias Kersting em comunicado à imprensa:
“Ele é um grande e talentoso monstro de riffs de heavy metal e a banda está muito feliz com esse enriquecimento musical. Com entusiasmo e excitação (estamos) aguardando o que está por vir… Uma nova era do Grave Digger começou!”
O batismo de Tobi no Digger acontecerá no próximo dia 28 de outubro, em show ‘sold out’ a ser realizado em Düsseldorf, na Alemanha, em comemoração aos 40 anos de carreira da Metal Queen Doro Pesch – ou simplesmente Doro.
GRAVE DIGGER:
Chris Boltendahl – vocal
Tobias Kersting – guitarra
Jens Becker – baixo
Marcus Kniep – bateria
Após passar pelo Brasil em setembro e concluir sua turnê “Re-Imperatour Latin America 2023” com shows na Argentina e no Chile, o Ghost se mandou para a Austrália. No último dos três shows feitos no país, realizado em Brisbane no último dia 7 de outubro, o atual personagem de Tobias Forge, Papa Emeritus IV, fez um anúncio misterioso no show, dando a entender que aquele estava sendo o seu último à frente da banda.
Em uma pausa antes da próxima música do show, Papa Emeritus IV comentou de modo enigmático:
“É uma grande noite, de muitas maneiras. Vou deixar você me acompanhar, pode ficar aonde estiver, que eu vou tomar um drinque aqui. Sei que muita gente está esperando algum tipo de explosão, implosão, um milagre em que eu simplesmente desapareço em favor de um sucessor”
Emeritus IV prosseguiu com seu discurso, agora de modo debochado, talvez um jeito de aliviar a tensão:
“Vou pegar esse cubo de gelo e abaixar a calça. Geralmente não faço isso, mas é para me fazer sentir um pouco melhor, porque agora estou me concentrando nisso e não em vocês. Isso no caso de vocês pensarem que eu tivesse me mijado, o que tenho certeza que teria sido o grand finale. Mas sabe de uma coisa? Esse final, vai ser meu último show, e vou dar o meu melhor para entregar esse show a vocês. E isso deveria ser o bastante, certo?”
Confira o discurso de Papa Emeritus IV, em vídeo feito por fã na plateia:
O “Habemus Papam” para Papa Emeritus IV aconteceu mediante conclave do clero em 2020, e assim ele assumiu sua missão no Ghost sucedendo os papas anteriores, Emeritus I, II e III, bem como o canastrão Cardinal Copia.
O legado de Emeritus IV durou pelos dois últimos álbuns de estúdio do Ghost, Prequelle (2018) e o bem sucedido e aclamado Impera (2022).
Recentemente, o Ghost anunciou também que um filme está sendo produzido, unindo dramatizações e cenas ao vivo, extraídas em shows recentes gravados em Los Angeles pela atual turnê da banda.Papa Emeritus IV, em show recente feito em São Paulo
Desde que os Rolling Stones lançaram o álbum de covers de clássicos do blues Blue and Lonesome (2016) que se especula sobre um novo disco de inéditas da banda – afinal, o último trabalho com essa característica havia sido A Bigger Bang, que saiu no longínquo 2005. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Uma pandemia interrompeu uma turnê da banda, que aconteceria em 2020, no ano seguinte a retomada do giro aconteceria sem Charlie Watts, que enfrentava problemas de saúde, mas antes que ela tivesse início o baterista faleceu. Tudo isso colocou em dúvida até mesmo a continuidade da existência do grupo, levando em conta, além desses aspectos, as idades dos integrantes – Mick Jagger completou 80 em junho último, Keith Richards também arredonda a idade em dezembro próximo e o caçula Ron Wood já chegou aos 76. Senão, vejamos: o que poderia motivar três sujeitos extremamente bem sucedidos na vida e em idade de se aposentar a prosseguir nessa rotina nem sempre agradável de compor, gravar, pegar um avião e subir num palco pra tocar?
A resposta é muito simples: o fascínio que a música exerce. Ficou bem claro que aqueles três caras simplesmente não podiam viver longe disso. Tanto que logo em 2022 os Stones finalmente retomaram a tour, agora com Steve Jordan no comando das baquetas – uma indicação do próprio Watts quando teve que se afastar.
O grupo vinha fazendo turnês regulares nos últimos anos (passou pelo Brasil pela última vez em 2016) e gravou algumas músicas avulsas, que apareceram em coletâneas – as mais recentes haviam sido Doom and Gloom e One More Shot, que saíram na coletânea GRRR! (2012) – além de outras que jamais viram a luz do dia. “Não havia quem supervisionasse”, disse Mick Jagger em recente entrevista ao The New York Times. E completou “Não tinha quem dissesse: ‘Este é o prazo final’.” Então, Jagger, mais uma vez, pegou o touro pelos chifres, jogou o bicho no chão e assumiu o comando do negócio.
Assim, no início de setembro começaram a surgir alguns teasers na internet mostrando as palavras “Hackney Diamonds” e um trecho de menos de vinte segundos do que, saberíamos depois, seria o primeiro single do álbum, Angry. Até que, no dia 6 de setembro, Mick, Keith e Ron concederam entrevista ao apresentador Jimmy Fallon para anunciar o novo disco – que, de fato, se chamou Hackney Diamonds, gíria londrina para definir os estilhaços de vidro que se espalham pelo chão quando alguém estoura a janela de um carro para roubar.
E tendo o privilégio de ouvir o disco alguns dias antes de seu lançamento oficial, dá pra sacar algumas coisas: em primeiro lugar, chama a atenção a urgência que o álbum transpira e que acabou dando o tom das gravações – “foi uma blitzkrieg”, disse Richards ao NYT, “trabalhamos muito depressa; ainda estou me recuperando…” (risos)
Um dos segredos para a sonoridade do álbum está no produtor. Algumas músicas, naquelas sessões esparsas que ocorreram no passado, foram comandadas por Don Was, antigo produtor da banda. Mas quem foi chamado pra dar um jeito no negócio foi Andrew Watt, sujeito que tem de idade praticamente a metade do tempo que os Stones têm de estrada – ele tem 32 anos, a banda subiu no palco pela primeira vez há 61… Ele disse: “Eu era o novato, não tinha a bagagem que tem a banda. Então, a forma que encontrei para navegar por essas águas foi agir rápido.” Rápido e bem. Watt, produtor egresso do pop, mas que produziu os dois últimos discos de Ozzy Osbourne e o mais recente de Iggy Pop, chegou a assinar três músicas com a banda – e certamente participa como guitarrista. Ele não só conferiu essa urgência que permeia todo o álbum, mas imprimiu uma sonoridade que consegue ser moderna sem descaracterizar o som do grupo.
Logo após aquela entrevista a Jimmy Fallon, saiu o primeiro single. Seria a faixa que abre o disco, Angry, acompanhada de um clipe genial. Movida a um daqueles riffs de guitarra que só os Stones são capazes de criar, a letra fala para a garota “não ficar brava (angry) comigo.” “Não chove faz um mês / O rio está seco / A gente não transa mais / E eu não sei por que” dizem os primeiros versos, enquanto o vídeo mostra a atriz Sydney Sweeney dançando no banco traseiro de uma Mercedes 560 SL conversível – nada como um carro clássico para ilustrar a cena. Durante o passeio, outdoors pela rua mostram cenas de várias fases dos Stones, mas o movimento labial de Jagger acompanha a letra da música – viva a Inteligência Artificial!
O disco continua com Get Close, com um riff de guitarra algo funkeado, lembrando a fase do álbum Some Girls, quando os Stones colocaram um pé na disco music e outro no punk rock. Jagger dá um show de interpretação e deixa claro que é um dos protagonistas do disco, enquanto Elton John dá um auxílio precioso ao piano.
Depending on You é uma balada com um pé no country, outro gênero que sempre foi muito caro aos Stones. A música tem um dos refrãos mais bonitos que a banda já criou e, segundo consta, foi escrita no esquema “de antigamente”, com Jagger e Richards se reunindo uma mesma sala para compor. “Somos uma dupla esquisita, cara”, disse Keith ao NYT. “Mas eu o amo muito e ele me ama muito, e é isso que importa.”
Alguns chamaram Bite My Head Off de “punk”. Não é. É um rockão com o DNA dos Stones e que poderia estar em Sticky Fingers (1971) ou Exile on Main St. (1972). Essa música tem a participação de Paul McCartney, que falou a respeito: “Eu me dei conta de que conhecia aqueles caras desde sempre, que tinha ido a shows deles, mas nunca tinha tocado com eles, todos juntos, numa mesma sala. Adorei!”
Whole Wide World é um rock com aqueles riffs circulares que acompanham toda a música (como Shattered ou Beast of Burden, para citar apenas duas). Ela tem um acento pop, como Jagger tanto gosta, mas ao mesmo traz um peso poucas vezes visto, mistura que dá certo quando nas mãos de quem sabe fazer.
Mais uma acalmada acontece na faixa seguinte, Dreamy Skies. Os Stones aqui voltam a flertar com o country numa baladona movida a violão e guitarra slide. Jagger dá outro show e o solo é muito inspirado.
Vamos voltar à fase Some Girls? É só deixar rolar a seguinte, Mess it Up. Ela começa com uma solução curiosa: os primeiros cinco segundos têm uma sonoridade totalmente setentista, até a música começar “pra valer” e a produção atual assumir o comando. Ela consegue misturar um riff grudento com um refrão pop e uma levada repleta de groove – cortesia de Charlie Watts, que deixou algumas faixas gravadas, sendo que duas foram usadas no disco.
A outra, por sinal, é a faixa seguinte, Live By the Sword. A faixa, além de Watts, tem Bill Wyman no baixo. Segundo consta, Richards teve a ideia de reunir a cozinha clássica da banda. Então entrou em contato com Bill: “Você ainda sabe tocar?” Ouviu: “Claro que sei!” “Então chega aí pra gravar com a gente.” Esse é mais um rock que poderia estar em qualquer dos discos clássicos dos anos 70 – e, de quebra, ainda tem mais uma participação de Elton John.
Talvez o único momento em que o disco dê uma “baixada” seja em Driving Me Too Hard. Ela até lembra vagamente Tumbling Dice, mas nem de longe tem o mesmo apelo.
Como não pode faltar num disco da banda, Tell Me Straight é a música que Keith Richards assume o vocal principal. O interessante aqui é notar como ele usa a voz de uma forma totalmente diferente do que estamos acostumados a ouvir – e muito mais eficiente. Certamente, tem a mão de Andrew Watt aí.
E em seguida vem uma das músicas que tem tudo para se tornar uma das mais importantes de todo o repertório da banda. Só o fato de Sweet Sounds of Heaven (segundo single do disco) contar com os teclados e o piano de Stevie Wonder já seria motivo para dar atenção especial a ela. Mas não tem só isso. Quem dobra vocais com Jagger é Lady Gaga – que já tinha cantado Gimme Shelter com a banda em um show em 2012. E que fique claro: a despeito de se dedicar a um estilo musical que nada tem a ver com o rock, Lady Gaga é talentosíssima como cantora – é só ver sua participação no filme “Nasce uma Estrela” (2018). Nesta canção, um tema com um pé no gospel na linha de You Can’t Always Get what You Want, ela e Jagger fazem uma espécie de “desafio vocal” em que só grandes cantores poderiam se meter. Sem dúvida, o ponto alto do disco.
Para fechar Hackney Diamonds, um clássico do blues: Rollin’ Stone (aqui grafada como Rolling Stone Blues) tema tradicional que se popularizou com a gravação de Muddy Waters em 1950. Essa é a música que deu origem ao nome da banda e que aqui aparece na versão mais crua possível: voz, violão e harmônica. Mais nada. Como se precisasse…
Enfim, foi uma longa espera e muita incerteza envolvida. Mas se Hackney Diamonds for de fato o último disco dos Rolling Stones, nada me ocorre além de um dos clichês mais batidos da língua portuguesa: fecharam com chave de ouro.
‘Hey, ho! Let’s go!’ Foi com esse grito, que dá início a Blitzkrieg Bop, faixa de abertura do homônimo álbum de estreia, de 1976, que os Ramones revolucionaram o rock ‘n’ roll. Revolucionaram mesmo! A banda faz parte daquele seleto grupo que merece a expressão “existe música antes e depois de…” e que influenciou um sem-número de artistas. Para se ter uma ideia, em 2020 a revista australiana Shoot Farken listou nada menos do que 444 músicas que mencionam os Ramones em suas letras, que vão de U2 (The Miracle of Joey Ramone, de 2014) a Motörhead (R.A.M.O.N.E.S., de 1991). As mortes precoces de todos os membros fundadores (Tommy, Johnny, Joey e Dee Dee Ramone) deixaram para os três membros substitutos e ainda vivos, o baixista CJ e os bateristas Ritchie e Marky Ramone, a missão de honrar um legado de 22 anos, 14 álbuns de estúdio e uma avalanche de hits, tais como Sheena is A Punk Rocker, Rockaway Beach, I Wanna Be Sedated, Pet Sematary, Poison Heart e a mencionada Blitzkrieg Bop.
Desses músicos sobreviventes, Marky Ramone é o mais significativo, sendo o baterista que mais tempo permaneceu no grupo, tendo gravado oito discos de estúdio ao longo de quinze anos (1978-1983 e 1987-1996). Há quase vinte anos, Marky viaja o mundo com a Marky Ramone’s Blitzkrieg, banda tributo encarregada de manter o espírito dos Ramones vivo. O grupo, que já teve em suas encarnações os vocalistas Andrew WK e Michale Graves (ex-Misfits), além do guitarrista Greg Hetson (Bad Religion), conta desde sua formação (e entre idas e vindas) com o espanhol Iñaki “Pela” Urbizu (vocais) e os argentinos Marcelo Gallo (guitarra) e Martín Sauan (baixo) – os dois últimos, ex-membros da banda punk Expulsados.
A apresentação realizada em São Paulo no último domingo (15), no Carioca Club, contou com cinco bandas na programação. A casa estava lotada por uma mistura de tribos, algo inimaginável nos tempos em que os Ramones estavam na ativa. Na plateia estavam desde crianças nos ombros dos pais até “punks old school”, passando por headbangers e “gente comum”, muitos com as suas camisetas estampadas com o icônico brasão da banda, uma das marcas mais reconhecíveis do mundo até hoje e que foi desenvolvida nos anos 70 por Arturo Vega.
School of Rock
A tarde começou com um a apresentação dos alunos da School Of Rock, o que deu um alento para quem pensa que não existe futuro para o estilo. Em seguida veio a banda santista Apnea, fazendo um stoner rock com bastante influência do indie rock dos anos 1990 e 2000, tendo a bateria comandada por Boka, do Ratos de Porão. Em seguida veio o Electric Punk, mais uma banda a contar com um ícone do punk nacional na sua formação: Ronaldo Passos, guitarrista e fundador dos Inocentes. Com um set basicamente composto de covers, o Electric Punk apresentou sua primeira música inédita, Last Chance. Claro, Ronaldo não perdeu a oportunidade de cantar Eu Vou Ouvir Ramones, faixa dos Inocentes lançada no álbum Queima!, de 2002 – será que essa também entrou na tal lista da Shoot Farken? Anunciado como “artista convidado”, o próximo a subir no palco foi o cantor Supla e sua banda Punks de Boutique. Supla é um personagem! Conhecido por seu jeito irreverente e muitas vezes fanfarrão, a verdade é que Supla é um baita frontman e os Punks de Boutique entregam um show cheio de carisma e energia.
Supla
Era 21h30 quando Marky e Cia. subiram ao palco cumprimentando o público. Gestos de agradecimentos e aplausos de ambos os lados e um último suspiro antes do caos. A abertura foi logo com Rock ‘n’ Roll High School. Daí em diante, no melhor estilo Ramones, a banda descarregou 35 clássicos em 70 minutos! Literalmente sem intervalos e nem ao menos um “olá” ou um “boa noite”. Mal dava tempo de contar “1-2-3-4” entre uma faixa e outra e Havana Affair, Commando, Teenage Lobotomy e Beat on the Brat indicaram o que seria uma noite de mosh, suor e lágrimas. Por sinal, Havana Affair e Commando contaram com a participação de João Gordo, do Ratos de Porão, nos vocais.
A graça do Blitzkrieg é não parecer um cover onde todos os movimentos, notas e visuais tentam emular os Ramones originais, mas sim capturar a essência da banda: crua, agressiva (e ao mesmo tempo leve) e espontânea. É o “real deal”. O pulso constante do baterista levou o público por uma viagem no tempo. Parece fácil para os desavisados pensar que tocar as músicas do Ramones é algo simples, mas, como eu costumo dizer, Ramones é muito fácil de tocal mal! E essa perfeição não vem rápido, são 1700 shows com a banda e mais duas décadas de estrada com o Blitzkrieg.
O Ramones tem uma das baterias mais dançantes do rock, mesmo que tocada na velocidade da luz. E por falar em velocidade, a das execuções ficou no meio termo entre os dois álbuns ao vivo dos Ramones, It’s Alive (1977), em que as faixas são mais próximas das versões originais, e Loco Live, de 1992, onde a palavra “LOCO” define bem o ritmo de cada música executada no palco. Os excelentes músicos da banda têm um protagonismo natural: o vocalista Pela trouxe a energia de um verdadeiro frontman, saltando por todo o palco e dando tudo o que tinha para o público; Martin não perdeu uma linha no baixo, mesmo tocando e pulando em ritmo extremo; já o guitarrista Gallo era a definição do cool: totalmente frio, como se quisesse equilibrar os outros.
Embora sucessos de épocas posteriores como She’s a Sensation, The KKK Took My Baby Away, Anxiety e o hit Pet Sematary também estivessem presentes, a maior parte do set foi dedicada aos quatro primeiros da banda, Ramones, Leave Home (1977), Rocket to Russia (1977) e Road to Ruin (1978). I Wanna Be Sedated, Judy is a Punk, Surfin’ Bird (com uma performance brilhante de Pela e backings de João Gordo), Pinhead (com seu o emblemático Gabba Gabba Hey) e a sensacional Cretin Hop não deixaram ninguém parado. E o show termina com uma deliciosa homenagem a Lemmy Kilmister, numa versão matadora de R.A.M.O.N.E.S., do Motörhead. Essas faixas são tão conhecidas que parecia que qualquer um dos presentes no Carioca poderia cantar em uma banda tributo aos Ramones.
O bis começou com a doentia You’re Gonna Kill That Girl, seguida de Have You Ever Seen the Rain?, cover do Creedence Clearwater Revival. As últimas lágrimas vieram com a versão solo de Joey Ramone para What a Wonderful World (Louis Armstrong), que contou com Marky na sua gravação original. Para o final, obviamente escolheram Blitzkrieg Bop.
Essa foi uma grande e merecida celebração a uma das mais importantes bandas da história. De quebra, foi uma ótima oportunidade de ver grandes nomes do punk nacional em ação. “Não há ninguém tão bom quanto os Ramones, nunca haverá”, refletiu Joey Ramone antes de sua morte, ressaltando o orgulho e a autoconfiança que definiram a banda. Ele não estava errado, e é por isso que os Ramones sempre estarão vivos.
PS: Para mais histórias sobre os Ramones, confira o Ranking Crew da banda, em nosso canal do Youtube.
Há exatos 20 anos, em um mesmo 16 de outubro como hoje, o simpático e pacato Bruce Kulick, guitarrista famoso principalmente por sua respeitada passagem pelo KISS, literalmente escapou da morte enquanto caminhava com um amigo pela Sunset Boulevard.
Kulick foi alvejado na perna e na cabeça por duas balas perdidas. “Fiquei em choque, pois parecia que o tiro saiu pela culatra e que um hot pocket passava pela minha perna”, descreveu Kulick em seu site. “Eu não sabia o que havia acontecido até que os paramédicos me disseram”.
Naquela noite, Bruce tinha ido assistir um a show solo de Vince Neil, vocalista do Mötley Crüe, em um clube próximo ao lendário Rainbow Bar and Grill, que fica localizado em Hollywood. O que aconteceu foi que estava rolando uma briga e um dos envolvidos estava alcoolizado e extremamente nervoso e descontrolado. Portando uma 9mm, o homem começou a atirar para todo lado. Uma das balas atingiu Kulick na coxa direita e ricocheteou de raspão em sua têmpora; a outra o atingiu no pé.
Por muita sorte, o tiro na cabeça não requereu um tratamento tão ostensivo e a outra bala não atingiu nenhum membro fatal como ossos ou artérias, apenas carne e músculos.
Com a notícia correndo rapidamente em veículos como a CNN e a própria MTV, Kulick declarou à época: “Tive muita sorte nesse quesito, embora esteja com dor e incerto de quanto tempo levará a recuperação. Certamente foi um caso de estar no lugar errado, na hora errada, andar em via pública e sem ter conhecimento de nenhuma briga nas proximidades“.
Em fevereiro de 2005, o atirador acabou sendo preso e sentenciado a 10 anos de prisão. Na época dos disparos ele ainda era um jovem de 21 anos. Tempos depois, Kulick disse, “consegui me curar rapidamente e sobreviver a uma experiência verdadeiramente surreal”.
Esse episódio assustador na vida de Kulick foi relatado pelo músico na balada I’ll Survive, que ele gravou em seu álbum solo BK3, lançado em 2010. Ouça a música:
Trabalhando incessantemente na divulgação de seu novo e segundo álbum de estúdio, Shades of Sorrow, que foi lançado no último dia 04 de agosto, via Napalm Records, o quarteto brasileiro Crypta está lançando nesta segunda-feira (16) um novo lyric video, dessa vez para a música Stronghold.
Confira:
O álbum Shades of Sorrow foi gravado em São Paulo, em fevereiro último, no Family Mob Studio. A produção ficou sob os cuidados do músico Rafael Augusto Lopes (Torture Squad, Eternal Malediction, Fanttasma). A mixagem do disco foi feita em Estocolmo, Suécia, por Daniel Bergstrand, bem como a masterização, realizada no Fascination Street Studio pelo renomado Jens Bogren.
Lira deu seu parecer sobre o novo álbum da banda, sucessor do debut Echoes of the Soul (2021): “Shades of Sorrow é um álbum semi-conceitual que descreve uma jornada pelas profundezas de nossa psique ao enfrentar batalhas difíceis. É uma viagem aos muitos tons de dor que às vezes temos que enfrentar enquanto suportamos nossos desafios da vida. As músicas são a trilha sombria, obscura e emocional perfeita para essa jornada”.
A Crypta é destaque na nova edição da ROADIE CREW, #276. Para adquirir a revista e recebê-la em casa, acesse o sitehttps://roadiecrew.com/roadie-shop/ou entre em contato pelo fone (11) 96380-2917 (whatsapp).
Crypta 2022: Luana Dametto (bateria), Fernanda Lira (vocal/baixo), Jéssica di Falchi e Tainá Bergamaschi (guitarras)
Após se apresentar no último final de semana diante de 100 mil pessoas no festival “Power Trip”, em Indio, Califórnia, o Judas Priest anuncia agora Panic Attack, primeiro single de seu recém-anunciado próximo álbum de estúdio, o aguardado Invincible Shield.
Acompanhando o single, a banda disponibilizou um lyric video. Confira agora mesmo:
Sucessor de Firepower (2018), InvincibleShield, 19° álbum de estúdio do Judas Priest, tem lançamento programado para o dia 8 de março de 2024 e já está disponível para pré-encomendaaqui.
Novamente, o Judas Priest contou com a produção de Andy Sneap. Por enquanto, a clássica banda inglesa não divulgou a tracklist completa do disco, porém além de Panic Attack, o álbum incluirá também a própria Invincible Shield e The Serpent and the King. Nas fotos promocionais do disco (veja abaixo) é notável créditos para o afastado guitarrista Glenn Tipton, que tem lidado com o Mal de Parkinson nos últimos anos, Richie Faulkner e também um terceiro guitarrista, que, provavelmente seja o próprio Sneap, que nos últimos anos tem exercido a função de substitudo de Tipton nos palcos.
Anteriormente, Andy Sneap disse que o novo álbum do Judas Priest não será um Firepower parte 2, mas sim algo completamente diferente; um álbum que muitos vão adorar e que, em contrapartida, muitos outros poderão odiar.
Invincible Shield terá capas distintas para as versões CD e LP colorida: a oficial e uma alternativa que só estará disponível na Amazon.
Versão CD
Versão LP
Um dos gigantes do heavy metal, o Judas Priest embarcará em uma turnê mundial em 2024, com a etapa do Reino Unido começando em Glasgow em 11 de março, além de incluir um show na OVO Wembley Arena, de Londres, no dia 21 de março. Nos últimos 50 anos, o Judas Priest vendeu mais de 50 milhões de álbuns em todo o mundo e encabeçou os maiores estádios do planeta.
Com usa música em evolução e apresentações ao vivo também veio uma identidade única poderosa, um olhar que definiu o grupo e influenciou as futuras gerações de bandas de metal em todo o mundo. A cada ano a lenda do Judas Priest continua a crescer; Em 2022, eles entraram para o Rock and Roll Hall of Fame e completaram uma turnê mundial com ingressos esgotados em celebração ao seu 50° aniversário. À medida em que entramos em 2024, o Judas Priest continua a manter sua coroa como uma das maiores e melhores bandas da história da música pesada.
Algumas benesses aconteceram na quarentena durante o período caótico da pandemia de Covid, e uma delas foi o fato de as famílias passarem mais tempo juntas. No caso de Robb Flynn, líder, vocalista, guitarrista e compositor do Machine Head, estar com a esposa e filhos foi fundamental para a criação do primeiro álbum conceitual da banda, “ØF KINGDØM AND CRØWN”. Hoje poderíamos estar diante de mais um trabalho convencional, mas a esposa de Flynn o incentivou a seguir em frente com uma antiga e frustrada tentativa de escrever um álbum conceitual. Já a convivência com os filhos despertou em Flynn sua antiga paixão por animes, e foi baseado na série de um deles, “Attack on Titan”, que ele desenvolveu a trama de “ØF KINGDØM AND CRØWN”. Para saber mais alguns detalhes do novo álbum e dessa união metálica com a família, conversamos com Robb Flynn, que desembarcou em São Paulo para compromissos com a imprensa e um pocket show realizado no dia 5 de outubro (leia aqui), antes de o restante do Machine Head chegar para uma mini-turnê no país no final do mês.
Antes de falarmos do novo álbum do Machine Head, vamos lembrar dos duros dias de pandemia. Como foi para você ter que dar um tempo de turnê devido a esse episódio terrível para a humanidade? Eu realmente curti suas livestreams “Electric Happy Hour” às sextas-feiras. Obrigado por nos entreter na quarentena!
Robb Flynn: Não podíamos fazer outra coisa, né? Eu não podia sequer encontrar com o meu baixista! Depois de um mês eu estava enlouquecendo! (risos) Eu precisava tocar! Como eu estava sozinho, pensei “Quer saber? Vou entrar ao vivo no Facebook e tocar umas músicas acústicas. Provavelmente vai ficar um lixo, mas e daí?!” Dá pra ler os comentários lá e essa conexão foi importante para mim naquele momento, eu precisava daquela conexão. Depois disso as coisas começaram a andar, o Jared (MacEachern) já podia me encontrar e começamos a trabalhar em músicas juntos, o Matt (Alston) começou a gravar as baterias, nos mandou as trilhas de bateria e nós tocamos em cima delas, e virou essa coisa imensa, tínhamos 350 músicas, com uns 50 covers e de muitas formas durante esse tempo os nossos cérebros estavam constantemente em movimento pela música, o que eu mais amei daquele período é que era somente sobre música. Eu não estou tentando ser um influencer, não estou tentando criar conteúdo para o Instagram, eu faço música, eu componho, é isso o que eu faço. Essa era a minha forma de me conectar, e não postar uma foto minha jantando (risos), era tocando música, atendendo a alguns pedidos dos fãs. Acabou sendo um formato diferente, afinal não era um show ao vivo normal, a gente jamais tocaria ØF KINGDØM AND CRØWN na íntegra, mas fizemos isso há três semanas, jamais tocaríamos The More Things Change na íntegra, normalmente nós misturaríamos as músicas, mas esse formato nos permitiu fazer isso, essa coisa totalmente diferente, mas que ainda era sobre nós e a nossa música. Tivemos o Dino (Cazares) e o Milo (Silvestro) do Fear Factory como convidados, a gente tocou um monte de músicas deles, eles tocaram um monte de músicas nossas, aí eles falavam “vamos tocar um Hatebreed juntos!” e tocamos o Hatebreed! (risos) Tudo muito espontâneo, divertido e era sobre música, nada das outras bobagens que rolam nas redes sociais. Era somente música e foi isso o que nos preencheu.
Qual foi o seu sentimento em ter que entreter o público sem tê-lo literalmente na sua frente?
Robb: Eu usei o meu celular para gravar, então eu conseguia ler os comentários rolando. Eu fazia comentários sobre o paredão de emoji de fogo que aparecia na tela (risos), então a gente sabia que as pessoas estavam ali, eu parava para conversar entre as músicas, então tinha plateia, mas não tinha. Quando a gente ensaia também não tem plateia, quando treinamos para uma turnê não tem plateia e a gente faz umas jams e curte a música, a diferença era que havia 1200 pessoas assistindo. Eu me sinto muito sortudo, eu toco metal, eu bebo cerveja enquanto trabalho e as pessoas nos dão dinheiro, é muito louco! (risos) Nós temos fãs incríveis, apoiam muito o Machine Head, então foi bem legal.
Ainda sobre a pandemia, eu li que naqueles dias sua família teve influência no que veio a ser o novo álbum do Machine Head, você curtindo animes com seus filhos, sua esposa te aconselhando a fazer um álbum conceitual… Percebo que a quarentena em família lhe contribuiu em uma carga positiva de energia para o presente e o futuro do Machine Head.
Robb: Sim. Eu tentei fazer um disco conceitual algumas vezes e esse é o primeiro que eu concluí. (risos) Eu comecei dois anteriormente, mas não achei que funcionavam bem e os abandonei, por isso minha esposa começou a falar para tentar mais uma vez porque seria um produto interessante e também construiria uma conexão mais profunda com o disco, então eu tentei e desta vez… Eu compus 19 músicas nesse período e lancei nove delas separadas do ØF KINGDØM AND CRØWN, como singles, e eu as compunha sem uma ordem definida, tipo, “ok, essa aqui é uma boa música, mas não combina com o disco, pode ser um single”, e assim foi até que eu ficasse de mãos vazias, aí eu percebi que sabia o caminho a seguir – coisa que eu não sabia no começo, a gente nunca sabe. Quando chegamos em Slaughter The Martyr e eu terminei a introdução dela – porque eu tinha umas melodias soltas, Jared mandou as melodias dele, a gente tinha só uma base crua para trabalhar em cima – eu compus uma tonelada de letras numa manhã, sentei e pensei “não sei se isso vai dar certo, mas vou tentar cantar todas elas” e funcionou! Aquele ‘take’ que você ouve no disco é o da primeira vez que eu cantei a música, literalmente. Essa música é exatamente assim: foi a primeira vez que eu cantei aquelas melodias, a primeira vez que cantei aquela letra, que ainda estava escrita à mão no papel frente e verso. Eu só tinha a intro e o refrão, nada no meio, e pensei “se eu conseguir fazer essa música dar certo, poderei fazer o disco todo dar certo”, eu reescrevi a letra umas vinte vezes – escrevia, jogava fora, escrevia, jogava fora – e quando finalmente eu encontrei a letra certa e concluí a intro, eu entendi como seria o restante do disco, entendi como ligaria as músicas.
O que veio primeiro em ØF KINGDØM AND CRØWN, a música ou a história?
Robb: A música sempre vem primeiro em 99% das vezes e eu faço as letras dentro da energia da música, de acordo com as melodias, se eu vou gritar ou cantar, coisas assim.
Já que sua esposa o incentivou a compor um álbum conceitual, ela acompanhava o desenvolvimento do álbum, do conceito, das letras?
Robb: Estávamos bêbados na garagem às 11h da noite, ouvindo música, falando alto e ela virou pra mim e disse: “você deveria fazer um disco conceitual!” (risos) Eu sabia que era um disco conceitual, eu tenho um pouco de dificuldade de ouvir as letras porque meus ouvidos sempre focam nas guitarras, e ela disse: “cara, preste atenção nas letras”, e as cantou – porque ela conhece todas as letras – e aí eu percebi que tinha uma história foda sendo contada ali. Eu amei esse disco por mais de 20 anos, e depois desses anos todos eu passei a gostar dele ainda mais porque agora eu o entendo mais ainda. Dizer “vou fazer um disco conceitual” não significa que você fará, o mesmo se você disser “vou fazer músicas de Thrash Metal”, é preciso deixar a música fluir, as letras fluírem. Pra mim a música tem que ir para onde ela te guia, se você tentar forçá-la a ser apenas Thrash fica brega e falso, como se você estivesse fazendo força para ser alguma coisa. Música é uma expressão, uma criação.
Falando em álbuns conceituais, existe algum no heavy metal ou no rock and roll que tenha sido importante em sua vida?
Robb: Eu amo o “Operation: Mindcrime”, amo “The Wall”, “Sargent Peppers”, My Chemical Romance… Eu sou um grande fã do “Operation: Mindcrime”, vi ao vivo na íntegra há 10 anos, na celebração do aniversário do disco.
Evento An Evening with Robb Flynn, que rolou em São Paulo na Concept Store VCI no último dia 5 de outubro
No caso de ØF KINGDØM… a trama é baseada na série do anime “Attack on Titan”, e se passa em um deserto futurista dizimado, no qual o céu está manchado de vermelho carmesim. Temos na história dois personagens principais, Ares e Eros. Confesso que nunca assisti essa série…
Robb: Eu tinha o conceito e sabia sobre o que eu queria falar. Era sobre dois personagens, amor, assassinato e vingança. Eu era viciado em anime quando era criança, eu era nerd de Star Wars e me tornei nerd de animes, assistindo “Akira”, “Robotech”, “Space Battleship Yamato”, todas essas obras japonesas que eram importantes. Eu não deixei de assistir, só não acompanho tanto quanto antes e nunca falei sobre anime com os meus filhos, mas eles começaram a curtir e eu fiquei pasmo! (risos) Contei que eu amo anime e passei a assistir os programas que eles estão assistindo e são brutais! Machadadas na cabeça, sangue espirrando, meu Deus! Eu passei a assistir com eles, é uma série longa com 80 episódios por temporada e são quatro temporadas! Então enquanto eu compunha o disco, aconteceu de estar assistindo um desses episódios à noite e a forma como eles contavam a história… Eu estava compondo uma história meio “cara bom, cara mau”, e no caso de “Attack On Titan” ambas as pessoas eram boas e más e esse aspecto mudou toda a história, porque Ares perde o amor de sua vida – que é assassinado – e Eros perde sua mãe para uma overdose de drogas, se torna uma pessoa radical por causa de uma seita, se torna um assassino e mata o amor da vida da Ares, então é sobre como essas duas vidas se entrelaçam. Para mim são assuntos com os quais eu me identifico, que são o amor e a perda do amor, são sentimentos poderosos. Enquanto compositor, eu venho compondo músicas para o Machine Head há 32 anos e todos os discos anteriores eram sobre como eu vejo a sociedade, como eu vejo o mundo, meus demônios, minhas lutas e agora eu não preciso escrever sobre mim, tem que se conectar comigo em algum nível, de alguma forma, mas agora era a hora de falar sobre dois personagens que estão em pontos opostos e torná-los simpáticos e críveis, fazendo com que você se importe com eles. Foi desafiador, mas também foi compensador ao mesmo tempo porque foi ótimo sair da minha zona de conforto e fazer algo totalmente diferente.
Foi fácil para você escrever o conceito pela perspectiva de uma mente violenta, homicida?
Robb: Foi muito fácil! (risos) Foi chocantemente fácil. A parte mais metal, que mais me agrada nisso tudo é poder me meter nesses detalhes violentos e sangrentos. Algumas bandas falam sobre vikings e fantasia e eu adoro isso, outras bandas falam sobre morte e sangue e eu adoro isso também. O Machine Head – acho que devido à nossa influência do Punk Rock e Hardcore – sempre foi sobre a realidade da sociedade, crescemos em Oakland e nos preocupávamos de sermos baleados ou esfaqueados, essa mentalidade urbana muito intensa. Eu espero que, agora que envelhecemos, nós consigamos mudar de contar histórias sinistras das ruas para contar sobre as experiências humanas nas letras, acho que amor, assassinato e vingança são experiências muito humanas.
Você ainda vive em Oakland?
Robb: Meu estúdio fica em Oakland, mas eu não. Depois que tive filhos, eu saí de lá.
ØF KINGDØM AND CRØWN
Este é o primeiro álbum do Machine Head com a formação atual. O que há de revigorante e de estressante em aclimatar novos músicos à essa sua principal herança musical?
Robb: Tudo foi bizarro porque estávamos no meio da maldita pandemia! Não poderíamos estar juntos nem se quiséssemos. E fizemos como muitas bandas jovens que eu conheço e troco ideia, eles nem ensaiam, eles gravam um riff, mandam por email para o baterista, o baterista toca junto com o clicktrack, dali vai pro email do baixista, algum amigo recebe por email para ouvir e eles nunca se encontram! Eu acho uma maluquice! Eu cresci tocando junto com os caras, na mesma sala. Agora existem outras formas de fazer música e 90% das bandas que estão nessa faixa etária dos 20 anos – e eu ouço várias de Death Metal e Metalcore – é assim que elas compõem e aí eu pensei, “bem, se os caras com 20 anos estão fazendo isso, eu também posso tentar”. Comecei a mandar as músicas por email para o Vogg, Matt e Jared, cada um colaborava de uma maneira, eu juntava tudo e funcionou muito bem. Toda banda faz uma demo das músicas, mas neste disco nós não fizemos assim porque nos últimos três discos nós acabamos usando quase todas as faixas demo e incluindo-as no disco, desta vez eu me certifiquei de que praticamente tudo o que se ouve nele era a minha primeira vez cantando, era a primeira vez eu tocando guitarra. Como diz Neil Young, “o primeiro ‘take’ é mágico”, ou seja, se você toca a mesma música 20 vezes até gravar, ela vai perdendo a inspiração e a magia dela, então neste disco eu fiz tudo de primeira: cantar, tocar guitarra, ler as letras, para captar essa energia de “não saber o que estou fazendo”, aquela tensão de “espero que esteja dando certo!” e isso foi muito bom.
Vamos voltar a falar de Slaughter the Martyr. Como foi a experiência de compor uma música de 10 minutos, um épico com muitas partes atmosféricas, partes progressivas, acústicas, talvez, à um som pesado? Admito que essa é a minha favorita do disco.
Robb: Eu gostaria de ter uma boa resposta para esta pergunta (risos). Acho que se você assistir ao making off tem uma parte onde eu estou gravando essa intro na guitarra e ali você verá que eu estava tipo “não sei pra onde isso vai! Nem sei se vai entrar no disco!”(risos) Esse é o tipo de coisa que nunca se sabe. Pra mim, compor uma música ou um disco é como estar num quarto completamente escuro, tentando chegar na porta, e você vai tateando as coisas e tentando reconhecê-las, você não sabe para onde está indo até que um dia você encontra a maçaneta da porta, abre a porta e entende para onde está indo.
E qual a sua música favorita no álbum? Sei que elas “são como filhos”, mas escolha uma.
Robb: Eu não consigo escolher uma, eu gosto de todas elas, mas HOJE eu escolho a Arrows in Words From the Sky porque nunca fizemos uma música como essa, ela mudou tudo, mudou a forma como eu vejo o disco. Existem momentos quando fazemos um disco em que realmente não temos noção do que conseguimos fazer e ficamos meio ‘a gente consegue fazer esse tipo de coisa? Sério?’ e foi esse o caso com essa música. Quando a concluímos eu soube que tínhamos algo especial ali – e eu cantei todos os vocais nela numa ressaca brutal! (risos) Eu tinha a intro e tinha os refrões, mas não tinha nada para as estrofes, aí uma noite, depois de ficar completamente bêbado com a minha mulher na nossa garagem – era algo que a gente fazia às sextas e aos sábados durante a pandemia – entenda: quando se tem filhos pequenos, cada minuto da sua vida é dedicado a eles, levar pra escola, levar para o baseball, levar para o futebol, não dá nem tempo de conversar com a sua mulher! Quando a pandemia chegou, estávamos em casa com duas crianças de 13 e 15 anos, que já eram crescidas o suficiente para ficarem quietas assistindo algo no YouTube ou jogando videogames, então eu e minha esposa nos demos conta de que poderíamos nos divertir enquanto eles estavam lá fazendo as coisas deles de boa. Passamos a fazer isso, beber na nossa garagem, ver o sol se pôr e passar tempo só nós dois, coisa que não fazíamos há quase 20 anos! Era como ter um encontro, depois de anos! E como eu dizia, depois de um desses “encontros na garagem”, ela foi dormir e eu ainda fiquei pensando nas letras, fui deitar pensando nisso, não conseguia dormir e levantei tipo três horas da manhã com a letra completa na cabeça. Escrevi, voltei a dormir e quando acordei de vez, pensei, “Agora terei que cantar isso”, mas eu estava com uma ressaca mortal! Cantei assim mesmo, pensando que serviria como um esboço para os vocais, para eu testar as ideias que tive, mas quando terminei eu percebi que estava muito bom! Mesmo assim eu voltei a cantar essas letras uns dias depois, sem a ressaca, para ouvir como soaria e me pareceu que algo havia se perdido, porque na primeira vez eu estava sem saber muito bem qual melodia seguir e essa era a magia da coisa. Talvez a ressaca também tenha me dado um “plus” na voz, aquela voz meio rasgada pelo whisky e é isso que foi pro disco. Essa é a minha escolha favorita hoje, talvez amanhã eu escolha outra.
Robb Flynn de volta à São Paulo depois de 8 anos | Foto: Baffo Neto
Há alguns músicos que nós sentimos que são verdadeiramente fãs de heavy metal. Rob Halford, Max Cavalera, Mille do Kreator e você, por exemplo. Vocês são músicos que ouvem novas e velhas bandas e apoiam nossa cena. O quão importante o heavy metal é para a sua vida?
Robb: O Metal salvou a minha vida! Eu sei que essa é uma resposta muito clichê. No começo da banda, a gente andava com uma galera muito estranha, brigávamos o tempo todo, éramos violentos, todo final de semana eu entrava numa briga e escapei da morte algumas vezes. Depois eu tive um período de longos meses em que um líder de uma gangue queria me matar, então eu andava armado, dormia com uma faca debaixo do travesseiro e em algum momento eu pensei “eu não quero mais esse tipo de vida, só quero tocar minha música”, o que eu sempre quis fazer na vida era tocar Metal, Thrash, tocar minha guitarra e cantar. Em alguns momentos o Machine Head e a minha vida estavam indo para caminhos diferentes e eu escolhi o caminho do Machine Head, era o que eu mais queria fazer, então decidi parar de fazer merda, botar minha vida nos trilhos porque senão eu acabaria morto, ou preso, ou ambos. Por isso o Machine Head e o Metal – porque eu ia a todos os shows e vi alguns que mudaram a minha vida e me fizeram acreditar na música e acreditar no mundo – salvaram a minha vida, porque salvaram mesmo. E você falou em apoiar a cena, eu continuo fazendo isso, eu ainda vou aos shows porque eu quero ser arrebatado por cada banda que eu assisto, eu quero assistir a uma banda ao vivo e falar “caralho, isso é muito foda!”, porque essa é a melhor sensação do mundo! Quando eu vi o video de “To the Hellfire” do Lorna Shore eu fiquei chocado! É incrível! A gente pode não conseguir levar cada banda conosco em turnê, mas eu as coloco no meu podcast, entrevistei o Will do Lorna Shore, entrevistei o guitarrista do Slaughter To Prevail, entrevistei vários amigos meus e essa é a minha maneira de devolver para a comunidade o que fizeram e fazem por mim e pela minha banda. Quando eu ouço uma banda que eu acho que é incrível, eu quero que outras pessoas a conheçam também porque a única coisa que faz sucesso no mundo é pop e hip hop – ainda que eu goste de alguma coisa de pop e hip hop, eu não preciso de mais uma banda de K-Pop! (risos)
O que você sente, por exemplo, da mistura entre Anthrax com Public Enemy, por exemplo?
Robb: Isso faz muito tempo, mas foi muito legal.
De verdade, gostei de saber que você é fã de My Chemical Romance. Muito legal isso, uma surpresa!
Robb: Sim, sou mesmo.
Você está retornando para uma turnê no Brasil, oito anos depois, finalmente. Aliás, esperamos que a banda inclua o Brasil em suas próximas turnês. O que você pensa da América do Sul como mercado para o heavy metal?
Robb: Bem, eu acabei de chegar (risos). Da última vez que tocamos aqui, foi insano! Tinha uma roda imensa, todo mundo pulando, gritando, cantando, foi mágico! Estou muito animado por ter voltado. Ano passado, quando retornamos com a turnê, as pessoas ainda estavam receosas de se contaminarem com a covid, mas acho que agora esse medo passou, então acho que os shows aqui serão incríveis.
Quais suas melhores lembranças da última vez do Machine Head no Brasil, em 2015?
Robb: Eu tenho uma memória muito vívida do show em São Paulo. É meio estranha (risos). O show obviamente foi foda, a gente tocou Clenching the Fists of Dissent e eu lembro que terminamos ela com uma jam… essa música termina com uma guitarra limpa e eu lembro que comecei um solo – essa é uma lembrança muito estranha (risos) – e adicionei umas partes de “Hello” do Lionel Richie (risos) e partes de “Wish You Were Here” do Pink Floyd, e não faço ideia do porquê eu fiz isso. Acho que era pra gente tocar outra música, mas o baterista precisava arrumar alguma coisa na caixa e me pediu para tocar qualquer coisa enquanto ele consertava, aí eu comecei esse Lionel Richie – Pink Floyd e de alguma forma deu certo (risos) Lembro da plateia aplaudindo, gritando e eu “cara, que doideira!” Foi uma jam super aleatória!
Muito engraçado você mencionar o Lionel Richie; acho que ele está me perseguindo, porque há algumas semanas assisti ao show do Toy Dolls e a introdução do show era justamente um trecho de Hello. (risos)
Robb: Cara, eu aprendi a tocar esse solo e toco nota por nota, eu adoro essa música! Acho que é um dos melhores solos de guitarra da história do Rock N’ Roll! Um abraço, Lionel!! (risos)
O que você pode nos dizer sobre a turnê do Machine Head no final deste mês de outubro? Estou contente que o show de São Paulo será meu primeiro do Machine Head e cairá bem no dia do meu aniversário!
Robb: Eu espero que aconteçam mais momentos como esse que eu relatei. Será o seu primeiro show? Então você nem sabe o que te espera, né? Mas você sabe da roda, sabe do pessoal rodando as camisetas no ar, sabe que todo mundo canta todas as músicas, bate cabeça… Cara, vocês aqui na América do Sul, vou te dizer, vocês são perfeitos no tempo e na afinação! Não preciso nem de metrônomo! (risos)
Para muitos dos ávidos fãs espalhados ao redor de todo o mundo, falar de power metal (do speed ao melódico) é o mesmo que falar da Alemanha. Afinal de contas, desde os anos 80 são muitas as bandas alemãs que não apenas abraçaram o estilo, mas remodelaram, redefiniram e expandiram os seus limites com destreza absurda ao longo dos anos. Embora seja praticamente impossível encontrar todos os pontos em comum entre todos aqueles nomes seminais, uma pessoa aparece ligado a maior parte desses atos: o vocalista, tecladista, guitarrista, produtor e engenheiro de som alemão Piet Sielck. Ativo no cenário do metal germânico há cerca de quatro décadas, Sielck já havia trabalhado com Kai Hansen (Helloween, Gamma Ray) nos anos 80, com sua antiga banda Gentry, além de ter tido a companhia de Ingo Schwichtenberg (lendário baterista do Helloween, falecido em 1995) e Markus Grosskopf (baixo, Helloween) no mesmo projeto. Expandindo seus horizontes, Sielck se tornou produtor, e assim trabalhou ao lado de nomes como Grave Digger, Blind Guardian, Gamma Ray e muitos outros, mostrando mais uma vez que ele entende do assunto. Porém, foi na segunda metade dos anos 90, ao fundar o Iron Savior que ele deu sua maior contribuição para a história do metal. Criada originalmente ao lado do velho parceiro Kai Hansen e do baterista Thomen Stauch (então integrante do Blind Guardian), a banda apostava no power metal e em letras profundamente marcadas pela ficção-científica, gênero favorito do nosso entrevistado. Confira o que o experiente músico alemão nos contou sobre suas preferências e caminhos ao longo dos últimos quarenta anos.
Você tem uma história de mais de quarenta anos dedicados a música pesada, e toda essa história começou com o Gentry, certo?
Piet Sielck: Isso mesmo. Era 1978, e aquela foi a primeira fagulha de criatividade que eu e Kai tivemos, foi ali onde tudo realmente começou para nós. Não teve uma grande história de revelação, pois naquela época as coisas ainda não eram assim, não havia toda uma mítica em torno desse tipo de música por aqui, então tivemos um começo bem comum e bem humilde, acho que bem parecido a todas as outras bandas alemãs da época.
E como foi isso?
Piet: Bem, eu e ele frequentávamos a mesma escola, e durante as férias de inverno resolvemos nos reunir, já que tínhamos interesses musicais bem parecidos. Você sabe, ambos gostávamos de Deep Purple, Sweet e bandas assim, e éramos os únicos que tinham interesse em música pesada, então foi bem natural que nos conectássemos naquela época. Bom, no fim das contas descobrimos que ambos tocávamos guitarra, e então resolvemos que tínhamos o que era preciso para montar uma banda.
Mas é claro que não tinham.
Piet: Não mesmo (risos). Chamávamos aquilo de banda, mas éramos dois guitarristas e um baixista, quer dizer, não tínhamos um baterista. Aí me vem uma pergunta, como fazer heavy metal sem bateria? Trabalho há décadas com esse tipo de música, e ainda não achei a resposta, mas de alguma maneira, naquela época achei que daria certo (risos gerais).
Bem, vocês tinham que começar de algum lugar.
Piet: Exatamente, foi isso mesmo que pensamos. Não poderíamos simplesmente sentar e esperar que um baterista surgisse do nada pronto para nos transformar no Deep Purple (risos), então começamos a trabalhar com as ideias e o material humano que tínhamos em mãos, simples assim. Bom, tínhamos cinco músicas razoavelmente prontas, e após alguns meses de ensaios, estávamos inscritos em um torneio de bandas local. Aquilo foi meio que um impulso, pois sabíamos que não poderíamos tocar ao vivo sem um baterista. Ao mesmo tempo, não estávamos satisfeitos com os vocais, então corremos atrás de um baterista que era de uma série acima da nossa na escola, e de um vocalista, também mais velho que nós. Com essa formação, conseguimos vencer a batalha de bandas, e aquilo realmente foi algo grande para nós. Quer dizer, com aquele resultado ficamos convencidos de que queríamos ser estrelas do rock, e que talvez tivéssemos o que era preciso para isso. Bem, não sei sobre ser uma estrela do rock, mas 45 anos depois estamos aqui, falando sobre a minha jornada na música, então acho que fizemos algumas apostas certas. E aquela banda, aquele momento com o Gentry, aquilo foi o início de tudo.
No fim das contas, foi uma boa história de origem.
Piet: É, não foi tão fraca e comum quanto eu pensei que seria (risos gerais).
E em uma época interessante, quando Scorpions e Accept eram as coisas mais pesadas no cenário alemão.
Piet: Ah sim, é verdade. Eles eram ótimos, eu lembro especialmente quando o Scorpions lançou o ao vivo Tokyo Tapes (1978), aquilo foi um achado e tanto para mim. Quer dizer, era uma banda alemã realmente boa, e que estava se dando bem fora da Alemanha, o que nos dava esperança. Víamos todas aquelas bandas britânicas e americanas como heróis, e era bom ter alguns heróis mais próximos de nós, do nosso país. Foi um exemplo importante para o nosso início, ninguém jamais deveria menosprezar algo assim. Bem, eles ajudaram a definir a maneira como víamos o heavy metal, e teve uma outra experiência bem importante que eu e Kai vivemos na época, e que sei que teve tanto impacto para mim quanto para ele.
E o que foi?
Piet: Bem, você lembra a sensação que é quando você está descobrindo o metal, aquela coisa de encontrar a sua nova banda favorita a cada nova audição, certo?
Claro.
Piet: Pois é, nós amávamos música pesada e estávamos descobrindo mais e mais a cada dia, e então tivemos a chance de assistir alguns shows incríveis que meio que formaram o nosso caráter. Lembro especialmente daquela noite, fomos ver o AC/DC, a última turnê deles com o Bon Scott (N.R: vocalista falecido em 1980). A banda de abertura era o Judas Priest. Imagine como foi aquela noite para nós!
Definitivamente, eu posso imaginar.
Piet: Aquilo foi absolutamente incrível, minha mente estava explodindo a cada momento! O Judas Priest foi a coisa mais sensacional que já tínhamos visto, eles pareciam a definição mais precisa de tudo o que era heavy metal. Ainda penso isso, ainda acho que eles são a banda perfeita de heavy metal, a música, a performance, a imagem, tudo! Amei o show do AC/DC naquela noite, mas o Judas Priest abriu nossos olhos para o que realmente poderia ser feito com o heavy metal como plataforma.
Sim, eles estavam em um nível completamente diferente de qualquer outra banda naquela época, e realmente devia ser algo incrível para garotos que almejavam uma vida na música presenciar aquilo.
Piet: Você nem faz ideia, eu lembro e ainda sinto um formigamento nas mãos (N.R: Piet fica com os olhos cheios de lágrimas, visivelmente emocionado). Você nem pode imaginar o quanto aquilo foi importante para nós, uau. Eu ainda tenho essa imagem nítida na minha cabeça, do Rob Halford com aquela moto gigante, Glenn Tipton e K. K. Downing fazendo todos aqueles trejeitos com suas guitarras, tudo que pensávamos era ‘é isso, é exatamente assim que uma banda tem que ser no palco’. E eles tocaram o set completo que você ouve no Unleashed In The East (1979), então você sabe, não havia nada menos do que perfeição ali! Eles tocaram Exciter, cara! Sabe, eles tocaram Exciter e nós já estávamos convencidos que aquilo nunca sairia das nossas mentes, e de fato, nunca saiu. Ainda acho que Exciter foi a primeira música, aquela que definiu as bases do speed metal. Veja, eu trabalho com música pesada há mais de quarenta anos, já fiz e assisti milhares de shows, trabalhei com inúmeras bandas ótimas no estúdio, e ainda fico assombrado com o Judas Priest naquela noite!
Você estava indo muito bem, mas acabou deixando os palcos por muito tempo.
Piet: Sim. Começamos como Gentry e tudo estava indo bem, viramos Second Hell, depois por algumas semanas fomos Cronos, e por fim a banda se chamava Iron Fist, e a verdade é que mudar o nome não adiantava, eu me sentia esgotado. Eu estava frustrado, pois depois de um bom início, parecia que não havia mais nenhuma evolução para nós. Eu não estava mais tendo prazer com aquilo, então resolvi dar um tempo e fazer outras coisas.
Eventualmente você voltou para a música, mas primeiro como produtor. Por quê?
Piet: Acho que quando você realmente ama música, não consegue ficar longe por muito tempo. Mas, quando resolvi voltar, percebi que a Alemanha tinha muito mais músicos excelentes do que produtores excelentes. Eu estava trabalhando em estúdios com mixagens e engenharia de gravação, e aprendendo mais a cada dia. Sentia-me muito bem com aquilo, e ajudava as pessoas a fazer as músicas que amávamos, então, foi uma escolha bem fácil naqueles tempos. Virei um nerd dos consoles de gravação, mas acabei voltando para a guitarra poucos anos mais tarde.
Sim, o Iron Savior nasceu em 1996, e desde então tem estado ativo. E sinto que você deixou transparecer outra paixão com essa banda.
Piet: Sim, chegou um dia que senti vontade de ao menos tentar algo de novo. Não tinha noção se daria certo, mas não queria um dia acordar, quando fosse tarde demais, pensando que eu deveria ao menos ter tentado. Tentei, e felizmente a Noise gostou o suficiente para assinar conosco. Sou feliz de a banda estar ativa até hoje, e ter onde colocar as minhas histórias de ficção científica (risos gerais). Então, sim, acho que você está certo quanto a revelar uma outra paixão (risos).
Na Noruega dos anos 90, se uma nova banda surgia em qualquer lugar do país, você já sabe, era quase certeza de se tratar de uma nova formação de black metal. Se não fosse, a chance predominante era de ser uma banda gótica do estilo ‘beauty and beast’, bem aos moldes dos clássicos Theatre Of Tragedy, Tristania e Trail Of Tears. Obviamente não era só isso que existia na cena pesada norueguesa, e um dos melhores exemplos disso era o Gothminister. Formado em 1999, o projeto musical liderado pelo vocalista Bjørn Alexander Brem não caminhava pelas trilhas do black nem tampouco do gothic beauty and beast, mas incorporava elementos específicos de ambas em sua inteligente trama musical, trazendo trevas ao chamado gothic industrial metal. A despeito das probabilidades negativas (por conta do que explanamos no início), o sucesso veio rápido, e já com o lançamento do seu debut, Gothic Electronic Anthems (2003) a banda se tornou sensação especialmente na Alemanha, onde a mistura de música gótica, eletrônica e industrial sempre teve grande público. O álbum seguinte, Empire of Dark Salvation (2005) garantiu uma exposição internacional ainda maior, sendo lançado inclusive no Brasil, e todos já percebiam que a banda era uma realidade e uma constante no cenário. A passagem dos anos, as inevitáveis transformações na indústria musical e na maneira como consumimos música, nada disso parece ter afetado o apetite musical do Gothminister (nome adotado pelo líder, Bjørn Alexander Brem) que se mantém firme e lançando novo material em intervalos regulares. Veja o que ele tinha a nos dizer sobre isso.
Uma das coisas que sempre me marcou na música do Gothminister é a maneira como equilibram os dois lados da música industrial, de um lado os riffs gordos e repletos de groove do industrial metal, e de outro, a ambiência e atmosfera do eletrônico. Tudo isso gera uma inequívoca aura gótica na sua música. Como foi sua relação com a música gótica, na juventude?
Bjørn Alexander Brem: Bem, no início de tudo, ainda antes de eu pensar em compor minhas próprias músicas, eu era muito fã de música pesada. Você sabe, ouvia muito thrash, death e black metal, e ouvia até um pouco de power metal, ocasionalmente, embora não fosse nada do que eu realmente gostava. Existiam algumas bandas que eu seguia com mais atenção, Obituary, Kreator, Coroner, Slayer, Metallica, Iron Maiden, Manowar, você sabe os gigantes da nossa época, aquelas bandas que você simplesmente não tinha como evitar porque eram boas demais e estavam em todos os lugares. Dentre as bandas que eu também apreciava muito, estava o Paradise Lost, mas na época ainda não tinha assimilado toda essa coisa do gótico, foi algo que foi vindo aos poucos, conforme eu ia me envolvendo mais e mais com a música no papel de música, e não apenas como fã.
E quando isso efetivamente começou a ocorrer?
Bjørn: Ah, já foi há muito tempo, meu amigo! Veja, lá pelo final dos anos 80 eu e alguns amigos já tínhamos uma banda de thrash metal. Na Noruega nunca tivemos muitas bandas de thrash, o que é engraçado, pois existiam muitos fãs desse tipo de música por aqui, mas a coisa simplesmente não vingava, parece que o lance era o death e o black.
É verdade, mas ainda assim acho que o Equinox estava entre os melhores em todo o mundo.
Bjørn: Ah sim, concordo totalmente. Eles eram ótimos, muito técnicos. Acho que sempre foram os maiores do thrash por aqui, conseguiram até um contrato internacional, eu acho (N.R: Em 1990 o Equinox assinou com a poderosa RCA para o lançamento de seu segundo álbum, The Way To Go. O acordo ainda incluiu o próximo e penúltimo álbum oficial dos noruegueses, Xerox Success, de 1992). Mas as coisas realmente não aconteciam para o thrash por aqui, então nós acabamos ficando para trás. Nos anos 90, ainda na primeira metade da década, já me envolvi com uma banda industrial, o Disco Judas. Fiquei com essa banda de 1994 até 1999, que foi quando a banda se separou. Naquele mesmo ano, formei o Gothminister.
Como funcionou essa história?
Bjørn: Bem, a história por trás no nascimento do Gothminister é que um amigo me convidou para ir com ele até um clube gótico, um dos muitos que tinham na Noruega naquela época. Ele falou que deveria ir, porque era algo muito diferente e que iria expandir meus horizontes artísticos, a coisa toda que você fala quando quer convencer alguém a fazer algo (risos). Eu fui até lá, e detestei o visual, era tudo andrógeno demais para mim, muito distante de toda a experiência que tinha tido no mundo do metal até então. Eu pensava, ‘ok, não é isso que quero para mim, definitivamente não é isso que quero fazer’. Por outro lado, a música já tinha me conquistado! As melodias melancólicas misturadas com aquelas batidas dançantes, a coisa toda acabou me ganhando com a musicalidade e o ambiente. Bom, naquela mesma noite, após várias cervejas, comecei a conversar com o meu amigo, falei que aquilo me dava uma visão, que imaginava uma banda que pudesse mesclar aquilo com as guitarras pesadas de um Rammstein ou Ministry, uma banda que atuasse como uma espécie de liderança para aquele cenário, um ‘Gothminister’, por assim dizer. Disse que queria uma imagem mais masculinizada, mais assustadora, mais rígida e autoritária, para combinar com a proposta do ‘goth’ e do ‘minister’, entende? Tinha que ter a aura do ‘gótico’, mas também aquela sensação de autoridade do ‘ministro’. A ideia, o conceito nasceram basicamente pronto na minha cabeça.
Inspiração em estado bruto.
Bjørn: Sim, boas ideias nasceram daquele dia, que não esqueço por vários motivos. Primeiro, porque foi basicamente ali que nasceu o Gothminister. Segundo, porque fiquei realmente bem doente.
O que houve?
Bjørn: Basicamente, tive uma noite muito divertida, bebi muitas cervejas, tive boas ideias e de alguma maneira perdi a minha jaqueta. No final da noite, lá estava eu, voltando para casa apenas de jeans e camiseta em plenos -22ºC. Aí está uma experiência que não recomendo para ninguém, não façam uma idiotice dessas (risos).
Ah, entendi. Foi uma experiência do tipo ‘quase morri, mas me sinto bem’.
Bjørn: Pois é, literalmente isso (risos). Eu tive uma inflamação grave na garganta, achei que nunca mais poderia falar, mas isso nem foi o pior. Passei muito tempo de cama, febril, aquilo literalmente quase me matou. Tive que pausar meus estudos enquanto me recuperava, mas foram naqueles dias que escrevi as primeiras músicas do Gothminister, então acho que tudo bem, é um bom equilíbrio (risos).
Acho que é a primeira vez que ouço uma história assim como a gênese de uma banda.
Bjørn: Ah, a ideia era ser único mesmo (risos gerais). Bem, no início nem era uma banda, era um projeto só meu, um projeto eletrônico de um único homem, foi assim que a coisa originalmente foi concebida. Porém, eu sempre tive minhas raízes no metal, então não queria que ficasse daquele jeito. Eu queria uma banda, queria o som de uma bateria de verdade no palco, guitarras de verdade, música pesada, explosiva. E foi isso que fiz, busquei por instrumentistas, formamos uma banda de verdade e começamos a tocar, e o resto é história.
Pelo que me lembro, no começo foi complicado.
Bjørn: Foi sim, bem complicado. Nós tínhamos a banda, a imagem, o conceito e até as músicas, mas todos nos odiaram na Noruega! Esperávamos que fosse existir uma certa resistência no meio do metal, mas o que aconteceu foi que, no meio gótico, os caras olhavam para a gente e diziam ‘quem vocês pensam que são para chegar aqui dizendo que são os líderes de uma cena que não vivenciam e de que não sabem porra nenhuma?’. Quer dizer, era para ter sido o nosso fim, mas no fim das contas não poderia ter sido melhor (risos).
Como assim?
Bjørn: Ah, o que quero dizer é que no fim não precisamos gastar um centavo com promoção, entende? Aquela reação de verdadeiro ódio que tiveram por nós no meio gótico foi tudo o que precisávamos no início, começamos a ter muita atenção, todos estavam falando sobre nós, éramos uma piada basicamente, mas uma piada que recebia promoção gratuita o tempo todo! E esse ódio dos góticos garantiu nosso espaço entre os fãs de metal (risos).
Se tivesse sido planejado, não teria funcionado tão bem.
Bjørn: Exatamente (risos). E o engraçado é que hoje os góticos nos veem como uma liderança mesmo, vêm nos cumprimentar dizendo o quanto é bom que tenhamos dado certo como banda. Claro, essas são pessoas diferentes daquelas que nos odiaram um dia, mas ainda assim é curioso.
Isso é realmente curioso, acho que ninguém pensaria em algo assim. Quer dizer, a cena gótica era forte na Noruega, a banda Combichrist se tornou realmente grande, e o seu líder também é norueguês (Ole Anders Olsen, que atua sob o nome Andy LaPlegua). Ninguém pensaria que artistas do gênero teriam dias difíceis por aí.
Bjørn: Sim, as coisas as vezes não são tão simples de entender. Conhecemos o Andy, e ele seguiu por esse mesmo caminho, cresceu no hardcore e criou um projeto industrial, que hoje está bem mais focado no metal. A história é bem semelhante, nós fomos odiados na Noruega, e tivemos que estourar na Alemanha antes de ter algum valor por aqui. Andy criou uma banda nos EUA e estourou por lá antes. Parece que para alguém do nosso meio se dar bem por aqui, precisa primeiro se dar bem em outro lugar. Mas é importante que ainda assim todos nós decidimos fazer o que queríamos fazer, e acabamos nos dando bem com isso.