Foto: Wellington Penilha | MHermes Arts
Acompanhe a seguir a cobertura do segundo dia do Bangers Open Air 2026, com os textos das apresentações em ordem cronológica em que os shows aconteceram ao longo do domingo, 26 de abril, nos palcos Ice, Sun, Waves e Hot. As coberturas completas sobre a PreParty, que aconteceu na última sexta-feira (24), de toda a experiência do Bangers Open Air e do primeiro dia do festival, realizado no sábado (25), estão disponíveis nos links abaixo.
PROJECT46 (Ice Stage)Por Marcelo GomesFotos: Bel Santos
O Project46 abriu o segundo dia do Bangers Open Air com a agressividade que já virou marca registrada. Com Japa na bateria e agora com Vini Castellari sendo o único guitarrista, junto com Baffo Neto (baixo) e Caio MacBeserra (vocal), os caras chegaram com os dois pés no peito. Com um setlist agressivo e sem firulas, abriram com Dor, seguida por Impunidade e Violência Gratuita – e, meu amigo, se por acaso alguém estivesse sonolento por conta do horário, teve que acordar de vez.
Sem massagem, o quarteto executou 4six, Rédeas, Na Vala, Erro +55 e Pode Pá com uma brutalidade fenomenal culminando com mosh pits intensos na pista. A banda encerrou sua apresentação com as poderosas Foda-se (Se Depender de Nós) e Acorda pra Vida, deixando o público completamente energizado e pronto para o restante do festival. Foi um show curto, mas intenso, perfeito para colocar gás no evento e cravar a bandeira do metal brasileiro logo cedo.
VISIONS OF ATLANTIS (Sun Stage)Por Fernando QueirozFotos: Andre Santos
Quando passei por toda a pista dos palcos Ice e Hot, ainda com pouca gente, imaginei que, ao chegar do outro lado, no palco Sun, veria um lugar ainda mais vazio. Imenso engano! A aglomeração estava ali. E fazia sentido, pois num dia com tantas bandas de metal melódico ou sinfônico entre as atrações, seria esse o público do dia, então nada mais justo algo no estilo para começar bem a maratona. E esse, marujo, foi um grande acerto, pois fomos todos navegar os sete mares em pleno meio dia.
Com temática de pirataria, tanto nas letras quanto no visual, os austríacos do Visions of Atlantis nos deram um ótimo começo de dia – aliás, sua origem é até uma ironia, pois a Áustria não tem mar! Mas, indo ao ponto, em sua terceira passagem pelo Brasil, os corsários eram comandados no palco pelo capitão italiano Michele Guaitoli e pela amada capitã francesa Clémentine Delauney. Os dois vocalistas, ao vivo, têm completa sinergia no palco, e estão sempre interagindo entre si – além de, claro, serem ótimos cantores.
A uma hora de show que tiveram de palco abrangeu seus três últimos discos, com ênfase nos dois Pirates (partes 1 e 2, esse último com o complemento II – Armada), que são realmente seus melhores trabalhos, e os que mais conquistaram fãs para a banda. Foi um ótimo começo de domingo!
PRIMAL FEAR (Hot Stage)Por Marcelo GomesFotos: Bel Santos
O Primal Fear subiu ao palco com uma formação renovada e uma missão clara: reafirmar seu lugar no power metal. Com Ralf Scheepers (vocais), Thalia Bellazecca (guitarra), André Hilgers (bateria), Magnus Karlsson (guitarra) e Dirk Schlächter (baixo, Gamma Ray), que vem substituindo Mat Sinner que passa por problemas de saúde, iniciaram com a grandiosa We Walk Without Fear, seguida por Destroyer e I Am the Primal Fear, mostrando que, apesar das mudanças na banda, a essência segue intacta com Scheepers entregando aqueles agudos que beiram o absurdo e banda com uma performance beirando a perfeição.
A química entre os músicos ficava evidente, tanto nas partes mais cadenciadas quanto nas passagens mais rápidas e complexas; Seven Seals, The Hunter e King of Madness provaram isso com excelência e a resposta calorosa do público chancelava o resultado. O setlist foi um verdadeiro deleite para os amantes do estilo e não faltaram petardos como The End Is Near, Chainbreaker e a sempre aclamada Metal Is Forever. A banda soou poderosa durante toda a apresentação, provando que o Primal Fear continua sendo um dos grandes representantes do power metal europeu.
CLASH BULLDOG’S (Waves Stage)Por Tony MonteiroFotos: Roberto Sant’Anna
Banda nova (foi criada em 2020 em Nova Friburgo/RJ), o Clash Bulldog’s conseguiu popularidade graças aos shows repletos de energia, comandados pelo performático vocalista Marcelo Braune. Infelizmente, circunstâncias de vida fizeram o frontman se afastar do grupo, sendo substituído por Vitor Pennutt. O novo comandante do microfone não se joga para a performance como seu antecessor, mas compensa isso com uma grande versatilidade vocal e sem exageros, como se viu no show que a banda fez no Auditório Simon Bolivar, no domingo.
A banda também estava de guitarrista novo em relação ao time que gravou o único disco até aqui (Bark Power, 2023). Mauricio Decarlo, é muito discreto em cena, mas compensa isso com uma execução elegante e extremamente talentosa.
Adepta de uma mistura de hard rock com metal moderno e muito groove, que executa muito bem, a banda levou um público bom e muito participativo ao teatro. Mais uma prova de que o underground não só pode como deve ter espaço num evento como o Bangers.
ROY KHAN (Sun Stage)Por Fernando QueirozFotos: Bel Santos
Um dos melhores shows do festival. Ao mesmo tempo, um dos maiores erros dele. Paradoxal? A explicação completa você entenderá com o texto de outra banda a seguir. Por enquanto, vamos ver sobre o artista do momento.
A carreira solo de Roy Khan, ex-vocalista do Kamelot, está intrinsecamente ligada ao Brasil – começou aqui, no ano passado, ao lado de Edu Falaschi; nada mais justo, então, ele também estar presente no festival. Veio tocar somente músicas de sua ex-banda, que é exatamente o que todos querem, e não desapontou. Estava acompanhado dos músicos da banda Seven Spires, além dos brasileiros Caio Kehyayan e Charles Soulz; Juliana Rossi e Fabio Caldeira ficaram nos backing vocals. Um time incrível.
Clássicos como Center of the Universe, Soul Society, Ghost Opera e Forever foram uma injeção de nostalgia a nós, “trintões” que crescemos ouvindo essas músicas – agora tocadas meio tom abaixo, em outro acerto por parte deles (é melhor abaixar do que se forçar desnecessariamente a chegar em notas mais altos). Show para fãs!
Assim como na apresentação anterior, no ano passado, o momento que mais emocionou a todos foi The Haunting (Somewhere in Time), na qual as partes de Simone Simons foram feitas por Adrienne Cowan, e é nítida a conexão de ambos: dramáticos, atuantes, parecem realmente dois atores interpretando uma ópera de Fausto ou uma obra de Goethe. Outra participação mais que especial foi de Alexander Krull nos guturais de March of Mephisto, mas infelizmente seu microfone estava quase inaudível. Tudo excelente, e um dos grandes shows do festival, com exceção do erro mencionado no começo, que direi agora: o palco em que estava! Logo completaremos isso.
NEVERMORE (Ice Stage)Por Marcelo GomesFotos: Andre Santos
O Nevermore trouxe um dos momentos mais simbólicos do festival, com o vocalista Berzan Önen entrando no palco vestindo uma camiseta do Brasil e testando o microfone, gesto que ganhou de imediato o público brasileiro. Em termos de som, a nova formação com Jack Cattoi na guitarra e Semir Özerkan no baixo, ao lado de Jeff Loomis (guitarra) e Van Williams (bateria), carregava a responsabilidade de manter viva uma identidade muito marcante, e Narcosynthesis já mostrou que a proposta era respeitar o legado sem soar presa ao passado. Enemies of Reality e The River Dragon Has Come vieram com peso e precisão, destacando uma banda tecnicamente afiada.
Com Beyond Within, Inside Four Walls e Engines of Hate, o show mergulhou de vez na densidade sonora típica do Nevermore. O público fez a festa na pista com rodas insanas. A reta final com My Acid Words e Born fechou uma apresentação intensa, que equilibrou respeito à história com uma nova fase ainda em construção. As mudanças de formação são inevitáveis, mas o espírito da banda segue vivo e o público aprovou esse novo capítulo.
CHAOS SYNOPSIS (Waves Stage)Por Antonio Carlos MonteiroFotos: Bel Santos
E o underground continuou dando as cartas no Palco Waves, desta vez com o thrash/death do Chaos Synopsis, banda de São José dos Campos, interior de São Paulo. Apesar de ser um grupo com mais de 20 anos de estrada (foi criado em 2005), o Chaos Synopsis tem uma pegada moderna que casa perfeitamente com a sonoridade escolhida pelos músicos.
Logo de cara, o baixista e vocalista Jairo Vaz chamou a galera que estava confortavelmente sentada nas poltronas para] ir à frente do palco agitar. Foi imediatamente atendido e o que se viu a partir daí foi uma interação total entre banda e público que durou todo o show – até abriram uma roda naquele espaço minúsculo, prática que surpreendentemente acabou dando certo (ao contrário do que ocorreu na véspera com o Overdose). Ajudou muito nessa catarse do público o som que vinha do palco, rápido, alto e muito definido, além do ótimo poder de comunicação de Vaz.
O Chaos Synopsis foi mais uma banda que se preparou a contento para a participação no Bangers e fez valer para os fãs cada minuto de seu show.
AMARANTHE (Hot Stage)Por Fernando QueirozFotos: Andre Santos
Lembra quando dissemos, durante a cobertura de Roy Khan, que havia um erro? Aqui está ele! Roy deveria ter tocado aqui, e a agora dita banda, no horário de Roy! Entendamos o porquê.
É verdade que o Amaranthe é uma banda já estabelecida, e até grande, na Europa. Não surpreendente, já que seu som é muito próprio para o público europeu – a mistura de metal, indo do melodic death ao power, com três vocalistas, incluindo a incrível Elize Ryd, junto a algo de eurodance é um prato cheio! Pessoalmente, adoro o som deles, e essa segunda vez que os vi foi tão boa quanto a primeira. Mas sou exceção. Ficou claro que, apesar de ter seu público cativo, que usava camisetas e agitava ali no meio, o palco Hot foi grande demais para eles; até mesmo a ótima performance e as três músicas já clássicas da banda, The Nexus, Amaranthine e Digital World, falharam em levantar a maior parte das pessoas por ali. Não é um tipo de som que, no fim das contas, acaba caindo nas graças dos fãs de metal daqui, em sua maioria (além de não terem tocado Hunger, música que os lançou).
E aqui está o erro: eles deveriam estar no lugar de Roy Khan no palco Sun! Um espaço menor seria mais adequado para a união de seus fãs, com um show mais próximo dos músicos. Além disso, ficou claro que muitos ali não gostaram de terem que escolher entre ver Nevermore ou Roy.
O saldo final foi misto: embora tenham feito um bom show, foi ofuscado por estarem no lugar errado, na hora errada. Dificilmente alguém pode criticar essa apresentação em quesito de qualidade musical, mas realmente, foi um desencontro de itinerário.
CRAZY LIXX (Sun Stage)Por Marcelo GomesFotos: Bel Santos
O Crazy Lixx trouxe uma mudança completa de clima para o festival, apostando no hard rock melódico e cheio de atitude. Sem grandes mudanças de formação, a banda atual com Danny Rexon nos vocais, Chrisse Olsson e Jens Lundgren nas guitarras, Jens Anderson no baixo e Robin Nilsson na bateria soou coesa e divertida, exatamente como o estilo pede. Foi um dos shows mais ‘feel good’ do dia, daqueles que fazem o público cantar junto e curtir sem pensar duas vezes.
É clássico hard rock sueco feito com coração. A abertura com Rise Above e Hell Raising Women já deixaram claro que a proposta era diversão sem complicação, com refrãos fáceis e energia contagiante. Whiskey Tango Foxtrot e o cover de Sword and Stone (do Bonfire) reforçaram essa pegada nostálgica, que funcionou muito bem com o público.
O setlist foi recheado de hits, e faixas como Never Die (Forever Wild), Hunt for Danger e XIII mantiveram a atmosfera festiva, enquanto Midnight Rebels e Anthem for America reafirmaram a paixão da banda pelo hard rock. O Crazy Lixx encerrou a apresentação com Blame it on Love e a icônica Who Said Rock’n’Roll Is Dead, que incluiu um trecho de Detroit Rock City, do Kiss, deixando o público satisfeito com um show leve, divertido e extremamente eficiente.
MALVADA (Waves Stage)Por Antonio Carlos MonteiroFotos: Andre Santos
Uma banda que sempre me agradou, desde que foi lançada, é a Malvada. Por vários motivos: precisamos de mais mulheres fazendo rock, as garotas são realmente talentosas e elas parecem amar esse negócio sinceramente. Mesmo tendo passado por um golpe após o lançamento do primeiro disco (A Noite Vai Ferver, 2021), com a saída da vocalista Angel Sberse e da baixista Ma Langer, as garotas não abaixaram a cabeça: continuaram na batalha, remontaram a banda com as ótimas Indira Castilho (vocal) e Rafaela Reoli (baixo) e conseguiram um contrato com uma gravadora internacional. Além disso, estão sempre tocando, o que é sensacional para criar entrosamento e um show dinâmico.
E foi justamente isso que se viu no Waves. Indira, Rafaela, Bruna Tsuruda (guitarra) e Juliana Salgado (bateria) fizeram um show profissionalíssimo, sem falhas, com ótimo som e uma performance contagiante. Focando o repertório principalmente no segundo disco, autointitulado (2025), além de incluírem no repertório o mais recente single, Rock’n’Roll Girl, as garotas ainda acharam espaço para rápidos solos de Bruna, Rafaela e Juliana, mostrando quão excelentes instrumentistas são. Em complemento, Indira tinha movimentação ótima, além de manter sempre um sorriso no rosto – nada melhor do que assistir um músico (ou música, no caso) mostrando o quanto está feliz por poder exercer sua arte.
O Bangers Open Air foi só mais um passo na caminhada dessas meninas que devem ir muito longe ainda.
WINGER (Ice Stage)Por Leandro Nogueira CoppiFotos: Roberto Sant’Anna
Não poderia haver clima melhor para um fã de hard rock prestigiar o show de uma das grandes bandas do gênero, o Winger: domingão, sol forte, pista cheia e muita gente cantando junto. O repertório escolhido pelos integrantes originais Kip Winger (vocal e baixo), Reb Beach (guitarra), Paul Taylor (guitarra e teclado) e Rod Morgenstein (bateria), além de Howie Simon (guitarra, surpresa para muitos no line-up), ajudou a banda a agradar até quem não é adepto do estilo ou só os conhecia pelas piadas de Beavis and Butt-Head, da extinta MTV, ou pelo famoso vídeo em que Lars Ulrich, no início dos anos 1990, atira um dardo em um pôster de Kip.
Abriram com Stick the Knife in and Twist, do álbum Seven (2023), escolha que deixou parte do público com cara de “ué?!” Daí em diante, porém, veio um setlist recheado de clássicos presentes nos três primeiros discos de estúdio: Winger (1988), In the Heart of the Young (1990) e Pull (1993). Quem não vibrou, ao menos respeitou, mas a maioria cantou e celebrou músicas contagiantes como Seventeen, Can’t Get Enough, a pesada Down Incognito, Time to Surrender, Easy Come, Easy Go e Madalaine, além das baladas Rainbow in the Rose, Headed for a Heartbreak e, apesar de algumas dificuldades vocais de Kip, principalmente Miles Away, enorme sucesso no Brasil no início dos anos 1990 por integrar um comercial do cigarro Hollywood.
A resposta positiva do público deixou Reb Beach e Rod Morgenstein tão à vontade que ambos se arriscaram em solos enquanto os demais retomavam o fôlego. Sem dúvida, o melhor show que assisti. Quem sabe agora caia por terra a ideia de aposentadoria da banda, algo que o próprio Kip Winger já vem desconversando em entrevistas recentes.
NOTURNALL (Sun Stage)Por Fernando QueirozFotos: Andre Santos
Veterano do metal brasileiro, o quarteto liderado por Thiago Bianchi é presença constante em eventos e festivais diversos. Não foi diferente nesta edição do Bangers Open Air. Em um ‘upgrade’ de sua apresentação em 2024, quando tocaram no pequeno palco Waves, dessa vez estavam no Sun. Merecidamente!
A competição era quase desleal; tocaram no mesmo horário da dupla Smith/Kotzen. Ter como concorrentes Adrian Smith e Richie Kotzen é complicado, por isso, no começo do show, o público ainda era bem diminuto. Mas sua performance era boa, seu som pesado e técnico, e isso chamou a atenção das pessoas. Não demorou para terem uma boa quantidade de espectadores os assistindo. Tocaram músicas de toda sua carreira, passeando por todos os seus álbuns – sempre destaco No Turn at All como um ponto alto no show deles, já que considero sua melhor faixa.
Impressionante foi o vocalista Thiago Bianchi falar que estava, naquele momento, com pneumonia. Realmente, não parecia! Estava cantando bem, com energia e presença de palco firme! Cinquenta minutos de show acabaram sendo pouco. Ainda acho uma pena não tocarem ao menos uma música do Shaman, banda da qual o Noturnall surgiu; mas é compreensível, pois a formação atual quase nada tem mais a ver com aquela de quando começaram.
TROVÃO (Waves Stage)Por Leandro Nogueira CoppiFotos: @biancatatamiya | MHermes Arts
Se existe uma banda brasileira que vem movimentando a cena e ganhando espaço junto ao público mais exigente, essa banda é o Trovão. A forte presença de fãs no Waves Stage, inserido ao Teatro Simon Bolivar, mostrou isso com clareza. Após uma boa apresentação na Pré-Party do Bangers, realizada dois dias antes na Audio, o grupo veio para o festival em condições ainda melhores, especialmente pela qualidade de som mais equilibrada. Atualmente, a formação reúne Gustavo “Trovão” Eid (vocal), Alexandre Gatti e Igor Senna (guitarras), Lucas Chuluc (baixo), Alan Caçador (bateria) e José Lucas Fuza (teclado).
O repertório pouco mudou em relação ao show anterior, mas a execução manteve o nível esperado por quem acompanha a banda: intensa movimentação no palco, visual marcante e domínio total de cena por parte de Gustavo Eid, vocalista experiente que já integrou grupos como Selvageria e Tiger. O público respondeu de forma entusiasmada ao hard’n’heavy cantado em português da banda, especialmente em faixas como Seres da Noite, Princesa do Fogo e Até o Fim, além de outras músicas que representaram os discos Prisioneiro do Rock’n’Roll (2021) e Diamante (2025).
O Trovão demonstra profissionalismo em diferentes aspectos: nas composições, na postura de palco e também na identidade visual. Mais do que revisitar influências clássicas, a banda consegue transportar o público para a atmosfera dos anos 1980, período em que paixão, entusiasmo, entrega e devoção ao heavy metal ajudaram a construir uma cultura que segue viva até hoje. Que esses caras sigam firmes e alcancem voos cada vez mais altos. A cena nacional está na torcida!
SMITH/KOTZEN (Hot Stage)Por Antonio Carlos MonteiroFotos: Bel Santos
Alguém, por favor, dê um prêmio a quem teve a maravilhosa ideia de unir dois dos maiores guitarristas da atualidade num mesmo projeto. Porque o que fazem os gênios Adrian Smith (Iron Maiden) e Richie Kotzen quando se unem é uma das coisas mais sensacionais que ouvimos nos últimos tempos em termos de rock.
E se em disco a banda (completa por dois brasileiros que fazem uma cozinha sensacional, a baixista Julia Lage, esposa de Kotzen, e o batera Bruno Valverde, do Angra) já impressionava, ao vivo a coisa ganha outro nível de relevância. Pra começar, ambos dividem não apenas solos, mas também vocais nas mesmas músicas. Um olha pro outro e passa o bastão, como numa equipe muito bem treinada. E é incrível como as vozes de ambos combinam e se complementam. Mais que isso, é impressionante comprovar o excelente vocalista que é Adrian Smith.
A banda investe muito mais no classic rock de Kotzen do que no metal de Smith, e o show foi centrado principalmente no segundo dos dois discos que lançaram (Smith/Kotzen, 2021, e Black Light/White Noise, 2025). Observando-se ambos em cena, o que se via eram dois músicos magistrais se divertindo, sempre de sorrisão na cara – dá pra perceber claramente que se trata de um projeto pra “esfriar a cabeça”, e provavelmente é por isso que a coisa flua com tanta naturalidade e de forma tão leve.
Apesar de outros pedidos da plateia, o encerramento foi com um clássico do Iron, Wasted Years, com Adrian nos vocais. Pode parecer uma escolha meio “carne de vaca”, mas foi um fechamento perfeito para aquele que pode ter sido o melhor show de todo o Bangers Open Air.
Antes de encerrar, um detalhe para quem gosta de guitarras. Há guitarristas soberbos, mas que têm um gosto estético pra lá de duvidoso na hora de escolher seus instrumentos (tudo bem por aí, Ron Wood?). Adrian Smith e Richie Kotzen vão no sentido contrário. Que desfile de guitarras lindas vimos no Hot Stage!
WITHIN TEMPTATION (Ice Stage)Por Marcelo GomesFotos: Bel Santos
O Within Temptation transformou o palco do Bangers Open Air em um cenário de grandiosidade e mistério, entregando uma performance de symphonic metal que cativou a todos desde o primeiro instante. A vocalista Sharon den Adel fez uma entrada espetacular para a abertura com We Go to War, surgindo em um elegante vestido branco e uma máscara, um elemento teatral que imediatamente impactou o público. A banda não perdeu tempo em mergulhar em seu catálogo, seguindo com a poderosa The Howling, uma faixa que não era tocada desde 2016 e que foi recebida com entusiasmo pelos fãs, demonstrando a habilidade do grupo em equilibrar o espetáculo visual com a intensidade musical.
A jornada sonora continuou com a energia contagiante de Stand My Ground e a força da mais recente Bleed Out, mostrando a evolução e a versatilidade do Within Temptation. Sharon den Adel, com sua voz operística e presença de palco magnética, conduziu a plateia por momentos de pura emoção e poder através de faixas como Ritual e In the Middle of the Night. Um dos pontos altos da noite foi o retorno de clássicos como The Heart of Everything, tocada pela primeira vez desde 2019, e a raríssima Forsaken, que não era apresentada em público desde 2008; ambas proporcionaram uma onda de nostalgia e celebração entre os presentes.
O setlist foi cuidadosamente construído para manter a energia elevada, com Faster, Wireless e Lost mantendo o ritmo, antes de culminar em uma sequência de hinos que definiram a carreira da banda. Paradise (What About Us?), Don’t Pray for Me e os hinos Ice Queen e Mother Earth encerraram o show, deixando o público extasiado. O Within Temptation não veio para brincar, afinal, a grande atração do dia não eram eles. No entanto, souberam aproveitar aquele público gigante para proporcionar um concerto musicalmente impecável, além de uma experiência imersiva e visualmente deslumbrante, reafirmando seu status como uma das maiores bandas do symphonic metal mundial.
KRISIUN (Sun Stage)Por Antonio Carlos MonteiroFotos: Andre Santos
Muito se fala sobre o Krisiun, e nem sempre de forma positiva. Que fazem sempre o mesmo show; que suas músicas são praticamente uma coisa só; que o volume excessivo faz tudo virar “barulho” e por aí vai. O que se esquecem (e quase sempre esse “detalhe” passa batido) é que estamos falando de uma banda que merece ser colocada lado a lado com Angra e Sepultura quando falamos de metal brasileiro com repercussão internacional. Os caras estão sempre na ativa, tocando em todas as partes do mundo e arrastando uma multidão de fãs onde quer que passem.
Não foi diferente no Bangers Open Air. Tocando no Sun Stage num momento em que já começava a movimentação para acompanhar o Angra no Hot Stage, quem ficou para conferir o show de Alex Camargo (vocal e baixo), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) foi brindado com mais uma explosão de brutalidade sonora. Aliás, que foi lá não só acompanhou o show, mas participou ativamente dele, batendo cabeça e abrindo rodas – até no pit dos fotógrafos tinha gente agitando enquanto trabalhava; coisas que só os grandes conseguem.
E em meio a toda brutalidade, era possível notar a técnica absurda e as linhas complexas desenvolvidas pelos três irmão em seus instrumentos. Mais uma vez, o Krisiun entregou exatamente o que promete, sem decepcionar.
SILVER DUST (Ice Stage)Por Fernando QueirozFotos: @biancatatamiya | MHermes Arts
Um horário ingrato. Isso é o que pudemos ter certeza no show dos suíços do Silver Dust. Programados para se apresentar no teatro do Auditório Simon Bolivar, o palco Waves, estavam escalados como concorrentes do Krisiun e de ninguém menos que o Within Temptation. Novamente: horário ingrato!
Com sua temática vitoriana e ‘steampunk’, o show deles é divertido, preciso e até um pouco exagerado. A mistura do gótico e industrial com um som pesado funciona bem, e sua teatralidade no palco é contagiante, ao menos no começo! Enquanto mantém o ritmo tocando músicas propriamente ditas, é um show bem legal de se ver. O problema são, como dito, os exageros: em determinado momento o (ótimo) vocalista Lord Campbell, que no geral apenas canta e atua, pega uma guitarra e faz “duelo” de solo. Seria compreensível em um show somente deles, para seu público; em um festival, não dá para ver sentido.
De toda forma, tocaram para um público muito reduzido, mas os que lá estavam sem dúvida se divertiram, pois é uma experiência agradável, e o som é realmente muito bom. No contexto geral, sua apresentação valeu a pena assistir, mas a performance quando abriram para o Evergrey, na quarta-feira anterior, foi melhor.
ANGRA (Hot Stage)Por Antonio Carlos MonteiroFotos: Roberto Sant’Anna
Durante meses falou-se nesse show, cuja principal atração seria a reunião de Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli e Aquiles Priester depois de quase 20 anos. Além disso, marcaria a despedida de Fabio Lione e a estreia de Alírio Netto nos vocais da banda. Ou seja, novidades não faltariam no palco.
Impressionante a movimentação que esse show fez acontecer nas dependências do Memorial da América Latina. Se uma mosca tentasse entrar a pé na área do Hot Stage teria grandes problemas. A partir de determinado momento, o público passou a se acomodar como dava nas áreas de acesso ao lugar. Até a área reservada a PCD acabou sendo invadida. A quantidade de camisetas com estampas do Angra era enorme e muita gente (inclusive de outros estados) veio ao Bangers exclusivamente para assistir o quinteto paulistano. Isso acabou dando uma mostra do quanto a música do Angra é relevante, fazendo todos esquecerem um pouco das picuinhas que envolveram a banda nos últimos tempos.
No palco, duas baterias lado a lado, o que é sempre uma atração à parte – e a monstruosidade que Aquiles pilota fazia a de Bruno Valverde parecer de brinquedo…
Com explosões de fogos de artifício, e muito frisson em meio à galera, entrou em cena a formação que podemos chamar de atual: Alírio Netto, Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli e Bruno Valverde emendaram Nothing to Say e Angels Cry, com Alírio provando ser a escolha certa para frontman da banda. O cara tem potência vocal, alcance, afinação absurda e movimentação perfeita – e ainda foi ajudado por uma multidão de vozes.
Em seguida, ele deu lugar a Fábio Lione que participou de quatro faixas (a linda Lisbon incluída) e se despediu da galera, lembrando os “catorze anos de muitas conquistas” que viveu com o grupo. Saiu de cena com a galera berrando seu nome.
Relembrando os tempos de Andre, Alírio voltou e, ao piano (sim, ele é um ótimo pianista), tocou e cantou Wuthering Heights, emocionando pela semelhança da interpretação com a versão registrada pelo Maestro. Foi a deixa para Rafael dar as boas vindas ao novo parceiro, e em seguida foi a vez da longa, linda e complexa Carolina IV.
Enfim, era chegada a hora da tão esperada “Reunion”! O cinco finalmente se reuniram no palco para tocar nove músicas juntos, sendo seis de Rebirth, duas de Temple os Shadows e uma de Aurora Consurgens. Foi um delírio coletivo! A banda estava um pouco tensa no início, o que é natural por tudo que aquele momento envolvia. Mas foi algo muito mais histórico do que necessariamente musical. Os cinco caras que correram mundo (e certamente você assistiu em algum lugar do planeta) e que fizeram muita gente passar a gostar de metal estavam juntos novamente em cena. Foram mais ou menos 40 minutos de uma nostalgia que se tornava realidade no Sun Stage. Aos poucos, a banda foi se soltando e a interação entre eles era muito interessante de se observar. O desfecho, nem poderia ser diferente, foi com Rebirth, cantada a plenos pulmões pela galera.
Quer mais emoção? Teve. Acabada essa parte do show, Alírio voltou ao piano para interpretar Silence and Distance enquanto imagens do eterno maestro e sempre saudoso Andre Matos apareciam no telão. Essa foi interpretada pela formação atual com o reforço preciosíssimo de Kiko Loureiro e Edu Falaschi.
Sai Bruno, volta Aquiles e é a vez de Late Redemption para na sequência vir o encerramento com todos em cena. Não podia ser outra: Carry On, com Alírio, Edu e Fabio se revezando nos vocais e duas baterias no arranjo.
Foi o final apoteótico que um show como esse merecia. O Angra mostrou, a quem porventura ainda ousasse duvidar, que é uma verdadeira potência do metal brasileiro e mundial, e que seu futuro se mostra mais que promissor. E o Bangers Open Air firmou-se, também para quem tivesse a petulância de questionar, que é o maior festival de heavy metal e hard rock da América Latina.
Fomos pra casa felizes.
Setlist
Nothing to Say
Angels Cry
Tide of Changes – Part I
Tide of Changes – Part II
Lisbon
Vida Seca
Wuthering Heights
Carolina IV
Nova Era
Waiting Silence
Millennium Sun
Heroes of Sand
Ego Painted Grey
Bleeding Heart
Spread Your Fire
Acid Rain
Rebirth
Silence and Distance
Late Redemption
Carry On
PARADISE IN FLAMES (Waves Stage)Por Fernando QueirozFotos: @biancatatamiya | MHermes Arts
Mais ingrato ainda foi o caso do Paradise In Flames. Tocar na mesma hora do grande headliner do festival, o Angra, e ainda também ao mesmo tempo de ninguém menos que Udo Dirkschneider no palco Sun não foi fácil. Mas entregaram!
Representando o black metal (no caso deles, sinfônico), um gênero quase esquecido em todas as edições do festival, os mineiros de Belo Horizonte fizeram sua uma hora de show com muito cuidado nos detalhes. O gênero combina com o ambiente interno, e isso foi uma vantagem. Interessantíssimo também o uso dos teclados bem à frente do palco, o que destaca a importância do instrumento na música que fazem. A vocalista Nienna é extremamente carismática, dança e agita o tempo todo no palco, além de ser uma ótima cantora. Sua voz limpa casa muito bem com os incríveis guturais do guitarrista A. Damien. Os duetos dão o charme!
Se o show deles provou uma coisa, é que há espaço para vertentes mais obscuras e pesadas do metal no festival – seja com bandas nacionais ou internacionais –, e dá esperança para algo mais do tipo no futuro, nas vindouras edições.
DIRKSCHNEIDER (Sun Stage)Por Luiz TosiFotos: Andre Santos
A apresentação do Dirkschneider – alcunha usada pela banda U.D.O, liderada pelo icônico Udo Dirkschneider, quando executa apenas material de sua clássica ex-banda, o Accept – estava cercada de certa curiosidade. Afinal, acontecia exatamente no mesmo horário do grande acontecimento do Bangers Open Air, a reunião do Angra.
Só que festival é sempre uma questão de escolha. Aquele velho dilema de perder alguma coisa boa para ver outra. E, para o ótimo público que optou por encarar a apresentação dos alemães no Sun Stage, a sensação foi de decisão acertada.
Mas, também, convenhamos: é golpe baixo. Nenhuma escolha poderia ser mais segura para quem, por qualquer motivo que seja, tenha resolvido não ver o Angra do que um set dedicado apenas aos clássicos do Accept. Beira a covardia. Com mais de meio século de estrada nas costas, Dirkschneider subiu ao palco carregando um pedaço essencial da história do heavy metal. Logo de cara, Fast as a Shark veio como um direto, sem introdução, seguida de Living for Tonite e Midnight Mover. Golpe baixo.
Então, veio o mais baixo dos golpes: a execução do mega-ultra-super cultuado Balls to the Wall, de 1983, na íntegra. Tudo bem que aqui forçaram um pouco a barra – estamos em 2026 e a banda segue comemorando os 40 anos do disco, completados em 2023. Mas quem se importa quando falamos de obras-primas como Balls to the Wall, London Leatherboys, Head Over Heels, Losing More than You’ve Ever Had e Love Child? Para aumentar o saudosismo, a presença no palco de Peter Baltes, baixista original do Accept, reforçava ainda mais esse clima. Não era apenas uma participação de luxo. Era mais um golpe baixo.
Terminada a execução do álbum, ainda havia espaço para o bis. E aqui, minha única consideração negativa – ou o único golpe baixo que realmente doeu: uma versão extremamente longa e arrastada de Princess of the Dawn deu uma derrubada no clima, levando a banda a cometer a heresia de não executar Metal Heart. Golpe baixíssimo.
Para encerrar, Burning apareceu como uma escolha menos óbvia, mas eficiente, dividindo o público entre os que ficaram plantados em frente ao palco, ainda incrédulos com a ausência de Metal Heart, e aqueles que correram para o Hot Stage para ver a reta final do Angra.
AMBUSH (Waves Stage)Por Marcelo GomesFotos: @biancatatamiya | MHermes Arts
O Ambush enfrentou um grande desafio no festival: tocar no mesmo horário em que o headliner se apresentava – no caso, o Angra. Os suecos atacaram seu heavy metal 20 minutos depois que os brasileiros terminaram e o teatro só começou a encher de verdade depois do fim do show do grupo brasileiro, mas isso não abalou a banda.
E começaram com tudo! As primeiras pedradas foram Evil in All Dimensions, Maskirovka” e Possessed by Evil, que não deixaram dúvidas sobre a vontade da banda de estar ali. A performance ganhou ainda mais força à medida que o público ia chegando.
Sem perder tempo, executaram Heading East, Hellbiter e Come Angel of Night com aquela energia visceral do estilo e, conforme mais pessoas chegavam, a resposta ficava mais intensa e calorosa. Um dos destaques da apresentação foi o cover de Metal Gods, do Judas Priest, que foi recebido como um hino, antes de encerrarem o show com Desecrator, Natural Born Killers e Don’t Shoot (Let ‘Em Burn). Com uma performance eletrizante, o Ambush provou seu valor, tornando-se um ótimo exemplo de como bandas menores podem roubar a cena quando tocam com fome.
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