Por Daniel Agapito
Fotos: Nanda Arantes
Tal qual o punk, o metal tradicional é um gênero que teve sua morte decretada pouco após seu nascimento – todos já ouvimos um “o metal morreu”. Porém, especialmente aqui no Brasil, enxergamos que isso está longe de ser realidade, com uma cena borbulhando com novos talentos. Um dos países que melhor representa essa nova geração é sem dúvida a Suécia, que, convenhamos, sempre foi uma das maiores exportadoras da música pesada no geral. Dentro da cena sueca, o nome à frente desse movimento é o Ambush, quinteto com pouco mais de 10 anos de estrada.
Esta terceira vinda dos nativos de Växjö veio 3 anos após a última e desta vez passariam também pelo Sul do país (abrindo para o Grave Digger em algumas datas), além de apresentações no Nordeste. De certa forma, a turnê começou com o pé esquerdo, com os horários da data de São Paulo, que daria início aos serviços, sendo comprometidos por atrasos aéreos. Uma situação parecida ocorreu com o Hammerfall, que tocou no dia anterior, e só foi subir no palco da VIP Station às duas da manhã.
A abertura da noite ficaria por conta da Clenched Fist, instituição do heavy metal nacional underground. Formados inicialmente no começo do milênio, aquela apresentação seria histórica, não só por estar dividindo o palco com uma atração internacional do nível dos headliners, mas também porque estariam gravando seu primeiro álbum ao vivo. Por conta dos delays com o voo do Ambush, as bandas iniciais atrasaram um pouco, mas para compensar fizeram shows estendidos. Começando com ambos os pés na porta, veio a rápida e pesada Adaga, o puro aço e couro, heavy metal sem invenção de moda. Passada Não Recue, o vocalista, Vagner, comentou a importância do registro ao vivo, e os fãs não demoraram para gritar o nome da banda.

No geral, a banda esbanjava um entrosamento que realmente só vem depois de anos juntos na estrada. Além disso (e da qualidade técnica inegável), tinham um visual todo trabalhado nas cruzes invertidas, que figuravam não só no pedestal do microfone e nas braçadeiras do frontman, como também havia uma pequena cruz amarrada na PA do lado direito do palco. Sonoramente, apresentam aquele heavy metal simples, sem frescura, sem invenção de moda, tradicional, como é o caso de Codex Gigas e Flagellun Dei, que vieram na sequência.
Passadas mais algumas músicas, executaram uma que era “impensável não tocar em show da Clenched”, a pesada, rápida e infernal Speed Metal Attack. Seria chover no molhado dizer que foi facilmente o auge do show deles, a faixa mais bem recebida. O vocalista reconheceu que estavam chegando no final, mas pelo atraso dos headliners, puderam alongar um pouco a performance, também destacando a honra que era estar registrando aquele show, dizendo que o metal é e sempre foi forma de resistência. Fecharam com a energia ainda lá no alto, jogando Trombetas do Apocalipse e Underground.

O massacre metálico nacional seguiu em peso com os mineiros da Hellway Train, uma das grandes revelações do cenário underground do heavy tradicional. Promovendo seu álbum mais recente, o brilhante Borderline (2024), essa seria sua segunda apresentação do ano em São Paulo, sendo a anterior também ao lado da Clenched Fist. Logo de cara, assim que soaram os primeiros acordes da enérgica Stryke by Lightning (sic), havia ficado óbvio que a Jai tinha sido completamente tomada pela energia do quarteto, esquecendo completamente dos contratempos dos suecos.

Além de uma qualidade técnica inegável, o que realmente faz a Hellway Train se destacar foi a presença de palco, especialmente do vocalista Marc Brito. Além de cantar com uma potência que lembra Halford e de deixar a vida naquele palco, ele, membro da equipe de produção da Caveira Velha, ainda fez um corre absurdo para que a atração da noite realmente chegasse para o show. Voltando para a apresentação deles, não deixaram a peteca cair por nem um segundo, emendando logo Calling All the Shots e a envolvente Born to Rock Hard, ecoada com força pelo público.

O vocalista fez um discurso breve aos fãs, dizendo que estavam celebrando mais uma noite de vitória do heavy metal e, por consequência, “uma noite de derrota da igreja, do cristianismo, do fascismo. Cada noite que a gente vence, eles sucumbem, o atraso do mundo.” Além disso, ainda assegurou os fãs de que os suecos estavam de fato desembarcando e que viriam fazer o show diretamente do aeroporto. Bounded to Devour foi seguida por Out of the Cellar (homenagem clara ao Ratt), que viu mais uma pérola de Brito: “Vamos lá São Paulo, pode cantar, isso aqui não é igreja não!” Fecharam com uma pedrada atrás da outra: Off the Rails, Bomberman, Outbreak (que viu o frontman assumir a guitarra), um cover da icônica Jawbreaker, do Judas Priest, e Metal Widow. Gateways to Arkham Asylum estava no setlist, mas acabou sendo não tocada. No geral, uma performance memorável, que provou porque são um dos nomes mais importantes da cena atualmente.

Dali para a frente, realmente só restava o Ambush, e boa parte do público resistiu bravamente, ficando até tarde na esperança de ver os suecos. Oskar Jacobsson, o vocalista, que já estava no Brasil há alguns dias, chegou na casa por volta das 22h15, recebido com aplausos e uma bandeira do Brasil personalizada para autografar. “Ah, se o vocalista chegou, a banda deve estar logo ali”, você pode estar pensando, e realmente estavam – chegaram por volta de uma hora depois, com bastante gente optando por sair da casa, gritando com membros da equipe de produção no processo, como se tivessem culpa.

Depois de mais ou menos meia hora passando som, foram realmente subir no palco por volta da meia-noite, chutando toda e qualquer porta com a objetiva Firestorm, faixa-título do primeiro álbum. O cansaço no rosto de cada um dos membros era palpável, mas mesmo assim seguiram de maneira bastante profissional, sorrindo e empenhados em oferecer o melhor show possível para o público que havia ficado para vê-los, apesar de todos os pesares. Na sequência, veio uma dobradinha maléfica, com Possessed by Evil e Evil in All DImensions, esta segunda dando nome ao álbum mais recente, cuja divulgação era o intuito da turnê.

Grande parte do repertório ficou justamente entre Firestorm e Evil, respectivamente o álbum de mais expressão do grupo e o mais recente, mostrando bem a evolução deles, que ainda seguem trazendo o bom e o melhor do metal tradicional, mas não necessariamente remoendo as mesmas ideias e riffs que já eram batidos há 40 anos. Maskirosvska, daquelas para cantar junto com seu refrão quase operístico, provou isso bem, tendo linhas instrumentais simples, mas que ficam facilmente na cabeça; aquela energia leve, sem sacrificar o peso.

Este que vos escreve ficou apenas até o final da contagiante Heading East, também do primeiro disco, pois infelizmente não só do rock vive o homem, e o dia seguinte era segunda-feira, mas com base no repertório vemos que seguiram destacando os dois álbuns já mencionados, com exceção de um doblete de Desecrator (2015), com Southstreet Brotherhood e a própria Desecrator neste começo do show, com o álbum pré-pandêmico Infidel sendo contemplado apenas por meio de Hellbiter.

Fica difícil chegar a uma conclusão parcial a respeito deste show porque verdadeiramente não consegui vê-lo na íntegra, porém o que vi foi absolutamente incrível, dadas as circunstâncias. Passar 3 dias pulando de aeroporto em aeroporto para dar meia volta ao mundo, e ainda ter que tocar para uma Jai Club empanturrada de gente logo depois não deve ser fácil, então temos que aplaudir o esforço do Ambush, que (ao lado da equipe da Caveira Velha) moveu mares e montanhas para fazer o show rolar. Em relação às bandas nacionais, dispensam comentários, só provaram mais ainda que realmente não devemos nada aos gringos, e que tanto os nomes clássicos quanto os da nova geração estão transbordando com talento e qualidade. Agora, o Ambush merecia voltar, sem sustos com companhias aéreas.

Setlist Clenched Fist
Adaga
Não Recue
Codex Gigas
Flagellun Dei
Entranhas de Corpos e Peste
Spirit of Death
Speed Metal Attack
Trombetas da Destruição
Underground

Setlist Hellway Train
Midnight Subway Train
Stryke By Lightning
Calling All the Shots
Born to Rock Hard
Bounded to Devour
Out of the Cellar
Off the Rails / Bomberman
Outbreak
Jawbreaker (Judas Priest)
Metal Widow

Setlist Ambush
Firestorm
Possessed by Evil
Evil in All Dimensions
Maskirovka
Heading East
Southstreet Brotherhood
Desecrator
Hellbiter
Come Angel of Night
Bending the Steel
Close My Eyes
Heavy Metal Brethren
Natural Born Killers
Don’t Shoot (Let ‘Em Burn)

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