STEVEN WILSON – SÃO PAULO (SP)

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Por Daniel Agapito

Fotos: Fernando Yokota (Whiplash)

Definido em 1987 pelo filósofo Frank White, o efeito perspectiva – em inglês, ‘overview effect’ – caracteriza a mudança cognitiva experienciada pelos astronautas quando veem nosso planeta do espaço pela primeira vez. As respostas de cada um são diferentes, subjetivas, mas uma coisa é constante: a sensação de conexão com a humanidade. “Para a maioria dos astronautas, a sensação é de que a própria Terra é um sistema inteiro e nós somos apenas uma parte dele. Precisamos pensar em nós mesmos como parte desse sistema orgânico”, disse White em um podcast da NASA. “Podemos ter religiões diferentes, podemos ter políticas diferentes. Mas, no final das contas, estamos conectados. Estamos totalmente conectados com a vida”.

Em tempos tão incertos quanto os atuais, quando parece que o mundo todo está completamente dividido, polarizado e  fragmentado, é interessante lembrar nosso “tamanho” perante o universo. Existem mais galáxias do que grãos de areia na Terra e, dentro da nossa, diversas estrelas, diversos sois – a estrela mais próxima além do nosso sol está há centenas de milhões de anos-luz. Vendo do espaço, nosso mundo, toda nossa vida, verdadeiramente é apenas um pálido ponto azul. Lá de cima, não existem fronteiras ou divisões.

Complicado, não? É praticamente impossível explicar o efeito com a complexidade que ele merece de maneira concisa e que caiba nesta cobertura de show – além de precisar de muito espaço, seria uma viagem existencial que foge um pouco do âmbito musical. Voltando aos trilhos, não há músico melhor para capturar a grandiosidade do existencialismo cósmico e contrastá-lo com as pequenas coisas da vida do que Steven Wilson. Gênio inegável da música, o britânico ficou conhecido pelo seu trabalho à frente do Porcupine Tree, que posteriormente abriu as portas para uma carreira solo para lá de produtiva. Lançado em março deste ano, The Overview captura a grandeza real do universo em forma de um trabalho conceitual de apenas duas músicas – Objects Outlive Us e a faixa-título.

Em entrevista à revista Under the Radar, Wilson comentou: “Já compus vários discos sobre o planeta Terra, a raça humana e como nos engajamos uns com os outros. Achei que fosse hora de escrever sobre algo maior do que nós. Talvez seja só eu tendo uma crise existencial, sabe, querendo ter um senso maior de perspectiva na minha própria vida”. Este é o plano de fundo para o álbum, uma visão do universo, imenso e enigmático, exatamente o sentimento que Steven consegue transmitir. Depois de 8 anos distante dos palcos tupiniquins, o músico voltou a São Paulo para um show no Tokio Marine Hall, maior casa em que havia tocado na cidade até então, apresentando o novo álbum na íntegra, além de hits do resto de sua carreira.

O começo de uma chuva chata não impediu os fãs de fazerem fila na porta da casa antes de ela abrir, com alguns chegando ao meio-dia para garantir um lugar na grade. Chegando no saguão, a banda Mavericks estava tocando alguns covers diversos que iam desde os maiores hits do classic rock a Everybody Wants to Rule the World, aquele esquenta de qualidade (o encerramento ficou por conta de outro grupo, Stoner Lab). Até mais ou menos uns 20 minutos antes do horário marcado (21h), a pista estava até vazia, bastante transitável; porém, não demorou para o público aparecer em peso. No telão, um aviso recebia quem estava lá: “Steven Wilson solicita respeitosamente que você se abstenha de tirar fotos não autorizadas e de fazer gravações de áudio e vídeo desta apresentação.”

Pontualmente às 21h, a música que soava pelo PA parou, as luzes se apagaram e, recebidos por um mar de aplausos, Steven Wilson e sua banda assumiram a casa. Com apenas uma luz ligada, apontada para o centro do palco onde estavam os teclados e microfones do frontman, sem nem dar boa noite, começou Objects Outlive Us, primeira parte da épica jornada cósmica. A primeira seção da música, No Monkey’s Paw, é curta e simples, um diálogo entre o personagem principal e um alienígena. Logo no primeiro acorde, o público estava em transe, chegando até a ecoar as falas do alienígena, que era representado em um vídeo no telão. The Buddha of the Modern Age, segundo movimento, seguiu praticamente na mesma linha, agora envolvendo o resto da banda, que estava logo atrás de Wilson.

As coisas começaram a esquentar de verdade em Meanwhile, terceira parte, que viu um membro da equipe trazer a guitarra do vocalista. Aí ele conseguiu se mexer mais, mostrando seu carisma natural. Mesmo sem falar uma palavra, só ao se aproximar da frente do palco os fãs já gritavam. Em seus olhos, um brilho que realmente denunciava a paixão que ele tem pelo projeto. Meanwhile incorpora também partes mais pesadas, trocando a sonoridade etérea dos momentos  anteriores por riffs rápidos e linhas percussivas com bumbo duplo, que ao vivo não só funcionaram perfeitamente, como também mostraram a química musical do grupo. Cada músico parecia completar o outro, já que todos tocavam com uma precisão que beirava o sobrenatural, mas com aquele feeling humano. The Cicerones/Ark destacou Steven em si, com uma performance vocal carregada de emoções, enquanto Cósmica Sons of Toil, 3 minutos de troca de solos, fez o mesmo para o resto dos instrumentistas. Randy McStine, o guitarrista, foi o único que saiu de sua posição no fundo do palco para solar, e depois de cada nota era ovacionado.

No Ghost on the Moor/Heat Death of the Universe rapidamente retomou o diálogo inicial, novamente repetido pelo público, antes de fechar com mais alguns solos de guitarra. Com a primeira faixa oficialmente terminada, os fãs foram à loucura, aplaudindo como se não houvesse amanhã, e a resposta de Wilson foi curta e objetiva: “Boa noite, São Paulo.” Logo depois, foram para o primeiro movimento de The Overview, sendo ele Perspective, com uma voz robótica (de Rotem Wilson, esposa de Steven) falando sobre o tamanho de diversos corpos celestes sob uma camada de sintetizadores, criando um ar quase místico. A Beautiful Infinity/Borrowed Atoms voltou à toada progressiva e envolvente, mas ainda mantendo a beleza, a classe, a grandiosidade e o mistério da seção anterior. Os versos iniciais de Borrowed Atoms foram ecoados palavra por palavra pelo público, no mesmo volume da banda.

Infinity Measured in Moments, seção seguinte, tem ideia semelhante à de Perspective, com a mesma voz robótica listando estrelas, mas ao invés dos sintetizadores minimalistas, a instrumentação é ao vivo e completamente caótica. Craig Blundell, baterista, tocava enfurecidamente, mesclando velocidade e cuidado. Praticamente do nada, no meio caos, as luzes desligaram e tudo parou: Permanence. O baixista e o baterista saíram do palco, deixando Wilson, o guitarrista e o tecladista, indo daquela bagunça organizada para um instrumental calmo, introspectivo e etéreo – a troca de energia foi palpável. Talvez seja essa a representação perfeita do ‘overview effect’, uma troca repentina do caos à ordem.

Assim que Steven soltou seu teclado, a erupção do povo foi instantânea: os aplausos eram ensurdecedores. Ele até tentou começar a falar, mas o público não deixou, emendando um grito de “olê, olê olê olê, Ste-ven, Ste-ven!” Honrado, o vocalista disse que esses 45 minutos de Overview eram bastante intensos, tanto para eles tocarem quanto para nós, os fãs, assistirmos. Então faria uma pausa de 20 minutos antes de continuar. Ainda sobre essa primeira parte, vale destacar o trabalho do técnico de luz e de vídeo, praticamente um integrante a mais, projetando um filme no telão que mudou completamente a dinâmica do show – sem esse visual a música teria outra energia.

Dito e feito: 20 minutos depois, as luzes novamente se apagaram e Wilson voltou com King Ghost, faixa mais simples, só voz e teclado, e rápido assim estavam todos novamente em transe. Algo realmente interessante foi o respeito que o público teve pela proibição de vídeos, era realmente raro ver um celular levantado, estavam todos realmente vivendo o momento, aproveitando cada segundo, cantando junto e batendo palmas em compasso irregular. Falando em momentos de conexão entre fãs e banda, Home Invasion foi exatamente isso. Steven sem querer esbarrou em seu teclado e soltou uma nota de violino poucos segundos antes do que deveria, e a reação foi estrondosa. O começo, todo quebrado, naquele estereótipo do metal progressivo, foi cantado e acompanhado por palmas. Minutos depois, quando começou a cantar, cada palavra foi repetida pela galera.

Depois de apresentar o guitarrista, veio a primeira interação com o público, depois de 1h20 de show. Ele deu boa noite para todos e depois relembrou suas outras vindas ao Brasil, dizendo que da primeira vez “tinha umas 10 pessoas no show”, enquanto que da última vez em que veio estava muito mal, então era incrível poder tocar se sentindo bem. Após algumas brincadeiras rápidas, se referiu a todos que haviam “vindo sem querer”, como esposas, maridos, pais, crianças, pessoas que vieram para fazer companhia aos outros: “Devem estar se dizendo: o que vim fazer aqui, cheguei há uma hora e meia e só ouvi 4 músicas.” Depois de dizer que sua própria mãe era muito fã de ABBA e apontar algumas camisetas dele no público, apresentou a próxima faixa como uma que “tende ao pop, no sentido mais amplo possível”, e iniciou What Life Brings. Ela realmente é mais acessível, fugindo do lado conceitual, e foi uma quebra interessante de contexto, mas sem perder a essência de Steven Wilson, aquela beleza de todas suas músicas.

“Oficialmente, minha carreira solo começou em 2009, mas na verdade, comecei fazendo música sozinho no meu quarto, na casa dos meus pais, nos anos 80, e lancei-as sob o nome Porcupine Tree. Depois o projeto virou uma banda real, e excursionamos o mundo, menos o Brasil.”  Vaiado (na brincadeira), disse que a culpa não era dele, afinal, veio 4 vezes. E então seguiu para uma “homenagem” ao Porcupine, Voyage 34 (Phase I). De novo, as luzes eram um espetáculo à parte, com os riffs viajantes e os teclados robóticos amplificados pelos raios coloridos que quebravam a escuridão. Os músicos só tocavam, não falavam uma palavra, mas parecia que estavam tendo uma conversa profunda com cada um que estava lá, num verdadeiro misto de emoções.

Voyage evidenciou o lado mais experimental do Porcupine, enquanto Dislocated Day, uma face mais pesada, uma aula técnica do britânico, que executou seu solo com perfeição; o próprio Randy, guitarrista de apoio, olhava admirado. A banda toda parecia estar se divertindo, tanto que durante uma parte mais tranquila Wilson chegou na bateria de Craig e tocou os pratos com as mãos, enquanto Nick Beggs, o baixista, foi direto com a língua no prato. Momentos depois, as brincadeiras seguiram: Steven tentava começar a cantar e Craig soltava blast beats e viradas justamente para atrapalhar. Terminaram a música e o clima era de festa, parecia uma jam entre amigos, não um show engessado. Paraiah, mais lenta e ancorada nas emoções, deu uma segurada no ritmo, mas foi daquelas para cantar junto, inclusive contando com imagens no telão de Ninet Tayeb, cantora israelense que fez o dueto com Wilson na versão original.

O frontman até ficou sem graça quando voltaram a gritar seu nome, parando no meio da frase com um sorrisinho. Ele disse que iriam apresentar uma música que geralmente não tocam, mas como os fãs mexicanos pediram várias vezes, iria repetir o feito aqui. Quando um fã gritou Luminol, nome da faixa que eventualmente tocaria, em tom debochado, Steven comentou: “Senhor, pare. Estou falando.” A reação dos espectadores foi elétrica, como esperado, com cada verso do vocalista sutilmente embalado por um murmurinho dos fãs. “Ao longo de minha carreira, sempre tive a honra de ser o pior músico no palco. Esta banda, diria que é a melhor com que já toquei, então gostaria de apresentá-los”, com direito a um “quem é essa loirinha?” na hora de falar de Nick. Quando o vocalista disse que não conseguiriam cantar o nome de Craig Blundell, os fãs brasileiros mostraram a que vieram: “Olê, olê olê olê, Crai-guê, Crai-guê!”

Dizem que tudo que é bom dura pouco, mas, mesmo o show de Steven Wilson não necessariamente ter durado pouco, chegou um momento em que teve que acabar, e o começo do fim veio com Harmony Korine. Faixa do primeiro álbum, Steven disse que era uma das mais importantes de sua carreira, e sua energia no palco refletiu isso. Para fechar este bloco do show, jogaram a energia lá no alto com Vermillioncore, instrumental completamente alto-astral, trocando toda a introspecção pela qual se tornou conhecido por uma odisseia progressiva dançante. A banda havia saído do palco, mas os fãs não se conformavam, continuavam gritando e aplaudindo como se ainda tivessem lá.

“Não sei o que tocar em um bis, não tenho hits. Fico feliz que vocês tenham suas favoritas, e peço desculpas se não as tocamos, mas vamos fechar com duas que acho que criam um final satisfatório.” Ancestral, para começar, foi uma escolha para lá de certeira. Solos complexos, tempos quebrados e momentos quase meditativos, ela tem toda a essência de Steven e foi recebida de maneira mais que calorosa. Seja pelos versos cantados junto com o vocalista ou pelas palminhas acompanhando o bumbo de Craig, a conexão entre espectador e banda era inegável. Não há meio melhor de finalizar do que com uma música realmente embebida nas emoções, daquelas que faz até defunto lacrimejar, The Raven that Refused to Sing. Da hora em que o videoclipe animado dela foi projetado ao momento em que Wilson cantou seu último verso, não houve uma palavra que não foi cantada com força pelo público. Aquela cantoria não vinha de qualquer lugar, vinha do fundo da alma. Cada nota que Wilson tocava era um reflexo de suas emoções à flor da pele. O show havia deixado de ser apenas de Steven e sua banda para se tornar uma verdadeira mostra de colaboração. Não há palavra melhor para definir do que arrepiante. Depois de quase duas horas de música, um momento de proximidade e vulnerabilidade como aquele foi uma catarse absoluta.

Algumas bandas, em suas apresentações, não fazem mais do que a obrigação: sobem no palco, tocam as músicas e vão embora – e não há problema nisso. Já outras fazem verdadeiros shows. Seria chover no molhado dizer que Steven Wilson se enquadra firmemente nesse segundo grupo. Valeu esperar 8 anos para vê-lo novamente? Sem dúvida alguma! Quem já era fã de seu trabalho, saiu mais maravilhado ainda, e aqueles que “vieram sem querer”, como o próprio disse, certamente saíram fãs. Discos conceituais ambiciosos como The Overview são feitos por si só, em suas versões de estúdio, mas conseguir transmitir toda sua visão artística e grandiosidade no cenário ao vivo é um monstro de 7 cabeças completamente diferente. O que aconteceu no Tokio Marine naquela sexta não foi apenas mais um show, foi uma verdadeira viagem cósmica aos cantos mais profundos do universo.

Como se não bastasse trazer algo comparável em escala e escopo com Dark Side of the Moon, sem um segundo de pausa, ele ainda tocou mais quase uma hora e meia, trazendo hits de toda sua carreira, inclusive do Porcupine Tree. A primeira parte mostrou que ações falam mais alto que palavras, com um total de meia frase sendo proferida, e, sim, depois do intervalo o britânico estava mais “falante”, mas o que impressionou não foram só seu carisma e suas piadas, mas, acima até de sua técnica musical, a maneira como ele consegue transmitir emoções nas faixas. Wilson é um ótimo músico, mas não é daqueles virtuosos que “fazem a guitarra falar”; com acordes simples na guitarra e no teclado, consegue estabelecer uma conexão com seus fãs de uma maneira difícil de fazer jus apenas com palavras. Quem não viu ainda, veja Steven Wilson.

Setlist

(The Overview)

Objects Outlive Us

The Overview

King Ghost

Home Invasion

Regret #9

What Life Brings

Voyage 34 (Phase I)

Dislocated Day

Pariah

Luminol

Harmony Korine

Vermillioncore

 

Bis

Ancestral

The Raven that Refused to Sing

 

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