SKILLET – SÃO PAULO (SP)

Escrito por

em

,

Por Daniel Agapito

Fotos: Gustavo Diakov

Apesar da forte presença das “capirotagens” no rock e no metal, o sucesso dos músicos cristãos (e religiosos no geral) na música pesada é inegável. Seja o Stryper, que foi até tema de novela da Globo, o P.O.D., que trouxe o redentor aos riffs de nu metal, ou até grupos como Impending Doom e Mortification, que falam do sacrifício de Jesus pela humanidade mas não sacrificam o peso de seu som, o rock não se resume apenas ao “papai do chão”. Dentre os expoentes mais modernos do estilo, um dos nomes de maior destaque é o Skillet, que apesar de ter vivido seu auge nos anos 2000, segue em boa fase, se aproximando dos 30 anos de carreira e tendo lançado seu 12º álbum de estúdio, Revolution, no ano passado.

Seria promovendo este último álbum que a banda faria seu retorno às terras tupiniquins, se apresentando em São Paulo exatamente 10 anos após seu último show no país. Em suas passagens anteriores, bateram ponto no Carioca Club, mas desta vez, tocaram na Audio, local significativamente maior, com mais de duas vezes a capacidade da casa anterior. Ao longo de sua história, os nativos de Memphis foram criticados por não fugir muito de seu hard rock alternativo mais “pão com manteiga”, carinhosamente apelidado de “rock de pai divorciado”, mas apesar disso, a procura para os ingressos foi alta, com todos os setores esgotados no dia do show.

Chegando na casa, estava tão cheio que era até difícil de andar, mesmo uma hora antes do show. Só pela força da cantoria dos fãs, já dava para sentir que a noite prometia ser histórica. Outros clássicos do “rock de pai divorciado”, como Animal I Have Become, do Three Days Grace, eram ecoadas com a força de uma torcida celebrando vitória na copa, mas as velharias também estavam rolando, com bastante Maiden e afins. Quando qualquer membro da equipe técnica subia no palco para fazer um ajuste ou outro, a arruaça quase causava abalos sísmicos. O ânimo era tanto, que tivemos direito até a uma contagem regressiva antes de o relógio mostrar às 22h.

As luzes se apagaram e um grito coletivo tomou conta da Audio. À medida em que os integrantes iam aparecendo, o ânimo só crescia. Quando apareceu o vocalista e baixista John Cooper, que iniciou Surviving the Game com um pulinho que ficou algum lugar entre David Lee Roth e Rodrigo do Dead Fish, parecia que o bairro da Água Branca ia entrar em erupção. A primeira faixa, cartão de visita de seu último disco, Dominion (2022), mesmo sendo mais nova, foi cantada a plenos pulmões, como se fosse uma das clássicas. Isso foi constante durante o show inteiro; não havia um verso que John cantasse que os fãs não acompanhassem: realmente, pareciam fiéis em dia de culto. Feel Invincible, do bem-recebido Dominion (2016), manteve a energia lá no alto, com gente pulando, balões vermelhos voando na parte da frente da pista e a energia do Skillet refletindo a do público; e vale destacar Jen Ledger, que não só batia na bateria como se ela tivesse falado mal de sua mãe, como também dividia os vocais com Cooper sem desafinar um segundo.

Continuaram contemplando seu repertório pós-2010 com Rise, mas o próximo momento de destaque veio no começo da próxima música, Awake and Alive, que viu membros da equipe colocarem um canhão de fumaça em cada braço do vocalista, que saiu atirando nuvens para o delírio dos fãs. Contaram também com a performance do violoncelista mascarado Tate Olsen, que veio parecendo um super-herói, trazendo outra camada a profundidade, aproximando o ao vivo do gravado. Algo que só o ao vivo consegue fornecer é aquele coro de milhares de pessoas soltando a voz, na hora daquele refrão já conhecido, “I’m Awake / I’m alive / now I know what I believe inside”. Nesse momento, não dava para distinguir o que era a banda cantando, o que eram os fãs.

Depois de uma breve saída do palco, voltaram com Sick of It, que começou com aquela interaçãozinha com o público, que viu Cooper cantando Livin’ on a Prayer com a galera. No meio da música, ainda tivemos direito a um breve discurso: “Estou cansado da depressão, estou cansado da violência desnecessária, estou cansado do suicídio”, seguido de um “raise your hands” (sem “e dai glória a Deus”). Terminando a música, John fez um pedido simples, que os espectadores já vinham atendendo: “São Paulo, vamos fazer com que essa noite seja Legendary.” Dito e feito, o público continuou vibrando em sintonia com a banda, que esbanjava uma energia inesgotável. “Deus é meu refúgio e minha força, Ele está sempre presente nas minhas horas de dificuldade” – disse John, antes de Ash in the Wind, primeira representante do disco novo. Sua recepção foi morna, mas visto que Revolution ainda nem tem um ano de lançamento, não foi a maior das surpresas.

Sem nem dar tempo de respirar, emendaram Never Surrender direto, tocada com a banda em formato reduzido, apenas Korey (teclado, guitarra base) e John, marido e mulher, com o palco praticamente apagado, uma luz apontada para cada um. Antes de seguirem para Whispers in the Dark, o vocalista elogiou o público, dizendo que estavam lindos, e pediu para que levantassem as lanternas de seus celulares, iluminando a casa. Na pausa entre uma música e outra, os fãs começaram a pedir Hero incessantemente e John não pôde ignorar, dizendo que estavam deixando-o surdo: “Estou com um in-ear só e não consigo ouvir minha própria voz, estou adorando!” Tendo agradecido os comentários de “come to Brazil” e expressado sua vontade de voltar ao país com mais frequência, tocaram Those Nights, mais felizinha, para cantar abraçado com aquele alguém especial. Para essa, John largou seu baixo, ficando apenas no vocal, aproveitando para andar pelo palco, liderando aquela clássica “limpada de janela” coletiva.

As luzes se apagaram novamente, deixando apenas o casal no palco, que agradeceu mais uma vez, agora, com aquele “oubrigadou” de lei. “Ao redor do mundo, o rock une as pessoas”, disse o frontman, antes de tocar os acordes iniciais de um de seus maiores hits, Hero – que foi dedicada a ninguém mais, ninguém menos que Jesus Cristo. Um membro da equipe assumiu a bateria, desincumbindo Jen de suas funções percussivas, para que pudesse focar apenas na voz, mas na verdade, nem precisava, pois os fãs cantavam em uníssono, ultrapassando o volume da própria banda. Sendo uma das músicas que definiu a carreira do grupo, era óbvio que iria subir um mar de celulares para registrar o momento, mas algo que pode ser surpresa para alguns fãs (especialmente os que foram em um certo show na semana anterior) foi que o próprio John passou a música inteira filmando com seu próprio dispositivo.

Depois daquele momento de catarse, veio uma sequência mais morna, naquela energia de fim de festa: Not Gonna Die, do álbum de 2014, Unpopular, segunda representante do disco novo (que, sim, só teve duas músicas tocadas, mesmo com a turnê sendo dele), que terminou com um solo de guitarra, e Psycho in My Head. Enganado está aquele que acha que a festa parou por aí, porque bem nos moldes do próprio Salvador, a energia voltou depois de 3 músicas, com Comatose marcando o retorno da cantoria do público. Ela foi a música que fez o Skillet realmente “estourar”, então dava para sentir a nostalgia que cada um dos presentes tinha com aquela faixa. Houve outras músicas que foram cantadas com força, mas Comatose tinha uma carga emocional diferente por trás.

Enfim, havia chegado aquele momento pelo qual todos estavam esperando, aquela música do Skillet que todos conhecem, um dos maiores hinos do “rock de pai divorciado”: Monster. Bastou apenas o vocalista perguntar se alguém em São Paulo se sentia como um monstro, que a Audio foi tomada por um grito ensurdecedor. Era realmente difícil achar algum fã que não estivesse cantando junto, palavra por palavra. Pode parecer piada, só por ser banda crente, mas o apreço que aquele público tinha pelo grupo beirava a devoção e a adoração. O chão chegava a tremer com a força de todos os pulos, a energia da casa naquele momento era indescritível, difícil de fazer jus apenas com texto. Muitas das críticas ao som do Skillet são justificáveis, mas algo que até o maior fã de black metal conseguiria elogiar naquela hora era a presença de palco deles: cativante!

Eles haviam descido do palco, mas gritos de “mais um” e “Skillet” sinalizavam que a galera não estava nem um pouco cansada. O telão ligou de novo, Jen assumiu as baquetas uma última vez, Korey e Seth pegaram suas guitarras de novo e John, conhecendo seu público, usou de um artifício milenar para conquistar o coração dos fãs brasileiros, aparecendo com uma camiseta verde e amarela. Para fechar, escolheram The Resistance, seu maior sucesso recente. Assim como o resto de seu repertório, é simples e direta, está longe de reinventar a roda, mas é alto astral e totalmente acessível – um grande acerto para a última do show.

Então, valeu esperar 10 anos pelo retorno do Skillet? Para quem é fã, com certeza! Desde a última vez que vieram, lançaram 4 álbuns, contendo músicas que alguns já consideram hinos modernos da música cristã. Exatamente por isso que nem dá para criticar muito a falta de músicas do disco novo; havia algumas outras prioridades. Em termos de energia e presença de palco, não tem o que falar, deram um verdadeiro show, conseguindo engajar mais de 3 mil pessoas sem deixar a peteca cair nem um segundo. Agora, realmente, só resta ver se a promessa que John fez de vir com mais frequência irá se realizar. E fica a dúvida: será que alguém (fora este que vos escreve) esteve na Audio ouvindo a palavra de Jesus no dia seguinte foi à Jai ver o Stoned Jesus???

 

Setlist

Surviving the Game

Feel Invincible

Rise

Awake and Alive

Sick of It

Legendary

Ash in the Wind

Never Surrender

Whispers in the Dark

Lions

Those Nights

Hero

Not Gonna Die

Unpopular

Psycho in My Head

Comatose

Monster

 

Bis

The Resistance

 

 

Clique aqui para seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp