BRUJERIA – SÃO PAULO (SP)

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Por Daniel Agapito

Fotos: Lucas Camargo

Todos conhecemos aquelas bandas que parecem que fazem mais shows no Brasil do que em qualquer outro lugar. Seja a Tarja ou qualquer pessoa minimamente relacionada com o Iron Maiden, todos já pulamos algum show porque “ah, vão voltar ano que vem, não preciso ver agora”. Até falei isso na minha última cobertura do Brujeria, no ano passado. Para contextualizar, aquele show havia sido anunciado com nem um mês de antecedência e os ingressos estavam caríssimos, além de tocarem no domingo de Páscoa – tudo para dar errado. Independente de tudo isso, fizeram o que sabiam fazer de melhor, que é divertir o público.

Quem acompanhou os “mexicanos” sabe bem o que aconteceu nos meses seguintes: Juan Brujo e Pinche Peach, primos, vocalistas e membros-fundadores, inegavelmente a alma do grupo, foram dessa para a melhor. Então, até que ponto que vale esse discurso do “eles voltam ano que vem?” Depois da morte de Peach, anunciaram datas pela América Latina celebrando 20 anos do polêmico Brujerizmo, executando-o na íntegra como tributo ao falecido Pinche, mas após a morte do outro frontman, tudo indicava que seria o fim da banda. Isso durou pouco, pois El Sangron e o resto do grupo anunciaram que continuariam honrando o legado dos “narcos satânicos”, e seria essa versão “Claudinho sem Buchecha” que tocaria no Fabrique naquela véspera de feriado.

Para os padrões do metal extremo, os brujos fariam praticamente uma matinê, com as portas da casa marcadas para abrir às 17h30, com eles no palco uma hora depois. Para os curiosos de plantão, a casa seria entregue cedo assim porque no mesmo local ocorreria o ‘afterparty’ da Abdução Psicodelic (sic), rave cujo núcleo era no Vale do Anhangabaú – o Fabrique só recebeu eventos duvidosos naquele sábado. Dada a situação da banda, o horário e o fluxo de shows fora do normal desse mês de outubro, era até esperado que a casa não estivesse empanturrada de gente no horário marcado, mas a quantidade que estava lá era preocupantemente baixa. Mas enquanto na discotecagem rolavam apenas clássicos do rock, como Judas, Maiden e Accept, o local foi enchendo e a performance só foi começar de verdade por volta das 19h.

Quebrando um pouco os “rocks de tio”, veio uma tripleta de cumbia antes do deathgrind avassalador tomar a noite, com El Perro Negro de Augusto Aguilar, El Rey de Vicente Fernandez e Satanás de Publio Martinez dominando o sistema de PA. A cada troca de música, a tensão crescia e a massa de público se comprimia mais para tentar chegar perto do palco.

Àquela altura, a pista estava praticamente toda preenchida, mas não a ponto de dificultar a locomoção. Seguindo nesta mesma linha das introduções animando os fãs, quando soou a icônica voz de criança da introdução de Brujerizmo, parecia que o bairro da Barra Funda todo ia entrar em erupção. Por alguns breves momentos, era possível esquecer dos problemas da vida, se desconectar da realidade e focar apenas no clima de festa proporcionado pelo Brujeria. De resto, não tem o que romantizar, a pancadaria da roda e a marofa da maconha haviam completamente dominado a pista, aquele mesmo caos que sempre proporcionaram tão bem. Um dos diferenciais desse show foi a presença de El Cynico no baixo, ninguém mais, ninguém menos que Deus, digo, Jeff Walker, mente brilhante por trás do Carcass. Mesmo estando vestido exatamente igual o Solimões (da dupla Rionegro e Solimões, não o rio, diga-se de passagem) e não tendo falado uma palavra com o público o tempo inteiro, sua presença de palco era invejável.

Seguiram direto para Desmadre, sem muito tempo para respirar, nem pompas e circunstâncias. O público retribuiu o frenesi, mantendo a energia lá no alto. Depois dela, veio a primeira interação direta com o público, que viu El Sangron agradecer a presença de todos, apesar de ser um ‘pinche early show’ (“show cedo da porra”, traduzindo livremente). Após o vocalista rapidamente elogiar os cabelos de um fã ‘greñudo’ (cabeludo) que estava na grade, passaram para Hechando Chingazos, e como se o cenário não estivesse caótico o bastante, dali para a frente foi só para trás – do melhor jeito possível. O lado B do Brujerizmo, Anti-Castro, praticamente uma versão mais rápida do Fear Factory, nos deu um gosto do que poderia ter sido a turnê cancelada, executando o disco na íntegra, visto que Vayan Sin Miedo (flerte ainda maior com o outro projeto de Dino Cazares) foi executada logo na sequência. Vale destacar aqui o grito absurdo que Sangron deu no final de Anti-Castro, que geralmente seria de Pinche Peach. Por conta da estrutura atual do grupo, Sangron assumiu tanto o vocal principal (anteriormente a cargo de Brujo), o vocal de apoio e os gritos de Peach. Surpreendentemente, deu conta dos três, melhor até que os vocalistas originais.

As letras do Brujeria sempre foram inegavelmente de cunho político, contando as dificuldades dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos de maneira eschrachada e absurda, beirando a sátira, algo que dada a situação atual da “terra do Mickey”, segue preocupantemente atual. Dentre as faixas que não deveriam ser atemporais, está La Migra, uma de suas mais chicletes, que narra intercorrências com os agentes imigratórios estadunidenses, pauta quente por lá. No final da música, Sangron, com os dedos do meio levantados, soltou um ‘chinga la pinche migra’ (“que se fodam os agentes imigratórios”), enquanto El Criminal foi mais direto:’Fuck ICE!’ Os fãs foram um tanto receptivos, puxando um mar de “fuck Trump”.

Falando em conexão com o público, não houve momento de emoção mais nua e crua do que em Ángel de La Frontera, quando ao executar uma oração ao “anjo da fronteira”, outrora executada pelo saudoso Brujo, o frontman não se segurou, e caindo ajoelhado no chão, começou a lacrimejar. Enquanto isso, El Cynico demonstrou toda sua força nos backing vocals – o cara tem futuro, deveria procurar ter uma banda própria. A próxima faixa seria “uma canção para as mulheres”, Chingo de Mecos (“grande gozada”), que viu as rotineiras estripulias de natureza fálica com o microfone. O próximo momento de destaque veio ao fim de Desperado (a música da dancinha, quem viu sabe): um simples ‘esto es Brujeria’ ocasionou um coro gritando o nome deles, reforçando o óbvio, o compromisso dos fãs com a banda.

Antes de continuarem com La Ley de Plomo, um cidadão que havia passado o show todo até então levantando seu boné finalmente conseguiu a atenção que tanto queria, e quando ofereceu trocar seu acessório pelo que estava na cabeça de Sangron (ambos bonés pretos estampados com o logotipo da banda), o vocalista negou, dizendo pelo microfone que o dele era original, direto da mesa de merch. Não satisfeito, o fã continuou tentando, levantando o boné após cada música, mas não serviu de nada, pois a troca ficou apenas nos sonhos. Tanto a já citada La Ley de Plomo quanto a seguinte, Colas de Rata, que teve performance direta, com direito a mãozinha insinuando “dar uns raios”, contaram com seus refrãos ecoados a plenos pulmões pelo público, que ainda se acabava na roda, àquela altura um verdadeiro dichavador humano, moendo qualquer um que entrasse no meio.

División del Norte e Revolución, dobradinha do terceiro álbum, iniciaram o último bloco do show e foram recebidas tão calorosamente quanto as outras. El Criminal tentou levar o público “na palma da mão” nos primeiros acordes de División – não foram todos que pegaram a ideia na hora, mas não demorou muito para perceberem o que iria acontecer. Quando reconheceram qual era, foi difícil encontrar alguém que não estivesse batendo palmas. No ritmo dessa primeira faixa, Sangron disse, emocionado: “(o) Brujeria não morreu, tenho aqui seu espírito.” Ainda mantendo o tom um tanto pessoal daquele final, disse que a próxima era uma das favoritas de Pinche Peach, e fez uma pergunta que o finado vocalista fez em todos os shows enquanto frontman, que mesmo em espanhol, transcende fronteiras: “Marijuana?” Uma verdadeira nuvem de fumaça subiu com o tanto de baseados oferecidos à banda. O vocalista conseguiu pegar um para cada membro, dando até um segundo para o baterista, El Sativo (filho de Juan Brujo), que fumou os dois de uma vez – um verdadeira atleta de alto rendimento. Consejos Narcos foi a última antes de descerem do palco pela primeira vez.

Não demorou para a saudade bater, pois voltaram rápido ao palco, e, diferente de quando vieram em 2023, tocaram a clássica Raza Odiada (Pito Wilson), também preocupantemente atual, como o próprio vocalista comentou. Sem pular muito para o lado político, que não cabe a esta cobertura, Pete Wilson, retratado na música, foi governador da Califórnia e em seu governo passou a controversa “Proposição 187”, projeto de lei que proibia que imigrantes ilegais tivessem acesso à saúde pública, escolas e outros serviços no estado da Califórnia. Sangron disse que o Brasil também tinha seu próprio “Pito”, Bolsonaro, estendendo o microfone ao público quando percebeu que estavam gritando “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu.” Tendo visto essa reação, o vocalista disse amar São Paulo.

Por conta do ‘pinche disco’ que ia rolar depois, só havia sobrado tempo para “una mas”, e não podia ser outra. Com sua machete em mãos, o vocalista fez a pergunta que todos sabiam responder: matando quê? Matando Gueros! Dizer que fecharam com chave de ouro seria um desserviço à festa que aconteceu na hora, uma verdadeira catarse, momento real de conexão entre fã e banda. Dava para sentir o peso de cada palavra gritada por cada pessoa daquela casa, foi lindo (para o padrão de um show de deathgrind, claro). Introduzindo seus companheiros de banda, vieram tirar fotos e entregar palhetas ao som de Marijuana pelo PA (remix de Macarena), e a bagunça continuou com Don Quijote Marijuana, que viu o vocalista receber alguns presentes não tão lícitos, indo desde a famosa erva ao açúcar de fazer cosquinha no nariz – tinha como esperar outra coisa?

Para alguns, diversão de sábado à tarde é sair e ir para o centro da cidade passear, para outros, é ficar em casa assistindo a Sessão da Tarde, e para outros, é assistir dois americanos, um chileno e um britânico imitarem narcotraficantes mexicanos para honrar o legado de dois mexicanos que já se foram – está aí a beleza da sociedade. Em relação ao show em si, está mais do que óbvio que não foi a mesma coisa, já que faltaram Brujo e Peach, e a presença de palco foi completamente diferente, mas musicalmente foi outra história. Abordando única e exclusivamente a qualidade técnica, entregaram um show em outro patamar, sem nenhuma das famosas “escorregadas” – a banda estava mais entrosada do que nunca. Uma coisa ficou clara, ficaram mal com a morte dos dois, claro, mas não deixaram de abalar. Com tanta gente falando que os músicos só fazem turnês de reunião porque “os boletos apertaram”, Sangron e o resto do Brujeria deixaram claro que estão lá só para honrar o legado de uma banda que impactou uma geração toda de fãs de metal extremo.

Desta vez, não vou dizer que quem perdeu verá no ano que vem, pois se tem algo que podemos aprender com essa situação é que nada é certo. Uma banda que você gosta está vindo para o Brasil? Vá ao show, independente de voltarem no ano que vem ou não. Voltaram no ano seguinte? Vai de novo!

 

Setlist

El Perro Negro (Augusto Aguilar) *

El Rey (Vicente Fernandez) *

Satanás (Publio Martinez) *

Brujerizmo

El Desmadre

Hechando Chingazos (Greñudos Locos II)

Anti-Castro

Vayan Sin Miedo

La Migra (Cruza La Frontera II)

Angel de lá Frontera

Chingo de Mecos

Cristo de lá Roca

Desperado

Lá Ley de Plomo

Colas de Rata

División del Norte

Revolución

Consejos Narcos

 

Bis

Pito Wilson

Matando Gueros

Marijuana *

Don Quijote Marijuana *

 

* pelo sistema de PA

 

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