CRO-MAGS – SÃO PAULO (SP)

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Por Marcelo Gomes

Fotos: Daniel Agapito

Dez anos depois de sua última passagem pelo Brasil, o Cro-Mags mostrou, na Burning House, que o tempo só serviu para afiar ainda mais suas garras. Naquela ocasião, o line-up contava com o vocalista John Joseph; desta vez, o baixista e vocalista Harley Flanagan fez sua estreia em São Paulo, comandando a banda com a autoridade de quem escreveu boa parte da história do gênero. A casa estava lotada, o público sedento e o resultado foi uma noite explosiva – daquelas em que o suor, os gritos e os stage dives viraram parte da apresentação. A abertura ficou por conta da banda Paura, uma das mais respeitadas do hardcore brasileiro.

O show do Paura foi uma descarga de energia crua e precisão implacável. Abrindo com No Hard Feelings!? Fuck You!, a banda deixou claro que não havia espaço para brincadeiras. Da sequência brutal de Karmic Punishment, Last Response e Urban Decay até a fúria coletiva de Reverse the Flow e For Each Dead One / Scars of Life, o público respondeu à altura, em um mosh pit que parecia não ter fim. Entre as músicas, o vocalista Fábio Prandini fez questão de agradecer à produção e ao Cro-Mags por dividirem o mesmo palco e equipamento, destacando que, desta vez, o Paura pôde tocar com espaço e estrutura de verdade – o resultado foi uma apresentação poderosa.

O final veio com um peso ainda maior: Level of Maturity, Time Heals No Wounds, com a participação de Felippe Max, e N.W.A. (Never Walk Alone), reafirmando a união e a resistência que sempre marcaram o hardcore da banda. O cover de Sailin’ On (Bad Brains) incendiou o público antes de History Bleeds encerrar o set com intensidade máxima. Foi um show direto, honesto e sem freio – ou seja, hardcore em sua essência.

Era chegada a hora e, com tudo pronto, Supla subiu ao palco e anunciou o Cro-Mags como “os verdadeiros representantes do hardcore”, inflamando o público e preparando o terreno para o caos que viria a seguir. A apresentação se iniciou com a clássica We Gotta Know e o impacto foi imediato: rodas e fãs se jogando no palco – tudo dentro do espírito hardcore, como prega a tradição. Diante de tamanha recepção, Harley declarou que esperou toda a vida por esse momento. Em seguida, My Life, dedicada a Supla, ecoou como um desabafo autobiográfico, com Harley Flanagan dominando o palco e o público se jogando nas rodas na faixa mais punk da noite. Às pressas, alguns seguranças foram para a frente do palco para tentar conter a loucura – em vão. Não foi diferente em Crush the Demoniac: os fãs pareciam estar literalmente exorcizando seus demônios.

Diante do caos que se instaurava, Harley fez questão de dizer que não se importa com o público subindo no palco, “desde que ninguém quebre o equipamento e ninguém se machuque”. Com certa dose de improviso, executaram uma versão estendida de No One’s Victim, que começou mais cadenciada, com grooves densos e clima mais pesado, antes de explodir na parte rápida, com solos improvisados. Foi como se a banda estivesse reinventando a faixa, mantendo a essência hardcore enquanto adicionava camadas de complexidade. Em seguida, fez uma pausa para uma mensagem de otimismo: enfatizou que “temos que ter mais amor na vida para que o mundo seja melhor”, um bom lembrete em meio ao caos do show, que contrastou com a agressividade de World Peace, mais um clássico do álbum The Age of Quarrel (1986).

Canções como Show You No Mercy, Malfunction, Days of Confusion e Life of My Own mantiveram o ritmo insano e a intensidade emocional de um show que beirava a insanidade. Entre as músicas, o veterano falou de sua paixão pelo jiu-jitsu, que treina com Renzo Gracie desde 1996, e disse sentir-se parte da família brasileira. Comentou ainda que, aos 58 anos, está se sentindo ótimo e destacou a importância de manter o amor e o respeito, tanto dentro quanto fora do palco.

O show foi se encerrando com These Streets. No entanto, o grand finale veio com a épica Apocalypse Now, dedicada por Harley aos “maiores corruptos da história”, referindo-se aos líderes mundiais. Durante seus quase nove minutos, o Cro-Mags reafirmou sua voz crítica e combativa dentro do punk e do hardcore, celebrando junto à plateia esse momento único.

No geral, o Cro-Mags provou mais uma vez por que é uma lenda do hardcore. Após dez anos longe do Brasil, a banda entregou tudo: energia, paixão e uma conexão genuína com o público, que respondeu subindo no palco, se jogando e formando rodas intermináveis. A Burning House nunca pareceu tão viva – suas paredes chegaram a suar com tamanha devoção dos presentes. A estreia de Harley Flanagan no Brasil não poderia ter sido melhor: a lenda continua sendo uma verdadeira instituição do hardcore que, à frente do Cro-Mags, mantém viva a chama do estilo que influenciou gerações.


Setlist Paura

No Hard Feelings!? Fuck You!
Karmic Punishment
Last Response
Urban Decay
Reverse the Flow
For Each Dead One / Scars of Life
Level of Maturity
Time Heals No Wounds
N.W.A. (Never Walk Alone)
Sailin’ On (Bad Brains cover)
History Bleeds

Setlist Cro-Mags:
We Gotta Know
My Life
Crush the Demoniac
No One’s Victim
World Peace
Show You No Mercy
Malfunction
Days of Confusion
The Only One
Down but Not Out
Life of My On
These Streets
Apocalypse Now

 

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