ANGRA – SÃO PAULO (SP)

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Por Fernando Queiroz

Fotos: Amanda Sampaio | *Dener Ariani (Azeroth)

Despedidas são emocionantes e tristes, ao mesmo tempo em que são uma celebração. Uma celebração, no caso, a uma carreira de mais de trinta anos, entre altos e baixos, e um sucesso que quase nenhuma outra banda no metal brasileiro teve, em especial em nível internacional. Esse foi o caso do último show do Angra. Na verdade, não um “adeus”, mas um “até breve”, conforme dito pelo guitarrista Rafael Bittencourt – a banda entrará em hiato por um tempo que, ao que tudo indica, nem eles mesmo sabem quanto será.

Além disso, era momento de celebrar os vinte anos de Temple of Shadows, um dos álbuns mais celebrados do quinteto, que embora hoje conte com uma formação completamente diferente, o cérebro da banda ainda está lá, o já citado Rafael Bittencourt, além do baixista Felipe Andreoli – os dois são os únicos remanescentes daquela era “de ouro” do grupo. O álbum já tinha sido celebrado, no mês passado e pelo memo motivo, pelo ex-vocalista Edu Falaschi, tocando o disco na íntegra, da mesma forma que o Angra faria agora. Então, o que teria de realmente diferente neste show? Veremos…

Shows do Angra nunca ficam sem atrasos, infelizmente. A entrada do público, marcada para às 17h, atrasou cerca de meia hora. Apesar disso, ainda era um bom horário e com a rapidez da fila antes das 18h as pessoas que chegaram para a banda de abertura já estavam acomodadas no Tokio Marine Hall. Quem iniciaria a noite, entrando em cena com poucos minutos de atraso, eram os argentinos do Azeroth (e, sim, esse nome é de fato uma referência ao jogo de computador Warcraft), que já tinha participado do show do Angra na mesma casa em dezembro do ano anterior. Quem esteve lá, como este que vos fala, sabia o que esperar: a cartilha do power metal seguida à risca, com bateria rápida, vocais super agudos, refrães pegajosos. Não que isso seja ruim – para a ocasião, era exatamente o que deveria ter. Embora com a pista ainda relativamente vazia (incluindo a bizarra pista premium, que ocupava muito mais da metade do local), a apresentação foi competente. Interessante, inclusive, o fato de conseguirem fazer uma boa música e que funciona bem ao vivo, dentro desse gênero cantada em espanhol – La Salida. No geral, uma banda que casa bem com o evento, tem um bom apelo ao público “angreiro” e serviu bem como aquecimento para o que viria.

O segundo ato da noite também foi o que fez, possivelmente, o melhor show tecnicamente: ninguém menos que o Viper, uma das mais lendárias bandas do metal brasileiro e precursores do power metal no país, mesmo que sem saber disso na época, segundo o guitarrista e fundador Felipe Machado. A apresentação era especial também: foi gravado ali o vindouro CD ao vivo deles. Pela ocasião, já poderíamos esperar um setlist com sucessos novos e antigos. Foi o que tivemos!

Abriram com Under the Sun, faixa de abertura de seu último álbum, Timeless, primeiro com Leandro Caçoilo e Kiko Shred, atuais vocalista e guitarrista, respectivamente. A partir daí, uma seleção incrível de clássicos: To Live Again, Dead Light e A Cry From the Edge, todas dos anos 80 ou 90, dos álbuns Theatre of Fate e Evolution, com os saudosos Andre Matos e Pit Passarell, respectivamente, nos vocais.

Como dito por Felipe, viria em seguida uma música que não tocavam havia muito tempo: Soldiers of Sunrise, faixa-título do primeiro álbum da banda, quando os integrantes tinham apenas entre 15 e 16 anos! Depois, Coma Rage, também faixa-título do polêmico “álbum punk” da banda. O momento mais emotivo, porém, foi em The Spreading Soul, com uma foto de Andre Matos e Pit Passarell (ambos infelizmente já falecidos), e a música dedicada a ambos. Apresentaram a banda a seguir e tocaram Timeless. Realmente, focaram em hits!

O show infelizmente ia chegando ao fim, e após Prelude to Oblivion, o guitarrista do Angra, Rafael Bittencourt, sobe ao palco para tocar o “hino” do Viper, Living for the Night. Essa parte deu um gosto de como seria o som do Angra, a seguir: o som da guitarra de Rafael estava muito alto, quase estourado, chegando a atrapalhar demais instrumentos. Finalizaram a ótima apresentação com Rebel Maniac.

No geral, um show incrível, que merecia não apenas ser gravado em áudio para um disco ao vivo, mas filmado para material audiovisual – teremos que nos contentar em apenas ouvir.

O dono da noite, pela última vez sabe-se lá por quanto tempo, era o Angra, maior banda brasileira de metal melódico e, ao lado do Sepultura, a maior de todas de metal no país. Aliás, com o fim dos mineiros do thrash metal, e o hiato dos paulistas do power, o cenário brasileiro fica mais triste. Com certo atraso, mas sem comprometer o horário, e para uma casa “meio cheia”, vamos dizer assim, subiram ao palco para celebrar um de seus álbuns de maior sucesso, sob o tradicional coro de “olê olê olê, Angra, Angra”.

Antes de tocarem seu clássico álbum Temple of Shadows na íntegra, alguns hits de outrora e atuais. Após uma introdução original, não usada em álbuns, começaram o show com Nothing to Say, abertura do Holy Land, de 1996, e emendaram com Millenium Sun, de Rebirth, de 2001. Duas músicas de duas eras diferentes da banda. Terminaram a primeira e curta parte do show com as duas partes de Tide of Changes, do último disco, Cycles of Pain. Apesar de bacana, esse começo não era esse o foco do show, e serviu como um “bônus antecipado”. No geral, dava para perceber o que veríamos dali em diante. O som, como ouvido pela guitarra de Rafael Bittencourt em sua participação com o Viper, estava extremamente alto – além do que deveria. Fabio Lione demonstrou boa performance no começo, mas ainda tem sérios problemas com as letras. É simplesmente incompreensível como após treze anos na banda, sendo o vocalista mais longevo do grupo, ele ainda não aprendeu direito as letras de música quase nenhuma – alguns podem, com certa razão aliás, falar que melhor isso que ler tudo no teleprompter, mas mesmo assim, é algo inacreditável. A performance musical da banda, em especial dos instrumentistas, era impecável.

Vamos direto ao ponto: comemorar Temple of Shadows é uma ideia quase infalível. A prova é o tanto que o Angra e seu ex-vocalista, Edu Falaschi, sempre apostam nisso quando têm chance. Contudo, percebe-se que o formato está se esgotando, como já comentei anteriormente na cobertura do show de Edu. De toda forma, ainda é algo divertido de se assistir – especialmente sendo a última vez, possivelmente, pelo Angra. O disco foi tocado à risca, do começo ao fim, na ordem original. Após a introdução Deus le Volt tocada em playback, a banda voltou com Spread Your Fire. A performance continuava ótima – embora Lione ainda tenha dificuldade em diversas partes mais agudas, especialmente – e o som continuava muito alto. Isso não mudou o show todo. Dentre as maiores qualidades de Fabio Lione uma das mais legais é sua interação com o público. Após a terceira canção do disco, Waiting Silence, o cantor italiano deu o microfone para uma fã, chamada Erica (ou Erika, portanto se errei, me perdoe!), que anunciou a próxima música, a balada Wishing Well. A garota teve seu nome gritado em coro.

Originalmente gravada por Kai Hansen em dueto com o ex-cantor da banda, The Temple of Hate fechou a primeira metade do disco, a metade mais reta e direta, e Lione fez ambas as vozes. A segunda parte do álbum é aquela um pouco mais polêmica: alguns fãs louvam por seu experimentalismo e progressismo, outros a acham parada demais. Compreendo ambos! Com os violões flamencos dificílimos de se tocar, The Shadow Hunter foi apresentada e após ela a cantora de MPB Vanessa Moreno subiu ao palco para cantar as partes de Sabine Eldeslbacher em Late Redemption. Excelente cantora que é, sua voz, também pelo microfone um pouco desregulado de ambos, se sobressaiu à de Fabio Lione. O italiano falou que a banda precisava de “um minuto” para descansar, e fez brincadeiras com o público, cantando trechos de Bohemian Rhapsody, do Queen, e fazendo a galera repetir em coro. O resto da banda voltou, e tocaram a pesadíssima Winds of Destination, originalmente gravada por Hansi Kürsch em dueto.

Novamente, Lione chama outra menina na plateia para anunciar a próxima música, uma moça chamada Sabrina. Essa, diferente da primeira, acabou cometendo uma gafe! Anunciou Late Redemption, para o riso de muitos, quando na verdade era Sprouts of Time. Não posso culpá-la, eu também às vezes esqueço da existência dessa faixa mais “lado b”. Mesmo caso da bonita Morning Star, que veio na sequência. Com Rafael e o próprio público cantando as partes em português, gravada pelo ícone da MPB Milton Nascimento, Late Redemption terminou o disco.

O show não terminou ali. Era hora de clássicos aleatórios. Rebirth, novamente com Vanessa nos vocais, foi um dos pontos mais altos do show, e ela apresentou uma interpretação fantástica da canção. Angels Cry foi a próxima. Enfim, o show chegava na reta final, e nos telões, uma imagem do recém-falecido Ozzy Osbourne. Em homenagem, nas palavras de Fabio Lione, ao Príncipe das Trevas, ou Prince of Darkness, como o cantor falou, em inglês, tocaram No More Tears. Aparentemente, Fabio não conhecia bem a música e errou várias vezes as entradas das partes vocais. Instrumentalmente, foi bem legal ouvir as guitarras de Marcelo Barbosa, que conseguiu um bom timbre e fazia os harmônicos de Zakk Wylde perfeitamente.

Para finalizar a noite, aquele clássico medley, e não tão apreciado pelos fãs, de Carry On emendada com Nova Era ao fim do solo da primeira.

Terminou ali a turnê comemorativa de Temple of Shadows, com uma boa performance, mas com os problemas que já se via há tempos na banda. Ficou claro que a banda fez uma escolha correta ao anunciar seu hiato; precisam de um tempo para rever o formato do show e entregar algo novo! Embora façam ótimas apresentações, já não conseguem mostrar algo diferente nem renovar seus shows, até pelo grande volume de apresentações seguidos que fizeram. O telão do show é uma prova: exatamente as mesmas imagens sendo mostradas que tivemos na data anterior, em dezembro do ano passado. Fica uma sensação estranha – por se tratar de um show de despedida, mesmo que provisória, haveria espaço para algo diferente, especial para a ocasião. Esperamos que a banda tome seu tempo e planeje shows diferentes, com performances renovadas e um novo formato. Embora ainda apresentem a qualidade que esperamos do Angra – que é indiscutivelmente competente –, estavam caindo na mesmice. No fim das contas, foi um show que valeu presenciar, valeu o ingresso e, como disse Rafael ao comentar o hiato, “não é um adeus, é um até logo”. Que esse “até logo” nos traga um Angra renovado quando voltar, mas sem perder sua identidade – seja com qual formação for.

 

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