THE DEVIL WEARS PRADA – SÃO PAULO (SP)

Escrito por

em

,

Por Daniel Agapito

Fotos: Gabriel Ramos

Não deveria ser surpresa pra ninguém o relativo insucesso do metalcore aqui no Brasil quando comparado a outros países. Mesmo com grandes nomes do estilo como Bring Me the Horizon fazendo o maior show de sua carreira justamente na capital paulista no ano passado, lotando o Allianz Parque, são muito mais a exceção do que a regra. Bandas de ex-membros dos grandes clássicos “dinossáuricos” do rock geralmente são certeza de lotar casas de médio porte, enquanto grupos modernos, que somam milhões e milhões de ouvintes nas plataformas, são relegados às casas do mesmo tamanho, se não ainda menores – isto é, quando decidem passar por aqui.

Felizmente para os fãs do gênero, que não são muitos (Chorão define: “Somos poucos, mas somos loucos”), essas passagens têm se tornado cada vez mais comuns, com o ano de 2025 sendo atipicamente favorável para o som que teve seu auge nos anos 2000, tendo visto a estreia de nomes como Atreyu em março e Silent Planet em abril, ambos absolutamente catárticos, apesar do número reduzido de fãs, sem contar o retorno de Amity Affliction e Miss May I após 8 e 13 anos, respectivamente. Com tantas bandas emblemáticas do movimento finalmente regressando ao país, havia um nome que não saía da boca do público desde a última vez em que pisou em solo nacional (também 13 anos atrás): The Devil Wears Prada.

Tendo lançado 4 álbuns de estúdio e 2 EPs desde sua última excursão às terras latinas, haveria bastante tempo perdido que Mike Hranica & Cia. teriam que compensar quando eventualmente voltassem ao Brasil, sentimento que o vocalista refletiu em entrevista: “Ah, podemos dizer que sim. Sou sempre muito focado no futuro a toda hora, então é aí que geralmente está minha visão. Ao invés de ficar olhando para o passado, ser retrospectivo demais, com certeza queremos fazer valer cada segundo, para nós e para vocês.” Além disso, disse de forma bem-humorada que desde a última vez em que estiveram por aqui “muito mudou, muita coisa mudou mesmo.”

Antes de chegar na terra da garoa, os nativos de Dayton, Ohio, já haviam carimbado seus passaportes no México, na Colômbia, no Chile e na Argentina, mas desde que falei com eles, por volta de um mês antes da apresentação, era óbvio que estavam esperando mesmo aquele entusiasmo brasileiro incrível que você só encontra por aqui, dizendo que “nunca vimos um público parecido com o de vocês.” Isso apenas se reforçou durante o show de Curitiba, na noite anterior ao de São Paulo, quando o vocalista comentou que “os argentinos não tiveram a mínima chance” de superar nosso público. Voltando ao show na capital paulista, ele ocorreria no local que já havia virado a casa do sexteto, o Carioca Club, que também havia recebido a banda nas 2 outras vezes em que veio para cá.

A noite começaria com um show da Emmercia, um dos nomes mais promissores da cena paulista de metalcore, na ativa há quase uma década mas tendo uma ascensão meteórica nos últimos anos, contando com 250 mil streams no Spotify no ano passado. Antes de serem anunciados como abertura oficial, afirmaram pelo Instagram que “seria um sonho” dividir o palco com o TDWP, mas está enganado aquele que acha que esse seria o único show “grande” que eles teriam feito esse ano, visto que também abriram para o Silent Planet, numa apresentação que descrevi como “de qualidade indiscutível”. Desde lá, lançaram o single Respeito É a Lei no começo de junho, som que não figurou no setlist desta vez. Começaram pontualmente às 19h ao som de Speed X-Drama, muito bem recebida pelos fãs, que já gritavam o nome da banda desde o segundo em que subiram no palco. Não eram todos os presentes que os conheciam, mas é possível falar com razoável certeza que boa parte de quem estava lá saiu fã.

Cegueira Branca, segunda faixa do repertório, foi um exemplo claro disso, pois a banda mostrou exatamente a que veio, mesclando um som novamente de qualidade indiscutível – inclusive, com uma influência latente dos headliners, especialmente no uso de sintetizadores e na mescla de emoção e agressão; colocá-los na abertura foi um belo acerto da produção – a uma presença de palco elétrica e cativante, usando cada centímetro do palco do Carioca. Com o público já na palma da mão, no meio de Pescador de Tormentas Renan Passos, o frontman, convocou as famosas palminhas: “Todo mundo juntinho, bora, a gente tá se preparando para algo absurdo hoje à noite.” Sem nem pensar duas vezes, São Paulo ficou parecendo o Tocantins com o tanto de Palmas.

Coração Cheio, que deu sequência, foi um momento de respiro para o público, que ainda se recuperava do caos controlado de PRAPARÁ, mas isso não quer dizer de jeito nenhum que a energia reduziu: Renan, agora embalado por camadas e camadas de saxofone, continuava dando a vida no palco, transbordando emoção. A saideira ficou por conta de Um em Poucos Todos Nós, que começou sendo cantada em uma só voz por parte do público, enquanto o vocalista, completamente tomado pelo momento, cantava deitado na parte da frente do palco. Só digo uma coisa: se continuarem do jeito que estão, quando se tornarem um dos maiores expoentes do metalcore na América Latina não digam que ninguém avisou… Comparado ao show que fizeram no City Lights no começo do ano, a qualidade segue a mesma, mas o entrosamento da banda está outra coisa, já que se mostraram muito mais confortáveis naquele sábado, apesar do tamanho maior da casa e do público.

Antes de falar do show do TDWP, vale apontar que por pouco quase cancelaram a turnê no meio. Os 3 shows no México (entre os dias 6 e 8 de agosto) ocorreram sem problemas. Já a data de Bogotá foi outra história, rendendo algumas dores de cabeça substanciais. No dia em que pousaram na cidade, tiveram sua interface de áudio roubada, algo que para os fãs mais tradicionais de metal pode não parecer grande coisa ou frescura de banda nova, mas na verdade era um componente central das apresentações, visto que Mason Nagy, baixista que os acompanhava há sete anos, deixou a banda pouco mais de uma semana antes da turnê, então estavam passando as trilhas de baixo pelo PA. Como se já não bastasse isso, tiveram que alterar o local do show no dia por conta de um problema com os canos de esgoto do bar Calle 13, onde tocariam. Independente disso, conseguiram recuperar o equipamento no mesmo dia e os outros shows da turnê seguiram como planejado.

Dois minutos antes do horário marcado, ao som de 1999 da cantora pop Charli XCX, trilha sonora devidamente brutal, as cortinas se abriram, revelando o logotipo da banda e algumas flores no telão de LED, mesmo desenho que estava disponível no merchandise oficial. Logo de cara, os fãs já enlouqueceram! Dava pra sentir a antecipação no ar. Uma voz robótica ecoou pelo PA, dizendo que quem estava presente naquela noite iria presenciar uma “experiência interativa do The Devil Wears Prada” diferente de tudo que tinham visto. A mesma voz pediu para que tivessem consideração com aqueles que estavam ao redor e afirmou que o show só começaria assim que a primeira roda abrisse. Dito e feito: a roda abriu antes mesmo de os primeiros integrantes subirem ao palco. Jeremy DePoyster (guitarra), Kyle Sipress (guitarra), Jonathan Gering (sintetizadores) e Giuseppe Capolupo (bateria) já estavam frente aos fãs quando rolaram os primeiros acordes de Watchtower, um dos destaques de Color Decay (2022). A conexão entre público e banda foi instantânea, era como se estivesse acontecendo um encontro entre amigos de longa data que não se viam há mais de uma década.

“Me mostrem aquela ‘fucking Brazilian shit’! Boa noite, São Paulo, finalmente estamos de volta!” Ao som de gritos de “13 anos, porra!” e declarações de amor para o vocalista, deram sequência ao show com um de seus “clássicos”, Danger: Wildman, dedicada a Daniel Williams, ex-baterista que faleceu no começo deste ano em um acidente aéreo. Naquela hora, a roda que já dominava o fundo da pista desde antes do primeiro segundo cresceu mais ainda, era óbvio que a galera curtia mesmo aquele som nostálgico, que os transportava para tempos mais simples. No final da música, Jeremy, impressionado, soltou um singelo “what the fuck?!” A próxima foi Born to Lose e o caos foi instaurado apenas com a menção de seu nome. Após introduzir a banda rapidamente e elogiar uma bandeira do Brasil personalizada que alguns fãs estavam segurando, desceu à parte inferior do palco para “sentir a energia dos fãs” e fez um pedido simples: “quero ver todo mundo sair do chão”. Realmente não tem como fazer jus ao que aconteceu no Carioca naquela hora. Não eram apenas pulos, era uma simulação de terremoto, o chão realmente estava tremendo horrores. Um mar de celulares subiu naquela pipoqueira humana para registrar toda a emoção de Salt, novamente retirada do álbum mais recente.

“Temos tantas músicas para vocês hoje”, disse Jeremy, antes de continuar o breve “combo” de Color Decay com Broken, dedicada a Marcos, da Liberation, produtora que realizou a turnê. Só pelo clima de festa, era óbvio que tanto os fãs quanto a banda esperaram ansiosamente para este reencontro. Ainda durante Broken, que é uma daquelas típicas músicas “chorosas”, DePoyster pediu uma “puta roda” e, apesar do caráter emocionante da faixa, o liquidificador humano seguiu girando em sentido anti-horário, uma cena no mínimo curiosa. Enquanto a introdução de Ritual saía pelo PA, todos na casa deram uma respirada, o primeiro segundo de calmaria até então, e Mike (que estava tomando água no canto do palco) foi rápido para questionar: “Que porra é essa? Por que estão tão quietos?” Tendo agradecido novamente a presença de todos naquele domingo, Jeremy confirmou a afirmação de Mike (“temos tantas músicas”), além de sugerir que fariam algo especial porque “só existe uma São Paulo” – algo que Mike já havia dito em entrevista comigo, quando afirmou “não poder estragar a surpresa.” Ritual, independentemente de ser um dos lançamentos mais recentes do grupo, tendo saído em março do ano passado, foi cantada como se fosse uma das antigas, com milhares de vozes cantando cada palavra em uma só voz.

Enquanto o público batia palmas no ritmo de Reasons, música lançada em colaboração com os DJs Wooli e Excision, Jeremy perguntou: “Estão comigo?” Logo depois, embalado por um coro de fãs, impressionou com seus vocais limpos. Aqui vale destacar a química entre Jeremy e Mike. O primeiro, mais contido, ornando com seu estilo vocal, enquanto Mike era elétrico, correndo pelo palco como se não houvesse amanhã – os dois têm uma presença fortíssima, cada um a seu jeito. Voltaram ao disco de 2022 com Noise, que viu a roda crescer ainda mais, além daquele famoso “hands up”, a pedido do vocalista, dando aquele clima de missa do Padre Marcelo. Àquela altura já tinham feito meia hora de show, mas parecia que nem tinham passado 10 minutos. Reptar, King of the Ozone foi o suprassumo do metalcore antigo, com gritos do fundo da alma, Mike cantando ajoelhado, Jeremy girando que nem pião, John Gering (tecladista) dando pulinhos, breakdown com headbang sincronizado, o mais puro estereótipo. “Em 2010, decidimos fazer algumas músicas sobre zumbis, agora estamos em 2025 e o que vocês vão fazer? Vão ficar parados aí?” Trazendo peso e bom-humor, veio Escape, do acalmando Zombie EP, contando inclusive com uma participação no último breakdown de Sam Reynolds, vocalista da banda de hardcore Dying Wish, que atualmente integra a equipe da banda.

Novamente vendo a bandeira personalizada (inclusive, havia uma bandeira do Brasil estendida no teclado de John), Jeremy pediu para mostrar para o resto do público, dizendo que “não há base de fãs melhor que a do Brasil”, falando que estavam até barulhentos demais para começar a próxima música. Visto isso, os fãs começaram a entoar um canto de “olê, olê olê olê, Pra-da, Pra-da”. Quando enfim se acalmaram, veio For You, com o guitarrista dizendo que por conta de ser o último show da turnê, tinha que ser o mais alto também – seria chover no molhado dizer que a cantoria foi realmente ensurdecedora. Praticamente se declarando para o público, Mike disse: “São Paulo, fazemos isso por vocês”. Antes de Dez Moines, aproveitaram para apresentar os integrantes, preparando o público para a avalanche de nostalgia que viria mais uma vez. Os refrãos, cantados com uma força inigualável por Hranica, eram ecoados a plenos pulmões pelos espectadores, de maneira tão estarrecedora que o próprio vocalista deixou seu microfone cair enquanto admirava o povo. Antes mesmo de anunciarem For You, havia um grito que dominava os ares da casa, “Assistant! Assistant! Assistant!” Apesar dos diversos hits antigos que foram contemplados naquela noite, Assistant to the Regional Manager, uma das faixas mais emblemáticas de With Roots Above and Branches Below, não aparece nos shows dos nativos de Ohio desde 2022.

Jeremy mais uma vez desceu à parte inferior do palco para “sentir a energia dos fãs”, largando sua guitarra e com Hranica assumindo as 6 cordas, assim como já havia feito antes em Salt. Com as luzes do palco intencionalmente desligadas para reforçar a emoção inerente à música, veio Chemical, única representante de The Act daquela noite. Mesmo com a falta de luz comprometendo a visibilidade da banda, foi algo justificável, dada a música. Fecharam sua performance ainda dando destaque aos álbuns modernos, com a explosiva Sacrifice sendo a última dose de caos perfeita para concluir a noite. Além da clássica “limpação de janela coletiva” na hora do refrão e de uma chamada de breakdown eletrizante, com Mike apresentando a banda uma última vez, vimos até um fã subir no palco e ser abraçado pelo vocalista, tendo seu barato cortado por um membro da equipe.

A banda toda havia saído do palco, as luzes estavam desligadas, mas as cortinas não estavam fechadas, então o público não estava convencido: voltaram a gritar o nome da banda e pedir Assistant. Geralmente quando as bandas voltam para fazer bis, as músicas que escolhe não são das mais surpreendentes – todos já estamos carecas de saber que o Angra fecha os shows com Nova Era e Carry On e o Sepultura com Ratamahatta e Roots Bloody Roots –, mas realmente pegaram os fãs de surpresa quando, ao som de um piano leve pelo PA, anunciaram que iriam tocar uma música nova, que ninguém nunca havia ouvido antes, como agradecimento por todo o apoio dos paulistas ao longo dos anos. Ao invés de tentar descrever o que foi a inédita Where the Flowers Don’t Grow, deixo aqui um vídeo dela na íntegra.

“Vamos voltar para as velharias! Vocês queriam um bis, tá aqui o bis, Dogs!”, soltou Mike, transbordando entusiasmo. Dogs Can Grow Beards All Over, o primeiro grande hit deles, foi uma das melhores escolhas possíveis para sinalizar o começo do fim do show, transportando o público diretamente para 2006 com o lançamento de Dear Love: A Beautiful Discord, tempos mais simples, quando não tinham que lidar com os problemas da vida adulta, e essa sensação de descarrego ficou evidente com o crescimento da roda, que realmente não havia cessado nem por um segundo desde antes de entrarem em cena. Depois de encerrada essa, Jeremy fez um de seus últimos discursos: “Antes que Mike volte a cantar, queria dizer que já viemos aqui duas vezes e nunca vimos um público tão grande nem tão animado.” Mike reforçou o clima de “jogo vencido”: “Este ano é especial para nós porque estamos celebrando 20 anos de banda, e estamos fechando uma das turnês mais especiais aqui e agora, então preciso que vocês explodam essa casa.” Como se já não bastasse toda a catarse da música anterior, fecharam – agora pra valer – com Hey John, What’s Your Name Again?, momento carregado de um misto de felicidade por ter experienciado um dos shows mais impressionantes do ano e tristeza porque estava acabando. Depois de diversos agradecimentos, Mike & Cia. jogaram não só palhetas e baquetas, mas também garrafas d’água, vendo que os fãs haviam realmente se esgotado na pista, mostrando uma consideração real com seu público.

Gostaria de fechar a matéria não com as minhas palavras, mas com as de Gabriel Ramos, fotógrafo que me acompanhou no evento. Passadas umas 4 músicas, bem no começo do show ainda, recebi uma mensagem simples dele, mas que definiu exatamente o tanto de energia que rolou pelo Carioca: “Caralho, que show!” Se com apenas 4 músicas tocadas, o show já estava “do caralho”, dá para imaginar que o resto foi igualmente absurdo. As expectativas para esta apresentação estavam indubitavelmente altas, afinal o TDWP é um dos nomes mais emblemáticos do estilo no geral, e não apareciam por aqui há mais de uma década, mas, mesmo assim, conseguiram entregar até mais que o prometido, nos dando direito até a música nova – só “for us”.

Foi muito mais que um show. Foi realmente um reencontro.

Setlist Emmercia

Speed X-Drama

Cegueira Branca

Pescador de Tormentas

PRAPARÁ

Coração Cheio

Um Novo Jeito de Se Machucar

Um em Poucos Todos Nós

 

Setlist The Devil Wears Prada

Watchtower

Danger: Wildman

Born to Lose

Salt

Broken

Ritual

Reasons

Noise

Reptar, King of the Ozone

Escape (part. Sam Reynolds)

For You

Dez Moines

Chemical

Sacrifice

 

Bis

Where the Flowers Never Grow (estreia, música não-lançada)

Dogs Can Grow Beards All Over

Hey John, What’s Your Name Again?

 

Clique aqui para receber notícias da ROADIE CREW no WhatsApp.