THE ARISTOCRATS – SÃO PAULO (SP)

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Por Marcelo Gomes

Fotos: Belmilson Santos

O Carioca Club ficou pequeno para a avalanche de técnica e o carisma do The Aristocrats. No último dia 22 de agosto, a casa foi palco de uma apresentação inesquecível da banda, um power trio instrumental que mistura virtuosismo técnico com humor e criatividade. Formada por Guthrie Govan (guitarra), Bryan Beller (baixo) e Marco Minnemann (bateria), o grupo britânico-americano conquistou o público com um setlist enérgico e cheio de improvisos, demonstrando por que é considerada uma das forças mais inovadoras do rock progressivo e fusion contemporâneo.

The Aristocrats é conhecido por sua habilidade em fundir elementos de jazz, rock e metal em composições complexas e performances ao vivo imprevisíveis, cortesia de Guthrie Govan com sua técnica impecável e solos precisos, Bryan Beller com seu baixo groovy e melódico e Marco Minnemann, mestre das baquetas, que rouba a cena com sua versatilidade rítmica. Juntos, eles transformam o palco em uma verdadeira jam session de alto nível, e o show no Carioca Club não foi diferente. O público, composto por fãs de música instrumental e muitos instrumentistas, lotou o local, criando um ambiente perfeito para a aula que teriam.

Logo de cara, a escolha de abrir com Swan’s Splashdown (cover de Perrey & Kingsley) deu o toque de irreverência da noite: experimental, divertido e cheio de surpresas. Na sequência, faixas como Hey, Where’s My Drink Package? e Aristoclub mostraram a sincronia impecável do trio, com cada músico ocupando seu espaço com precisão cirúrgica, mas também com a descontração que só anos de estrada juntos permite.

Bryan introduziu a música seguinte com uma história sobre uma briga entre um pato e um pinguim em uma ilha, na qual o pato se deu melhor e fugiu para Nova York, mas foi abordado por um policial-pinguim. Guthrie aproveitou o momento para apresentar o “oficial da polícia” que estava em suas mãos, obviamente de brinquedo, para então anunciar Sgt. Rockhopper, composição que representava toda essa aventura.

Em seguida, foi a vez de Marco falar. Ele se dirigiu ao público em português: “Olá, galera, tudo bem? Vocês são foda pra caralho!”. Nem é preciso dizer que a casa veio abaixo com tamanha simpatia. Com elementos de funk, jazz e metal, Sittin’ With a Duck on a Bay mostrou toda a versatilidade do trio, que esbanjava competência na execução de cada nota, deixando o público cada vez mais hipnotizado com a apresentação. O mesmo ocorreu em Spanish Eddie, que compartilha apenas o título com a canção pop de Laura Branigan, lançada nos anos 80. No caso do The Aristocrats, em certos trechos o lado blues se destacou, alternado com a chegada de um flamenco e experimentações de tirar o fôlego.

O solo de bateria foi um dos momentos altos da noite, com Minnemann assumindo o protagonismo com uma performance impressionante. Em certa hora, focou só no chimbal, e que habilidade! Incorporou também um trecho da fanfarra da 20th Century Fox, de Alfred Newman, e uma citação da introdução de bateria de Over the Mountain, de Ozzy Osbourne. Os mais de dez minutos de solo foram uma aula de precisão e criatividade, que deixou o público em êxtase.

Mais uma vez, Bryan voltou ao microfone para contar o enredo da próxima faixa, desta vez com uma história mais triste. Ele relatou que, após a turnê pela América do Sul em 2016, chegou em casa e todos os seus instrumentos haviam sido roubados. O ladrão foi preso, mas os instrumentos nunca foram encontrados. O título The Ballad of Bonnie and Clyde veio a calhar em uma canção que transbordou melancolia e introspecção, transmitindo com precisão o momento vivido pelo baixista. A bela Flatlands trouxe momentos mais contemplativos, com Govan explorando melodias marcantes e provando que virtuosismo não precisa se resumir a velocidade.

Foi interessante notar a interação entre as músicas: sempre havia algum comentário ou brincadeira. Em um desses momentos, os fãs imploravam por uma palheta de Guthrie, que se desculpou explicando que usava a mesma havia nove meses e, se a presenteasse a alguém, não conseguiria mais tocar. Ainda se desculpou pela complexidade de Here Come the Builders, um jazz fusion ultra técnico que arrancou muitos aplausos, surpreendendo até a própria banda.

Outro destaque da noite foi This Is Not Scrotum, na qual Govan emulou um violino em sua guitarra em algo próximo a uma valsa. Simplesmente sensacional a perfeição com a qual sua guitarra se assemelhou ao instrumento erudito. A parte final contou com Get It Like That, trazendo uma participação efetiva dos fãs, que reproduziam os sons emitidos pelo pato de brinquedo manipulado por Bryan. Em meio à brincadeira, Marco perguntou quantos dos presentes eram músicos e, para surpresa de todos, mais da metade da casa ergueu as mãos, o que foi motivo de grande satisfação para a banda. A noite terminou com Desert Tornado, mais uma das peças complexas capazes de deixar qualquer estudante de música de cabelo em pé.

O show durou cerca de duas horas e foi marcado por interações leves e divertidas entre músicos e o público, com Govan e Beller trocando histórias entre as músicas e mantendo o clima descontraído. A produção no Carioca Club foi impecável, com um som cristalino que valorizou cada nuance das performances. O The Aristocrats comprovou, mais uma vez, por que é uma banda de elite. Com uma performance técnica impecável, criatividade inesgotável e um setlist que equilibrou complexidade e diversão, o power trio entregou mais que um show: uma verdadeira masterclass, sem margem para defeitos.

Setlist
Swan’s Splashdown
Hey, Where’s My Drink Package?
Aristoclub
Sgt. Rockhopper
Sittin’ With a Duck on a Bay
Spanish Eddie
Drum Solo
The Ballad of Bonnie and Clyde
Flatlands Here
Come the Builders
This Is Not Scrotum
Get It Like That
Desert Tornado

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