THE 69 EYES – SÃO PAULO (SP)

Escrito por

em

,

Por Luiz Tosi

Fotos: Belmilson Santos (*exceto onde indicado)

O The 69 Eyes é daquelas bandas que desafiam o tempo com classe, elegância e competência. Com 13 álbuns de estúdio e a mesma formação há mais de três décadas, os chamados Helsinki Vampires são hoje um capítulo importante no universo do gothic rock: uma fusão sombria e sedutora de guitarras glam, vocais obscuros, batidas dançantes e aquele toque vampiresco que transforma cada show em um ritual. Quando anunciaram o retorno ao Brasil para uma apresentação única em São Paulo, no Fabrique Club, a mobilização entre os fãs foi imediata. E, ainda que a casa não estivesse completamente lotada, chegou bem perto disso.

Essa foi a quarta passagem da banda por São Paulo e exatamente 20 anos após sua estreia em solo brasileiro, no longínquo festival Live N’ Louder de 2005. Mas foi apenas a segunda em show próprio, 15 anos após uma apresentação arrebatadora no Carioca Club, em 2010. A visita mais recente havia sido no Bangers Open Air de 2024 (ainda sob o nome Summer Breeze Brasil), marcada por um problema técnico que prejudicou a performance e frustrou os fãs. Desta vez, vieram para compensar. E compensaram com sobra.

Drama

A noite começou com duas gratas surpresas. Primeiro, os cariocas da Drama, banda de metal alternativo com fortes influências de industrial e pós-punk. Evocando nomes como Rammstein, Nine Inch Nails, Joy Division/New Order e Depeche Mode, conquistaram o público com uma mistura certeira de guitarras pesadas, melodias marcantes e bases eletrônicas pulsantes. Em seguida, a When I Die, de São Paulo. Com influências góticas, industriais e eletrônicas – e referências como Sisters of Mercy, Lords of the New Church, Christian Death e Rosetta Stone –, a banda foi um achado, com vocais dramáticos, presença de palco afiada e personalidade própria. Destaque para a formação sem baterista, substituído por bases eletrônicas e loops que funcionaram muito bem. Saí fã das duas.

When I Die

Com o Fabrique já tomado por um público vestido a caráter – muito preto, cabelos tingidos, olhos delineados e botas pesadas – The 69 Eyes surgiu no palco com alguns minutos de atraso e Devils abriu os trabalhos como um hino, cantado a plenos pulmões. Jyrki 69 surgiu sob luzes azuladas e vermelhas, conduzindo o público com gestos contidos, vozeirão grave e um magnetismo gélido. A banda, como sempre, soa coesa e precisa. Sem exibicionismo ou exageros: tudo na medida certa.

Na sequência, vieram Feel Berlin e Perfect Skin, que colocaram o público para cantar e balançar. Já Betty Blue e o cover Gotta Rock (da também finlandesa Boycott) reforçaram o flerte glam sempre presente na identidade da banda – guitarras sujas, refrãos pegajosos e um senso de humor sombrio que contrasta com a estética pesada. Destaque ainda para Still Waters Run Deep, raramente executada ao vivo e recebida com entusiasmo.

O clima foi crescendo faixa a faixa. Drive, do álbum mais recente (Death of Darkness, 2023), é um dos grandes acertos da fase atual: moderno, sexy e carregado de synths discretos. Depois vieram a ovacionada The Chair, Never Say Die e a sempre aguardada Gothic Girl, que ao vivo funciona perfeitamente.

Na reta final, I Love the Darkness in You e Brandon Lee mantiveram o público em transe. A essa altura, todos já estavam na mesma frequência. A banda não se dispersa nem quebra o ritmo, equilibrando celebração de um culto gótico com pegada de rock de arena. A presença de palco de Jyrki é magnética: com voz influenciada por Elvis Presley, Jim Morrison, Iggy Pop, David Bowie e Glenn Danzig, ele comanda sem esforço. Fala pouco, mas cativa com o olhar, a postura, a teatralidade. Vale lembrar que, em 2005, Jyrki foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da Unicef para a Finlândia, tendo atuado no Quênia e em campanhas contra HIV, tráfico de crianças e exploração sexual na África Ocidental. Um detalhe pouco conhecido, mas que humaniza ainda mais essa figura enigmática.

O bis foi um capítulo à parte. A banda puxou um cover de I Just Want to Have Something to Do (Ramones) e contou com a participação inusitada (e divertidíssima) de Supla, apresentado por Jyrki como “The Papito Vampire”. Supla é irreverente, sim, mas também é um baita frontman, com domínio de palco e entrega. A participação foi breve, espirituosa e deu o tom ideal para o encerramento – que veio com Dance d’Amour e Lost Boys, dois dos momentos mais catárticos da noite.

*Foto: Paula Cavalcante

O show teve pouco mais de 1h20 de duração e terminou por volta das 21h, em pleno domingo, respeitando o público paulistano – que pôde sair a tempo de pegar metrô ou aproveitar a tradicional pizza de fim de semana. A produção foi eficiente, o som estava pesado e bem definido e o Fabrique mais uma vez se mostrou uma excelente opção para shows desse porte: intimista, mas com estrutura.

O The 69 Eyes entregou exatamente aquilo que seus fãs esperam: coerência estética, repertório afiado e uma performance sólida. Poucas bandas atravessam décadas com tanta integridade, sem trocar de formação ou virar uma caricatura de si mesmas. E, neste domingo em São Paulo, os vampiros de Helsinque provaram que ainda têm muito sangue correndo nas veias.

 

Setlist

Devils

Feel Berlin

Perfect Skin

Betty Blue

Gotta Rock

Still Waters Run Deep

Drive

Hevioso

The Chair

Cheyenna

Never Say Die

Gothic Girl

Wasting the Dawn

I Love the Darkness in You

Brandon Lee

 

Bis

I Just Want to Have Something to Do (com Supla)

Dance d’Amour

Lost Boys

 

Clique aqui para seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp