THE SISTERS OF MERCY – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Amanda Sampaio Quando é dia de show do The Sisters of Mercy, o público já sabe o que esperar: fumaça espessa (pobre dos fotógrafos!), quase nenhuma palavra trocada com os presentes e, ainda assim, a casa cheia. Foi exatamente isso o que se viu na recente passagem da banda britânica pelo Brasil, em apresentação única em São Paulo, pela turnê “All Wires Red”. O frio intenso convidava ao reencontro com as irmãs da misericórdia, despertando os ‘morcegos’ de suas cavernas, que, não lotaram, mas compareceram em grande número ao Tokio Marine Hall. No recinto, o tempo se fazia visível no encontro das gerações: praticamente todos vestidos de sombras distinguiam-se apenas pelas cabeças grisalhas e pelas madeixas tingidas do negro mais obscuro, como se a noite tivesse sido vertida sobre elas. O roteiro desse retorno do Sisters, que em 2025 está completando 45 anos de história, remeteu à visita anterior, em 2023, já que, novamente, a abertura foi feita pelos paulistanos do 3 Pipe Problem — nome inspirado no romance de 1975 de Julian Symons. Comandado por Hafa Adami (voz e guitarra), carismático apresentador da Kiss FM, o grupo foi abraçado pelo público com sua sonoridade que combina post-punk e alternative rock a um blend de guitarras pesadas e música eletrônica. O ponto alto no repertório foi a versão da banda para o hit imortal Save A Prayer do Duran Duran. O frio intenso do lado de fora acabou jogando a favor, já que muitos preferiram se aquecer assistindo a apresentação do 3 Pipe — pena que, para alguns, somente assim mesmo para prestigiar o trabalho de um ‘opening act’.  Para quem viu o The Sisters of Mercy em 2023, havia a expectativa de que, desta vez, a banda se redimisse com uma apresentação mais digna que a duramente criticada naquela ocasião. Como costuma ocorrer em muitos shows do grupo mundo afora, o som baixo e mal equalizado — com a voz de Andrew Eldritch soterrada por outros elementos em volume mais alto —, foi um dos pontos mais apontados por quem, ironicamente, saiu desapontado. E pontuais com o horário marcado para as 22h, Eldrich, Ben Christo — guitarrista, que está completando vinte anos na banda —, Chris Catalyst — a mente por trás da parafernália eletrônica conhecida como Doktor Avalanche — e o novato guitarrista Kai (Kaito Takahashi, ou ) — cantor, músico e produtor musical japonês, além de líder da banda de J-rock Esprit D’Air — deram início, assim como em 2023, à contagiante Don’t Drive on Ice. Em clima de pub gótico londrino, que se instaurou no nada modesto Tokio Marine, o público ovacionou as quatro silhuetas que balançavam os esqueletos na penumbra de um véu de fumaça que escorria por todo o palco. Desde o início, o som estava notavelmente muito melhor regulado do que naquele ano. O mesmo se pode dizer em relação ao volume mais equilibrado da voz de Eldritch. De sobretudo e careca, o cantor, que se tornou a maior referência para diversos outros no gothic rock e no doom metal, estava lembrando bastante o Conde Orlok, vampiro antagonista do clássico filme de terror mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922), por causa da fumaça que o engolia e só possibilitava ao público ver seus contornos. Ainda comparando, se na apresentação anterior — como já mencionei — o público havia reclamado, desta vez sou eu quem reclama do próprio público. Mesmo diante de um show superior, a plateia pouco se movia: não agitava, não dançava, apenas aplaudia e gritava nos intervalos entre as músicas.

Há 35 anos sem um novo álbum de estúdio que suceda os clássicos First and Last and Always (1985), Floodland (1987) e Vision Thing (1990), a banda de Leeds (ING) preparou um repertório equilibrado, recheado de clássicos e de singles “soltos” (ou não), antigos e recentes, como a citada Don’t Drive on IceEntre as músicas mais ‘novas’, destacaram-se I Will Call You, But Genevieve e Crash and Burn, herança essa do projeto The Sisterhood, cujas músicas de seu único álbum, Gift (1986), costumam aparecer com frequência nos shows da banda.

Já entre os clássicos, é impossível não citar pérolas divinas como More — minha preferida (e a de muitos fãs também), além de uma das mais dramáticas de minha geração —,  Ribbons, Dominion/Mother RussiaMarian Temple of Love, que encerrou a primeira parte do show. No entanto, é um pecado deixarem de fora músicas como Walk AwayBlack Planet No Time to Cry, esta última originalmente gravada no debut First and Last and Always, e que voltou aos holofotes em 2025 na trilha do primeiro episódio da nova temporada da série “Wandinha”, da Netflix.

Também me desaponta ver o bpm ser acelerado em músicas como o hit Detonation Boulevard, que, dessa forma, soa entediante ao vivo. Seria culpa de Chris Catalyst, espécie de Krang — o vilão do universo das Tartarugas Ninja —, que comanda a Doktor Avalache como o cérebro alienígena que opera o exoesqueleto robótico dos Utroms? Apesar de Mr. Eldritch, mesmo não falando um “A” com a plateia, ser sempre o destaque com seu inconfundível vozeirão barítono grave, sombrio e declamado, além de sua performance sempre hipnótica, cabe um elogio também à dupla Christo e Kai, que agita bastante.

Aproximando-se do fim do show, após o coro do público clamando “Sister! Sister! Sister!”, o quarteto retornou ao palco para um bis com Never Land (A Fragment) e o encerramento com duas de suas músicas mais comemoradas: Lucretia My Reflection This Corrosion Apesar de tantas décadas sem um novo álbum de estúdio e de vir ao Brasil com certa frequência, o The Sisters of Mercy segue atraindo gerações inteiras que continuam a encontrar na escuridão sonora do grupo um tipo de catarse coletiva. Há algo de ritualístico em cada apresentação, uma celebração daquilo que o tempo não conseguiu corroer: a estética sombria, o carisma enigmático de Andrew Eldritch e o fascínio por essa eterna dança entre o gótico e o alternativo que a banda domina como poucas. Sisters of Mercy – setlist: Don’t Drive on Ice Crash and Burn Ribbons Doctor Jeep / Detonation Boulevard More I Will Call You Alice Dominion / Mother Russia Summer Giving Ground (cover do The Sisterhood) Marian But Genevieve Eyes of Caligula Here Quantum Baby On the Beach When I’m on Fire Temple of Love (Bis) Never Land (A Fragment) Lucretia My Reflection This Corrosion  
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