Por Daniel AgapitoÉ inegável que desde 2017 muita coisa aconteceu pelos lados da Ucrânia. Com a invasão russa, a música infelizmente teve que parar um pouco, com o foco dos artistas passando a ser outro. Agora, alguns anos depois, a cobertura midiática diminuiu bastante, mas as dificuldades não pararam, e coube a alguns artistas apresentar o que poucos ainda mostram. Uma das pessoas na linha de frente dessa conscientização é Igor Sidorenko, nativo de Donbass e agora morando na Alemanha, a grande mente por trás do Stoned Jesus, banda cult de doom metal progressivo.A história deles com nosso país pode parecer distante, mas não é curta. Já fizeram duas turnês por aqui, em 2016, passando por 3 cidades, e no ano seguinte, celebrando o agora clássico Seven Thunders Roar com 5 apresentações. Desde então, Igor e cia. sempre quiseram voltar, mas por conta de alguns contratempos isso não aconteceu – até este ano. Tivemos a chance de conversar com ele antes do lançamento de seu novo álbum, o primeiro com formação reformulada, Songs to Sun, e no final de um bate-papo de mais de uma hora, sobrou um tempo para abordar a turnê que vem por aí. Confira!A primeira vez que vieram para a América do Sul foi há quase 10 anos (2016), tocando no Rio, em São Paulo e em Florianópolis. Como que foi vir de um lugar tão longe e ser tão bem-recebido pelos fãs?
Igor Sidorenko: Ficamos extremamente chocados! A experiência toda de voar por 12 horas é longe de ser natural, então ser recebido tão bem como fomos foi incrível. Desde então, sempre que os jornalistas americanos e europeus me perguntam sobre os shows aí, respondo de maneira bem desprendida. Digo que precisam de 3 fatores: um produtor local que quer fazer o show, uma banda que quer fazer o show e uma base de fãs global que esteja pronta para vê-los. Ao mesmo tempo, na minha cabeça, ficava em choque: ‘Base de fãs local?! Sou só um cara aleatório de Donbass que compôs I’m the Mountain enquanto tocava violão de cueca no meu quarto. Nunca achei, nem em um milhão de anos, que estaria fazendo turnês internacionais com minhas músicas, muito menos que teriam centenas de pessoas no Brasil querendo ver! Ainda não entendo o que acontece (risos). Acho importante entender que não estamos mais nos anos 80 e 90, quando as gravadoras jogavam milhares e milhares de dólares na promoção internacional das bandas. Quando vejo os vídeos do Rock in Rio, Queen, AC/DC, Iron Maiden, bandas com milhões de dólares das gravadoras e dezenas de anos de experiência, pensava: “É, nunca vamos tocar lá”. Então chegamos no Brasil e não tínhamos milhares de fãs, mas umas boas centenas, que estavam gritando nossas letras. Foi provavelmente o público mais louco para o qual já tocamos. Você deve saber bem disso, os sul-americanos, os brasileiros, o mais perto que temos disso na Europa talvez sejam os gregos ou espanhóis, calorosos e barulhentos. É muito importante ter esse retorno enquanto estamos em cima do palco, os fãs têm que refletir essa energia, eleva muito a qualidade. É, estar do outro lado do mundo, tocando essas músicas que fiz sem intenção nenhuma, deitado na cama, e ouvir gente de outros países cantá-las a plenos pulmões, comprando seu merchandise – apesar de muitas pessoas falarem que vocês eram pobres, que não compravam nada, esgotamos tudo no meio da primeira turnê. Nosso booker europeu nos falou: ‘Não levem muita coisa, eles não compram nada’. Talvez não da sua banda… Se a banda é boa, vocês compram e isso é vital para fazer a máquina artística continuar a girar.Foi por isso que voltamos ao Brasil literalmente no ano seguinte, com a turnê de aniversário do Seven Thunders Roar, que foi fenomenal. Tinha ainda mais gente nos shows! Desde então, sempre quisemos voltar pela terceira vez, a primeira ideia era vir em 2020, mas obviamente, ninguém voltou em 2020! Fizemos um show sentado em um teatro em Kiev. Tínhamos planos para o 10º aniversário do Seven Thunders, que foi em 2022, que também foi um ano ruim para os artistas ucranianos, mas (o retorno) finalmente está acontecendo. Estou muito animado, estamos com a melhor formação da história da banda, vamos fazer o melhor show que já fizemos aí. Das últimas duas vezes, tocamos em 3 ou 4 cidades, dessa vez são 6, acho ótimo! Adoro tocar em todos esses lugares, mas estou muito animado para tocar em Florianópolis. Acho que foi da segunda vez que ficamos na casa do Júlio da Cobalt Blue, e foi ótimo, adoramos a ilha, a natureza, a comida. Muitos europeus ficam falando que vamos ser assaltados, para tomarmos cuidado, mas se sair do meu apartamento aqui na Alemanha posso ser assaltado também. Os brasileiros são incríveis! Não podemos sair julgando assim – e nem levar pouco merch! (risos)Já que estamos falando das pessoas, dos fãs enlouquecidos, não sei até que ponto você lembra do caos que foi seu último show em São Paulo. Estava chovendo, Testament, Mr. Big (com Geoff Tate) e Ratos de Porão todos fizeram shows no mesmo dia, e mesmo assim, ainda encheram a Clash Club. Teve também o incidente dos pedais, quando um fã subiu no palco e quebrou o equipamento…
Igor: Uau, não sabia desses outros shows! Tinham algumas centenas de cabeças por lá, mesmo. Sendo honesto, lembro de tudo isso, penso nesses acontecimentos pelo menos uma vez por mês! (risos) Na verdade, não acho que tivemos uma atitude muito profissional. Não quero falar merda dos outros caras, mas o integrante anterior que teve seu equipamento comprometido, ele era muito emocionado: ‘Não quero mais fazer o bis!’ São muitos voos, você não dorme direito, não come bem – ele era vegetariano, ficava difícil –, talvez tenha algo acontecendo em casa, mas você tem que ser profissional, dar aos fãs o que eles querem. Você foi contratado para fazer o show, então precisa entregar o show, mais nada. Com a formação atual, aconteceu algo em um show em Zagreb (Croácia) há alguns meses que acho que foi até um pouco pior: um bêbado jogou um copo de cerveja no palco e o copo (de vidro) estilhaçou todo, então estava tudo cheio de cacos. A galera que estava na grade ficou com medo. Ficamos putos, porque foi no meio de uma música e Andrew (Rodin), nosso baixista, pegou o microfone e disse: ‘Vocês querem que o show continue?’ Todos gritaram que sim, então voltamos do mesmo lugar e continuamos. Conseguimos elevar a moral de novo, o que não foi fácil. O segurança estava lá no fundo e veio correndo para tirar o cara. Conseguimos não deixar a peteca cair, e no final foi um dos melhores shows da turnê.Sou muito grato ao Andrew por isso. Vendo agora, isso nunca teria acontecido com os caras antigos. Coisas assim acontecem, são sempre oportunidades de aprendizado, você pode crescer com essas experiências ou continuar antagonizando os outros e subindo o muro entre você e o público. Esse muro nunca deveria existir – e não estou falando do The Wall, do Pink Floyd (risos). Fico feliz que tenho músicos mais maduros na banda, que conseguem ajudar o show a continuar, porque estamos lá para tocar, não para descontar nossa raiva, mostrar nosso caráter ou gritar com os outros, nem ser os heróis dos posts do dia seguinte. Apesar de tudo isso, aquele show em São Paulo foi ótimo, não podemos deixar um cuzão ou outro estragar o dia de centenas e centenas de outras pessoas que pagaram para te ver. Não estou tentando dizer que foi uma tragédia, acho que deixamos de tocar uma música só, mas é mais sobre a atitude mesmo. Tenho certeza que dessa vez vamos fazer o show inteiro – e dessa vez é um dos mais longos que estamos fazendo, com todos os hits e mais algumas músicas novas. O Brasil irá experimentar isso antes mesmo da Europa.Ia perguntar exatamente sobre isso, o que podemos esperar em termos do repertório. Você acabou de responder!
Igor: Nossa intenção é fazer um show completo mesmo, não tocamos aí há mais de 7 anos, então iremos levar o melhor que podemos, tudo que compusemos nos últimos anos. Obviamente, também não esqueceremos dos clássicos: vai rolar Black Woods, Bright Like the Morning e obviamente I Am the Mountain. Tocamos ela em todos os shows, é uma das minhas favoritas, justo porque sei que todos adoram e eu a amo também. Mesmo todos esses anos depois, ainda acho ela difícil de tocar, ainda preciso me concentrar bastante em certas horas, então sempre dá aquele friozinho na barriga. Não rola ‘tocar no piloto automático’, pensando no que vou comer depois do show (risos). Talvez durante Electric Mistress, mas não em I’m the Mountain. Preciso me concentrar, mas a resposta da galera é sempre de outro mundo, especialmente no Brasil. Acho que vai ser estarrecedora! Estou muito animado!Para fechar aqui, tem alguma última mensagem para os leitores da ROADIE CREW, para seu público brasileiro?
Igor: Falei mais do que esperava, então vou resumir: estejam lá, vai ser uma experiência legal para os dois lados! Deem uma conferida também no disco novo, Songs to Sun. Ele está pesado, intenso e pessoal, mas acho que você consegue ser feliz escutando. Citando minha própria música, See You on the Road!
STONED JESUS – SÃO PAULO (SP)
Data: 25 de outubro de 2025 – sábado
Horário: 19hLocal: Jai ClubEndereço: R. Vergueiro, 2676 – Vila Mariana, São Paulo – SPFoto: Dania ForysClique aquipara seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp