STEVE HACKETT – SÃO PAULO (SP)

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Texto e fotos por Roberto Sant’Anna

Há artistas que excursionam celebrando o passado; outros o reinterpretam e o mantém vivo. A apresentação de Steve Hackett em São Paulo provou que o lendário guitarrista britânico pertence definitivamente ao segundo grupo. Integrante essencial da fase mais criativa do Genesis nos anos 1970, Hackett segue levando aos palcos uma experiência que ultrapassa o conceito de nostalgia, transformando clássicos do rock progressivo em performances vibrantes e artisticamente relevantes.

O concerto aconteceu no Espaço Unimed, que apresentava excelente ocupação, com praticamente todas as mesas tomadas por um público claramente fiel e conhecedor do repertório. O início sofreu um atraso de cerca de 15 minutos, rapidamente esquecido assim que as luzes se apagaram e os primeiros sons tomaram conta do ambiente. O que se seguiu foi um espetáculo longo, generoso e imersivo, ultrapassando confortavelmente duas horas de duração.

Para a turnê latino-americana de 2026, Hackett dividiu o palco com a banda argentina Genetics, responsável por acompanhá-lo durante toda a apresentação. Longe de assumir apenas o papel de apoio, o grupo mostrou profundo entendimento da linguagem musical do Genesis clássico, funcionando como extensão natural da proposta artística do guitarrista.

A formação contou com Thomas Price (vocal, flauta e percussão), Daniel Rawsi (bateria, percussão e vocais), Léo Fernández (guitarras e vocais) e Horácio Pozzo (teclados), Cláudio Lafalce (baixo e guitarra). O resultado foi uma performance orgânica, dinâmica e tecnicamente sólida, reforçando a sensação de espetáculo coletivo e não apenas de acompanhamento.

A primeira parte do concerto destacou a carreira solo de Hackett, frequentemente subestimada diante de sua história com o Genesis. A abertura com Spectral Mornings estabeleceu imediatamente a atmosfera lírica da noite, seguida pelo peso dramático de A Tower Struck Down, marcada por contrastes intensos e passagens instrumentais densas. O ponto alto desse bloco veio com Shadow of the Hierophant, apresentada em versão expandida e emocionalmente crescente, evidenciando a habilidade do guitarrista em construir tensão e catarse de forma gradual e envolvente.

A transição para o repertório clássico foi recebida com entusiasmo imediato. Os acordes iniciais de Watcher of the Skies funcionaram como um verdadeiro portal temporal, transportando o público diretamente para a era dourada do rock progressivo. Dancing with the Moonlit Knight manteve o clima épico, enquanto The Musical Box resgatou toda a teatralidade característica da banda britânica em sua fase mais experimental.

Um dos momentos mais aguardados da noite veio com Firth of Fifth. O icônico solo de guitarra foi executado com precisão impressionante e sensibilidade intacta, arrancando uma das maiores reações da plateia paulista.

Após um intervalo de aproximadamente quinze minutos, o espetáculo retornou em tom mais intimista com Nylon Set e a delicada Blood on the Rooftops”, criando contraste emocional antes do momento central da apresentação. A execução de Supper’s Ready reafirmou o status da composição como uma das obras mais ambiciosas da história do rock. Ao longo de mais de vinte minutos, a banda transitou com naturalidade por seus múltiplos movimentos, alternando passagens atmosféricas, momentos narrativos e explosões instrumentais com impressionante segurança.

O encerramento do set principal manteve o público em êxtase com a sequência The Cinema Show e Aisle of Plenty, culminando na energia crescente de Dance on a Volcano emendada com Los Endos, executadas com força e precisão.

O bis trouxe homenagem direta ao álbum The Lamb Lies Down on Broadway. A sequência formada pela faixa-título, Fly on a Windshield e Broadway Melody of 1974 encerrou a apresentação de maneira coesa e simbólica.

Mais do que revisitar clássicos, Steve Hackett demonstrou em São Paulo que o rock progressivo permanece uma linguagem viva quando executada com respeito, técnica e paixão genuína. Em tempos de produções cada vez mais padronizadas, o espetáculo reafirmou a força atemporal de uma obra construída sobre criatividade, risco artístico e excelência musical.

Setlist

1ª. parte

Spectral Mornings

A Tower Struck Down

Shadow of the Hierophant

Watcher of the Skies

Dancing with the Moonlit Knight

The Musical Box

Firth of Fifth

 

2ª. parte

Nylon Set / Blood on the Rooftops

Supper’s Ready

The Cinema Show / Aisle of Plenty

Dance on a Volcano / Los Endos

 

Bis
The Lamb Lies Down on Broadway

Fly on a Windshield

Broadway Melody of 1974

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