OVERLOAD BEER FEST – SÃO PAULO (SP)

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Por Rogério SM

Fotos: Daniel Agapito

O metal extremo não pertence ao passado. Ele se reinventa, se fortalece e encontra novas formas de expressão sem abrir mão da essência. O Overload Beer Fest 2026 foi a prova disso. Em uma noite que dialogou diretamente com a fúria dos anos 90, mas sem soar datada, veteranos e nomes mais recentes dividiram o mesmo palco para reafirmar que o underground segue pulsando com força total.

Com ingressos esgotados e a casa completamente abarrotada, o público encontrou uma estrutura impecável. Pontualidade britânica, som cristalino dentro da brutalidade proposta, iluminação eficiente e uma área de comidas e bebidas que manteve a energia de todos até o último acorde. A organização da Overload mostrou porque se consolidou como uma das principais promotoras do segmento no país.

A abertura ficou a cargo do Cemitério, trio formado em 2014 que aposta em letras em português inspiradas em clássicos do cinema de horror. Assim, Hugo Golon (vocal e baixo), Douglas Gatuso (guitarra) e Guilherme Fructuoso (bateria), não perderam tempo. Com a casa já bem cheia, subiram ao palco e emendaram as primeiras músicas sem qualquer pausa, com A Vingança de Cropsy já encontrando a roda aberta no meio da pista. Hugo agradeceu quem entrou cedo, reforçando o espírito de cena, antes de despejar Sexta-Feira 13, um dos pontos altos do set. O death metal hipnótico do trio só parou com o encerramento de Pague para Entrar e Reze para Sair, consolidando uma apresentação direta, coesa e extremamente eficiente.

Na sequência, o D.E.R. transformou o Carioca Club em um verdadeiro campo de devastação sonora. Com quase trinta anos de estrada, o grupo mostrou que maturidade, no grindcore, significa ainda mais agressividade. A longa introdução criou tensão antes da explosão inicial que reabriu a roda imediatamente. O baixo absurdamente distorcido de Mauricio Toda, aliado às guitarras de Renato Figueiredo, com timbres que remetiam à crueza do black metal norueguês de nomes como o Darkthrone, formou uma muralha sonora quase intransponível. O set percorreu diversas fases da carreira, incluindo faixas do mais recente álbum da banda, Tempo Severo. Thiago Nascimento, aniversariante da noite, cruzava o palco como se estivesse possuído, urrando cada verso com intensidade brutal. Pouquíssimo papo. Era uma música atrás da outra. Barata impressionou pela precisão e velocidade quase sobre-humanas, conduzindo o massacre com técnica cirúrgica e deixando o público querendo mais.

Representando o thrash metal politizado, a Eskröta trouxe energia e discurso afiado. Abriram com A Bruxa, já com a guitarrista e vocalista Ya Exodus perguntando ao público: “Quem gosta de thrash? Quero ver mosh!” A resposta veio em forma de roda instantânea. Ao seu lado, a baixista Tamy Leopoldo e o baterista Jhon França Drums seguravam tudo em uma cozinha bem entrosada. Bolas infláveis foram jogadas na plateia, criando um clima de verdadeira festa thrash, sem perder o peso e o barulho. Playbosta ampliou o caos, enquanto Ya (codinome de Yasmin Amaral) agradecia ao público e às bandas da noite. Mantra foi executada com perfeição e manteve a intensidade lá em cima. Em um dos momentos mais emblemáticos, Hugo Golon, do Cemitério, subiu ao palco para participar de Filha do Satanás, com Ya puxando o coro de “Cemitério!” em reconhecimento à cena unida. O encerramento com Mulheres foi precedido por um pedido claro: os quinze segundos finais deveriam ter a roda mais insana da noite. Missão cumprida. A plateia ainda puxou mais uma vez o coro de “Eskröta!”, selando uma apresentação vibrante.

A penúltima atração foi o lendário Vulcano, um dos pilares do metal extremo brasileiro. Antes mesmo do primeiro acorde, o ex-vocalista Angel subiu ao palco para anunciar a banda, sendo recebido sob forte ovação. Liderados pelo veterano Zhema, guitarrista fundador, Luiz Carlos Louzada, Ivan Pellicciotti, Bruno Conrado e Cleiton Nunes assumiram seus postos sob aplausos ensurdecedores. Roda, mosh e crowd surfing tomaram conta da casa enquanto o público puxava o coro “Vulcano!” Spirits of Evil mostrou construções únicas, típicas do grupo, algo que ninguém mais consegue replicar com a mesma identidade. Witch’s Sabbath e Church at the Crossroads mantiveram o nível lá em cima. Angel voltou ao palco, dessa vez para dividir os vocais de Dominios of Death com Louzada, em um momento de pura catarse. Após Ready to Explode e Holocaust, Angel retornou sozinho para encerrar com os clássicos Total Destruição e Guerreiros de Satã, levando o público ao delírio absoluto.

Com a casa já fervendo, foi a vez de o Obituary assumir o comando. Celebrando 25 anos de Cause of Death, o grupo mostrou por que é uma das entidades máximas do death metal da Flórida e influência direta para praticamente todas as bandas do estilo que vieram depois. A abertura com a instrumental Redneck Stomp foi apenas o começo de um show que faria história. Os riffs arrastados colocaram todos para bater cabeça imediatamente.

Na sequência, Sentence Day, A Lesson in Vengeance e The Wrong Time consolidaram o domínio do quinteto sobre uma plateia que já não tinha mais espaço para se mexer, tamanha a lotação. Impressionantes o poder de voz e o carisma de John Tardy, que conduziu o show com maestria, tendo o público nas mãos. Os sons mais recentes pareciam clássicos ao vivo, mas aí o Obituary resolveu apelar: a partir de Infected, iniciou-se a celebração quase integral de Cause of Death. Fãs alucinados gritavam, fechavam os olhos e, principalmente, abriram roda para mais moshs. Body Bag, Dying e a própria Cause of Death soaram com peso colossal e clareza impressionante. A qualidade da banda e malícia são tamanhas que dava até pra se perguntar se realmente estávamos testemunhando isso ao vivo ou se era uma alucinação coletiva. Donald Tardy foi uma máquina precisa na bateria, Trevor Peres e Kenny Andrews construíram uma parede de riffs afiados, enquanto Terry Butler segurava a base com autoridade.

Mas tinha ainda muito mais. O tempo parou com a execução de Circle of the Tyrants, clássico do Celtic Frost, que foi recebida como um tributo às raízes do estilo. Chopped in Half e Turned Inside Out fecharam o bloco principal com rodas violentas e gritos ensurdecedores. Não ficou claro o motivo de Find the Arise e Memories Remain ficarem fora do set (não só aqui, mas em toda a turnê), o que deixou boa parte do público, que mantinha aquela esperança mínima de ver as duas ao vivo, com uma pontinha de tristeza.

Só que isso durou muito pouco. No bis, os hinos eternos I’m in Pain e Slowly We Rot finalizaram a apresentação com requintes de crueldade, deixando o Carioca Club em um verdadeiro frenesi. Era uma ode ao death metal, conduzida por uma banda que ajudou a definir as regras do gênero.

Ao final da noite, o Overload Beer Fest 2026 reafirmou que o metal extremo não é apenas resistência. É permanência, reinvenção e legado vivo. Dos novos nomes que mantêm a chama acesa aos pioneiros que moldaram o caminho, a mensagem foi clara: o peso continua soberano. Hail!

 

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