NERVOSA – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Roberto Sant’Anna  Vivendo uma de suas fases mais consistentes, a Nervosa teve em 2025 um ano especial ao celebrar 15 anos de trajetória no thrash metal. Ao longo do ano, o grupo manteve uma agenda internacional intensa, incluindo apresentações pela Ásia, Austrália e Dubai, além de uma turnê com o Cradle of Filth e da “Thrash of the Titans Tour”, na Europa, ao lado de Testament, Destruction e Obituary. Experiências inéditas que evidenciaram o alcance conquistado por uma banda criada no Brasil e hoje internacional. Ao longo dessa década e meia de estrada, a Nervosa soma shows em mais de 58 países, marca que ajuda a dimensionar a relevância do grupo no cenário global. Muito dessas conquistas são fruto, sobretudo, da resiliência da guitarrista e hoje vocalista Prika Amaral, que enfrentou com firmeza as críticas de parte do público nos primeiros anos de banda e as sucessivas trocas de formação ao longo dessa trajetória. Curiosamente, as comemorações começaram em São Paulo e também se encerraram na capital paulista, reforçando a ligação da banda com a cidade onde tudo teve início. Na véspera de seu último show do ano, que marcou o encerramento do ciclo de divulgação do álbum Jailbreak (2023), Prika Amaral, Helena Kotina (guitarra), Emmelie Herwegh (baixo) e Gabriela Abud (bateria) receberam a imprensa para uma coletiva realizada na Arena Galeria, localizada na cobertura da tradicional Galeria do Rock (confira aqui). Durante a entrevista, o grupo destacou que, a partir de janeiro, dará início ao processo de pré-divulgação de seu próximo álbum de estúdio, o sexto da carreira. O local escolhido para o último show da Nervosa em 2025 fugiu do habitual para uma banda de thrash metal: o Teatro do Sesc Bom Retiro, com capacidade para 297 pessoas sentadas. A proposta do show, porém, também seria — e de fato foi — diferente. Na coletiva, Prika explicou que a história da Nervosa seria contada ao longo do repertório e brincou ao definir o conceito como um “stand-up, mas não comedy”. O próprio início do evento, marcado para as 20h, também foi singular. Com dez minutos de atraso, Prika Amaral subiu sozinha ao palco e, por cinco minutos, conversou com o público, que compareceu em peso e praticamente lotou o teatro. Ela destacou a importância de realizar esse último show na cidade onde tudo começou e explicou que planejou uma noite especial, na qual a trajetória da Nervosa seria narrada ao longo da apresentação. A vocalista comentou ainda que a banda já havia experimentado algo semelhante no Japão, mas decidiu aprimorar o formato para o show em São Paulo. Durante a fala, relembrou o início de tudo em 2010, seu período na banda de death metal Inner Voices e o impulso que recebeu para criar uma banda formada exclusivamente por mulheres, além de citar nomes de diversas integrantes que fizeram parte do line-up nos primeiros dias e destacar a formação com Fernanda Lira (ex-vocalista e baixista) e Fernanda Terra (ex-baterista) – com as quais a Nervosa gravou a primeira demo e o primeiro videoclipe. Após esse prólogo, encerrado com Prika agradecendo os fãs pelo apoio ao longo dos primeiros 15 anos, a líder da Nervosa deixou o palco e uma introdução sinistrona começou a rolar no som mecânico. Ovacionadas, Prika, Helena, Gabriela e Emmelie ganharam o palco e deram início ao show com Masked Betrayer, a primeira música que, impulsionada pelo videoclipe, projetou a Nervosa no cenário, apresentada em uma execução ainda mais acelerada e agressiva. De imediato, a qualidade de som redonda que preenchia o aconchegante e espaçoso teatro foi um forte indicativo de que aquela realmente seria uma noite especial. Desde a primeira música, chamou atenção a performance bem ensaiada da banda, com as integrantes trocando de posição constantemente, agitando cada uma à sua maneira e, em alguns momentos, de forma coreografada e bem sincronizada, como costumavam fazer bandas como Judas Priest e Megadeth no auge de suas carreiras. O trio de frente, inclusive, avançou até a beira do palco em diversos trechos, buscando maior proximidade com o público, que, mesmo sentado, reagia como podia: bangueando, batucando nas pernas e/ou cantando junto. Na sequência, o quarteto mandou Urânio Em Nós e seu hino, com quase dois milhões de acessos no Spotify, Death!, ambas do álbum de estreia Victim of Yourself, lançado em 2014. Ao final da trinca inicial, o nome da banda foi gritado em coro pela plateia. Prika agradeceu e explicou que aquele início do show representou a primeira fase da Nervosa, que inclui o lançamento da demo de 2012 — contendo Masked Betrayer — e também o mencionado debut. Prosseguindo, Prika explicou: “Agora vamos para a segunda fase da Nervosa, onde a gente saiu do Brasil pra gravar um disco lá nos Estados Unidos, numa aventura incrível, em que não sabíamos no que ia dar, na pura raça. Foi uma das turnês mais difíceis que a gente fez. Mas, antes disso acontecer, a gente gravou nosso disco, lá na Califórnia, com o Brendan (Duffey, produtor). A frontwoman também relembrou a recepção que a banda teve na terra do Tio Sam pelos próprios brasileiros: “Foi uma experiência incrível poder estar lá, saindo do Brasil em uma das nossas primeiras turnês, e ser bem recebidas por um monte de brasileiros que moravam nos Estados Unidos e foram conferir e apoiar a gente. Os brasileiros sempre nos empurraram pra cima. Não temos nada do que reclamar dos brasileiros. Nada.” Sob aplausos, Prika comentou sobre o próximo disco abordado no set, Agony“Foi o disco que projetou a gente para fora, quando ficamos mais conhecidas, tocamos em vários festivais pela Europa, fazendo nossas primeiras turnês com bandas grandes, como Destruction, Suffocation e Venom Inc.” Desse trabalho, foi executada apenas a faixa-título. Dando sequência a ordem cronológica dos discos, Downfall of Mankind foi o próximo a ser revisitado. Antes, porém, Prika fez um discurso forte e comovente: “A próxima música é uma das mais importantes da carreira da Nervosa. Lembro que, em 2017, em minha volta (ao Brasil), muitas coisas ruins estavam acontecendo, e uma delas era ver mulheres apanhando, e isso foi muito foda.” Na sequência, a vocalista deixou um recado direcionado às mulheres presentes na plateia, supondo que algumas ali poderiam estar vivendo esse tipo de situação execrável: “Isso me inspirou a escrever essa letra para que vocês, mulheres que estão sofrendo algum tipo de abuso, físico ou psicológico, não tenham medo de abrir a boca e falar. Vocês não estão sozinhas. Apenas matem o silêncio”. Em seguida, ela vociferou: “Kill the Silence!”. Foi o gancho para a execução da faixa, durante a qual Prika ainda protagonizou um solo visceral.

Para a próxima música, Prika abandonou a guitarra e anunciou: “Agora, seguindo a temática, uma música na mesma ideia, só que de coautoria com o João Gordo (vocalista do Ratos de Porão), uma de nossas músicas em português: Cultura do Estupro!” Houve um pequeno deslize no início — ocorrido na introdução corrosiva que remete ao som do Carcass —, mas a banda rapidamente se reencontrou, retomando de onde parou, sem perder a energia da música. Mesmo sem a guitarra, Prika chamou a atenção pela performance intensa e confrontacional. Helena Kotina também se destacou, entregando um solo com técnica de two-hands muito bem encaixado. No palco, a guitarrista alia movimentação e precisão, exibindo muito punch e consolidando, ao lado de Prika, uma parceria que vem dando muito certo e bastante entrosada desde sua entrada na Nervosa. Após Cultura do Estupro, Helena, Gaby e Emmelie deixaram o palco. Prika permaneceu para comentar a fase seguinte da banda, lembrando que ela se desenrolou em meio à pandemia: “Em 2020, a gente fez nossa primeira turnê na Ásia, encerrando nossa turnê do Downfall of Mankind, e logo depois a Fernanda (Lira) e a Luana (Dametto, ex-baterista) anunciaram que iriam sair da banda. Já era uma coisa prevista, mas eu não esperava que fosse acontecer no meio da pandemia. Mas fazia todo sentido para ambas as partes.” A vocalista relembrou o processo de busca por novas integrantes e foi aplaudida ao decretar: “O mundo está cheio de mina foda, todas são especiais!” Em seguida, completou: “Respeito máximo por todas que fizeram parte da Nervosa”. Prika destacou ainda a importância das mensagens que recebeu de mulheres do mundo todo, incentivando-a a seguir em frente com a Nervosa. Ela contou que inicialmente procurou novas integrantes no Brasil: “É muito difícil encontrar garotas com experiência ou disponibilidade, é uma lista de fatores. Nunca foi sobre quem toca bem, pois todas são capazes. Era só questão de treinar, praticar, já que a gente tinha todo tempo do mundo (na pandemia). Não era habilidade, era disponibilidade, profissionalismo, experiência, vários aspectos”. Segundo Prika, a formação acabou sendo encontrada na Europa — Diva Satanica (vocal), Mia Wallace (baixo) e Eleni Nota (bateria) —, dando início à era Perpetual Chaos, o quarto álbum, lançado em 2021. Prika deixou o palco, as luzes focaram no enorme backdrop com o logotipo da Nervosa e a introdução mecânica que se ouviu foi o prenúncio para o caos formada pela própria Perpetual Chaos, seguida de VenomousUnder Ruins (essas duas emendadas) e da malígna Guided By Evil.

Após a saraivada de músicas do quarto álbum da Nervosa, Prika voltou a ficar sozinha no palco para falar da fase atual da banda. Ela explicou que, quando começava a se adaptar à formação de Perpetual Chaos, o grupo passou novamente por mudanças. De acordo com a guitarrista, a rotina intensa da estrada, o tempo longe de casa, a saúde e as incertezas financeiras acabam fazendo com que muitas musicistas percebam que querem realizar seus sonhos, porém não nessa intensidade de dedicação.

Prika revelou ainda que, desde a saída de Fernanda Lira e Luana Dametto, já existia o plano de incluir uma segunda guitarrista, ideia adiada por questões logísticas. Após o lançamento de Perpetual Chaos, ela entrou em contato com Helena Kotina, percebendo rapidamente que ela se encaixava nas propostas da banda. No mesmo período, Mia Wallace enfrentou problemas pessoais e não pôde participar da turnê sul-americana, enquanto Diva Satanica já havia anunciado sua saída. Diante desse cenário e para evitar novas trocas de vocalista, Prika decidiu assumir os vocais, mesmo ressaltando que sempre se identificou mais com a guitarra, enxergando essa escolha como a melhor forma de manter a Nervosa viva.

Ela também destacou que a turnê de 33 shows em 40 dias pela América Latina, realizada em 2022, foi uma das mais difíceis da carreira, embora tenha sido um momento especial, mesmo sem uma baixista fixa. Foi nesse contexto que a banda contou com Helena pela primeira vez, ainda nas quatro cordas. Mesmo com Diva cumprindo as datas, Prika contou que foi incentivada pela vocalista a testar sua voz em uma música do set, como forma de confirmar seus planos como frontwoman. Ela acrescentou que Mayara Puertas, vocalista do Torture Squad, a própria Helena e o atual produtor da banda, Martin Furia — guitarrista do Destruction —, também tiveram papel fundamental em sua decisão de assumir os vocais da Nervosa.

Entrando na fase atual do grupo, uma introdução instrumental no som mecânico tomou conta do ambiente com o palco vazio, até que o quarteto retomou suas posições e voltou a agitar o público com Seed of Death, faixa do mais recente álbum Jailbreak. Durante a execução, dois momentos chamaram atenção: as guitarras gêmeas que antecederam o solo preciso de Helena e Prika Amaral caminhando com sua Kramer até o meio da plateia acomodada em poltronas dispostas em formato de cinema, para então retornar ao palco dividindo o mesmo solo com Helena.

Na sequência, a banda apresentou Behind the Wall, emendou Nail the Coffin com Ungrateful e ainda mandou outra porrada, Kill or Die, na qual, no decorrer, Helena, Prika e Emmelie foram tocar na beira do palco. Nesse bloco do show, Helena estava simplesmente endiabrada, agitando e executando riffs precisos e diversos solos com two-hands.

Chegara o momento de Prika apresentar as integrantes, começando pela “imparável” Helena, apresentada de forma bem-humorada como a “mais velha na banda” — claro, depois da própria fundadora. Cabe aqui um contexto sobre a competente cozinha da Nervosa: Gaby e Emmelie ainda não faziam parte do grupo quando Jailbreak foi gravado. Foi durante a turnê do álbum que a baterista brasileira assumiu o posto da búlgara Michaela Naydenova, enquanto a baixista holandesa passou a se revezar com a grega Hel Pyre, que nem sempre pode estar na estrada por dividir seu tempo entre a filha e outros projetos — entre eles, o King Diamond, no qual atua como tecladista ao vivo.

Sobre Emmelie e Hel, o gesto de Prika em oficializar as duas baixistas, que não dividem o palco, mas se alternam nas turnês, foi incomum e, ao mesmo tempo, muito legal: “No baixo, a gente tem uma situação. Temos o privilégio de ter duas baixistas.” Ovacionada, ela prosseguiu: “Elas não tocam juntas, vão se revezando entre as turnês. Acho que esse é um tema importante para a gente falar. A nossa outra baixista tem uma filhinha pequena e nem sempre pode viajar; ela precisa cuidar da filha, que ainda é muito nova. A gente entende isso e encontrou essa solução, mesmo sem muitas referências, porque as mulheres que costumamos ver no metal ou são mães solo ou são vocalistas, e a dinâmica é diferente. A gente ficou se perguntando: ‘O que fazemos?’. Eu não vou tirar nenhuma mulher da banda porque ela engravidou ou teve um filho. Isso não é motivo. Sempre dá para encontrar um jeito de todo mundo viver o sonho.” Prika justificou a integração de Emmelie dizendo ainda: “Essa menina aqui está dando o sangue, então ela merece tanto quanto a outra”.

A conduta de Prika foi recebida com aplausos calorosos e mais do que merecidos. Emmelie também foi ovacionada — reconhecimento justo para uma musicista que, além de bem entrosada, toca com precisão, pegada e segurança, bangueando o tempo todo e reforçando a energia do trio de frente. Antes de falar de Gabriela, Prika também pediu aplausos para a ausente Hel Pyre.

Em relação a Gabriela Abud, acertadamente, Prika afirmou considerá-la uma das grandes revelações recentes do metal nacional e relembrou que a primeira vez que a viu tocar foi durante uma turnê da Nervosa, em 2022, quando a jovem baterista integrava outra banda feminina, Sinaya. Segundo Prika, naquele momento ela não buscava uma nova baterista, mas a performance de Gaby ficou marcada em sua memória e, quando a oportunidade surgiu, foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça para ocupar a vaga.

Após os aplausos direcionados à “monstrinha” Gaby Abud, Prika ainda arrancou risadas do público ao apresentar a si própria.

Para a sequência do show, uma surpresa no repertório: “Uma música que a gente não tocou esse ano, no show de São Paulo e nem em nenhum show. Na verdade, a tocamos em pouquíssimos shows. A gente trouxe ela aqui, porque faz muito sentido, lançamos essa música esse ano para comemorar este momento de 15 anos de Nervosa”, explicou Prika Amaral.

Em seguida, a vocalista fez um alerta sobre a música e adiantou uma informação sobre o próximo álbum da banda, sexto de estúdio: “Tenho uma notícia para vocês. Essa música não vai fazer parte do nosso disco novo. E o disco novo está vindo. Em janeiro vocês vão ter uma novidade!” Dito isso, Prika anunciou Smashing Heads, single mais recente da Nervosa, lançado em junho, marcando a estreia de Abud em estúdio — literalmente falando!

Já se aproximando do final, Prika avisou que, após o show, a banda precisaria de apenas 15 minutos, e então atenderia todo o público na área de merchandising. Para apresentar a próxima música, ela disse: “Essa vai para todos vocês, pois a escrevemos para vocês se sentirem orgulhosos de quem são. Muitas vezes a gente troca nossas camisetas para ser aceito no trabalho, para ninguém encher o nosso saco no metrô, qualquer besteira dessas. Temos que ser orgulhosos de sermos metalheads, tem que parar esse preconceito idiota”.

Ela se referia ao contagiante ‘thrash n’ roll’ que dá nome ao álbum Jailbreak. A impressão era de despedida, mas ainda havia tempo para mais uma. Antes, Prika agradeceu ao público e à equipe: “Sem palavras. A gente não tinha maneira melhor de encerrar o nosso ano, de encerrar essa fase. Do que está vindo por aí, temos muitas novidades.” Ela ainda acrescentou que “jamais vou esquecer desse momento” antes de anunciar Endless Ambition, faixa que abre o último disco.

Ao fim do show, ficou a sensação de um ciclo bem concluído e de uma banda plenamente consciente de sua trajetória, das dificuldades superadas e dos caminhos que escolheu seguir. Mais do que uma celebração dos 15 anos da Nervosa, a apresentação reafirmou a força de uma identidade construída com resiliência, posicionamento e entrega no palco. E, como prometido, após o breve intervalo solicitado, as integrantes retornaram para atender cada um dos fãs que permaneceram no local, conversando, tirando fotos e reforçando, no contato direto, a proximidade e o respeito que sempre marcaram a relação da banda com seu público. Que a próxima fase, com um novo álbum de estúdio, sirva para consolidar a atual formação e ampliar ainda mais o avanço da Nervosa em sua trajetória mundo afora.

Nervosa – setlist:
  1. Masked Betrayer
  2. Urânio em Nós
  3. Death
  4. Hostages
  5. Kill the Silence 
  6. Cultura do Estupro
  7. Perpetual Chaos
  8. Venomous / Under Ruins
  9. Guided By Evil
  10. Seed of Death
  11. Behind the Wall
  12. Nail the Coffin / Ungrateful
  13. Kill or Die
  14. Smashing Heads
  15. Jailbreak
  16. Endless Ambition
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