
Por Daniel Agapito
Fotos: Andre Santos
Quem acompanhou o retorno e os shows do Linkin Park no ano passado com certeza lembra do caos que foi. A contagem regressiva que veio do nada, a nova vocalista, o estrondoso single Heavy Is the Crown, polêmicas até com a igreja da cientologia, os rumores de turnê latino-americana, os ingressos para a primeira data no Allianz Parque esgotando em minutos, a abertura da data extra (até então, única no mundo)… Dizer que aqueles shows foram históricos seria não só óbvio, como também um belo de um desserviço àquela noite. Para quem quer uma visão mais completa dos acontecimentos que precederam o anúncio que parou a internet, o impacto cultural e musical da banda e do saudoso Chester Bennington ou só quer relembrar o segundo 15 de novembro mais importante do Brasil, leia a matéria que este que vos escreve fez no ano passado aqui.
Chegando no dia deste show de 2025, parecia que as forças maiores tinham algo contra o nu metal, pois não só tivemos direito a uma série de ciclones tropicais (que inclusive azedaram diversos voos – aquele sábado foi uma noite conturbada para os fãs de HammerFall), como também alguns alertas da Defesa Civil a respeito da chuva. Por sorte, na hora do dito e feito não passou de uma garoa. Durante a tarde, enquanto a galera da grade chegava no MorumBIS, Colin Brittain, baterista, desceu à pista para trocar uma ideia rápida com os fãs, aquele gesto simples que humaniza a banda.
Passando para as bandas em si, enquanto a garoa ameaçava constantemente cair e uma quantidade descomunal de gente entrava no estádio, a Poppy subia no palco, tendo uma recepção historicamente gelada. Desde o começo de sua carreira, quando viralizou no YouTube com vídeos minimamente esquisitos, ela foi uma figura que dividiu opiniões, sempre carregou aquela polemicazinha, polêmica essa que o público brasileiro nunca chegou a curtir tanto assim. Ela havia feito um show solo no Cine Joia alguns dias antes – lotado – e em relação à performance no estádio lembrou o Knotfest do ano passado, mas o público estava mais perdido ainda.
O enterro, digo, show, começou com have you had enough? faixa de Negative Spaces, álbum mais recente da cantora. Em relação ao repertório, ela acabou negligenciando alguns dos esquisitos álbuns pós-pandêmicos, que apresentam uma sonoridade bastante diferente de sua atual, focando, ao invés disso, em I Disagree (2020), além do mais novo. A única quebra do clima sepulcral que dominava o Cícero Pompeu de Toledo foi em V.A.N., originalmente do Bad Omens, mas cantado majoritariamente pela nativa de Boston. Faixas como Anything Like Me até renderam aquela “limpação de janela” coletiva, enquanto crystalized viu pulinhos sincronizados, mas as coisas só aconteciam com incentivo dela, nada do público vinha por vontade própria.
De resto, ela até tentou… Em Scary Mask saiu do palco e voltou mascarada, até tinha um fã ou outro esgoelando o refrão de Concrete, mas no geral não virou. O problema não foi a performance em si, que, inclusive, aparentava ter menos playback que a estreia, no ano passado, mas o fato de que ninguém havia se dado o trabalho de ir atrás de seu repertório – o show não foi ruim, só não foi a artista certa para abrir para o LP.

Passada meia hora desde a saída da cantora, uma contagem regressiva de 10 minutos apareceu no telão do estádio, dando flashbacks àquele primeiro anúncio do retorno. Quando ela foi chegando no final, Don’t You Worry Child, da Swedish House Mafia, soou pelo PA, dando aquele clima de festa de jovem em 2013, e era o que parecia: todos cantavam e dançavam, esquecendo dos problemas da vida “normal”, antes de as luzes se apagarem e Inception Intro C, trazendo alguns trechos de Burn it Down, tomar conta dos alto-falantes. Quem viu o show do ano passado irá se lembrar bem deste momento, pois a estrutura (divisão em 4 atos) – e até boa parte do repertório – foi exatamente igual à daquele show. Reprise ou não, quando vieram as primeiras notas de Somewhere I Belong, a catarse foi a mesma, aquela onda de nostalgia avassaladora – assim como no ano anterior, mal dava para ouvir Emily Armstrong cantar. Com Lying from You, ficou evidente uma das maiores diferenças quando comparado ao ano anterior: estávamos vendo um Linkin Park mais entrosado, mais unido, sem aquele clima intransponível de tributo – ainda era uma homenagem ao Chester, mas nem tanto quanto anteriormente.

O primeiro ato seguiu firme com Up from the Bottom, faixa lançada para a versão deluxe de From Zero, no começo deste ano. Mesmo sendo uma das músicas mais recentes da banda, foi cantada com força pelo público, como se fosse uma das antigas, provando que a nova fase do LP já está para lá de consolidada. “Da última vez que estivemos aqui, estávamos lançando From Zero, e desde então muita coisa aconteceu, então queria agradecer a todos que ficaram por aqui”, disse Mike Shinoda, antes de seguir com The Emptiness Machine, outra que já pode ser considerada clássica. Creation Intro C, emendada diretamente em The Catalyst, começou o segundo ato naquela “limpada de janela” novamente. O chão começou a tremer ao som de Burn it Down, com o riff de sintetizador sendo ecoado a plenos pulmões. Algumas músicas depois, Mike e Emily agradeceram os fãs pelos cartazes que trouxeram, destacando um que tinha um Grammy desenhado, visto que haviam sido indicados em diversas categorias.

Com apenas os dois vocalistas no palco, trouxeram um cover mais intimista de Where You’d Go, do Fort Minor, passando diretamente para Waiting for the End, aquela dobradinha pra chorar; quem nem lacrimejou morreu por dentro. Houve também algumas inclusões interessantes no repertório, como Lies, Greed, Misery, lado B de Living Things (2012), em que o público deu aquela morrida de leve, mas voltaram com força logo depois com Two Faced, seguida de um solo do DJ Joe Hahn. Durante Two Faced, abriram diversas rodas – ficou evidente que nem todo mundo sabia o que fazer na roda, mas estavam se divertindo.

Shinoda ficou sozinho mais uma vez antes de começar a medley de When They Come for Me e Remember the Name, na qual ele aproveitou para interagir com o público, descendo para o pit de fotógrafos. Lá, na grade de seção LPU Pit, ele encontrou Alice, uma fã jovem que segurava um cartaz pedindo para trocar de boné com o vocalista. Já de bonés trocados, Shinoda executou alguns versos de It’s Going Down, dos X-Ecutioners, dizendo que queria cantar algo que não canta há tempos. Já com a banda toda no palco, passaram para IGYEIH, que contou com uma contagem regressiva no telão, indicando o grito de mais de 15 segundos que Armstrong faz logo antes do breakdown. A clássica One Step Closer veio logo na sequência e viu o retorno da Poppy ao palco. De forma semelhante ao seu show, a cantora parecia estar perdida, e com Shinoda, Emily e o público todo cantando em uma só voz, não agregou muito ao produto final.

O 3º ato começou filmando os fãs da grade e seus cartazes, como um que lia “Mike, quer ser tio do meu filho?” – e se o fã estava apenas se referindo ao conceito de tio de forma afetiva ou se estava realmente ofertando sua irmã ou seu irmão no meio do estádio, nunca saberemos ao certo. Ele começou de fato com Lost, que apesar de animada tem toda uma melancolia, especialmente por conta de sua história, sendo cortada do Meteora e lançada apenas 20 anos depois, tendo uma letra bastante pessoal, lidando com o sentimento agridoce da nostalgia. O próximo destaque desta parte – seção mais curta do show, por sinal – foi What I’ve Done, realmente ecoada em uníssono pelos frequentadores do MorumBIS, dando um ar quase cinemático, realmente digno do final daquele filme do Transformers.

Visto que o repertório já se aproximava da marca das 20 músicas, havia aquela tensão no ar: todos sabiam que o show caminhava em direção ao fim e que viriam os maiores hits, só que ninguém sabia quando. O começo do 4º ato se deu com Overflow, música nova, recebida de maneira morna, considerando o ponto onde a performance estava. Mesmo assim, nada conseguiu preparar o público para o que veio na sequência. Os dois vocalistas foram à ponta da passarela despretensiosamente, apenas para se aproximar dos fãs, fazerem uma brincadeira, mas o que acabou acontecendo primeiro foi um chá revelação. Para os curiosos, era uma menina. Seguindo com o clima de brincadeira, Mike deu a uma fã a opção de escolher entre os números 1, 2 e 3, cada um representando um estilo de música diferente, no qual a faixa seguinte (Numb) seria executada. Independente do começo calcado na disco music, a reação do público foi estrondosa, o estádio tremia com os pulos e as pessoas vibravam, cantando como se não houvesse amanhã.
“Geralmente tenho que falar alguma coisa depois dessa música, mas de verdade, estou sem palavras.” Agradecendo os fãs e pedindo cuidado com os sinalizadores, que àquela altura eram acesos em praticamente todas as músicas, seguiram para Over Each Other, oportunidade boa para respirar antes da lapada que foi In the End. Logo na primeira nota de piano, o povo entrou em erupção; um estado de euforia pura havia dominado o estádio. Era até difícil de ouvir Emily cantar, dada a cantoria generalizada da galera. No final daquela faixa, Mike foi novamente à frente da passarela, agora trazendo uma bandeira do Brasil no pedestal do microfone. Para fechar aquela parte do show, escolheram Faint, aquela última dose de energia, de caos, para saírem com o clima lá no alto.
A banda desceu do palco, aquele barulho de TV fora do ar tocou pelo PA, mas todo mundo sabia que iam voltar para um bis. Dito e feito, mais ou menos 2 minutos depois voltaram com Resolution Intro C nos falantes, novamente com elementos de Burn it Down. A trinca final teve seu início com Papercut, icônica primeira faixa do primeiro álbum (Hybrid Theory, 2000); terminar o show com a música que introduziu a banda ao mundo foi poético. Falando em introduções, Heavy Is the Crown, segundo single desta nova formação, veio logo na sequência e mais uma vez provou que a nova era do Linkin Park já está completamente consolidada. O fim para valer foi ao som de Bleed it Out, que apesar de ser para lá de icônica, não tem exatamente aquela energia de final de show, dando aquele gostinho de quero mais, mas um gosto estranho.

No geral, conseguiram repetir o feito do ano passado e entregar mais um show insanamente memorável. Desta vez, ficou claro que tanto os fãs quanto a própria banda se acostumaram mais com esta nova fase, e as dores de crescimento já começaram a passar. Não pareceu um show de retorno do Linkin Park, apenas um show da nova formação do Linkin Park. Sim, Chester segue insuperável mas, como disse na cobertura do ano passado, o intuito desta nova fase não é imitar o que já passou, mas honrar este legado e seguir em frente, e foi exatamente isso que fizeram. Por mim, já podem voltar no ano que vem.


Setlist Poppy
have you had enough?
BLOODMONEY
V.A.N.
Anything Like Me
crystalized
Scary Mask
Concrete
new way out
Setlist Linkin Park
Ato I
Inception Intro C*
Somewhere I Belong
Lying from You
Up from the Bottom
New Divide
The Emptiness Machine
Ato II
Creation Intro C*
The Catalyst
Burn it to the Ground
Cut the Bridge
Where’d You Go
Waiting for the End
Lies Greed Misery
Two Faced
Solo Joe Hahn
Empty Spaces*
When They Come for Me/Remember the Name
IGYEIH
One Step Closer
Ato III
Break/Collapse*
Lost
Good Things Go
What I’ve Done
Ato IV
Kintsugi*
Overflow
Numb
Over Each Other
In the End
Faint
Bis
Resolution Intro C*
Papercut
Heavy Is the Crown
Bleed it Out
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