KRISIUN | MALEVOLENT CREATION – SÃO PAULO (SP)

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Por Daniel Agapito Fotos: Nanda Arantes  Quem já foi a um show do Krisiun muito provavelmente lembra do discurso que fazem enquanto estão no palco, sempre exaltando a “força do metal nacional”, em certos casos até reforçando que não devemos nada para os gringos. Este combate ao vira-latismo pode parecer algo desnecessário, até certo ponto performático, mas considerando o sucesso deles na cena internacional, é algo que realmente não custa nada lembrar. E turnês como esta que fizeram com o Malevolent Creation provam a força e veracidade dessas declarações – tanto que apesar de estarem ao lado de uma banda importantíssima do death metal da Flórida, os três meninos de Ijuí/RS foram divulgados como a grande atração dos shows. Vale ressaltar, para começo de conversa, que a turnê encontrou complicações antes mesmo de começar, sofrendo alterações de datas e perda de membros de certas bandas. Inicialmente anunciada para o meio de setembro, passando pela capital paulista no começo de outubro, suas datas foram alteradas para preservar o bem-estar do guitarrista Phil Fasciana. Enquanto excursionava pela Europa, no meio deste ano, o membro-fundador foi internado na UTI com um caso grave de pneumonia bacteriana e declarado como “em estado crítico”. Com o aval de sua família, o resto da banda optou por cumprir a agenda de shows sem ele. A abertura da noite viria com o Contortion, banda americana liderada por Brian Stone, ex-vocalista do NervoChaos. Este que vos escreve não conseguiu assistir ao show inteiro por conta do trânsito paulistano, mas já havia os visto na semana anterior, em show que fizeram na La Iglesia. Naquela primeira apresentação, havia um clima de “time jogando fora de casa”: eram poucos os presentes que os conheciam, então o público estava relativamente gelado e consequentemente a presença de palco da banda não estava exatamente 100%. Na Burning House, tudo prometia ser diferente por já estarem mais azeitados e mais acostumados com o Brasil, mas desta vez jogaram não só fora de casa como também com um a menos, pois o baixista, Scot Leonard, teve que se retirar da turnê por conta de problemas com o álcool. Apesar dos pesares, fizeram um show sólido, na medida do possível. O repertório foi focado em seu álbum do ano passado, The Common Thread, com faixas como Idiot Box, Guttersnipe, For Want of a Nail, No Destination e Among the Stars fazendo parte do setlist. Seu som é bem no padrão do metal moderno americano, aquele groove metal com um pé no metalcore, vertente que não é das mais comuns por terras tupiniquins. A galera começou relativamente fria, mas com o passar do tempo se adequaram aos homens de colete e gravata. Stone, por exemplo, desceu do palco no final do show para tocar uma das últimas músicas no meio da pista. Faltou aquela conexão real com os fãs; talvez, de uma próxima vez, com divulgação mais forte vinda da própria banda, consigam fazer uma performance com a energia que merecem e conseguem entregar. Passando de um time que jogou fora de casa para um velho conhecido, praticamente os donos do estádio, o lendário Vulcano abriu os portões do inferno e transformou a Burning House em um inferno na terra. Com mais de 40 anos de estrada, os headbangers da Baixada Santista não precisam provar mais nada para ninguém: já deixaram seu marco na história do underground mundial e isso transparece no palco. Mesmo sem poder se mexer muito (com a bateria que seria usada pelas últimas duas bandas já montada no fundo), deram um verdadeiro show. A presença Zhema Rodero (guitarra), por exemplo, é simplesmente, satânica, sinistra, apesar de não ter falado uma palavra. Se na última banda havia pessoas com o pé atrás, esta segunda foi completamente o oposto: dava para energizar São Paulo com a energia eólica do bate cabeça coletivo – e com o tanto de metal que tinha naquela noite era possível reconstruir o Titanic.   Apesar de terem lançado um disco novo no ano passado, Epilogue, conforme o próprio vocalista (Luiz Carlos Louzada) falou no começo do show, as estrelas do repertório foram as clássicas, as velharias, como faixas do clássico Bloody Vengeance, disco seminal da década de 80 sendo recebidas para lá de calorosamente. Witches’ Sabbath, por exemplo, que fez sua primeira aparição no disco ao vivo de 1985, teve seu refrão cantado a plenos pulmões pelos fãs. A cantoria era tanta que Louzada até deu seu microfone para a galera no segundo refrão, uma cena parecida com A Criação de Adão, de Michelangelo, mas sem nenhum dos anjos. O mais perto que chegaram de material novo foi a Church at a Crossroads, de The Man, the Key, the Beast, que já tem mais de 10 anos. Visto isso, após mais uma dobradinha de Bloody com Dominios of Death (cantada em uma só voz pelos fãs) e Holocaust, pausaram o show brevemente, retornando com Holocaust. Luiz explicou: “a gente tava decidindo se deveria tocar uma do Black Book ou mais uma do Bloody.” A escolha de continuarem contemplando o primeiro foi certeira, visto que o resto do show seria composto apenas por hits. Total Destruição e Guerreiros de Satã, ambas do já citado ao vivo, viram a abertura da primeira roda da noite, enquanto a própria Bloody Vengeance fechou a performance. Ao todo, provaram exatamente porque são um nome cultuado até internacionalmente. Na década de 80, fizeram álbuns diferentes de tudo que foi lançado e hoje em dia seguem executando esses clássicos com uma energia ímpar. Com o relógio se aproximando das 20h30, com Jesse Jolly (vocal e baixo), Chris Canella (guitarra) e Ron Parmer (bateria) já no palco, as luzes se apagaram e a introdução de Blood Brothers soou pelo PA. Tendo conversado com alguns fãs antes do início do show, a impressão era que nem todos conheciam a obra do Malevolent Creation – boa parte conhecia o nome, mas não as músicas. Isso fez com que, inicialmente, o público estivesse relativamente dividido, com os fãs dos americanos vidrados desde o primeiro acorde. Isso mudou com a primeira batida de Eve of the Apocalypse, sendo reforçado ainda mais em Premature Burial – a energia e o peso que o trio transmitia (mesmo sem seu “capitão”) era absurda. Quem havia os observado durante a passagem de som, relativamente quietos, cada um no seu canto, não imaginaria os gigantes que se tornariam assim que as músicas começaram. Depois de Premature, Jesse tirou um tempo para se desculpar pela ausência de Phil, agradecendo a presença de todos apesar disso. Vale lembrar que esta formação da banda é bem nova, com o membro mais antigo sendo o baterista, que entrou em 2020 (Jolly no ano passado e Canella neste ano). Apesar disso, era perceptível o carinho que tinham pelo trabalho de Fasciana, honrando suas músicas com profissionalismo e precisão. Jolly, especificamente, tocava com uma naturalidade invejável, batendo cabeça feito louco, mas ainda mantendo o tempo como um relógio, com o peso das linhas de baixo sendo o norteador de cada faixa. Dada a diferença clara entre quem estava lá para ver eles e quem estava lá pelo Krisiun, a interação com os fãs foi um dos grandes diferenciais da apresentação. Depois de Coronation of Our Domain, uma fã gritou por The Will to Kill, título de seu álbum de 2002, e o vocalista, com um sorriso no rosto, disse que desta vez não tocariam, mas “talvez da próxima”. O ânimo só crescia à medida em que o tempo passava. Quando chegaram em Dominated Resurgency, a roda, que já estava lá mas era um tanto singela, dominava completamente a pista. Infernal Desire seguiu no mesmo ritmo, enquanto Living in Fear viu até crowdsurfs e stagedives. Homicidal Rant, por sua vez, demonstrou bem a capacidade vocal de Chris Canella, que deu uma base forte nos backing vocals – mas com o tanto que os fãs cantavam, nem precisou fazer muito esforço: quem era fã mesmo do Malevolent cantava com força. O andamento do show em si beirava o frenético. Os músicos não paravam um segundo, nem havia muita falação, era simplesmente uma pedrada atrás da outra, sem massagem. O vocalista até tentou ter um momento mais direto de interação com o público, pedindo para que “preparassem as facas”, porque viria “Multiple…” e um ou outro até completou, gritando “Stab Wounds” com toda força, mas foi menos gente do que a banda parecia esperar. Independente disso, deu para ver o brilho no olho daqueles que pegaram a referência, e a parede sonora de blast beats incessantes atropelou todo o resto. Em termos de som, a banda não foge muito do padrão do death metal floridiano, mas não que isso seja ruim, entregam exatamente o que prometem, com uma qualidade inegável. O público geral que novamente havia começado relativamente morno foi esquentando com o passar do tempo. Isso ficou claro logo antes de iniciarem Alliance or War, quando perguntaram se poderiam tocar mais algumas músicas. A resposta da galera foi naturalmente calorosa, e o caos se instaurou por completo assim que os samples de guerra ecoaram pelo PA. As sugestões dos fãs continuaram vindo: vários clamavam por Will to Kill, alguns pediam Blood Brothers, mas a banda deu sequência com Slaughter House, única representante de seu material pós-2000. Finalizaram sua performance com uma sequência de peso: Manic Demise, cheia de blast beats e riffs simples mas eficazes, perfeitos para sair na mão, fechando o ciclo da mesma forma que se iniciou, com Blood Brothers, um dos maiores sucessos do grupo. Após mais uma rodada de agradecimentos, desceram do palco sem pompas nem circunstâncias, com Jesse Jolly permanecendo pela pista, atendendo fãs, dando autógrafos e tirando fotos. O Krisiun está aqui! Assim que os três irmãos subiram no palco a troca de energia foi clara: o clima foi lá pro alto quase instantaneamente – era óbvio que boa parte do público realmente estava lá para assistir a um dos maiores expoentes do metal nacional. A roda, que durante o show anterior havia demorado algumas músicas para abrir, já dominava boa parte da pista desde o início de Kings of Killing. Dali para a frente, os fãs gritavam o nome da banda após cada faixa. O repertório da noite teoricamente estaria focado no terceiro álbum da banda, Conquerors of Armageddon, que celebra 25 anos este ano. Seguiram destacando-o com Endless Madness Descends, que viu até mais um stagedive da mesma fã que já havia feito o palco de pula-pula na última apresentação. Não seria um show do Krisiun sem aquele conhecido discurso que mencionei: Alex agradecia os fãs constantemente, afirmando que não estariam lá se não fosse o apoio deles. Com isso em mente, vale a pena destacar a constância de suas apresentações. Os repertórios são sempre variados, sim, mas a energia no palco, a presença deles, é praticamente igual toda vez – e não que isso seja ruim. Para alguém que não acompanhe a banda de perto, isso pode dar aos espetáculos um sentimento de “quem viu um, viu todos”, mas é aí que entra o dinamismo dos setlists, sempre jogam um “presente” ou outro para os fãs. Seguiram passando por outros trabalhos: Scourge of the Enthroned foi representado por sua faixa-título, enquanto o mais recente, Mortem Solis, contou com a execução de Necronomical. Um belo exemplo de um “presente” seria Messiah’s Abomination, também do terceiro álbum, faixa que havia ficado um bom tempo fora da rotação ao vivo. O próprio vocalista reconheceu esse fato: “Se a gente errar, é porque ela é difícil pra caramba”. Apesar disso, o entrosamento deles é algo realmente só explicável pelo fato de que são irmãos, pois executaram-na com maestria e com uma tranquilidade que contrasta um pouco com toda a persona do metal extremo. Alex até reconheceu essa animação da galera, apontou que a roda estava “realmente sem parar”, mandando mais uma rodada geral de agradecimentos (à produção, às outras bandas, aos fãs): “Sem palavras, tenho certeza que já tomei cachaça no centro de São Paulo com um monte de vocês. Quem conhece o Krisiun sabe de onde a gente veio!” Eram pequenos momentos de conexão assim que realmente foram o diferencial, aos olhos do público, em relação ao show do Malevolent. A ligação entre fãs e banda era muito autêntica, muito real, algo indubitavelmente facilitado por serem uma banda nacional. “O mundo tá vivendo um momento tenso, não vou ficar pregando o que é certo ou errado, não vou ficar chutando cachorro morto. Estamos de acordo aqui, a gente sabe que a política e a religião formam uma falácia. Kill, kill, kill lord Jesus Christ.” Foi desta maneira, pouco polêmica, que iniciaram Conquerors of Armageddon, épica de 6 minutos e uma das favoritas dos fãs a julgar por suas reações de modo geral. Como se a duração da música em si não bastasse, ainda foi emendada com um solo de bateria e outro de guitarra. É difícil falar deles sem exaltar a qualidade técnica dos músicos. Max é um daqueles bateristas que realmente batem, parece que o bumbo deve dinheiro pra ele, enquanto Moyses equilibra uma precisão quase-sobre-humana nos solos com o peso que o estilo exige. Após os solos, veio a queridinha Blood of Lions e depois o público não parava de gritar o nome deles; era um coro ensurdecedor de “Kri-si-un, Kri-si-un”. De acordo com o setlist que estava colado no palco, ainda tocariam várias músicas: Hatred Inherit, Descending Abomination e Bloodcraft, dentre outras. Com o tempo total já passando de uma hora e o público inquieto, a pedidos veio Black Force Domain, clássica faixa de seu primeiro álbum, que leva o mesmo nome. Na teoria, ela fecharia o show, e foi o que aconteceu, pois a banda agradeceu mais uma vez, se despediu e o evento ficou por isso, com algumas faixas a menos. Considerando o acima, o Krisiun realmente provou algo naquela sexta-feira: a cena nacional é foda. Não foram só eles, pois o Vulcano deu uma aula (na opinião deste que está por trás do texto, a melhor da noite), mostrando que não só somos fodas, como sempre fomos. Isso não tira mérito algum do Contortion e do Malevolent Creation, que, dentro de seus próprios contextos e tendo que lidar com desfalques de membros, fizeram shows incrivelmente sólidos: o primeiro pecou pela falta de público e o segundo, pela falta de conhecimento do público. Talvez se essas mesmas bandas vierem tocar no ano que vem, por exemplo, com formação completa e mais promoção (vindo dos próprios grupos, não necessariamente promoção do evento), este texto seria bem diferente.   Setlist Contortion Idiot Box Dreaming Alone Within the Empire Guttersnipe For Want of a Nail No Destination Among the Stars Setlist Vulcano Legiões Satânicas Incubus Spirit of Evil Witches’ Sabbath Death Metal Church at a Crossroads Dominios of Death Ready to Explode Holocaust Total Destruição Guerreiros de Satã Bloody Vengeance Setlist Malevolent Creation Blood Brothers (intro) Eyes of the Apocalypse Premature Burial Coronation of Our Domain Dominated Resurgency Infernal Desire Living in Fear Homicidal Rant Carnivorous Misgivings Multiple Stab Wounds Kill Zone Alliance or War Slaughter House Manic Desire Blood Brothers Setlist Krisiun Kings of Killing Ravager Endless Madness Descends Scourge of the Enthroned Necronomical Messiah’s Abomination Serpent Messiah Conquerors of Armageddon Blood of Lions Black Force Domain
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