Por Marcelo Gomes
Fotos: André Santos
A espera foi longa, mas finalmente chegou ao fim. Após mais de três décadas de trajetória dedicada ao black metal norueguês, o Kampfar fez sua aguardada estreia no Brasil no último dia 31, levando sua turnê Three Decades of True Norse Black Metal ao Manifesto Bar, em São Paulo. Liderados pelo carismático vocalista Dolk, os noruegueses encontraram um público que demonstrou conhecer profundamente cada capítulo de sua história.

A abertura ficou nas mãos do Kocytus, um dos nomes promissores da cena extrema paulistana. Formada em São Paulo, a banda vem construindo sua trajetória apostando em uma sonoridade que combina elementos de death e black metal com influências do metal extremo clássico, sempre marcada por peso, agressividade e uma execução técnica refinada. A banda aproveitou a oportunidade para apresentar um repertório direto e eficiente, iniciando com Slave Knight e Heretic, que rapidamente capturaram a atenção do público que chegava à casa. A sequência formada por Visceral Flesh e Funeral of the Living elevou ainda mais a intensidade da apresentação, evidenciando a entrega da banda nos palcos e sua capacidade de criar atmosferas densas e sombrias. O encerramento com Titans of Creation consolidou uma performance segura e convincente, recebida com entusiasmo pelos presentes.

Com a formação atual composta por Dolk (vocais), Ask (bateria), Ole (guitarra) e Ese (baixo), o Kampfar entregou uma performance visceral. A abertura com Feigdarvarsel / Ravenheart estabeleceu imediatamente o clima sombrio e ritualístico que marcaria toda a noite. A sonoridade pesada e atmosférica ganhou força com Skogens Dyp e Ophidian, executadas com precisão e intensidade. Com o som altíssimo e definido, o grupo conseguiu criar uma atmosfera grandiosa, sustentada pela presença imponente de Dolk e pelo trabalho afiado das guitarras Ole Hartvigsen. A cada música, a conexão entre banda e plateia se tornava mais evidente, transformando o Manifesto Bar em uma verdadeira extensão das florestas e montanhas retratadas em suas composições.

Um dos momentos mais marcantes da apresentação ocorreu durante Trolldomspakt. Antes de sua execução, Dolk fez questão de conversar com o público e demonstrar sua gratidão pela recepção brasileira. Em uma fala sincera, afirmou que era um privilégio poder viajar pelo mundo e tocar em lugares como o Brasil, arrancando aplausos calorosos da audiência. A energia permaneceu elevada em Dødens Aperitiff, que trouxe uma performance especial: enquanto Thomas Andreassen assumia partes dos vocais, Dolk surgia no palco empunhando um cálice, reforçando a teatralidade e o simbolismo característicos da identidade visual e artística da banda.

O que veio a seguir foi uma sequência devastadora. Mylder provocou uma das maiores reações da noite, com a banda sendo muito ovacionada após sua execução. Logo em seguida, Urkraft serviu como trilha para um dos discursos mais emocionantes do show. Visivelmente tocado pela recepção dos fãs, Dolk declarou, do fundo do coração: “Levou mais de três décadas para virmos para a América Latina. Quando comecei há mais de 30 anos, não era sobre fama e dinheiro, mas tocar em qualquer lugar. Obrigado por virem.” Essa fala ressaltou a paixão e a autenticidade que impulsionam o Kampfar, reforçando a ideia de que a música é uma vocação, não somente um trabalho. Suas palavras encontraram apoio imediato entre os presentes, que responderam com aplausos e gritos.

Com o público completamente conquistado, os caras mandaram clássicos como I Ondskapens Kunst / Norse e Tornekratt, mantendo a brutalidade em intensidade máxima. O entrosamento entre os músicos ficou evidente durante toda a apresentação, especialmente na solidez da cozinha formada por Jon Bakker e Thomas Andreassen, responsável por sustentar as constantes mudanças de dinâmica das composições. Enquanto isso, as guitarras construíam camadas densas e melódicas que ajudavam a transportar os espectadores para o universo pagão e folclórico que sempre definiu a essência do Kampfar.

No bis, a banda retornou ao palco para presentear os fãs com Hymne, faixa que trouxe a força de um hino ancestral. O encerramento veio com Det Sorte, uma performance visceral que forçou Dolk a tirar a camiseta em meio ao calor do momento. Mesmo com a guitarra de Ole apresentando algumas falhas técnicas momentâneas, isso não diminuiu em nada o impacto da música, adicionando ainda mais crueza e autenticidade à apresentação. Ao final, restou a sensação de que a espera valeu cada minuto. Com autenticidade, paixão e três décadas de integridade musical, a banda provou que o espírito do True Norse Black Metal transcende fronteiras, climas e oceanos, conectando-se genuinamente com qualquer parte do mundo.

Setlist Kocytus
Slave Knight
Heretic
Visceral Flesh
Funeral of the Living
Titans of Creation

Kampfar setlist
Feigdarvarsel / Ravenheart
Skogens Dyp
Ophidian
Trolldomspakt
Dødens Aperitiff
Mylder
Urkraft
I Ondskapens Kunst / Norse
Tornekratt
Bis
Hymne
Det Sorte
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