KADAVAR – SÃO PAULO (SP)

Por Antonio Carlos Monteiro

Fotos: Belmilson dos Santos

Dia quente, final de tarde agradável, pleno sábado, tudo conspirando a favor. Talvez alguém explique porque, apesar de tudo isso, tão pouca gente apareceu no Carioca Club no início da apresentação de uma trinca de respeito: Hammerhead Blues, Espectro e a atração principal Kadavar.

E nesse caso ser pontual tem seus inconvenientes: o espetacular trio Hammerhead Blues entrou em cena pontualmente no horário prometido, 18h15, tocando para uma casa praticamente vazia. Uma pena para a banda e principalmente para quem não estava lá para assistir a Otavio Cintra (vocal e baixo), Luiz Cardim (guitarra) e Willian Paiva (bateria). Se esses três fossem europeus certamente estariam vivendo confortavelmente de sua música. A banda tem os dois pés atolados na lama dos anos 70, o que se estende também ao figurino e aos próprios instrumentos – e que som lindo tinha aquela bateria Ludwig! Dava até pra sentir o cheiro de patchuli lá da plateia. O set curto, de apenas seis músicas, mostrou não só o entrosamento como a competência dos três como compositores e intérpretes. E, mais importante de tudo, Otavio, Luiz e Willian nem pareceram se abalar com o reduzido público: mandaram ver como se o lugar estivesse lotado. Alguém aí falou “profissionalismo”? Sim, é isso.

Também pontualíssimo foi o Espectro, que tem uma proposta sonora um pouco mais próxima à da atração principal da noite, investindo no heavy e no doom. Com a casa um pouco mais cheia, mas ainda muito longe de um público que pudesse ser considerado bom, Reinaldo Zonta (vocal), João Wegher (guitarra), Luan Bremer (guitarra), Felipe Rippervert (baixo) e Karina D’Alessandre (bateria) mostraram com quantas levadas lentas e pesadas se faz um bom heavy/doom. O destaque no show dos curitibanos foi Wicked Life, tema longo e que termina com uma das ralentadas mais densas da história.

Às 19h50, ou seja, dez minutos antes do horário previsto, subiu ao palco a atração da noite. O público a essa altura já era bem melhor, mas ainda longe do que merecia o Kadavar. A banda trazia uma novidade na formação, já que ao lado de Christoph “Lupus” Lindemann (vocal e guitarra), Simon “Dragon” Bouteloup (baixo) e Christoph “Tiger” Bartelt (bateria) uniu-se o guitarrista e tecladista Jascha Kreft, o que, segundo alguns, daria certa abrandada no som da banda, aproximando-o do psicodelismo. Só que não foi bem assim. Pelo jeito, Jascha esqueceu o teclado em casa, e acabou se concentrando exclusivamente na guitarra, o que aumentou em muito o volume e o peso da banda.

O agora quarteto entrou em cena com o jogo ganho, debaixo de aplausos efusivos e berros de “Ka-da-var!! Ka-da-var!!” – nada de “olê, olê, olá”, era na base do grito de guerra, mesmo.

Apesar de terem lançado dois discos no ano passado (I Just Want to Be a Sound e Kids Abandoning Destiny Among Vanity And Ruin, também conhecido como K.A.D.A.V.A.R.), foi o primeiro álbum da carreira do grupo, Kadavar (2012), que teve mais temas comtemplados no show, quatro. E foi justamente um deles que iniciou o massacre, Goddess of Dawn. Aí já deu pra ver o que aconteceria: guitarras (especialmente a de Lupus) com timbre “caixa de abelha”, muito improviso e muita viagem. Detalhe: todos esses elementos se fundem à perfeição nas mãos do quarteto, que faz um show à moda antiga, sem nada milimetricamente calculado e a prova de erros. Não que eles errem! São quatro excelentes músicos e justamente por isso podem se dar ao luxo de montar um show com essas características – e que explica o êxtase da audiência durante toda a apresentação.

A viagem proporcionada pela música do Kadavar se dá também através de recursos como estender um tema (Doomsday Machine, do álbum Abra Kadavar, de 2013) baseando o improviso em praticamente uma mesma nota, mas que também acaba funcionando perfeitamente em função do clima hipnótico que gera. Em determinado momento, Lupus deixou cordas e palheta de lado para se abaixar e pilotar apenas a pedaleira, gerando os sons e feitos mais variados e até neuróticos enquanto o restante da banda improvisava. Até a posição em que o vocalista se colocava no palco era bem peculiar, ficando praticamente de lado para a plateia.

No meio de tanta coisa diferente e inovadora, e diante de um público em absoluto êxtase, um momento de interação aconteceu em Die Baby Die, único tema de Rough Times (2017) a constar no setlist e uma das poucas a ter aquele “refrão-pra-cantar-junto” – o que o público fez aos berros.

Convenhamos que em tempos de tanta música “de plástico” e de tantas partes pré-gravadas invadindo palcos, curtir um show pra valer, com todo mundo suando de verdade no palco e muito improviso é uma oportunidade única. Que viu o Kadavar naquela noite de sábado experimentou isso. Certamente, também saiu de lá com o ouvindo zumbindo. E feliz da vida.

Setlist Hammerhead Blues

Hero

Roger’s Cannabis Confusion

Black Abyss

Traveller

Age of Void

Around The Sun

Setlist Espectro

Jam

The Ritual

Twist the Knife

Death Dealing

Wicked Life

1000 Nights

Lost in the Aether

Setlist Kadavar

Goddess of Dawn
Lies
Doomsday Machine
Last Living Dinosaur
Black Sun
The Old Man
Explosions in the Sky
Total Annihilation
Scar on My Guitar
Purple Sage
Die Baby Die
Regeneration
Come Back Life
All Our Thoughts

 

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