IGGOR CAVALERA – SÃO PAULO (SP)

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Por Marcelo Gomes Fotos: Roberto Sant’Anna Na última semana, o lendário ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera, subiu ao palco do Bar Alto, em São Paulo, para uma apresentação que desafia as expectativas de sua trajetória no heavy metal. Conhecido por seu trabalho icônico na banda que ajudou a colocar o Brasil no mapa do rock extremo, Iggor apresentou um projeto solo experimental, mergulhando em territórios eletrônicos e improvisados. O show, intitulado como uma jornada de drone, noise e improviso, foi uma aula de criatividade ao vivo, sem o uso de laptops ou recursos pré-gravados – tudo era construído na hora, com instrumentos analógicos e uma energia primal que transformava o barulho em arte. O ambiente do Bar Alto, um espaço intimista localizado no coração do bairro Vila Madalena, foi o cenário perfeito para essa experiência ritualística. O público era uma mistura eclética: fãs devotos do Sepultura, curiosos e entusiastas do experimentalismo sonoro que já acompanham seu trabalho fora do metal. Havia uma expectativa enorme no ar, como se todos soubessem que estavam prestes a testemunhar algo imprevisível. O show começou com SPD (51), uma peça que estabeleceu o tom com camadas de sons pulsantes e drones hipnóticos, construídos ao vivo por meio de sintetizadores e percussões manipuladas manualmente. Cavalera, com sua presença magnética, conduzia os instrumentos proporcionando uma imersão sensorial nas texturas sonoras que flertavam com o caos controlado. O setlist fluiu de forma orgânica, explorando o espectro do noise e do improviso. Drones e Noise mergulharam o público em um oceano de frequências distorcidas e loops evolutivos, nos quais o silêncio entre as camadas se tornava tão impactante quanto o ruído. DFAM adicionou uma camada de groove analógico, enquanto Letherette trouxe experimentos rítmicos que ecoavam a herança percussiva de Cavalera, mas com uma abordagem abstrata. O ponto alto do meio do show foi Cut Ups, que contou com a participação surpresa de seu filho, Iccaro Cavalera. Os vocais insanos e gritados de Iccaro injetaram uma dose de caos visceral, transformando a faixa em um duelo geracional de som, no qual o ruído se fundia com a emoção crua. Nos momentos seguintes, com faixas como Phurra / Tibet e Lala, a apresentação tomou contornos quase ritualísticos, produzindo camadas de ruído que pareciam atravessar o público. O clímax veio com Lucifer Flutes, a última música da noite, na qual Iggor finalmente retornou às raízes, incorporando uma bateria acústica. Os tambores ecoaram como um trovão, fundindo o experimentalismo eletrônico com o peso das baquetas que o consagrou, criando um contraste eletrizante que deixou o público em êxtase. O show terminou entre aplausos e pessoas atônitas diante da intensidade da experiência que acabavam de vivenciar. No final das contas, a apresentação de Iggor Cavalera foi uma declaração de liberdade artística. Não houve concessões: o que se viu foi uma experiência sonora radical, em que Iggor mostrou que não está preso à nostalgia do metal, mas em constante busca por novas linguagens. Quem foi esperando algo próximo ao seu legado no Sepultura ou no Cavalera pode ter se decepcionado, mas quem foi disposto a algo novo encontrou experiências sonoras genuínas e imprevisíveis, imergindo em um mundo escuro, barulhento e desconhecido que somente um artista de verdade pode proporcionar. Setlist SPD (51) Drones Noise DFAM Letherette Cut Ups Phurra / Tibet Lala Lucifer Flutes
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