Por Fernando Queiroz
Fotos: Amanda Sampaio
Já falei algumas vezes que Fabio Lione, o agora “futuro ex-vocalista do Angra”, por assim dizer (já que ele tem ainda pelo menos um show a fazer com a banda), hoje parece mais brasileiro do que eu ou você que está lendo. Claro, é uma brincadeira, mas Fabio pegou nosso “jeito” muito bem nesses anos todos em que está sempre por aqui. Fica evidente essa “brasilidade” em seus shows, em especial os solo, como foi o caso desse, que foi o primeiro dele no país após a confirmação de sua saída do tradicional quinteto brasileiro. Como estaria ele no palco depois desse anúncio? Era uma curiosidade que eu e muitos outros ali tínhamos.
Mas antes tínhamos um problema. Não um problema de show, performance, nem nada do tipo, mas um problema. Falta de transparência, falta de informação, e “pegadinhas” para te manter no local. Sabe, eu não vejo problemas em um bar fazer um show de madrugada, pois de fato essa é a proposta de um lugar assim, e está tudo bem. Errado é anunciar um show com abertura das portas às 20h, mas não informar os horários das atrações. Foi exatamente isso que aconteceu na sexta-feira, 27 de fevereiro, no Manifesto Bar, onde teríamos o show de Fabio Lione. Tivemos casa cheia, e isso aumenta o problema. Não gosto de dar destaque para coisas assim, mas às vezes simplesmente não dá. Ao longo do texto, falaremos desses problemas que considero, para todos os efeitos, absurdos – e não foi um caso isolado, trata-se de algo recorrente.
Cheguei ao Manifesto Bar faltando cerca de quinze minutos para às 20h, horário previsto para a abertura da casa. Já havia uma fila ali, que foi aumentando nesse meio tempo. A abertura das portas foi pontual, o que era um bom sinal, e quando olhei a quantidade de gente esperando para entrar, sabia que seria uma noite cheia – não lotada, mas cheia! Realmente, em se tratando da organização para entrada e controle do público, não há críticas, foi tudo perfeito. Mas dentro, já havia algo estranho. Em shows que não são “balada noturna”, geralmente retiram as mesinhas da frente do palco, mas elas estavam lá. Será que não achavam que teria tanta gente? De toda forma, aos poucos todos foram tranquilamente se acomodando. Tudo parecia ir muito bem!
Encontrei ali uma grande amiga que, por acaso, também é amiga de Fabio Lione, e perguntei se ela sabia que horas começaria de fato, pois, como eu disse, no anúncio não havia o horário das bandas – havia ainda um Dio cover como abertura, o que não era um problema até então; (quase) todos gostam de Dio, certo? Quando ela me falou que Fabio estava previsto para entrar à meia noite meu queixo caiu! Normalmente, os shows de abertura começam 30 minutos, no máximo uma hora depois da abertura do espaço. Claro que não foi assim. As pessoas foram chegando aos poucos e já próximo das 22h estávamos com um excelente público. Fabio merece esse público, se me permitem dizer. Creio que, na verdade, mereça até mais.
Bateu 22h e nada. 22h30, nada. 23h, nada! O (excelente) Dio cover subiu ao palco 23h20. Depois de mais de três horas ali dentro, já era possível ver gente estressada, reclamando. Tanto que poucos realmente prestaram atenção no show do cover. Bom, eu prestei, pois gosto muito de Dio. Chegou até a ser aliviante, e por um momento o estresse até passou. Tocaram até Dream On, clássico do Aerosmith, que Dio gravou com Yngwie Malmsteen na guitarra em um daqueles álbuns-tributo “all star” – e isso sem contar nos próprios sons solo do vocalista e algumas do Black Sabbath. Não tem erro. O erro foi o horário. Cerca de uma hora de apresentação, e em determinado momento, algumas pessoas começaram a sentar no chão de cansaço. Natural, pois já estavam ali fazia tempo. Por algum motivo, funcionários do bar mandaram levantar, pois não podia ficar sentado no chão. Ah, é mesmo? Então a pessoa tem que se forçar a ficar em pé durante várias horas pois não havia clareza nos horários, e como era uma noite cheia, não havia mesas e cadeiras para todos. Novamente, eu entenderia se fosse uma balada noturna, mas era um show. O público de shows é diferente do público de balada – e mesmo que fosse, a proposta é diferente. Faltou transparência em relação a isso. O que eu mais ouvi de pessoas com quem conversei foi “se eu soubesse que seria assim, teria ficado em casa”. E com razão.

Acho que já deu de críticas, não? Definitivamente não, mas vamos deixar isso para depois. Falemos, agora, do principal: o show de Fabio Lione. Lembro-me que, aos 14 anos de idade, eu andava por aí com uma camiseta do Rhapsody com uma estampa do recém-lançado Symphony of Enchanted Lands II (um ano depois, mais ou menos, a banda viria a se chamar Rhapsody of Fire, mas isso é outra história) que provavelmente cabiam dois de mim dentro dela. Sonhava em ver um show deles. Nunca consegui, por “n” motivos, ver aquela formação da banda, ou sequer ver Fabio com o Rhapsody. Na verdade, a primeira vez que fui vê-lo ao vivo foi já com o Angra. Queria vê-lo cantando Rhapsody, como via no DVD Visions from the Enchanted Lands. Nesse meio tempo, ele voltou algumas vezes com o Turilli/Lione Rhapsody, que hoje não existe mais, mas não consegui estar presente também. Avançamos alguns anos, e em 2026 Fabio é o artista internacional que mais vi na vida – claro, ele está sempre aqui. Sempre vai ter um show do Fabio Lione uma, duas, três vezes por ano em São Paulo. Acredite quando digo: todo show dele é bom! Não tem erro. Em especial esses shows solo, que ele faz sem ter o compromisso de tocar algo específico, são diversão garantida. Esse não foi exceção. No absurdo e intragável horário de uma hora da madrugada – bem depois do horário que me foi informado –, ele nos brindou com sua presença no palco.

Normalmente, a música mais conhecida, o maior “hit” da carreira fica por último. Fabio fez o inverso! A introdução Epicus Furor já deu a dica: começou o show com Emerald Sword, para alegria de todos. Seguiu com a música que, inclusive, segue a anterior no próprio disco Symphony of Enchanted Lands, de 2000, Wisdom of the Kings. Óbvio que Fabio conhece o público que tem, e essas canções estão no coração dos fãs. O estresse pelo horário, pelo menos momentaneamente, passara. Mas lá vinha mais Rhapsody! Land of Immortals, como ele disse, primeiro tema que ele gravou com a banda italiana, e depois Unholy Warcry, quando comentou sobre o tema e o clipe da música. As falas de Fabio são legais, ele tem uma conexão ótima com o público e gera simpatia com seu humor leve e muitas vezes engraçado – ao menos quando você entende o que ele fala, já que ele tem sotaque e fala correndo. Mas OK, faz parte da personalidade dele.

Quando o vocalista falou que tocaria Angra, pensei que a reação das pessoas seria mais eufórica. Mas não, foi algo bem morno, em especial por se tratar de uma de um disco quase “ovelha negra” da banda, Final Light, do disco Secret Garden, de 2015. Não considero nem de longe esse o pior disco do Angra ou essa música ruim, mas de fato não caiu nas graças da galera. Mas a seguinte, sim, foi espetáculo! Uma das músicas que são “a cara” de Fabio Lione, Lamento Eroico, com letra em italiano e aquele estilo lírico, operístico, claramente é uma das canções que ele mais gosta de cantar (inclusive foi a música que ele mais fez questão de comentar na entrevista que concedeu à ROADIE CREW, disponível na edição 288 da revista). Se o show tivesse acabado ali, já seria missão cumprida, mas ainda faltava muito! Tocou duas de suas bandas menos conhecidas, aquelas que integrou nos anos 90, Piece of Time, do Labÿrinth, e Soul Sailor, do Athena XIX. Parecia que pouca gente as conhecia; são bem “lado b” da carreira dele. Mas é ótimo que ele as prestigie! Ele também parece ter um grande carinho pelo Kamelot, por onde passou apenas como vocalista de turnê após a saída de Roy Khan. Tocou Forever, um dos maiores clássicos do grupo americano – e, honestamente, soa melhor que com Tommy Karevik cantando, com total respeito ao ótimo atual vocalista do Kamelot. Nessa, ele pediu para aumentarem o som do teclado. Era uma ótima ideia, mas evidenciou o timbre genérico, quase de “midi” que estava sendo usado. Para todos os efeitos, isso não prejudicou em nada. Não nesse tipo de show mais descontraído.

Bem, chegamos ao momento não tão legal do show. Embora o setlist estivesse ótimo e Lione deixe o público bem confortável entre as músicas, ele passou do ponto no falatório… Ficou cerca de cinco minutos falando, pulando de um assunto para o outro, quase sem conexão, até cantando alguns trechos de outra música do Kamelot a capella, Abandoned. Mas cantou, na verdade, uma versão apenas de voz de uma ópera italiana, L’Elisir D’Amore: Una Furtiva Lagrima, do compositor Gaetano Donizetti. Foi legal, mas depois de ficar falando, falando e falando, vir aquilo, foi muito cansativo. Mais falatório veio depois, quando citou o churrasco que teve com o pessoal do Angra, para então tocar Rebirth. OK, todos lá amam essa música, mas, novamente, poderia ter sido mais direto e enrolar menos antes de tocar. Poderia ter deixado passar essa para tocar outra do Rhapsody, claro, mas entendo incluí-la no setlist – não concordo, mas entendo.

Reta final de show, agora ele cantaria o que quisesse mesmo! The Evil that Men Do, do Iron Maiden, deu um clima de fim de festa. Por algum motivo, cantou um trecho de I Remember You do Skid Row antes de tocarem Wasted Years. Não entendi porque tanto Iron Maiden, poderia ter tocado essa pedrada de Sebastian Bach e seus ex-amigos inteira – teria sido bem interessante. Terminou o show com chave de ouro com Holy Thunderforce e Dawn of Victory – música que, inclusive, dá nome a sua nova banda, o Fabio Lione’s Dawn of Victory. Teria sido uma chave de ouro mais reluzente, se não fosse o fato de o relógio já marcar três da manhã!

Uma banda afiada, bem ensaiada e com ótimos músicos – Johnny Moraes e Wagner Rodrigues nas guitarras, Leandro Freitas no teclado, Fabio Carito no baixo e Marcos Dotta na bateria –, enquanto estavam no palco, quase tudo muito bom! É incrível ver um show de Fabio Lione tocando sons de várias fases de sua carreira, covers, tudo que se tem direito, acompanhado do carisma e bom humor do cantor, embora muitas vezes ele exagere no quanto fala. A noite infelizmente foi maculada pela total falta de respeito com o público em relação a informações, como já disse. Terminar o evento às três horas da madrugada, quando não há transporte coletivo facilmente disponível é fora da realidade do metaleiro paulistano médio. Nem todos têm carro, nem todos podem pagar uber ou táxi. Aquele que lá estava não era o público do Manifesto Bar, que vai lá tomar cerveja e ver cover, era o público de Fabio Lione, que estava ali para ver show, não ir na balada beber! Isso mostra não apenas falta de respeito, mas falta de tato sobre como lidar com os eventos que eles mesmos organizam. Um ótimo show numa péssima noite, que poderia ter sido diferente caso a organização fosse melhor.
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