FABIANO NEGRI: O ROCK EM SUA FORMA TRADICIONAL E AS ALFINETADAS À INDÚSTRIA MUSICAL

Foto: Diego Rodrigues

Por Fernando Queiroz

O veterano vocalista Fabiano Negri, que integrou a tradicional banda de hard rock Rei Lagarto, lançou, recentemente, seu novo álbum solo, o pesado e cheio de críticas e alfinetadas The Outlaw’s Journey. Para a ocasião, o cantor nos concedeu entrevista em que fala sobre as influências do disco, a relação com seu filho como membro de sua banda e alguns pontos da indústria que ele considera nocivos ao mundo da música.

O disco segue uma linha de hard’n’heavy bem tradicional. Em geral, quais foram as influências, o que você mais ouviu e se inspirou enquanto compunha o disco?
Fabiano Negri: Eu sempre tive um esquema cíclico, com diversas influências de diferentes estilos em toda minha carreira. Desde o Rei Lagarto até hoje, sempre usei vários tipos de referências, e isso em mais de trinta anos de carreira. Já usei soul e jazz em trabalhos, passeei por diversos gêneros e influências, e agora acho que eu resolvi que era hora de voltar às minhas raízes do hard e heavy metal para este álbum. É algo que sempre gostei de ouvir e de cantar. Meus discos e minhas bandas preferidas vêm das décadas de 60, 70 e 80, e modéstia à parte, eu consigo cantar na linha de caras como Dio, Bruce Dickinson, Ian Gillan, entre outros, que são meus heróis. É tranquilo pra mim, faço isso há muito tempo, então acho que foi muito natural fazer essa abordagem.

Gravar com seu filho (N.R.: Ian Absurd) e tê-lo na sua banda é algo mais confortável para você ou acaba por ser um desafio separar as coisas?
Fabiano: Na verdade, eu voltei a tocar ao vivo por causa do meu filho! Chegou um momento em que vi que ele estava tocando muito, e achei que ele tinha muito a contribuir com a minha música. E foi ótimo, nosso trabalho juntos dá muito certo, trabalhamos com bastante harmonia.

As letras do álbum têm uma crítica ácida, até irônica, ao mundo da música e à indústria musical. Como você escolheu cada os temas para escrever a respeito?
Fabiano: Nos meus dois últimos álbuns, eu tive bastante essa coisa de usar temas de horror e terror, que é algo de que gosto muito, mas sempre teve alguma crítica ali de forma velada. Nesse, eu acho que ficou mais explícito. É uma crítica a vários aspectos da música, de como você é enganado. Eu sou um cara que faz tudo de forma orgânica, da gravação à abordagem na divulgação. Eu faço meus covers na internet, posto e as pessoas acabam chegando ao meu trabalho por isso. Estou com dez mil seguidores em rede social, meu perfil no Spotify tem mais de 2 mil e tudo de forma orgânica, são pessoas que ouvem a minha música mesmo. Você pega muitos artistas com milhares, milhões de ouvintes, mas boa parte deles é fantasma, não são pessoas que ouvem a música, não são reais, são só números! Eu prefiro ter dez ouvintes reais que ouvem de verdade a minha música do que dez milhões em números fantasmas, que não ouvem de fato. Outro ponto: na música Wiseman eu falo sobre esses espertões da música, que acham que sabem tudo, ficam aí falando muito na internet sobre qualquer coisa, mas na verdade não sabem nada sobre nada na música. E isso inclui algumas pessoas famosas. Por exemplo, críticos musicais por aí que tinham tudo para contribuir com o cenário musical, com a música no país, mas simplesmente só querem ser aqueles que falam mal de tudo, não gostam de nada, é só criticam para ganhar visualizações e assim lucrar. O músico, na verdade, está no ponto mais baixo dessa indústria, é o cara que só gasta. Você tem gente milionária que lucra, lucra e lucra com isso, e o músico, que é quem faz a música, só gasta. Chega um momento que alguém precisa se rebelar contra isso e esse é o caubói do disco, aquele que vai contra isso, contra esse padrão do sistema.

Pode contar um pouco do processo de gravação e produção do álbum, além da mixagem e masterização?
Fabiano: Eu fiz tudo de forma orgânica, sabe? Eu gosto daquela coisa de antigamente, em que não tinha tanto a coisa da máquina, os caras chegavam e tocavam, e precisavam ser bons! Claro, sempre teve a questão de tirar o melhor som depois na mixagem e na masterização, mas no geral, era orgânico. Foi assim comigo. Eu não queria aquela coisa plástica, que você ouve em alguns álbuns atuais, que todos parecem iguais, no mesmo padrão. Outra coisa, é que os caras que gravaram comigo não são músicos experientes, era a primeira vez deles gravando um álbum. Então, como você pode ouvir na bateria, é nítido que não tem a mesma intensidade em cada batida que dá na caixa, às vezes o som vai ficando mais fraco, mas é isso, é aquilo que estava acontecendo ali, são as pessoas tocando! Tentei fazer o melhor ali gastando menos. Não é uma produção milionária, pois, como eu disse antes, o músico é o que mais gasta e o que menos tem retorno disso, então eu não iria investir uma grana absurda nisso. Claro, mantendo uma qualidade, sendo audível, pois tem produções por aí que você nem consegue ouvir de tão ruins, mas procurei fazer o melhor som possível com menos.

Sobre a participação do Tony Monteiro na música 27, que escreveu a letra. Como foi essa abordagem com ele, e como foi quando você recebeu a letra? Foi de primeira, ou pediu para mudar alguma coisa?
Fabiano: O Tony é meu amigo há muitos anos! Diria até que meu melhor amigo – eu costumo falar que é meu pior amigo, na brincadeira (risos). mas somos realmente muito próximos, tivemos algumas bandas juntos, durante muito tempo, em diversos projetos. A gente quase gravou um EP, há algum tempo, e essa letra era pra ter entrado nesse trabalho, mas acabou não rolando. Aí agora eu cheguei nele e perguntei se poderia usar para esse álbum. A única mudança é que pedi para ele mudar um pouco a abordagem – ela era em primeira pessoa, e eu queria colocar de uma forma que fosse em terceira. Foi a única mudança mesmo, mas a proposta continua aquela mesma.

Sobre a sua banda Bebê Diabo (N.R.: Ian, André Pereira e Igor Russo nas guitarras e Tomás Mainieri na bateria), a ideia é continuar gravando com ela daqui pra frente?
Fabiano: Sem dúvida. Eu vou continuar gravando enquanto puder. Se eles quiserem seguir comigo nessa jornada, com certeza vamos continuar. São caras muito bons, muito talentosos e fico muito feliz de tê-los comigo. Deu muito certo!

Foto: Diego Rodrigues