DISCIPLE OF DOOM – SÃO PAULO (SP)

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Texto: Rogério SM

Fotos: Luiz Carlos Vieira

Todo músico sonha em fazer parte de um grupo seminal. Ao pensarmos em doom metal, podemos destacar algumas bandas que se encaixam nessa alcunha. Fazer parte da história de qualquer uma delas já seria um feito enorme. Agora, imagine ter a honra de associar seu nome a duas dessas bandas. Não só isso, mas contribuir para que elas tenham alcançado esse status, seja desde os primórdios do grupo ou ajudando a manter sua relevância por anos. Pouquíssimos podem dar check em todos esses quadrados. Um deles é o vocalista Robert Lowe.

O vocalista ficou conhecido entre os fãs de doom ao gravar álbuns seminais com o Solitude Aeturnus, como os clássicos Into the Depths of Sorrow, Beyond the Crimson Horizon e Through the Darkest Hour. Só que Lowe também foi um dos responsáveis pelo revival do Candlemass após a segunda saída do vocalista Messiah Marcolin do grupo, tendo gravado os álbuns King of the Grey Islands, Death Magic Doom e Psalms for the Dead até deixar o grupo de Leif Edling em 2012. De lá pra cá, muita coisa aconteceu. O vocalista retornou ao Solitude Aeturnus em 2023 e segue sendo uma das principais vozes do estilo.

Acontece que, com tanta música na bagagem, seria uma pena se Lowe não pudesse apresentar versões dos dois grupos em uma mesma noite. Daí surgiu o projeto Disciple of Doom. Sempre acompanhado por músicos locais, o lendário vocalista reúne um setlist com músicas que gravou de Candlemass e Solitude Aeturnus, fazendo a alegria de quem aprecia um metal pesado e lento. E agora foi a vez de São Paulo ter sua noite “doomizada”. O local não poderia ter sido mais adequado: as paredes negras e a decoração “macabra” do La Iglesia combinam demais com os riffs e linhas de voz do chamado epic doom.

Antes, o público foi devidamente aquecido com o show do Midgard. O quinteto de Bauru, interior de São Paulo, entrega um doom estilizado com referências nórdicas, especialmente nas letras e no visual da vocalista Paula Jabur. O grupo deixou a atmosfera densa com músicas como Pearls To The Pigs e Self Liberty, além de um cover de Black Sunrise, do Kreator, que arrancou aplausos efusivos da plateia. O ponto alto se deu com When Darkness Falls, que contou com as participações de Ronaldo Simolla (ex-Delpht) e Alex Voorhees (Imago Mortis).

Em seguida, foi a vez do trio mineiro Loss tomar o palco de assalto. Com um heavy rock/stoner pesado e técnico, Marcelo Loss (vocal e baixo), Adriano Avelar (guitarra) e Teddy Bronsk (bateria) entregaram um show que agitou todos os presentes. Músicas como Life Shows, Human Factor e In My Mind empolgaram o público com riffs certeiros, vocal com pegada e técnica na medida certa. Não por acaso, o power trio voltou de uma bela excursão europeia, passando por países como França, Bélgica e Inglaterra, entre outros. Um dos pontos altos do show foi Até Quando, com sua letra certeira contra o racismo.

Com a casa já totalmente lotada, foi a vez de Lowe e seu Disciple of Doom subir ao palco para uma noite recheada de clássicos. Ao seu lado, um time pra lá de competente: Rodrigo Abelha (Chariot Arcana) na bateria, Fábio Carito (Metalium, Suprema, ex-Warrel Dane) no baixo e Bruno Luiz (Command6, Gloria Perpetua, The Heathen Scÿthe) na guitarra. Logo nas primeiras frases de Emperor of the Void, faixa de King of Grey Islands, seu primeiro disco com o Candlemass, estava claro que seria uma apresentação de muito peso e emoção. O público cantava o refrão em uníssono, muitas vezes fazendo um coro mais alto que a própria banda no palco.

A sequência veio com The 9th Day: Awakening, faixa de 1994 do Solitude Aeturnus e que provocou ainda mais barulho na plateia. Assim, estava provado que não havia preferência na expectativa entre músicas das duas bandas. Todos estavam ali para conferir clássicos e mais clássicos de dois nomes absolutamente seminais do estilo. Lowe, que se movimentava de forma performática e revirava os olhos com expressões demoníacas, controlava tudo na palma da mão.

Lament, outra do Solitude Aeturnus, veio em seguida, emendando com Devil Seed, do Candlemass, que teve o refrão mais uma vez entoado por todos. Aqui vale um destaque para o grupo. Não foi surpresa ver Lowe dominando todas as músicas – afinal, ele as gravou. Agora, todos ficaram de queixo caído vendo a desenvoltura com que Abelha, Carito e Luiz desempenhavam cada nota. Não apenas isso, como mostravam tamanho entrosamento que ficava difícil acreditar que não eram os músicos originais das bandas.

Felizmente, essa não foi a única surpresa da noite. Com um sorriso de canto de boca, Lowe anuncia The Sound of Dying Demons, faixa do álbum Psalms of the Dead, que os presentes puderam ver ser executada ao vivo pela primeira vez na história. O La Iglesia quase veio abaixo. Após, veio uma sequência de respeito do Solitude Aeturnus, com Tomorrow’s Dead, The Hourglass e Destiny Falls to Ruin, do aclamado Into the Depths of Sorrow, que arrancou até lágrimas dos fãs. Inclusive, um deles, mais emocionado, se aproximou de Lowe, pegou sua mão e a beijou, entre gritos de “I love you!” Scent Of Death encerrou as faixas do Solitude Aeturnus com maestria.

Para a reta final da apresentação, Lowe decidiu seguir com músicas do Candlemass e mais uma surpresa: At the Gallows End, clássico absoluto do álbum Nightfall, única música da noite da fase Messiah Marcolin. Enquanto a maioria delirou com sua execução, alguns acharam que ela poderia ter cedido lugar a outra da banda que tivesse sido gravada por Lowe. Ainda assim, sua performance foi acima da média.

O ponto alto da noite viria na sequência, com Hammer of Doom, faixa do maravilhoso Death Magic Doom, lançado pelo Candlemass em 2009. Mais uma vez, o público foi ao delírio e cantou o refrão mais alto que a própria banda. Merece destaque também o fato de Luiz e Carito terem se empenhado em reproduzir os timbres o mais originais o mais próximo possível (e já vimos por aí shows nesses mesmos moldes onde não houve esse cuidado).

O fim oficial dessa noite mágica de doom veio com Opaque Divinity, outra do clássico Into the Depths of Sorrow, do Solitude Aeturnus. Só que uma noite dessas não poderia deixar de homenagear os “pais” da coisa toda. E, após uma pequena confabulação entre os músicos, Abelha anuncia “aquela lá” e abre a contagem nas baquetas para Heaven and Hell, do Black Sabbath. Agora, sim, todos ficaram devidamente “dommizados”. E, se o mundo for de fato acabar, ficou provado que ele vai acabar com o peso do doom!

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