Por Rogério SM
Fotos: Lara Zugaib
Ser referência dentro de um estilo é para poucos. O que dirá então ser um dos pioneiros, aquele que ajudou a criar uma sonoridade própria e definiu os rumos de toda uma geração de fãs de música pesada? Pois se não bastasse dar ‘check’ em todas as alternativas, o D.R.I. ainda pode se gabar de ter cunhado o nome desse estilo: crossover. Sim, uma mistura entre o metal e o punk, entre o thrash e o hardcore, entre os riffs intrincados e as levadas midtempo com a velocidade insana das batidas “um por um”. Por isso, qualquer chance para ver de perto o Dirty Rotten Imbeciles é uma oportunidade de ver a história ao vivo.
E 22 de março foi ainda mais especial, já que o palco foi dividido com outro pioneiro, dessa vez daqui da nossa terra: Ratos de Porão. Dois nomes de peso, que carregam décadas de contribuições sem fim para a música pesada e para a união de gêneros e fãs. E foi isso que se viu naquele domingo: punks, headbangers e fãs de música em geral pogando juntos e celebrando parte da história da música pesada.
Como já tem se tornado praxe em eventos similares em São Paulo, antes da velha guarda pudemos apreciar um bom nome da nova geração. O Imflawed, power trio recifense formado em 2017, veio a São Paulo pela primeira vez e deixou a melhor das impressões. Praticando um metal com os dois pés no thrash e no groove, o grupo chamou a atenção dos presentes com um show ríspido, energético e cheio de riffs empolgantes, que fez os presentes abrirem roda em músicas como Domination e Fuck Your Pride, além do cover de Slave New World. Trajando uma bela camiseta do Cólera, o guitarrista e vocalista Arthur Santos fez questão de dedicar o show a todos que trabalharam para que o evento pudesse ocorrer. A curta apresentação deixou a galera querendo mais, o que deve rolar em breve com uma volta do trio a São Paulo.

Em seguida, tivemos o Questions, banda de hardcore com longa trajetória na estrada. Sem conseguir esconder a satisfação, o grupo colocou os presentes para pular e pogar desde o começo, com riffs hipnóticos do guitarrista Pablo Menna (que também divide o vocal em algumas músicas) e aquela conhecida microfonia peculiar que dá um charme especial ao estilo. O vocalista Edu Revolback fez questão de lembrar quando ele e o baterista Eduardo Sasaki estiveram no primeiro show do D.R.I. em São Paulo, no extinto Projeto SP, em 1990. Mais de 35 anos depois, a alegria de poderem dividir o mesmo palco era latente, com o grupo entregando pura energia, como ficou claro em músicas como Oliva e The Same Blood. Foi um show que deixou os presentes mais do que preparados para os headliners da noite.

Um desses shows, aliás, quase acaba não rolando. João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, foi preso no aeroporto de Confins/MG com alguns gramas de entorpecente. O grupo, que enfrenta uma fase no mínimo peculiar, por pouco não precisou cancelar sua apresentação. Há algumas semanas, o guitarrista Jão sofreu um acidente de moto e quebrou o dedo médio da mão esquerda, e a banda precisou escalar Maurício Nogueira (Blasthrash, ex-Krisiun e Torture Squad) para cumprir os shows agendados. Mas, se há uma banda que é sinônimo de resiliência e força, esse é o RDP. E lá estavam eles no palco, detonando de cara com Alerta Antifascista. Maurício parece que está na banda há décadas, tamanha a desenvoltura com que se adaptou ao posto. Contando com uma das melhores cozinhas da cena nacional, com Juninho no baixo e Boka na bateria, o Ratos entregou um show de pura adrenalina, quase caótico, em músicas como Igreja Universal, Máquina Militar e Morrer.

Gordo continua com a voz afiada e poderosa, dominando o palco como poucos e coordenando o trio infernal para deixar o público insano. E os fãs iam se entregando cada vez mais, especialmente em músicas como Amazônia Nunca Mais e Descanse Em Paz, faixa-título do álbum que completa 40 anos em 2026. Uma das surpresas da noite foi a inclusão de Colisão, não muito presente nos sets da banda. Gordo, aliás, confessou não lembrar para qual álbum a música foi gravada (foi Carniceria Tropical), mas o fato é que funcionou muito bem naquela noite dedicada ao crossover.

E o RDP entendeu bem esse clima, executando de forma frenética várias músicas que vão na veia do estilo, como Paranoia Nuclear, que causou um frenesi na plateia. Crucificados Pelo Sistema, Caos e Pobreza também deixaram os fãs agitando sem parar, culminando na catarse que foi Aids, Pop, Repressão, com todos cantando a letra inteira a plenos pulmões. Quanto mais dificuldade o RDP passa, mais parece que entrega.

Para fechar esse domingo mais do que especial, o D.R.I. subiu ao palco para mostrar que mais de quatro décadas de experiência contam muito. O pequeno atraso de 25 minutos para ajustar amplificadores e equipamentos só serviu para deixar o público ainda mais ansioso. Mas quando os fundadores Spike Cassidy (guitarra) e Kurt Brecht (vocal) dominaram o palco, o Cine Joia quase não aguentou tamanha energia. Aproveitando os acordes de All for Nothing para arrumar um pouco mais a mixagem dos PAs e retorno, o público foi ao delírio logo que a banda emendou Manifest Destiny.

Contando com uma poderosa cozinha com Greg Orr (baixo) e Danny Walker (bateria), a banda toca em uma velocidade que beira a insanidade. Incrível também ver como Brecht, com sua voz pra lá de reconhecível, hoje praticamente sinônimo do crossover, dispara suas letras de maneira tão rápida que deixaria a maioria dos MCs de rap com inveja. Mesmo nas músicas com passagens mais lentas, como I’d Rather Be Sleeping, a sensação é de estar descendo uma ladeira enorme em cima de um skate. O público respondia gritando o nome da banda, mas em português mesmo (“dê erre i”), o que tirou sorrisos de Brecht..

Como o D.R.I. possui faixas bem curtas, o setlist conta com mais de 30 músicas, possibilitando que a banda revisite toda sua carreira, desde do lendário EP Dirty Rotten até Full Speed Ahead, executando canções de todos os álbuns clássicos, como Dealing With It, Crossover, 4 of a Kind, Thrash Zone e Definition. Assim, músicas como Dry Heaves mostravam toda a força dos riffs e do timbre indefectíveis de Spike, enquanto Commuter Man apresentava o puro suco de hardcore do quarteto. Brecht fez questão de dizer o quão importante foi para eles conseguirem fazer essa “mistura” de metal com punk, que fica bem claro também clássicos como Probation, cantada em uníssono pelos presentes.

O show só não foi ainda mais intenso porque Spike estava incomodado com o som da guitarra, parando toda hora para mexer nos amplificadores e fazendo a adrenalina baixar um pouco nesses intervalos. Porém, quando o grupo voltava com os riffs, parecia que as paredes do Cine Joia iam derreter. Isso ficou ainda mais claro em músicas como Argument Then War (como uma letra atualíssima, infelizmente), I’m the Liar e Acid Rain, que muitos cantaram com o saudosismo de quem esperava ansiosamente ver o videoclipe na MTV. Um dos pontos altos, porém, foi o clássico absoluto Violent Pacification, que gerou stage dives insanos por parte do público.

Mas havia tempo ainda para mais clássicos. Brecht possui uma postura de palco um tanto low-profile nos intervalos das músicas, se comunicando de forma até tímida com a galera. Mas, assim que outra faixa começa a ser executada, ele entrava com sua voz marcante e enchia o palco com presença e carisma, que se estendia também para Spike, constantemente indo à frente do palco, dobrando os joelhos ou simplesmente detonando riffs atrás de riffs de forma alucinada. O nível de precisão de toda a banda frente à velocidade sônica das músicas é algo a ser estudado.

Após quase uma hora e meia de uma verdadeira aula de música pesada, o fim veio com The Five Year Plan, talvez a música que melhor represente a sonoridade do D.R.I., com riffs ganchudos, levada thrash e momentos em que a velocidade do hardcore domina tudo e todos. Se muitos associam o final de domingo com tristeza, quem saiu do Cine Joia às 23h, enquanto os amplificadores ainda soavam em cima do palco, portava um sorriso de orelha a orelha de pura felicidade. Isso é crossover!

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