Categoria: Destaques

  • Nesta data, há 20 anos, o ex-KISS BRUCE KULICK foi baleado e escapou da morte

    Nesta data, há 20 anos, o ex-KISS BRUCE KULICK foi baleado e escapou da morte

    Há exatos 20 anos, em um mesmo 16 de outubro como hoje, o simpático e pacato Bruce Kulick, guitarrista famoso principalmente por sua respeitada passagem pelo KISS, literalmente escapou da morte enquanto caminhava com um amigo pela Sunset Boulevard.

    Kulick foi alvejado na perna e na cabeça por duas balas perdidas. “Fiquei em choque, pois parecia que o tiro saiu pela culatra e que um hot pocket passava pela minha perna”, descreveu Kulick em seu site. “Eu não sabia o que havia acontecido até que os paramédicos me disseram”.

    Naquela noite, Bruce tinha ido assistir um a show solo de Vince Neil, vocalista do Mötley Crüe, em um clube próximo ao lendário Rainbow Bar and Grill, que fica localizado em Hollywood. O que aconteceu foi que estava rolando uma briga e um dos envolvidos estava alcoolizado e extremamente nervoso e descontrolado. Portando uma 9mm, o homem começou a atirar para todo lado. Uma das balas atingiu Kulick  na coxa direita e ricocheteou de raspão em sua têmpora; a outra o atingiu no pé.

    Por muita sorte, o tiro na cabeça não requereu um tratamento tão ostensivo e a outra bala não atingiu nenhum membro fatal como ossos ou artérias,  apenas carne e músculos.

    Com a notícia correndo rapidamente em veículos como a CNN e a própria MTVKulick declarou à época: “Tive muita sorte nesse quesito, embora esteja com dor e incerto de quanto tempo levará a recuperação. Certamente foi um caso de estar no lugar errado, na hora errada, andar em via pública e sem ter conhecimento de nenhuma briga nas proximidades“.

    Em fevereiro de 2005, o atirador acabou sendo preso e sentenciado a 10 anos de prisão. Na época dos disparos ele ainda era um jovem de 21 anos. Tempos depois, Kulick disse, “consegui me curar rapidamente e sobreviver a uma experiência verdadeiramente surreal”.

    Esse episódio assustador na vida de Kulick foi relatado pelo músico na balada I’ll Survive, que ele gravou em seu álbum solo BK3, lançado em 2010. Ouça a música:

  • CRYPTA lança lyric video de “Stronghold”, mais um single do álbum “Shades of Sorrow”

    CRYPTA lança lyric video de “Stronghold”, mais um single do álbum “Shades of Sorrow”

    Trabalhando incessantemente na divulgação de seu novo e segundo álbum de estúdio, Shades of Sorrow, que foi lançado no último dia 04 de agosto, via Napalm Records, o quarteto brasileiro Crypta está lançando nesta segunda-feira (16) um novo lyric video, dessa vez para a música Stronghold

    Confira: 

    O álbum Shades of Sorrow foi gravado em São Paulo, em fevereiro último, no Family Mob Studio. A produção ficou sob os cuidados do músico Rafael Augusto Lopes (Torture SquadEternal MaledictionFanttasma). A mixagem do disco foi feita em Estocolmo, Suécia, por Daniel Bergstrand, bem como a masterização, realizada no Fascination Street Studio pelo renomado Jens Bogren.

    Lira deu seu parecer sobre o novo álbum da banda, sucessor do debut Echoes of the Soul (2021): “Shades of Sorrow é um álbum semi-conceitual que descreve uma jornada pelas profundezas de nossa psique ao enfrentar batalhas difíceis. É uma viagem aos muitos tons de dor que às vezes temos que enfrentar enquanto suportamos nossos desafios da vida. As músicas são a trilha sombria, obscura e emocional perfeita para essa jornada”.

    Crypta é destaque na nova edição da ROADIE CREW, #276. Para adquirir a revista e recebê-la em casa, acesse o site https://roadiecrew.com/roadie-shop/ ou entre em contato pelo fone (11) 96380-2917 (whatsapp).

    Crypta 2022: Luana Dametto (bateria), Fernanda Lira (vocal/baixo), Jéssica di Falchi e Tainá Bergamaschi (guitarras)
  • JUDAS PRIEST lança lyric video de “Panic Attack”, primeiro single do próximo álbum, “Invincible Shield”

    JUDAS PRIEST lança lyric video de “Panic Attack”, primeiro single do próximo álbum, “Invincible Shield”

    Após se apresentar no último final de semana diante de 100 mil pessoas no festival “Power Trip”, em Indio, Califórnia, o Judas Priest anuncia agora Panic Attack, primeiro single de seu recém-anunciado próximo álbum de estúdio, o aguardado Invincible Shield

    Acompanhando o single, a banda disponibilizou um lyric video. Confira agora mesmo: 

    Ouça nas demais plataformas aqui.

    Sucessor de Firepower (2018), Invincible Shield, 19° álbum de estúdio do Judas Priest, tem lançamento programado para o dia 8 de março de 2024 e já está disponível para pré-encomenda aqui.

    Novamente, o Judas Priest contou com a produção de Andy Sneap. Por enquanto, a clássica banda inglesa não divulgou a tracklist completa do disco, porém além de Panic Attack, o álbum incluirá também a própria Invincible Shield e The Serpent and the King. Nas fotos promocionais do disco (veja abaixo) é notável créditos para o afastado guitarrista Glenn Tipton, que tem lidado com o Mal de Parkinson nos últimos anos, Richie Faulkner e também um terceiro guitarrista, que, provavelmente seja o próprio Sneap, que nos últimos anos tem exercido a função de substitudo de Tipton nos palcos.

    Anteriormente, Andy Sneap disse que o novo álbum do Judas Priest não será um Firepower parte 2, mas sim algo completamente diferente; um álbum que muitos vão adorar e que, em contrapartida, muitos outros poderão odiar.

    Invincible Shield terá capas distintas para as versões CD e LP colorida: a oficial e uma alternativa que só estará disponível na Amazon.

    Um dos gigantes do heavy metal, o Judas Priest embarcará em uma turnê mundial em 2024, com a etapa do Reino Unido começando em Glasgow em 11 de março, além de incluir um show na OVO Wembley Arena, de Londres, no dia 21 de março. Nos últimos 50 anos, o Judas Priest vendeu mais de 50 milhões de álbuns em todo o mundo e encabeçou os maiores estádios do planeta.

    Com usa música em evolução e apresentações ao vivo também veio uma identidade única poderosa, um olhar que definiu o grupo e influenciou as futuras gerações de bandas de metal em todo o mundo. A cada ano a lenda do Judas Priest continua a crescer; Em 2022, eles entraram para o Rock and Roll Hall of Fame e completaram uma turnê mundial com ingressos esgotados em celebração ao seu 50° aniversário. À medida em que entramos em 2024, o Judas Priest continua a manter sua coroa como uma das maiores e melhores bandas da história da música pesada.

  • MACHINE HEAD: HEAVY METAL TAMBÉM SE FAZ EM FAMÍLIA

    MACHINE HEAD: HEAVY METAL TAMBÉM SE FAZ EM FAMÍLIA

    Por Leandro Nogueira Coppi

    Algumas benesses aconteceram na quarentena durante o período caótico da pandemia de Covid, e uma delas foi o fato de as famílias passarem mais tempo juntas. No caso de Robb Flynn, líder, vocalista, guitarrista e compositor do Machine Head, estar com a esposa e filhos foi fundamental para a criação do primeiro álbum conceitual da banda, “ØF KINGDØM AND CRØWN”. Hoje poderíamos estar diante de mais um trabalho convencional, mas a esposa de Flynn o incentivou a seguir em frente com uma antiga e frustrada tentativa de escrever um álbum conceitual. Já a convivência com os filhos despertou em Flynn sua antiga paixão por animes, e foi baseado na série de um deles, “Attack on Titan”, que ele desenvolveu a trama de “ØF KINGDØM AND CRØWN”. Para saber mais alguns detalhes do novo álbum e dessa união metálica com a família, conversamos com Robb Flynn, que desembarcou em São Paulo para compromissos com a imprensa e um pocket show realizado no dia 5 de outubro (leia aqui), antes de o restante do Machine Head chegar para uma mini-turnê no país no final do mês.

     

    Antes de falarmos do novo álbum do Machine Head, vamos lembrar dos duros dias de pandemia. Como foi para você ter que dar um tempo de turnê devido a esse episódio terrível para a humanidade? Eu realmente curti suas livestreams “Electric Happy Hour” às sextas-feiras. Obrigado por nos entreter na quarentena!

    Robb Flynn: Não podíamos fazer outra coisa, né? Eu não podia sequer encontrar com o meu baixista! Depois de um mês eu estava enlouquecendo! (risos) Eu precisava tocar! Como eu estava sozinho, pensei “Quer saber? Vou entrar ao vivo no Facebook e tocar umas músicas acústicas. Provavelmente vai ficar um lixo, mas e daí?!” Dá pra ler os comentários lá e essa conexão foi importante para mim naquele momento, eu precisava daquela conexão. Depois disso as coisas começaram a andar, o Jared (MacEachern) já podia me encontrar e começamos a trabalhar em músicas juntos, o Matt (Alston) começou a gravar as baterias, nos mandou as trilhas de bateria e nós tocamos em cima delas, e virou essa coisa imensa, tínhamos 350 músicas, com uns 50 covers e de muitas formas durante esse tempo os nossos cérebros estavam constantemente em movimento pela música, o que eu mais amei daquele período é que era somente sobre música. Eu não estou tentando ser um influencer, não estou tentando criar conteúdo para o Instagram, eu faço música, eu componho, é isso o que eu faço. Essa era a minha forma de me conectar, e não postar uma foto minha jantando (risos), era tocando música, atendendo a alguns pedidos dos fãs. Acabou sendo um formato diferente, afinal não era um show ao vivo normal, a gente jamais tocaria ØF KINGDØM AND CRØWN na íntegra, mas fizemos isso há três semanas, jamais tocaríamos The More Things Change na íntegra, normalmente nós misturaríamos as músicas, mas esse formato nos permitiu fazer isso, essa coisa totalmente diferente, mas que ainda era sobre nós e a nossa música. Tivemos o Dino (Cazares) e o Milo (Silvestro) do Fear Factory como convidados, a gente tocou um monte de músicas deles, eles tocaram um monte de músicas nossas, aí eles falavam “vamos tocar um Hatebreed juntos!” e tocamos o Hatebreed! (risos) Tudo muito espontâneo, divertido e era sobre música, nada das outras bobagens que rolam nas redes sociais. Era somente música e foi isso o que nos preencheu.

     

    Qual foi o seu sentimento em ter que entreter o público sem tê-lo literalmente na sua frente?

    Robb: Eu usei o meu celular para gravar, então eu conseguia ler os comentários rolando. Eu fazia comentários sobre o paredão de emoji de fogo que aparecia na tela (risos), então a gente sabia que as pessoas estavam ali, eu parava para conversar entre as músicas, então tinha plateia, mas não tinha. Quando a gente ensaia também não tem plateia, quando treinamos para uma turnê não tem plateia e a gente faz umas jams e curte a música, a diferença era que havia 1200 pessoas assistindo. Eu me sinto muito sortudo, eu toco metal, eu bebo cerveja enquanto trabalho e as pessoas nos dão dinheiro, é muito louco! (risos) Nós temos fãs incríveis, apoiam muito o Machine Head, então foi bem legal.

     

    Ainda sobre a pandemia, eu li que naqueles dias sua família teve influência no que veio a ser o novo álbum do Machine Head, você curtindo animes com seus filhos, sua esposa te aconselhando a fazer um álbum conceitual… Percebo que a quarentena em família lhe contribuiu em uma carga positiva de energia para o presente e o futuro do Machine Head.

    Robb: Sim. Eu tentei fazer um disco conceitual algumas vezes e esse é o primeiro que eu concluí. (risos) Eu comecei dois anteriormente, mas não achei que funcionavam bem e os abandonei, por isso minha esposa começou a falar para tentar mais uma vez porque seria um produto interessante e também construiria uma conexão mais profunda com o disco, então eu tentei e desta vez…  Eu compus 19 músicas nesse período e lancei nove delas separadas do ØF KINGDØM AND CRØWN, como singles, e eu as compunha sem uma ordem definida, tipo, “ok, essa aqui é uma boa música, mas não combina com o disco, pode ser um single”, e assim foi até que eu ficasse de mãos vazias, aí eu percebi que sabia o caminho a seguir – coisa que eu não sabia no começo, a gente nunca sabe. Quando chegamos em Slaughter The Martyr e eu terminei a introdução dela – porque eu tinha umas melodias soltas, Jared mandou as melodias dele, a gente tinha só uma base crua para trabalhar em cima – eu compus uma tonelada de letras numa manhã, sentei e pensei “não sei se isso vai dar certo, mas vou tentar cantar todas elas” e funcionou! Aquele ‘take’ que você ouve no disco é o da primeira vez que eu cantei a música, literalmente. Essa música é exatamente assim: foi a primeira vez que eu cantei aquelas melodias, a primeira vez que cantei aquela letra, que ainda estava escrita à mão no papel frente e verso. Eu só tinha a intro e o refrão, nada no meio, e pensei “se eu conseguir fazer essa música dar certo, poderei fazer o disco todo dar certo”, eu reescrevi a letra umas vinte vezes – escrevia, jogava fora, escrevia, jogava fora – e quando finalmente eu encontrei a letra certa e concluí a intro, eu entendi como seria o restante do disco, entendi como ligaria as músicas.  

     

    O que veio primeiro em ØF KINGDØM AND CRØWN, a música ou a história?

    Robb: A música sempre vem primeiro em 99% das vezes e eu faço as letras dentro da energia da música, de acordo com as melodias, se eu vou gritar ou cantar, coisas assim.

     

    Já que sua esposa o incentivou a compor um álbum conceitual, ela acompanhava o desenvolvimento do álbum, do conceito, das letras?

    Robb: Estávamos bêbados na garagem às 11h da noite, ouvindo música, falando alto e ela virou pra mim e disse: “você deveria fazer um disco conceitual!” (risos) Eu sabia que era um disco conceitual, eu tenho um pouco de dificuldade de ouvir as letras porque meus ouvidos sempre focam nas guitarras, e ela disse: “cara, preste atenção nas letras”, e as cantou – porque ela conhece todas as letras – e aí eu percebi que tinha uma história foda sendo contada ali. Eu amei esse disco por mais de 20 anos, e depois desses anos todos eu passei a gostar dele ainda mais porque agora eu o entendo mais ainda. Dizer “vou fazer um disco conceitual” não significa que você fará, o mesmo se você disser “vou fazer músicas de Thrash Metal”, é preciso deixar a música fluir, as letras fluírem. Pra mim a música tem que ir para onde ela te guia, se você tentar forçá-la a ser apenas Thrash fica brega e falso, como se você estivesse fazendo força para ser alguma coisa. Música é uma expressão, uma criação. 

     

    Falando em álbuns conceituais, existe algum no heavy metal ou no rock and roll que tenha sido importante em sua vida?

    Robb: Eu amo o “Operation: Mindcrime”, amo “The Wall”, “Sargent Peppers”, My Chemical Romance… Eu sou um grande fã do “Operation: Mindcrime”, vi ao vivo na íntegra há 10 anos, na celebração do aniversário do disco.

    Evento An Evening with Robb Flynn, que rolou em São Paulo na Concept Store VCI no último dia 5 de outubro

    No caso de ØF KINGDØM… a trama é baseada na série do anime “Attack on Titan”, e se passa em um deserto futurista dizimado, no qual o céu está manchado de vermelho carmesim. Temos na história dois personagens principais, Ares e Eros. Confesso que nunca assisti essa série…

    Robb: Eu tinha o conceito e sabia sobre o que eu queria falar. Era sobre dois personagens, amor, assassinato e vingança. Eu era viciado em anime quando era criança, eu era nerd de Star Wars e me tornei nerd de animes, assistindo “Akira”, “Robotech”, “Space Battleship Yamato”, todas essas obras japonesas que eram importantes. Eu não deixei de assistir, só não acompanho tanto quanto antes e nunca falei sobre anime com os meus filhos, mas eles começaram a curtir e eu fiquei pasmo! (risos) Contei que eu amo anime e passei a assistir os programas que eles estão assistindo e são brutais! Machadadas na cabeça, sangue espirrando, meu Deus! Eu passei a assistir com eles, é uma série longa com 80 episódios por temporada e são quatro temporadas! Então enquanto eu compunha o disco, aconteceu de estar assistindo um desses episódios à noite e a forma como eles contavam a história… Eu estava compondo uma história meio “cara bom, cara mau”, e no caso de “Attack On Titan” ambas as pessoas eram boas e más e esse aspecto mudou toda a história, porque Ares perde o amor de sua vida – que é assassinado –  e Eros perde sua mãe para uma overdose de drogas, se torna uma pessoa radical por causa de uma seita, se torna um assassino e mata o amor da vida da Ares, então é sobre como essas duas vidas se entrelaçam. Para mim são assuntos com os quais eu me identifico, que são o amor e a perda do amor, são sentimentos poderosos. Enquanto compositor, eu venho compondo músicas para o Machine Head há 32 anos e todos os discos anteriores eram sobre como eu vejo a sociedade, como eu vejo o mundo, meus demônios, minhas lutas e agora eu não preciso escrever sobre mim, tem que se conectar comigo em algum nível, de alguma forma, mas agora era a hora de falar sobre dois personagens que estão em pontos opostos e torná-los simpáticos e críveis, fazendo com que você se importe com eles. Foi desafiador, mas também foi compensador ao mesmo tempo porque foi ótimo sair da minha zona de conforto e fazer algo totalmente diferente.   

     

    Foi fácil para você escrever o conceito pela perspectiva de uma mente violenta, homicida?

    Robb: Foi muito fácil! (risos) Foi chocantemente fácil. A parte mais metal, que mais me agrada nisso tudo é poder me meter nesses detalhes violentos e sangrentos. Algumas bandas falam sobre vikings e fantasia e eu adoro isso, outras bandas falam sobre morte e sangue e eu adoro isso também. O Machine Head – acho que devido à nossa influência do Punk Rock e Hardcore – sempre foi sobre a realidade da sociedade, crescemos em Oakland e nos preocupávamos de sermos baleados ou esfaqueados, essa mentalidade urbana muito intensa. Eu espero que, agora que envelhecemos, nós consigamos mudar de contar histórias  sinistras das ruas para contar sobre as experiências humanas nas letras, acho que amor, assassinato e vingança são experiências muito humanas.

     

    Você ainda vive em Oakland?

    Robb: Meu estúdio fica em Oakland, mas eu não. Depois que tive filhos, eu saí de lá.

     

    ØF KINGDØM AND CRØWN

    Este é o primeiro álbum do Machine Head com a formação atual. O que há de revigorante e de estressante em aclimatar novos músicos à essa sua principal herança musical?

    Robb: Tudo foi bizarro porque estávamos no meio da maldita pandemia! Não poderíamos estar juntos nem se quiséssemos. E fizemos como muitas bandas jovens que eu conheço e troco ideia, eles nem ensaiam, eles gravam um riff, mandam por email para o baterista, o baterista toca junto com o clicktrack, dali vai pro email do baixista, algum amigo recebe por email para ouvir e eles nunca se encontram! Eu acho uma maluquice! Eu cresci tocando junto com os caras, na mesma sala. Agora existem outras formas de fazer música e 90% das bandas que estão nessa faixa etária dos 20 anos – e eu ouço várias de Death Metal e Metalcore – é assim que elas compõem e aí eu pensei, “bem, se os caras com 20 anos estão fazendo isso, eu também posso tentar”. Comecei a mandar as músicas por email para o Vogg, Matt e Jared, cada um colaborava de uma maneira, eu juntava tudo e funcionou muito bem. Toda banda faz uma demo das músicas, mas neste disco nós não fizemos assim porque nos últimos três discos nós acabamos usando quase todas as faixas demo e incluindo-as no disco, desta vez eu me certifiquei de que praticamente tudo o que se ouve nele era a minha primeira vez cantando, era a primeira vez eu tocando guitarra. Como diz Neil Young, “o primeiro ‘take’ é mágico”, ou seja, se você toca a mesma música 20 vezes até gravar, ela vai perdendo a inspiração e a magia dela, então neste disco eu fiz tudo de primeira: cantar, tocar guitarra, ler as letras, para captar essa energia de “não saber o que estou fazendo”, aquela tensão de “espero que esteja dando certo!” e isso foi muito bom. 

     

    Vamos voltar a falar de Slaughter the Martyr. Como foi a experiência de compor uma música de 10 minutos, um épico com muitas partes atmosféricas, partes progressivas, acústicas, talvez, à um som pesado? Admito que essa é a minha favorita do disco.

    Robb: Eu gostaria de ter uma boa resposta para esta pergunta (risos). Acho que se você assistir ao making off tem uma parte onde eu estou gravando essa intro na guitarra e ali você verá que eu estava tipo “não sei pra onde isso vai! Nem sei se vai entrar no disco!”(risos) Esse é o tipo de coisa que nunca se sabe. Pra mim, compor uma música ou um disco é como estar num quarto completamente escuro, tentando chegar na porta, e você vai tateando as coisas  e tentando reconhecê-las, você não sabe para onde está indo até que um dia você encontra a maçaneta da porta, abre a porta e entende para onde está indo.

     

    E qual a sua música favorita no álbum? Sei que elas “são como filhos”, mas escolha uma.

    Robb: Eu não consigo escolher uma, eu gosto de todas elas, mas HOJE eu escolho a Arrows in Words From the Sky porque nunca fizemos uma música como essa, ela mudou tudo, mudou a forma como eu vejo o disco. Existem momentos quando fazemos um disco em que realmente não temos noção do que conseguimos fazer e ficamos meio ‘a gente consegue fazer esse tipo de coisa? Sério?’ e foi esse o caso com essa música. Quando a concluímos eu soube que tínhamos algo especial ali – e eu cantei todos os vocais nela numa ressaca brutal! (risos) Eu tinha a intro e tinha os refrões, mas não tinha nada para as estrofes, aí uma noite, depois de ficar completamente bêbado com a minha mulher na nossa garagem – era algo que a gente fazia às sextas e aos sábados durante a pandemia – entenda: quando se tem filhos pequenos, cada minuto da sua vida é dedicado a eles, levar pra escola, levar para o baseball, levar para o futebol, não dá nem tempo de conversar com a sua mulher! Quando a pandemia chegou, estávamos em casa com duas crianças de 13 e 15 anos, que já eram crescidas o suficiente para ficarem quietas assistindo algo no YouTube ou jogando videogames, então eu e minha esposa nos demos conta de que poderíamos nos divertir enquanto eles estavam lá fazendo as coisas deles de boa. Passamos a fazer isso, beber na nossa garagem, ver o sol se pôr e passar tempo só nós dois, coisa que não fazíamos há quase 20 anos! Era como ter um encontro, depois de anos! E como eu dizia, depois de um desses “encontros na garagem”, ela foi dormir e eu ainda fiquei pensando nas letras, fui deitar pensando nisso, não conseguia dormir e levantei tipo três horas da manhã com a letra completa na cabeça. Escrevi, voltei a dormir e quando acordei de vez, pensei, “Agora terei que cantar isso”, mas eu estava com uma ressaca mortal! Cantei assim mesmo, pensando que serviria como um esboço para os vocais, para eu testar as ideias que tive, mas quando terminei eu percebi que estava muito bom! Mesmo assim eu voltei a cantar essas letras uns dias depois, sem a ressaca, para ouvir como soaria e me pareceu que algo havia se perdido, porque na primeira vez eu estava sem saber muito bem qual melodia seguir e essa era a magia da coisa. Talvez a ressaca também tenha me dado um “plus” na voz, aquela voz meio rasgada pelo whisky e é isso que foi pro disco. Essa é a minha escolha favorita hoje, talvez amanhã eu escolha outra.

    Robb Flynn de volta à São Paulo depois de 8 anos | Foto: Baffo Neto

    Há alguns músicos que nós sentimos que são verdadeiramente fãs de heavy metal. Rob Halford, Max Cavalera, Mille do Kreator e você, por exemplo. Vocês são músicos que ouvem novas e velhas bandas e apoiam nossa cena. O quão importante o heavy metal é para a sua vida?

    Robb: O Metal salvou a minha vida! Eu sei que essa é uma resposta muito clichê. No começo da banda, a gente andava com uma galera muito estranha, brigávamos o tempo todo, éramos violentos, todo final de semana eu entrava numa briga e escapei da morte algumas vezes. Depois eu tive um período de longos meses em que um líder de uma gangue queria me matar, então eu andava armado, dormia com uma faca debaixo do travesseiro e em algum momento eu pensei “eu não quero mais esse tipo de vida, só quero tocar minha música”, o que eu sempre quis fazer na vida era tocar Metal, Thrash, tocar minha guitarra e cantar. Em alguns momentos o Machine Head e a minha vida estavam indo para caminhos diferentes  e eu escolhi o caminho do Machine Head, era o que eu mais queria fazer, então decidi parar de fazer merda, botar minha vida nos trilhos porque senão eu acabaria morto, ou preso, ou ambos. Por isso o Machine Head e o Metal – porque eu ia a todos os shows e vi alguns que mudaram a minha vida e me fizeram acreditar na música e acreditar no mundo – salvaram a minha vida, porque salvaram mesmo. E você falou em apoiar a cena, eu continuo fazendo isso, eu ainda vou aos shows porque eu quero ser arrebatado por cada banda que eu assisto, eu quero assistir a uma banda ao vivo e falar “caralho, isso é muito foda!”, porque essa é a melhor sensação do mundo! Quando eu vi o video de “To the Hellfire” do Lorna Shore eu fiquei chocado! É incrível! A gente pode não conseguir levar cada banda conosco em turnê, mas eu as coloco no meu podcast, entrevistei o Will do Lorna Shore, entrevistei o guitarrista do Slaughter To Prevail, entrevistei vários amigos meus e essa é a minha maneira de devolver para a comunidade o que fizeram e fazem por mim e pela minha banda. Quando eu ouço uma banda que eu acho que é incrível, eu quero que outras pessoas a conheçam também porque a única coisa que faz sucesso no mundo é pop e hip hop – ainda que eu goste de alguma coisa de pop e hip hop, eu não preciso de mais uma banda de K-Pop! (risos)

     

    O que você sente, por exemplo, da mistura entre Anthrax com Public Enemy, por exemplo?

    Robb: Isso faz muito tempo, mas foi muito legal.

     

    De verdade, gostei de saber que você é fã de My Chemical Romance. Muito legal isso, uma surpresa!

    Robb: Sim, sou mesmo.

     

    Você está retornando para uma turnê no Brasil, oito anos depois, finalmente. Aliás, esperamos que a banda inclua o Brasil em suas próximas turnês. O que você pensa da América do Sul como mercado para o heavy metal?

    Robb: Bem, eu acabei de chegar (risos). Da última vez que tocamos aqui, foi insano! Tinha uma roda imensa, todo mundo pulando, gritando, cantando, foi mágico! Estou muito animado por ter voltado. Ano passado, quando retornamos com a turnê, as pessoas ainda estavam receosas de se contaminarem com a covid, mas acho que agora esse medo passou, então acho que os shows aqui serão incríveis.

    Quais suas melhores lembranças da última vez do Machine Head no Brasil, em 2015?

    Robb: Eu tenho uma memória muito vívida do show em São Paulo. É meio estranha (risos). O show obviamente foi foda, a gente tocou Clenching the Fists of Dissent e eu lembro que terminamos ela com uma jam… essa música termina com uma guitarra limpa e eu lembro que comecei um solo – essa é uma lembrança muito estranha (risos) – e adicionei umas partes de “Hello” do Lionel Richie (risos) e partes de “Wish You Were Here” do Pink Floyd, e não faço ideia do porquê eu fiz isso. Acho que era pra gente tocar outra música, mas o baterista precisava arrumar alguma coisa na caixa e me pediu para tocar qualquer coisa enquanto ele consertava, aí eu comecei esse Lionel Richie – Pink Floyd e de alguma forma deu certo (risos) Lembro da plateia aplaudindo, gritando e eu “cara, que doideira!” Foi uma jam super aleatória!

     

    Muito engraçado você mencionar o Lionel Richie; acho que ele está me perseguindo, porque há algumas semanas assisti ao show do Toy Dolls e a introdução do show era justamente um trecho de Hello. (risos)

    Robb: Cara, eu aprendi a tocar esse solo e toco nota por nota, eu adoro essa música! Acho que é um dos melhores solos de guitarra da história do Rock N’ Roll! Um abraço, Lionel!! (risos)

     

    O que você pode nos dizer sobre a turnê do Machine Head no final deste mês de outubro? Estou contente que o show de São Paulo será meu primeiro do Machine Head e cairá bem no dia do meu aniversário!

    Robb: Eu espero que aconteçam mais momentos como esse que eu relatei. Será o seu primeiro show? Então você nem sabe o que te espera, né? Mas você sabe da roda, sabe do pessoal rodando as camisetas no ar, sabe que todo mundo canta todas as músicas, bate cabeça… Cara, vocês aqui na América do Sul, vou te dizer, vocês são perfeitos no tempo e na afinação! Não preciso nem de metrônomo! (risos)

     
  • IRON SAVIOR: DE VOLTA PARA A LUZ

    IRON SAVIOR: DE VOLTA PARA A LUZ

    Foto: Thomas Sprenger

    Por Valtemir Amler

    Para muitos dos ávidos fãs espalhados ao redor de todo o mundo, falar de power metal (do speed ao melódico) é o mesmo que falar da Alemanha. Afinal de contas, desde os anos 80 são muitas as bandas alemãs que não apenas abraçaram o estilo, mas remodelaram, redefiniram e expandiram os seus limites com destreza absurda ao longo dos anos. Embora seja praticamente impossível encontrar todos os pontos em comum entre todos aqueles nomes seminais, uma pessoa aparece ligado a maior parte desses atos: o vocalista, tecladista, guitarrista, produtor e engenheiro de som alemão Piet Sielck. Ativo no cenário do metal germânico há cerca de quatro décadas, Sielck já havia trabalhado com Kai Hansen (Helloween, Gamma Ray) nos anos 80, com sua antiga banda Gentry, além de ter tido a companhia de Ingo Schwichtenberg (lendário baterista do Helloween, falecido em 1995) e Markus Grosskopf (baixo, Helloween) no mesmo projeto. Expandindo seus horizontes, Sielck se tornou produtor, e assim trabalhou ao lado de nomes como Grave Digger, Blind Guardian, Gamma Ray e muitos outros, mostrando mais uma vez que ele entende do assunto. Porém, foi na segunda metade dos anos 90, ao fundar o Iron Savior que ele deu sua maior contribuição para a história do metal. Criada originalmente ao lado do velho parceiro Kai Hansen e do baterista Thomen Stauch (então integrante do Blind Guardian), a banda apostava no power metal e em letras profundamente marcadas pela ficção-científica, gênero favorito do nosso entrevistado. Confira o que o experiente músico alemão nos contou sobre suas preferências e caminhos ao longo dos últimos quarenta anos.

    Você tem uma história de mais de quarenta anos dedicados a música pesada, e toda essa história começou com o Gentry, certo?

    Piet Sielck: Isso mesmo. Era 1978, e aquela foi a primeira fagulha de criatividade que eu e Kai tivemos, foi ali onde tudo realmente começou para nós. Não teve uma grande história de revelação, pois naquela época as coisas ainda não eram assim, não havia toda uma mítica em torno desse tipo de música por aqui, então tivemos um começo bem comum e bem humilde, acho que bem parecido a todas as outras bandas alemãs da época.

    E como foi isso?

    Piet: Bem, eu e ele frequentávamos a mesma escola, e durante as férias de inverno resolvemos nos reunir, já que tínhamos interesses musicais bem parecidos. Você sabe, ambos gostávamos de Deep Purple, Sweet e bandas assim, e éramos os únicos que tinham interesse em música pesada, então foi bem natural que nos conectássemos naquela época. Bom, no fim das contas descobrimos que ambos tocávamos guitarra, e então resolvemos que tínhamos o que era preciso para montar uma banda.

    Mas é claro que não tinham.

    Piet: Não mesmo (risos). Chamávamos aquilo de banda, mas éramos dois guitarristas e um baixista, quer dizer, não tínhamos um baterista. Aí me vem uma pergunta, como fazer heavy metal sem bateria? Trabalho há décadas com esse tipo de música, e ainda não achei a resposta, mas de alguma maneira, naquela época achei que daria certo (risos gerais).

    Bem, vocês tinham que começar de algum lugar.

    Piet: Exatamente, foi isso mesmo que pensamos. Não poderíamos simplesmente sentar e esperar que um baterista surgisse do nada pronto para nos transformar no Deep Purple (risos), então começamos a trabalhar com as ideias e o material humano que tínhamos em mãos, simples assim. Bom, tínhamos cinco músicas razoavelmente prontas, e após alguns meses de ensaios, estávamos inscritos em um torneio de bandas local. Aquilo foi meio que um impulso, pois sabíamos que não poderíamos tocar ao vivo sem um baterista. Ao mesmo tempo, não estávamos satisfeitos com os vocais, então corremos atrás de um baterista que era de uma série acima da nossa na escola, e de um vocalista, também mais velho que nós. Com essa formação, conseguimos vencer a batalha de bandas, e aquilo realmente foi algo grande para nós. Quer dizer, com aquele resultado ficamos convencidos de que queríamos ser estrelas do rock, e que talvez tivéssemos o que era preciso para isso. Bem, não sei sobre ser uma estrela do rock, mas 45 anos depois estamos aqui, falando sobre a minha jornada na música, então acho que fizemos algumas apostas certas. E aquela banda, aquele momento com o Gentry, aquilo foi o início de tudo.

    No fim das contas, foi uma boa história de origem.

    Piet: É, não foi tão fraca e comum quanto eu pensei que seria (risos gerais).

    E em uma época interessante, quando Scorpions e Accept eram as coisas mais pesadas no cenário alemão.

    Piet: Ah sim, é verdade. Eles eram ótimos, eu lembro especialmente quando o Scorpions lançou o ao vivo Tokyo Tapes (1978), aquilo foi um achado e tanto para mim. Quer dizer, era uma banda alemã realmente boa, e que estava se dando bem fora da Alemanha, o que nos dava esperança. Víamos todas aquelas bandas britânicas e americanas como heróis, e era bom ter alguns heróis mais próximos de nós, do nosso país. Foi um exemplo importante para o nosso início, ninguém jamais deveria menosprezar algo assim. Bem, eles ajudaram a definir a maneira como víamos o heavy metal, e teve uma outra experiência bem importante que eu e Kai vivemos na época, e que sei que teve tanto impacto para mim quanto para ele.

    E o que foi?

    Piet: Bem, você lembra a sensação que é quando você está descobrindo o metal, aquela coisa de encontrar a sua nova banda favorita a cada nova audição, certo?

    Claro.

    Piet: Pois é, nós amávamos música pesada e estávamos descobrindo mais e mais a cada dia, e então tivemos a chance de assistir alguns shows incríveis que meio que formaram o nosso caráter. Lembro especialmente daquela noite, fomos ver o AC/DC, a última turnê deles com o Bon Scott (N.R: vocalista falecido em 1980). A banda de abertura era o Judas Priest. Imagine como foi aquela noite para nós!

    Definitivamente, eu posso imaginar.

    Piet: Aquilo foi absolutamente incrível, minha mente estava explodindo a cada momento! O Judas Priest foi a coisa mais sensacional que já tínhamos visto, eles pareciam a definição mais precisa de tudo o que era heavy metal. Ainda penso isso, ainda acho que eles são a banda perfeita de heavy metal, a música, a performance, a imagem, tudo! Amei o show do AC/DC naquela noite, mas o Judas Priest abriu nossos olhos para o que realmente poderia ser feito com o heavy metal como plataforma.

    Sim, eles estavam em um nível completamente diferente de qualquer outra banda naquela época, e realmente devia ser algo incrível para garotos que almejavam uma vida na música presenciar aquilo.

    Piet: Você nem faz ideia, eu lembro e ainda sinto um formigamento nas mãos (N.R: Piet fica com os olhos cheios de lágrimas, visivelmente emocionado). Você nem pode imaginar o quanto aquilo foi importante para nós, uau. Eu ainda tenho essa imagem nítida na minha cabeça, do Rob Halford com aquela moto gigante, Glenn Tipton e K. K. Downing fazendo todos aqueles trejeitos com suas guitarras, tudo que pensávamos era ‘é isso, é exatamente assim que uma banda tem que ser no palco’. E eles tocaram o set completo que você ouve no Unleashed In The East (1979), então você sabe, não havia nada menos do que perfeição ali! Eles tocaram Exciter, cara! Sabe, eles tocaram Exciter e nós já estávamos convencidos que aquilo nunca sairia das nossas mentes, e de fato, nunca saiu. Ainda acho que Exciter foi a primeira música, aquela que definiu as bases do speed metal. Veja, eu trabalho com música pesada há mais de quarenta anos, já fiz e assisti milhares de shows, trabalhei com inúmeras bandas ótimas no estúdio, e ainda fico assombrado com o Judas Priest naquela noite!

    Você estava indo muito bem, mas acabou deixando os palcos por muito tempo.

    Piet: Sim. Começamos como Gentry e tudo estava indo bem, viramos Second Hell, depois por algumas semanas fomos Cronos, e por fim a banda se chamava Iron Fist, e a verdade é que mudar o nome não adiantava, eu me sentia esgotado. Eu estava frustrado, pois depois de um bom início, parecia que não havia mais nenhuma evolução para nós. Eu não estava mais tendo prazer com aquilo, então resolvi dar um tempo e fazer outras coisas.

    Eventualmente você voltou para a música, mas primeiro como produtor. Por quê?

    Piet: Acho que quando você realmente ama música, não consegue ficar longe por muito tempo. Mas, quando resolvi voltar, percebi que a Alemanha tinha muito mais músicos excelentes do que produtores excelentes. Eu estava trabalhando em estúdios com mixagens e engenharia de gravação, e aprendendo mais a cada dia. Sentia-me muito bem com aquilo, e ajudava as pessoas a fazer as músicas que amávamos, então, foi uma escolha bem fácil naqueles tempos. Virei um nerd dos consoles de gravação, mas acabei voltando para a guitarra poucos anos mais tarde.

    Sim, o Iron Savior nasceu em 1996, e desde então tem estado ativo. E sinto que você deixou transparecer outra paixão com essa banda.

    Piet: Sim, chegou um dia que senti vontade de ao menos tentar algo de novo. Não tinha noção se daria certo, mas não queria um dia acordar, quando fosse tarde demais, pensando que eu deveria ao menos ter tentado. Tentei, e felizmente a Noise gostou o suficiente para assinar conosco. Sou feliz de a banda estar ativa até hoje, e ter onde colocar as minhas histórias de ficção científica (risos gerais). Então, sim, acho que você está certo quanto a revelar uma outra paixão (risos).

  • GOTHMINISTER: TREVAS GÓTICAS NORUEGUESAS

    GOTHMINISTER: TREVAS GÓTICAS NORUEGUESAS

    Fotos: Sebastian Ludvigsen

    Por Valtemir Amler

    Na Noruega dos anos 90, se uma nova banda surgia em qualquer lugar do país, você já sabe, era quase certeza de se tratar de uma nova formação de black metal. Se não fosse, a chance predominante era de ser uma banda gótica do estilo ‘beauty and beast’, bem aos moldes dos clássicos Theatre Of Tragedy, Tristania e Trail Of Tears. Obviamente não era só isso que existia na cena pesada norueguesa, e um dos melhores exemplos disso era o Gothminister. Formado em 1999, o projeto musical liderado pelo vocalista Bjørn Alexander Brem não caminhava pelas trilhas do black nem tampouco do gothic beauty and beast, mas incorporava elementos específicos de ambas em sua inteligente trama musical, trazendo trevas ao chamado gothic industrial metal. A despeito das probabilidades negativas (por conta do que explanamos no início), o sucesso veio rápido, e já com o lançamento do seu debut, Gothic Electronic Anthems (2003) a banda se tornou sensação especialmente na Alemanha, onde a mistura de música gótica, eletrônica e industrial sempre teve grande público.  O álbum seguinte, Empire of Dark Salvation (2005) garantiu uma exposição internacional ainda maior, sendo lançado inclusive no Brasil, e todos já percebiam que a banda era uma realidade e uma constante no cenário. A passagem dos anos, as inevitáveis transformações na indústria musical e na maneira como consumimos música, nada disso parece ter afetado o apetite musical do Gothminister (nome adotado pelo líder, Bjørn Alexander Brem) que se mantém firme e lançando novo material em intervalos regulares. Veja o que ele tinha a nos dizer sobre isso.

    Uma das coisas que sempre me marcou na música do Gothminister é a maneira como equilibram os dois lados da música industrial, de um lado os riffs gordos e repletos de groove do industrial metal, e de outro, a ambiência e atmosfera do eletrônico. Tudo isso gera uma inequívoca aura gótica na sua música. Como foi sua relação com a música gótica, na juventude?

    Bjørn Alexander Brem: Bem, no início de tudo, ainda antes de eu pensar em compor minhas próprias músicas, eu era muito fã de música pesada. Você sabe, ouvia muito thrash, death e black metal, e ouvia até um pouco de power metal, ocasionalmente, embora não fosse nada do que eu realmente gostava. Existiam algumas bandas que eu seguia com mais atenção, Obituary, Kreator, Coroner, Slayer, Metallica, Iron Maiden, Manowar, você sabe os gigantes da nossa época, aquelas bandas que você simplesmente não tinha como evitar porque eram boas demais e estavam em todos os lugares. Dentre as bandas que eu também apreciava muito, estava o Paradise Lost, mas na época ainda não tinha assimilado toda essa coisa do gótico, foi algo que foi vindo aos poucos, conforme eu ia me envolvendo mais e mais com a música no papel de música, e não apenas como fã.

    E quando isso efetivamente começou a ocorrer?

    Bjørn: Ah, já foi há muito tempo, meu amigo! Veja, lá pelo final dos anos 80 eu e alguns amigos já tínhamos uma banda de thrash metal. Na Noruega nunca tivemos muitas bandas de thrash, o que é engraçado, pois existiam muitos fãs desse tipo de música por aqui, mas a coisa simplesmente não vingava, parece que o lance era o death e o black.

    É verdade, mas ainda assim acho que o Equinox estava entre os melhores em todo o mundo.

    Bjørn: Ah sim, concordo totalmente. Eles eram ótimos, muito técnicos. Acho que sempre foram os maiores do thrash por aqui, conseguiram até um contrato internacional, eu acho (N.R: Em 1990 o Equinox assinou com a poderosa RCA para o lançamento de seu segundo álbum, The Way To Go. O acordo ainda incluiu o próximo e penúltimo álbum oficial dos noruegueses, Xerox Success, de 1992). Mas as coisas realmente não aconteciam para o thrash por aqui, então nós acabamos ficando para trás. Nos anos 90, ainda na primeira metade da década, já me envolvi com uma banda industrial, o Disco Judas. Fiquei com essa banda de 1994 até 1999, que foi quando a banda se separou. Naquele mesmo ano, formei o Gothminister.

    Como funcionou essa história?

    Bjørn: Bem, a história por trás no nascimento do Gothminister é que um amigo me convidou para ir com ele até um clube gótico, um dos muitos que tinham na Noruega naquela época. Ele falou que deveria ir, porque era algo muito diferente e que iria expandir meus horizontes artísticos, a coisa toda que você fala quando quer convencer alguém a fazer algo (risos). Eu fui até lá, e detestei o visual, era tudo andrógeno demais para mim, muito distante de toda a experiência que tinha tido no mundo do metal até então. Eu pensava, ‘ok, não é isso que quero para mim, definitivamente não é isso que quero fazer’. Por outro lado, a música já tinha me conquistado! As melodias melancólicas misturadas com aquelas batidas dançantes, a coisa toda acabou me ganhando com a musicalidade e o ambiente. Bom, naquela mesma noite, após várias cervejas, comecei a conversar com o meu amigo, falei que aquilo me dava uma visão, que imaginava uma banda que pudesse mesclar aquilo com as guitarras pesadas de um Rammstein ou Ministry, uma banda que atuasse como uma espécie de liderança para aquele cenário, um ‘Gothminister’, por assim dizer. Disse que queria uma imagem mais masculinizada, mais assustadora, mais rígida e autoritária, para combinar com a proposta do ‘goth’ e do ‘minister’, entende? Tinha que ter a aura do ‘gótico’, mas também aquela sensação de autoridade do ‘ministro’. A ideia, o conceito nasceram basicamente pronto na minha cabeça.

    Inspiração em estado bruto.

    Bjørn: Sim, boas ideias nasceram daquele dia, que não esqueço por vários motivos. Primeiro, porque foi basicamente ali que nasceu o Gothminister. Segundo, porque fiquei realmente bem doente.

    O que houve?

    Bjørn: Basicamente, tive uma noite muito divertida, bebi muitas cervejas, tive boas ideias e de alguma maneira perdi a minha jaqueta. No final da noite, lá estava eu, voltando para casa apenas de jeans e camiseta em plenos -22ºC. Aí está uma experiência que não recomendo para ninguém, não façam uma idiotice dessas (risos).

    Ah, entendi. Foi uma experiência do tipo ‘quase morri, mas me sinto bem’.

    Bjørn: Pois é, literalmente isso (risos). Eu tive uma inflamação grave na garganta, achei que nunca mais poderia falar, mas isso nem foi o pior. Passei muito tempo de cama, febril, aquilo literalmente quase me matou. Tive que pausar meus estudos enquanto me recuperava, mas foram naqueles dias que escrevi as primeiras músicas do Gothminister, então acho que tudo bem, é um bom equilíbrio (risos).

    Acho que é a primeira vez que ouço uma história assim como a gênese de uma banda.

    Bjørn: Ah, a ideia era ser único mesmo (risos gerais). Bem, no início nem era uma banda, era um projeto só meu, um projeto eletrônico de um único homem, foi assim que a coisa originalmente foi concebida. Porém, eu sempre tive minhas raízes no metal, então não queria que ficasse daquele jeito. Eu queria uma banda, queria o som de uma bateria de verdade no palco, guitarras de verdade, música pesada, explosiva. E foi isso que fiz, busquei por instrumentistas, formamos uma banda de verdade e começamos a tocar, e o resto é história.

    Pelo que me lembro, no começo foi complicado.

    Bjørn: Foi sim, bem complicado. Nós tínhamos a banda, a imagem, o conceito e até as músicas, mas todos nos odiaram na Noruega! Esperávamos que fosse existir uma certa resistência no meio do metal, mas o que aconteceu foi que, no meio gótico, os caras olhavam para a gente e diziam ‘quem vocês pensam que são para chegar aqui dizendo que são os líderes de uma cena que não vivenciam e de que não sabem porra nenhuma?’. Quer dizer, era para ter sido o nosso fim, mas no fim das contas não poderia ter sido melhor (risos).

    Como assim?

    Bjørn: Ah, o que quero dizer é que no fim não precisamos gastar um centavo com promoção, entende? Aquela reação de verdadeiro ódio que tiveram por nós no meio gótico foi tudo o que precisávamos no início, começamos a ter muita atenção, todos estavam falando sobre nós, éramos uma piada basicamente, mas uma piada que recebia promoção gratuita o tempo todo! E esse ódio dos góticos garantiu nosso espaço entre os fãs de metal (risos).

    Se tivesse sido planejado, não teria funcionado tão bem.

    Bjørn: Exatamente (risos). E o engraçado é que hoje os góticos nos veem como uma liderança mesmo, vêm nos cumprimentar dizendo o quanto é bom que tenhamos dado certo como banda. Claro, essas são pessoas diferentes daquelas que nos odiaram um dia, mas ainda assim é curioso.

    Isso é realmente curioso, acho que ninguém pensaria em algo assim. Quer dizer, a cena gótica era forte na Noruega, a banda Combichrist se tornou realmente grande, e o seu líder também é norueguês (Ole Anders Olsen, que atua sob o nome Andy LaPlegua). Ninguém pensaria que artistas do gênero teriam dias difíceis por aí.

    Bjørn: Sim, as coisas as vezes não são tão simples de entender. Conhecemos o Andy, e ele seguiu por esse mesmo caminho, cresceu no hardcore e criou um projeto industrial, que hoje está bem mais focado no metal. A história é bem semelhante, nós fomos odiados na Noruega, e tivemos que estourar na Alemanha antes de ter algum valor por aqui. Andy criou uma banda nos EUA e estourou por lá antes. Parece que para alguém do nosso meio se dar bem por aqui, precisa primeiro se dar bem em outro lugar. Mas é importante que ainda assim todos nós decidimos fazer o que queríamos fazer, e acabamos nos dando bem com isso.

  • SHARON OSBOURNE aborda o pacto de suicídio assistido firmado com o marido OZZY OSBOURNE

    SHARON OSBOURNE aborda o pacto de suicídio assistido firmado com o marido OZZY OSBOURNE

    No ano de 2007, a empresária e esposa de Ozzy OsbourneSharon Osbourne, lançou um livro de memórias intitulado Sharon Osbourne Extreme: My Autobiography, o qual vendeu mais de 2 milhões de cópias. Em um dos capítulos do livro, Sharon revela que ela e Ozzy teriam feito um trato de que caso algum deles sofressem no futuro de demência, eles procurariam a organização Dignitas, localizada próxima à Zurique, na Suíça, em busca das tratativas para morte assistida, procedimento esse que é legalizado no país desde a década de 1940. Esse assunto foi rediscutido entre Sharon e seus filhos, Jack Kelly Osbourne, no recém-lançado novo episódio de seu podcast. Sharon foi perguntada por Jack se essa ideia “ainda é um plano”. A resposta veio com outra pergunta: “Você acha que vamos sofrer?”Jack replicou a pergunta: “Já não estamos todos sofrendo?”. E a resposta de sua mãe foi: “Sim, todos estamos, mas não quero que doa também. Sofrimento mental é dor suficiente sem o físico. Então, se você tem (dor) mental e física, até mais!”. Por sua vez, Kelly quis saber: “Mas e se você pudesse sobreviver?”Sharon foi dura, porém objetiva em sua resposta: “Sim, e se você sobreviveu e não consegue limpar a própria bunda, está mijando em todo lugar, cagando, não consegue comer…”

    No mesmo ano do lançamento do livro de Sharon,  foi relatado que o motivo de Ozzy ter concordado com o pacto foi porque Don Arden, seu sogro, sofre muito quando passou a conviver com Alzheimer. Sharon afirmou na época que ela e o marido tomaram a decisão no início daquele ano, depois que seu pai, ex-empresário de bandas de heavy metal, perdeu a luta para a doença, morrendo aos 81 anos em julho de 2007. Sharon alegou naquele período que, “Acreditamos 100% na eutanásia, por isso elaboramos planos para ir ao apartamento de suicídio assistido na Suíça se tivermos alguma doença que afete nossos cérebros. Se Ozzy ou eu tivéssemos Alzheimer, é isso – estaríamos fora. Reunimos as crianças em torno da mesa da cozinha, dissemos nossos desejos e todos concordaram. Não tem como eu passar pelo que (meu pai) passou, ou envolver meus filhos nisso. Meu pai se deteriorou à uma velocidade tão rápida que se tornou uma concha de si mesmo. Alguns dizem que a doença é hereditária, então, ao primeiro sinal, quero ser eliminada de sofrimento”.

    Em 2014, o Madman voltou a falar sobre o assunto e explicou ao The Mirror que o pacto suicida dele e de sua esposa havia sido estendido para cobrir qualquer condição com risco de vida, não apenas a demência, mas também a doença de Alzheimer, por exemplo. Disse ele na ocasião: “Se eu não posso viver minha vida do jeito que estou vivendo agora – e não quero dizer financeiramente -, então é isso… (ir para a Suíça). Se eu não consigo me levantar e ir ao banheiro e tenho tubos na bunda e um edema na garganta, então eu disse à Sharon: ‘Desligue a máquina’, se eu tive um derrame e fiquei paralisado, não quero estar aqui. Eu fiz um testamento e tudo vai para Sharon se eu morrer antes dela, então, em última análise, tudo vai para as crianças”

    Como a Suíça lida com o suicídio assistido

    A legislação suíça permite o suicídio assistido desde que não seja por “motivos egoístas”. O assunto é controverso e gera discussões em muitos países. O serviço de saúde britânico, NHS, por exemplo, define friamente o suicídio assistido como um ato de deliberadamente ajudar outra pessoa a se matar. “Se um familiar de uma pessoa com doença terminal obteve sedativos fortes, sabendo que a pessoa pretendia usá-los para se matar, o parente pode ser considerado um auxiliar do suicídio”. Tanto no Reino Unido quanto aqui mesmo no Brasil, suicídio assistido e eutanásia são práticas consideradas ilegais. O código penal brasileiro os define como crimes, e determina pena de 6 meses a 2 anos de prisão.

    O trabalho da Dignitas 

    A Dignitas é uma organização suíça sem fins lucrativos. Ela fornece suicídio assistido por médico a pessoas com doença terminal ou doença física e mental consideradas graves, apoiada por médicos suíços independentes. Eles oferecem trabalho consultivo sobre cuidados paliativos, prevenção de tentativas de suicídio, diretivas de avanço de cuidados de saúde, além de legislação para leis de direito de morrer em todo o mundo.

    Em que circunstâncias o suicídio assistido é permitido na Suíça

    Como dito, as pessoas que decidem pelo suicídio assistido devem ter bom senso, de acordo com determinação da organização; ser elas mesmas capazes de provocar a morte, apresentar um pedido formal, incluindo uma carta explicando seu desejo de morrer e relatórios médicos mostrando diagnóstico e tentativa de tratamento. Para pessoas com doença psiquiátrica grave, um relatório médico detalhado preparado por um psiquiatra também é exigido por uma decisão da Suprema Corte suíça. 

     
  • AD INFINITUM: SOB O CÉU EM CHAMAS

    AD INFINITUM: SOB O CÉU EM CHAMAS

    Por Valtemir Amler

    Se você é daqueles que não gosta de perder nenhuma novidade no seu gênero musical favorito, e se o som que curte ouvir é aquela tradicionalíssima mistura de heavy metal e elementos sinfônicos, então é certo que já ouviu falar do Ad Infinitum. Embora já tenham experiência de veteranos, a banda ainda é nova, foi formada em 2018 pela vocalista Melissa Bonny, mesmo ano em que apareceu para o mundo com seu primeiro single, I Am The Storm. O primeiro álbum oficial só veio em 2020, bem no momento mais crítico da pandemia, o que certamente tirou um pouco do brilho que Chapter I – Monarchy poderia ter alcançado caso a banda tivesse contado com a possibilidade de uma turnê em suporte ao álbum de estreia. Mesmo com as circunstâncias jogando contra os suíços lançaram uma nova versão do debut no mesmo ano (intitulado simplesmente Chapter I Revisited, e contando com versões acústicas das canções originais), e o segundo registro, Chapter II – Legacy chegou em 2021. De lá para cá a banda provou o bom gosto dos palcos, tomou gosto pela estrada, mas nem pensou em ficar longe dos estúdios, e foi assim que nasceu o mais novo capítulo dessa saga de reis e guerras que eles vêm perpetrando: Chapter III – Downfall (2023) mostra um Ad Infinitum mais seguro e experiente, ao passo que também disposto a arriscar, adicionando toques inequívocos do rock alternativo dos anos 90 em suas composições. Conversamos com Melissa, que nos ofereceu mais detalhes sobre aquilo que o quarteto vem fazendo ao longo desses seus muito atribulados primeiros anos de carreira.

    Baseado na informação que temos, os primeiros passos do Ad Infinitum remontam a sua intenção de lançar um projeto solo. Isso está correto?

    Melissa Bonny: Sim, é verdade sim. Acho que o começo é sempre algo mais modesto, menor do que acabamos fazendo, pois você só precisa começar, e nem sempre sabe muito bem como fazer isso. Então, de início, eu só queria criar algumas músicas, talvez apenas o suficiente para um EP, gravá-lo e lançá-lo para ver o que poderia acontecer, eu apenas queria trabalhar em algumas músicas que eu gostasse e nada mais. À medida que o projeto evoluiu e quanto mais eu investia energia e tempo nele, mais eu sentia que não era bem assim, eu realmente queria fazer algo sólido no mundo da música. Eu não queria apenas colocar algumas músicas juntas em um disco qualquer e então jogar isso de qualquer jeito na internet, mas criar algo que fosse realmente sólido, e que realmente fosse lançado de maneira apropriada, algo completo. No começo eu pensei, ‘certo, acho que vou simplesmente contratar alguns bons músicos para gravar o álbum, isso deve bastar’. Pouco depois eu já estava totalmente convencida de que aquilo não era certo (risos), pois realmente gosto da atmosfera de uma banda, acho muito legal quando todo mundo tem uma opinião, quando todos ajudam a chegar em um resultado melhor, quando todos tem sua própria força e direito de mostrá-la. Comecei uma campanha de ‘crowdfunding’ em 2018 para viabilizar esse projeto, e logo em seguida comecei a contatar as pessoas que achava ideiais para estarem ao meu lado em algo tão importante. Falei primeiro com o Nick Müller (bateria, Devilizer), que apresentou Adrian Thessenvitz (guitarra, Quincy Calling e Schwarzlicht), e então eu conheci Jonas Asplind (baixo, ex-Hostile e Follow The Cipher) na turnê. Simplesmente não houve audições ou processos complicados para preencher os postos, desde o início me parecia muito óbvio que essas eram pessoas fariam parte da banda, e simplesmente convidei elas.

    Antes do Ad Infinitum você não era nenhuma novata no mundo do metal, tendo participado de bandas como a austríaca Serenity, e tinha até álbuns lançados ao lado de Evenmore e Rage Of Light. Por que arriscar tudo começando uma nova banda do zero?

    Melissa: Acho que nunca entendi exatamente como algo que eu estivesse arriscando, embora fosse exatamente isso que estava fazendo (risos). A verdade é que eu tinha muitas ideias, e queria tirá-las da minha cabeça, colocar em prática aquelas ideias que estava simplesmente acumulando na mente e que provavelmente um dia acabaria esquecendo. O processo de composição que conheci nas outras bandas em que participei era muito diferente, porque ou simplesmente nos reuníamos na sala de ensaio e depois íamos tocando as ideias que surgissem até conseguirmos uma música depois de um tempo, ou havia um compositor principal e eu só podia escrever os versos dos vocais e as letras. Ambas as formas não eram realmente o que eu mais gostava, e isso é realmente o que me motivou a escrever minha própria música. Eu queria estar livre para usar todas as minhas ideias, sabe? O Ad Infinitum começou comigo escrevendo as músicas, porque como você disse, eu estava sozinha, a ideia inicial era um projeto solo. Depois trabalhei com Oliver Phillips (N.R: produtor e músico, dentre outros atua na banda Phantasma ao lado da vocalista holandesa Charlotte Wessels e o vocalista austríaco Georg Neuhauser), que me ajudou porque não sou instrumentista, então obviamente precisava de ajuda para fazer soar como algo realmente escrito por um baterista, guitarrista e baixista, e não uma peça composta por uma vocalista que está apenas programando qualquer coisa no seu computador pessoal enquanto rega os vasos de flores (risos). Claro que assim que os outros caras se juntaram à banda, eles começaram a participar do processo de composição, e aí as coisas realmente começaram a fluir como eu gostaria. No primeiro álbum foi assim, mas desde então eles estão envolvidos desde o início, obviamente.

    Não tão obviamente assim, um monte de vocalistas preferiria que o álbum soasse como ‘algo programado em seu computador enquanto rega as flores’ do que aceitar ideias que viessem de outras pessoas.

    Melissa: Ah, entendo o que quer dizer, mas definitivamente não sou do tipo de pessoa que tem um ego tão inflado assim (risos gerais). Veja, se fosse para ser uma cabeça-dura, simplesmente teria mantido a proposta de um projeto solo, mas o que eu queria era uma banda. Queria ter a possibilidade de trabalhar com todas as minhas ideias, mas não sob o custo de recusar todas as ideias dos outros.

    O que é bom, pois o resultado dos esforços do grupo é sempre maior do que a soma dos esforços individuais, para o bem e para o mal.

    Melissa: É verdade, é nisso que acredito também. Acho que a única parte ruim é que com muitas ideias fluindo, poderia ficar algo meio desconexo e disperso, mas é por isso que antes sempre devemos conversar e definir o básico que queremos alcançar. Desde que todos estejam olhando para o mesmo lugar e trilhando o mesmo caminho, conseguimos um lugar comum, e aí só temos o lado bom.

    Liricamente, você buscou um caminho conceitual desde o início?

    Melissa: Acho que podemos dizer que sim, ao menos de certa maneira. Quer dizer, eu estava muito mais concentrada na atmosfera que aquelas músicas trariam do que no conceito propriamente dito, então não sei se ‘álbum conceitual’ seria uma classificação precisa. Porém, o primeiro álbum é sobre um dos mais famosos reis da França, Luís XIV, e sua corte, as pessoas que o cercavam. E isso é ser conceitual, certo? Então, é conceitual, é e não é, ao mesmo tempo (risos), especialmente porque tentei deixar as letras meio abertas e não tão narrativas, pois queria que as pessoas conseguissem se conectar com elas e entender de maneiras diferentes, além daquela que originalmente planejei. Gosto que a música adquira significados diferentes para as pessoas, pois como fã acho que sempre me conectei de um jeito com as letras das minhas bandas favoritas de uma forma que não era exatamente a planejada por eles (risos). Temos sim uma conexão entre as letras e de álbum para álbum, então talvez tenha sim algo de conceitual. Desde que consiga alcançar a atmosfera que buscamos, acho que está tudo bem, e as pessoas parecem estar gostando.

    Bem, não posso deixar de mencionar que vocês apareceram para o mundo com seu primeiro álbum no louco ano de 2020, e chamava a atenção a capa de Chapter I – Monarchy, onde você aparecia à frente, e a banda atrás, usando aquelas máscaras da época da Peste Negra.

    Melissa: Oh meu Deus, nem me fale (risos gerais). Eu lembro que na época pensei ‘estamos acabados, antes mesmo de começarmos’ (risos). Nós tínhamos todas aquelas fotos de divulgação, e na época pareceu uma ótima ideia, a imagem era ótima, era muito chamativa, dava uma aura de mistério legal para a banda. Claro que nenhum de nós imaginava o que aconteceria em 2020, mas é assim que as coisas são! Estava tudo pronto, o disco ia ser lançado e o mundo estava em ‘lockdown’, as pessoas precisando usar máscaras para tentar evitar contrair um vírus, pessoas morrendo no mundo inteiro. Tive receio de que as pessoas entendessem aquilo como uma piada de péssimo gosto, o que absolutamente não era a nossa intenção. Chegamos a conversar entre nós e com o selo se levaríamos aquilo adiante, e acabamos fazendo conforme o planejado. Felizmente, as pessoas reagiram como você, perceberam que foi uma coincidência bizarra, e levaram tudo na brincadeira (risos).

    O que virá em seguida no universo da banda? Talvez uma visita ao Brasil?

    Melissa: Seria ótimo! Sempre ouvimos falar histórias incríveis do Brasil, além de todos aqueles discos e vídeos gravados ao vivo por aí, quero sentir isso com o Ad Infinitum. Em seguida, esperem por mais e mais música, é o que amamos fazer!

  • WOLFHEART: OS LOBOS DE CARÉLIA E OS REIS DO NORTE

    WOLFHEART: OS LOBOS DE CARÉLIA E OS REIS DO NORTE

    Por Valtemir Amler

    Depois de revelar ao mundo alguns dos atos musicais mais grosseiros e viscerais de que se tem notícia na virada dos anos 80 para os 90 (quem aí também lembra da impressão devastadora ao ouvir Beherit e Demilich pela primeira vez?), a Finlândia finalmente começou a revelar alguns nomes mais aprazíveis para ouvintes mais sensíveis nos anos 90, com o sucesso mundial de nomes como Stratovarius, Sonata Arctica, Nightwish e tantos outros. Se os nomes melódicos não paravam de somar por lá, os absurdamente extremos também não sinalizavam nenhum arrefecimento, garantindo a Terra dos Mil Lagos um dos cenários mais valorosos do metal mundial. Fato é que chegou um dia que o inevitável aconteceu: o impalatável se uniu ao palatável, e bandas como o Wolfheart nasceram, trazendo o melhor equilíbrio entre os dois mundos em sua fórmula musical. Quando fundou a banda em 2013 em Lahti, o guitarrista e vocalista Tuomas Saukkonen já colecionava uma longa experiência com várias outras bandas, e após simplesmente abandonar todas elas, fundou aquilo que seria uma ‘one-man-band’, ou um projeto solo, como preferir chamar. Fato é que não demorou muito para ele perceber o potencial que aquelas músicas apresentavam, e a necessidade de levá-las aos palcos logo o fez mudar de postura, buscando um time de músicos talentosos para completar a banda. Hoje acompanhado por Joonas Kauppinen (bateria), Lauri Silvonen (baixo) e Vagelis Karzis (guitarra, que já tocou com o Rotting Christ), Tuomas lidera uma banda experiente e conhecida em todo o mundo, e que contabiliza seis álbuns completos de estúdio. Confira o que ele tinha para nos contar abaixo.

    Quando você coloca em mente que vai trabalhar em um novo álbum, o que costuma trabalhar primeiro, as letras ou as músicas?

    Tuomas Saukkonen: Eu sempre senti a necessidade de ter a música primeiro. De alguma maneira, isso soa mais natural para mim. Ao mesmo tempo, é complicado, pois antes de tudo me vêm à mente essa imagem, como se fosse o cartaz de um filme antigo ou algo do tipo, e nessa imagem existe uma ideia geral do conceito que será abordado no novo álbum. Então, falando de forma mais assertiva, primeiro tenho uma ideia bem geral e totalmente aberta de qual será o conceito do álbum, e então começo a trabalhar na música, e só no fim me debruço seriamente sobre o conceito para criar as letras.

    Essa é uma maneira um bocado diferente daquela que costumamos ouvir, especialmente naquilo que se refere a ideia inicial do conceito. Não lembro de outras bandas terem me dito algo do tipo antes.

    Tuomas: É, acho que é um pouco diferente, mas sempre foi assim que funcionou quando se trata do Wolfheart. Eu realmente preciso ter essa imagem inicial em mente, pois é a partir dela que começarei a criar as músicas, e elas precisam estar conectadas a essa imagem, precisam ter o mesmo sentimento, o mesmo clima da imagem que tenho em mente. Então, se a imagem inicial é algo como o cartaz de um filme, a música que vou criando é como se fosse a trilha sonora para esse filme, entende?

    Sim, e acho essa uma ideia bem legal para capturar um ambiente diferente em cada disco.

    Tuomas: Sim, e essa é de verdade a única maneira que funciona para mim. Nem tento escrever de outra maneira, pois sei que ficaria travado em uma mesma ideia por dias e jamais estaria satisfeito com o resultado. Posso ser meio cabeça-dura nessas horas (risos). Outra coisa é que sempre costumo escrever as letras quase que de última hora, quando já estou quase entrando no estúdio para gravar os vocais. Sempre senti que essa é a melhor maneira de manter a emoção genuína que aquelas letras me causam, a forma original como elas me impactam. Escrever tudo muito antes meio que deixaria o meu cérebro anestesiado até o dia de gravar a voz, acostumado demais, e não gosto disso, não gosto de amortecer o impacto, por assim dizer. Simplesmente não faz sentido para eu colocar tanto trabalho para criar a música e as letras com o ambiente perfeito e então perder tudo na hora da gravação.

    Confesso que esse é um processo bem mais legal do que eu havia imaginado.

    Tuomas: Que bom que apreciou, de verdade. Normalmente as pessoas só me acham esquisito, então é legal encontrar alguém que viaja nas mesmas ideias (risos gerais).

    Bem, um dos aspectos mais presentes nos álbuns do Wolfheart, liricamente falando, é essa aproximação dos velhos contos finlandeses. Vocês são uma das bandas que mais se aproximam da velha mitologia finlandesa, algo que também sempre apreciei no Amorphis.

    Tuomas: Sim, a verdade é que sempre gostei muito desses contos, acho que eles falam muito sobre a personalidade do finlandês naqueles tempos e nos tempos atuais também. Quer dizer, são mitos, mas eles mostram a maneira como o pensamento das pessoas funciona, e isso acaba abrindo muitas possibilidades para uma história, você tem muito material sobre o qual trabalhar. Bem, temos aqui na Finlândia um livro que compila todas essas histórias mitológicas, o Kalevala. O Kalevala é uma espécie compilação de contos, o autor basicamente viajou de vilarejo para vilarejo documentando diferentes histórias e crenças que foram passadas adiante de forma oral ao longo dos tempos através dos antigos pagãos de cada vilarejo. São histórias muito tradicionais, contadas oralmente de uma geração para outra, mas há dezenas de histórias de cada região que não entraram no livro. É um livro muito abrangente, de grande valor histórico e muito valorizado como documento. Os caras do Amorphis basicamente se tornaram os ‘embaixadores mundiais’ desse livro, são os grandes divulgadores dele para todo o mundo, pois suas músicas são todas baseadas nesse livro. O segundo álbum deles, Tales From A Thousand Lakes (1994), todas as letras são traduções de textos do Kalevala, e até a capa tem muito a ver, pois aquele símbolo belíssimo que você vê na capa, e que também aparece em outras capas deles, é o equivalente finlandês ao Martelo de Thor, talvez o símbolo mais conhecido de toda a mitologia nórdica. Até eu sou fã do Amorphis por tudo o que eles fizeram musicalmente e liricamente, então eles foram uma grande referência, e por isso mesmo eu tinha que tomar cuidado para não copiar o que eles já tinham feito. Basicamente, ao longo dos anos fui me concentrando naqueles outros contos tradicionais finlandeses que não entraram no Kalevala, naquelas histórias paralelas, por assim dizer. Existem muitas delas, e sinto que poderíamos passar décadas trabalhando nisso sem precisar repetir uma história.

    Ou seja, não será fácil vermos um álbum do Wolfheart cheio de pontas soltas e temas desconectados em cada faixa.

    Tuomas: Sim, é certo que isso não acontecerá, ao menos não tenho nenhuma vontade de fazer algo assim no momento. Eu gosto de cair de cabeça em cada álbum que fazemos, e o melhor para isso é mergulhar completamente em um conceito, gosto da sensação de estar cercado de elementos que levam para um mesmo caminho, ou de caminhos que levam para um mesmo fim. Isso não significa dizer que sempre falarei de mitologia, mas sim que pretendo estar sempre trabalhando em álbuns conceituais.

    E é bem legal perceber que você mistura canções de todos esses álbuns com diferentes conceitos ao vivo, e continua tendo uma unidade musical coesa e poderosa.

    Tuomas: Sim, obrigado por perceber. Aí acho que entra muito o papel da música. Sempre tivemos essa sonoridade bastante pesada e poderosa, mas também com muitas partes mais atmosféricas e melódicas, que são recursos importantes na hora de mesclar letras e música. Bem, eu não tinha ideia disso no começo, sendo bem sincero com você, mas acontece que esses mesmos elementos atmosféricos e melódicos criam uma espécie de conexão musical que funciona muito bem ao vivo, de forma que as pessoas não se sintam deslocadas. Claro que eu nem tinha ideia disso quando fiz o primeiro álbum do Wolfheart dez anos atrás (risos gerais).

    Em 2020 você mergulhou na História finlandesa em Wolves Of Karelia, abrindo uma nova possibilidade para os álbuns conceituais do Wolfheart. Houve uma razão especial para isso?

    Tuomas: Sim, acho que eu quis conectar os mundos, sabe? Quer dizer, todo mito teve um papel na História de um povo, então sempre estive vagando em torno da tradição e do passado do nosso país, mas naqueles dias aconteceu algo diferente. A verdade é que o Wolfheart cresceu bastante nos últimos anos, e passamos meses longe de casa, tocando pela Europa, América do Sul, América do Norte, enfim, em todos os lugares. A saudade de casa vai batendo, e você começa a lembrar de tudo o que estudou na escola, das coisas que vê na TV, e o grande evento histórico da Finlândia é a Guerra de Inverno! Foi como um clique, eu simplesmente senti que tinha que contar aquela história para as pessoas, é provavelmente o evento mais importante de toda a nossa História, várias pequenas batalhas envolveram tantas pessoas e marcaram tão profundamente o nosso povo por gerações, mas a maior parte das pessoas ao redor do mundo sequer sabe que essa guerra aconteceu, pois os seus livros didáticos não trazer sequer uma menção a ele. Era hora de dar esse mergulho no passado e contar a história de alguns dos nossos heróis, e gostei muito de fazer aquilo, mas preferi focar em algo diferente nesse mais novo álbum, King Of The North (2022), pois não quero soar como um professor (risos gerais).

  • ANDRÉ MATOS – O MAESTRO DO ROCK: segundo episódio mostra sucesso e rompimento com Angra

    ANDRÉ MATOS – O MAESTRO DO ROCK: segundo episódio mostra sucesso e rompimento com Angra

    Por Antonio Carlos Monteiro

     

    Um dos episódios mais chocantes e tristes da história do metal brasileiro aconteceu no dia 8 de junho de 2019, data em que faleceu um dos maiores músicos que este país já conheceu, Andre Matos.

    Vários eventos foram realizados para marcar a riquíssima trajetória de Andre, sendo que o principal acabaria sendo o documentário “André Matos – O Maestro do Rock”. Idealizado pelo cineasta Anderson Bellini, com pré-produção do jornalista Thiago Rahal Mauro e fotografia de Renato Viliegas, o filme vai ser composto por quatro episódios e está sendo viabilizado através de financiamento coletivo de fãs de Andre. A primeira parte estreou em sessão de gala no Teatro Municipal de São Paulo no dia em que Andre completaria 50 anos, 14 de setembro de 2021. Já o segundo episódio teve sua estreia em abril de 2023, durante o Summer Breeze Brasil, e no dia 10 de outubro será exibido simultaneamente em dez salas da rede Cinemark de cinema.

    O documentário teve início com uma longa entrevista concedida por Andre a Anderson e Thiago. Posteriormente ao falecimento do músico, sua família cedeu a Bellini um vasto material e a isso se somaram entrevistas com cerca de cem pessoas que de algum modo tiveram envolvimento na carreira de Andre, o que viabilizou o projeto no formato em que está sendo realizado.

    A primeira parte focou principalmente na infância e juventude de Andre, o despertar de seu gosto pela música e a formação de sua primeira banda, Viper, trazendo depoimentos de familiares como sua mãe, Sônia Coelho, seu irmão, Daniel Matos, e seu primo Eco Moliterno.

    Já o segundo episódio detalha sua saída do Viper para se dedicar ao estudo de música erudita, com depoimentos de seus então parceiros de banda Pit e Yves Passarel, Felipe Machado e Cassio Audi, e o embrião do que viria a se tornar o Angra, que começou na faculdade de música que Andre cursava – afastando as especulações de que seria uma “banda armada”.

    O filme ainda mostra Matos falando sobre o impacto que o Judas Priest causou nele com sua performance no Rock in Rio de 1991, com direito a depoimento de Rob Halford a respeito – ele é de uma elegância enorme, como sempre.

    Toda a trajetória do Angra é contada com riqueza de detalhes, com participações de todos os integrantes, à exceção de Luiz Mariutti e Ricardo Confessori que, conforme consta nos créditos finais do filme, gravaram entrevistas mas depois pediram para que suas partes fossem retiradas.

    A gravação do primeiro disco, Angels Cry (1993), também é um momento revelador, já que as dificuldades foram imensas: “Ali a gente se deu conta do quanto era amador”, confessa Andre.

    Kiko Loureiro

    Os problemas de relacionamento também são parte importante do documentário, em especial entre Andre e Rafael.

    E também tem espaço o famoso concurso em que supostamente seria escolhido o sucessor de Bruce Dickinson no Iron Maiden. Enquanto Andre é extremamente sincero ao declarar que “nunca tive esperança ou sonhei que faria parte do Iron Maiden”, Blaze Bayley, vocalista que ficou com o posto, dá um surpreendente depoimento sobre o brasileiro.

    A gravação de Holy Land (1996), mesmo com a banda bem mais experiente, não foi menos atribulada, já que Andre enfrentou problemas com a voz. “Saber cantar é saber preservar a voz”, define ele.

    Kai Hansen (Helloween / Gamma Ray)

    A polêmica do uso de brasilidade nos discos do Angra e Roots, do Sepultura, lançados quase simultaneamente, também é destaque, assim como a consagração da banda na Europa.

    Boa parte do filme mostra a crise que começou a se instalar dentro do Angra, que culminaria na saída de Andre, Luiz e Ricardo após o lançamento de Fireworks (1998). Aos boatos de que a banda pretendia demitir o cantor, Rafael Bittencourt foi claro e direto: “Só se a gente fosse muito burro.”

    Rafael Bittencourt

    As questões relativas ao empresariamento e que levaram ao racha na banda são tratadas de forma direta mas sem sensacionalismo – ponto para os produtores do filme. O empresário da banda à época, Antonio Pirani, não quis gravar sua participação no documentário, o que acabou deixando algumas perguntas sem resposta, mas mesmo assim o tema foi bastante aprofundado.

    Em resumo (e fazendo um grande esforço para não dar spoilers), o fato é que “André Matos – O Maestro do Rock Episódio 2”, apesar de ser um pouco pesado para quem conheceu Andre de forma mais próxima, como este que vos fala, merece ser assistido por todos, desde aqueles que conhecem profundamente sua história até aqueles que desejam travar contato com a trajetória desse grande artista. A qualidade de filmagem, fotografia e edição não deixam a desejar para nenhum daqueles documentários bacanas que você costuma assistir na TV e a forma como os fatos são apresentados prendem você de uma forma diante da tela que as mais de duas horas passam num piscar de olhos.

    Que venha logo o terceiro episódio.