BRUNO SUTTER – SÃO PAULO (SP)

Por Fernando Queiroz

Fotos: Gabriel Ramos

Ele foi ousado! Bruno Sutter é famoso por diversos trabalhos: Hermes e Renato, programa de humor da finada MTV, apresentador de programa de rádio na Kiss FM e, dentro do metal, mais importante aqui para nós, vocalista do Massacration, no qual interpreta o frontman Detonator. Muitas facetas no meio artístico! Como vocalista de um tributo ao Iron Maiden? Não tanto – embora já faça isso há muitos anos esporadicamente e de forma mais discreta. Assim, alugar o Carioca Club, com capacidade para quase duas mil pessoas, anunciando com poucas semanas de antecedência que faria um show tocando um setlist da donzela, em comemoração aos 50 anos do grupo britânico, que é o mais popular no geral dentro da América do Sul, foi realmente uma ousadia. Por incrível que pareça, deu certo! Não, não tivemos casa cheia, mas, dadas as circunstâncias, foi um público considerável. A performance valeu? É o que vamos ver!

Previsto para abrir às 19h, o local só foi liberado com cerca de meia hora de atraso. Uma demora considerável, ainda mais se tratando de uma sexta-feira e ainda com banda de abertura. Porém, quando abriu, talvez o atraso tenha sido algo não tão ruim, pois as pessoas realmente demoraram a chegar. Ainda no início do show da banda Santa Cora havia realmente pouca gente. Por sorte, aos poucos o público foi chegando e já no meio do show deles tínhamos bastante gente.

Antes de começar, fomos bombardeados por propagandas do “disco de natal do Detonator”, com incessantes anúncios no sistema de som do tal álbum. Sim, propagandas engraçadas, dava para rir, não tenha dúvidas, mas depois de tantas vezes repetida ficou realmente muito chato.

Por melhor que possa ser o Santa Cora, a verdade é que pareciam um pouco deslocados. Uma banda de metal sinfônico se dá muito bem em vários tipos de eventos, seja abrindo para uma banda de power metal ou até de bandas um pouco mais pesadas, mas com o mesmo tipo de público, como algumas de doom, mas Iron Maiden não é exatamente a que tem fãs mais abertos ao gênero deles. Claro, todos foram extremamente respeitosos e até tentavam animar, mas não era uma exaltação completa. Apresentados pelo próprio Bruno no palco, fizeram um set relativamente longo, muito focado em músicas autorais, e a performance era extremamente respeitável. Devo dizer, vale a pena conhecer. O público só foi se animar, no entanto, no fim, quando fizeram o certo: covers. Músicas de Nightwish e Stratovarius foram extremamente bem aceitas, e realmente via-se muita gente cantando junto – inclusive eu. Missão cumprida, dentro das possibilidades, mas fica a ressalva: estavam um pouco deslocados.

Depois do show deles, mais das mesmas propagandas. Parecia um mantra!

Deixo claro algumas coisas: nunca vi um show do Iron Maiden e, embora conheça bem a carreira da donzela, nunca fui realmente um fã. O motivo de dizer isso é apenas para dar um contexto de que não é uma análise baseada em comparações – que, mesmo de forma inconscientes, podem acontecer – com o que se vê no show da “banda original” ou com a visão de um fã. Falo como alguém neutro, que simplesmente gosta do som. Dito isso, vamos lá!

Logo de cara, quando Bruno Sutter e sua banda subiram ao palco já era nítido algo excelente: não seria só um show com aquelas velhas e manjadas músicas que todos conhecem, mas sim uma celebração a toda a história do Maiden. Sim, é claro que tiveram os clássicos, as canções mais “pop”, mas de forma alguma a noite se resumiu a isso. O início foi com Caught Somewhere in Time e Two Minutes to Midnight, músicas populares – em especial a segunda –, mas já foram, de certa forma, surpresas. Mas foi na terceira que veio o primeiro “lado b”: Man on the Edge! Todos esperariam, se fossem pensar em alguma da fase do injustiçado Blaze Bayley no repertório, definitivamente não seria essa. Pessoalmente, achei sensacional, pois considero The X Factor facilmente um dos melhores álbuns lançados pelo Maiden.

O show realmente tinha cara de homenagem. Bruno se comunicava com o público sempre falando sobre a história do Iron Maiden – e, claro, sempre fazendo piadas, que é sua marca registrada – sobre sua conexão com a banda e saudando todos os membros e ex-membros, em especial os falecidos Paul Di’Anno e Clive Burr. Como bem dito pelo cantor, se era para comemorar 50 anos, não poderíamos viver só de velharias, mas de novidades também! Tivemos sons do último álbum, Senjutsu, com a canção Stratego, e Speed of Light, de Book of Souls. Foi um verdadeiro passeio por todas as fases e épocas dessa tão querida banda pelo público brasileiro. Íamos de Flight of Icarus, de Piece of Mind, até Wasting Love, de Fear of the Dark – essa última com participação do técnico de som, Alexandre Russo, que fez, inclusive, a parte técnica da gravação do disco ao vivo de Bruce Dickinson, Scream for Me Brazil. Vejam bem, não sou um grande fã de Iron Maiden, mas aquilo estava muito legal, além da excelente qualidade dos músicos; Bruno estava cantando, como sempre, muito bem, e sua banda, afiadíssima!

Participações também não faltaram! Além do já mencionado Alexandre Russo, um pouco além da metade do show a banda de Bruno saiu do palco, mas o cantor ficou. Ele anunciou, então, os membros do The Beast Experience, hoje o maior Iron Maiden cover do país. Como Sutter disse, ele sempre fica nervoso ao cantar com eles, pois, segundo ele, são a banda mais fiel ao que o Iron Maiden faz ao vivo. De fato, o que apresentaram foi com todo o esmero possível. Tocaram mais algumas músicas não muito lembradas pelo público geral: Powerslave, The Wicker Man e, surpreendentemente, a música originalmente de Bruce Dickinson, mas regravada pelo Iron Maiden, Bring Your Daughter… to the Slaughter, cuja versão original foi lançada como trilha sonora do filme “A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy” – a canção ganhou o “prêmio” Framboesa de Ouro para Pior Canção Original na época, mas sejamos francos, não é ruim (claro, Hollywood não gosta desse tipo de música, então é compreensível). A participação dos músicos convidados terminou com o grande clássico Iron Maiden.

Acabou? Não! Mais uma participação. Quem subiu ao palco foi Jéssica Falchi! A ex-guitarrista do Crypta e grande fã do Iron Maiden foi a última convidada e ficou até o final, tocando, agora sim, aquelas mais “pop”: Aces High, The Number of the Beast, Fear of the Dark, Hallowed Be Thy Name e, finalmente, como não podia ser diferente, Run to the Hills.

É impossível falar que, no fim, não foi divertido! Um longo setlist de vinte e três músicas do Iron Maiden, com performance impecável e participações muito legais, valeram a noite. Para fãs de Iron Maiden, foi um prato cheio. Para quem apenas curte, também! Bruno Sutter passeou por várias eras da banda, indo da fase Paul Di’Anno até Blaze Bayley – claro, a maior parte ficou por conta da era Bruce Dickinson –, das músicas mais longas, como Phantom of the Opera, até as mais curtas. Foi uma noite realmente divertida, que valeu a pena ter ido! O ponto negativo fica pelo horário: acabou bem depois da meia noite.

Nosso eterno Detonator realmente vive Iron Maiden, e isso ficou nítido.

Setlist

Caught Somewhere in Time

2 Minutes to Midnight

Man on the Edge

The Trooper

Wrathchild

Killers

Stratego

Revelations

Phantom of the Opera

Flight of Icarus

Wasting Love

Wasted Years

Speed of Light

The Evil that Men Do

Powerslave

The Wicker Man

Bring Your Daughter… to the Slaughter

Iron Maiden

Aces High

The Number of the Beast

Fear of the Dark

Hallowed Be Thy Name

Run to the Hills

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