Por Daniel Agapito
Fotos: Gustavo Diakov
Dentro do punk, o Bad Religion é uma banda interessante. Não chegaram no mainstream absoluto como outros nomes da linha mais pop, como Green Day, The Offspring e Blink 182, que fazem shows em estádios e são headliners de festivais, mas também não estão no mesmo nível do ‘midstream’ de bandas como Social Distortion e Rancid. Sem o Bad Religion, formado em 1979, acredite ou não, e sua mescla inicial da rapidez do que viria a ser o hardcore e um estilo vocal mais cantado que remete a bandas como Descendents e Adolescents, não existiriam nenhuma dessas bandas. Apesar de seu som mais fácil de escutar, por assim dizer, nunca deixaram de lado o verdadeiro cerne do punk: a ação política e crítica social nas letras.
Poderia falar por horas sobre a importância dessa banda que não só marcou uma geração e revolucionou o punk, estilo que tem sua morte decretada desde seu “nascimento”. O impacto deles vai muito além dos refrãos cantados e da estética de funcionário do TI que usa sapato Vans. Vale também ressaltar a conexão da banda com o público brasileiro, somando 15 passagens por terras tupiniquins, com apresentações de todos os tamanhos, desde o famigerado show do apagão em Santos, à sua última aparição, como atração do The Town, no ano passado.
Chamados de última hora para substituir os Sex Pistols, nosso repórter Luis Tosi descreveu esse show como “uma aula de punk: político, direto, sem firulas”, dizendo que “a banda disparou clássicos como uma metralhadora” e “mesmo os (fãs) que não os conheciam a fundo se renderam à coesão e intensidade da banda, que não abre mão de uma performance extremamente limpa e melódica, com destaque para os solos e harmonias vocais.” Juntando a qualidade da passagem anterior ao fato de que o show ocorreria em meio ao caos dos side-shows do Bangers Open Air, em plena terça-feira, a expectativa para o show dos californianos era altíssima!
Chegando nos arredores do Espaço Unimed por volta do horário de abertura da casa, os bares nas ruas próximas estavam cheios, mas a casa em si só foi encher mais perto do horário de início do show. Vale notar que o público, desta vez, estava relativamente misto, com vários fãs que vivenciaram os tempos áureos da banda nos anos 90, mas também muita gente jovem, inclusive várias crianças acompanhadas dos pais. E ainda tem quem fale que o rock morreu… Poucos minutos antes de a banda subir no palco, a casa já estava praticamente intransitável, e a ansiedade só aumentava.

Depois daquele “atraso combinado” de 15 minutos que parece ser de lei nos shows de maior porte, as luzes se apagaram, um Bad Religion foi estampado no telão em letras garrafais e Brian Baker, iluminado por um holofote, iniciou logo o riff de Recipe for Hate, sem mais nem menos. O público parecia tomado por uma injeção espontânea de energia, esquecendo o atraso para começar, esquecendo que amanhã tinham que acordar cedo para trabalhar, apenas cantando e pulando junto. Após um rápido “é bom estar de volta”, mantiveram a energia lá no alto com Them and Us, que viu as rodas ficarem ainda mais vertiginosas, e até alguns crowdsurfs.

O repertório deles parecia mais um compilado de ‘greatest hits’, pois sem nem dar tempo para os fãs respirarem, já emendaram Los Angeles Is Burning, que viu seu refrão cantado a plenos pulmões pelo público – àquela altura já em êxtase. Isso continuou com Do what You Want e 21st Century (Digital Boy), quando a casa já estava uma verdadeira pipoqueira humana. Impressionado com a reação da galera, Graffin até comentou brevemente “começamos bem”. Uma coisa que não teve no show foi muita “falação”: passavam de uma música para outra direto, parando apenas de vez em quando para tomar uma água.

Mesmo com a interação direta bem pontual, o carisma do quinteto era evidente. O Bad Religion não é aquela banda que precisa estar correndo e pulando pelo palco para incendiar uma multidão: só pelo brilho nos olhos de Graffin e os sorrisos de orelha à orelha constantemente estampados nos rostos dos integrantes, notava-se que estavam dando tudo de si. Nesse sentido, eles captam perfeitamente a paixão que marca a essência do punk; podem não ser mais uma banda “do it yourself”, mas ainda mantêm a mesma chama acesa, ainda amam o que fazem.

Passada a dobradinha maligna da minimamente mais calma Streets of America e a devidamente enérgica Fuck You, Greg introduziu a música seguinte provando exatamente que a paixão ainda está ali: “Tocamos essa música por muitos anos, a gente vem pra cá há anos, mas mesmo assim, I Wanna Conquer the World”. Logo depois, tivemos uma sequência de músicas menos óbvias, mas, ainda assim, muito conhecidas e cantadas em uníssono, quase igualando a banda em termos de volume: Come Join Us, End of History e True North. Os comentários políticos não se restringiram às letras. Antes de True North, por exemplo, o vocalista comentou que “ainda buscamos nosso norte” apesar da “maior exploração da história da humanidade” ocorrer no sul do planeta.

Dada a situação no mínimo complexa da nossa sociedade, atualmente assolada pela incerteza da guerra e líderes de todos os cantos e lados do espectro político abusando de seu poder todos os dias, as próximas músicas vieram como socos impiedosos na boca do estômago – e infelizmente soaram como um noticiário. Foram elas as clássicas Atomic Garden, We’re Only Gonna Die e No Control, com direito a fã subindo no palco para cantar o refrão ao lado do guitarrista. O público realmente estava descontrolado, do melhor jeito possível, então Struck a Nerve, mais cadenciada, foi o cruzamento perfeito para Suffer cabecear no gol.

É em faixas como Punk Rock Song e Infected que o Bad Religion realmente brilha. São músicas teoricamente simples, longe de serem técnicas, mas recheadas de riffs marcantes e letras que não saem da cabeça nem com decreto do papa. Eles são a prova viva de que às vezes, menos realmente é mais. Foi quase impossível manter este texto conciso, sem discorrer extensivamente sobre cada segundo – não dá para não comentar que fecharam o bloco principal do show simplesmente com A Walk, You (clássica dos jogos do Tony Hawk) e Anesthesia.

Se o show tivesse acabado por aí, já teria sido praticamente irretocável: 21 músicas em pouco mais de uma hora, performance cativante, altos hits, mas não, ainda tivemos direito a um bis. Apesar das vontades do baixista, Jay Bentley, que estava se coçando para tocar Candyland, voltaram no tempo com Fuck Armageddon… This is Hell.
Para realmente fechar com chave de ouro, escolheram dois clássicos do punk impossíveis de não cantar junto, Sorrow e American Jesus, sempre relevante. Durante os últimos acordes de American…, uma mensagem simples, mas que parece ser esquecida, apareceu no telão: pense por conta própria. “Tem um futuro vindo aí, e não é sobre homens velhos, é sobre vocês. Vocês sabem melhor que qualquer um o que vem por aí, somos o futuro.” Com essa fala de Bentley, as luzes da casa se acenderam.

Além de oferecerem uma experiência musical de qualidade inegável, acompanhada de um show para lá de enérgico e um verdadeiro presente para os fãs em forma de repertório, trouxeram alguns pontos importantes à tona. Primeiramente, mesmo com mais de 4 décadas de estrada, a banda está afiada como nunca, mostrando uma paixão verdadeira pelo que fazem, visível em cada acorde, cada baquetada, cada palavra dita. É clichê dizer isso, visto que Greg Graffin é professor na UCLA, mas eles realmente deram aula.

Além disso, suas músicas seguem atemporais – o que é preocupante. Pode não parecer, mas se as mesmas críticas traçadas aos líderes que governavam há 30 ou 40 anos ainda seguem válidas (e parecem direcionadas aos atuais), algo está muito errado. O rock, de modo geral, e especialmente o punk, em sua essência, servem para mandar uma mensagem, para cutucar a ferida, para apontar nossos erros como sociedade. Não existe punk que não seja político (nota-se: político não quer dizer partidário), do mesmo jeito que não existe música do Mötley Crüe que não fale de sexo, drogas e rock’n’roll. Se as críticas óbvias do Bad Religion incomodam, talvez o problema não sejam as críticas…

Setlist
Recipe For Hate
Them and Us
Los Angeles is Burning
Do What You Want
21st Century (Digital Boy)
The Streets of America
Fuck You
I Want to Conquer the World
Come Join Us
End of History
True North
Atomic Garden
We’re Only Gonna Die
No Control
Struck a Nerve
Suffer
Punk Rock Song
Infected
A Walk
You
Anesthesia
Bis
Fuck Armageddon… This is Hell
Sorrow
American Jesus
Clique aqui e siga o CANAL “Roadie Crew” no WhatsApp
Clique aqui e faça parte do GRUPO da ROADIE CREW no WhatsApp