ATROCITY | ARKONA | LEAVES’ EYES – SÃO PAULO (SP)

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Por Fernando Queiroz

Fotos: Belmilson Santos

Foi um domingo bombástico no metal. Com pouco ou nenhum alarde, o Arch Enemy anunciou, de uma hora para a outra, pela manhã brasileira, a saída da vocalista Alissa White-Gluz. Poucas horas depois, um dia apenas após o anúncio de que seriam headliners do Bangers Open Air, o Angra comunicou o desligamento de Fabio Lione. Doido, não? Bem, longe de todo esse caos metálico, em seu nicho quase alheio a tudo isso, três bandas clássicas faziam, no Carioca Club, apresentação conjunta após muitos anos longe do Brasil. Os fãs paulistanos de folk, sinfônico e death metal puderam regozijar, pois Arkona, Atrocity e Leaves’ Eyes iriam fazer sua alegria! Com horário bom, dia agradável e ótima escolha de local, tinha tudo para ser um evento legal.

Sejamos francos, são bandas de nicho, e um bem específico, que de fato tem seus fãs fiéis e os mantém. O problema é a quantidade de shows seguidos voltados a esse grupo de pessoas nos últimos dois anos – sem contar os tantos outros shows que também agregam. Sim, o Brasil está com excesso de shows, o que é bom por um lado, mas não tanto por outro, já que isso custa dinheiro. Dito isso, eu já imaginava, infelizmente, que teríamos pouco público. Dito e feito. Mesmo assim, uma coisa que quem prestigiou essas três bandas não pode reclamar é de falta de qualidade do que vimos.

Em especial, eu tinha uma certa desconfiança quanto ao Leaves’ Eyes, que ainda não tinha vindo ao Brasil com sua atual formação e, francamente, em se tratando de uma banda que teve Liv Kristine como vocalista é difícil não ficar desconfiado com outra cantora em seu lugar. Substituir uma lenda viva como ela, uma das “fundadoras” desse estilo ‘beauty & beast’ (que mistura suaves vocais femininos com guturais), não é uma tarefa simples, especialmente com fãs que tendem a ser passionais. Quanto às duas outras bandas, não seria novidade o que veríamos, então era aposta quase certa dizer como se sairiam em suas apresentações (claro, sempre pode acontecer de aquele ser um dia em que nada dá certo, mas é exceção, não regra). Vamos ver como foi.

Eu gosto de elogiar pontualidade, mas infelizmente às vezes não é o caso. As portas, de fato, abriram às 17h, horário marcado previamente, o que era um bom sinal. Dado o pouco público, nenhum problema ocorreu no começo e pouco a pouco mais pessoas foram chegando. Pelo que ficamos sabendo, cerca de trezentas ou quatrocentas pessoas eram esperadas – pouco para um evento daquele porte, sinceramente.

O Atrocity, clássica banda de death metal da Alemanha, que data ainda dos anos 90, era prevista para entrar no palco às 18h, mas chegada a hora, nada. Foi apenas cerca de quinze minutos depois que, finalmente, começou. Um atraso pequeno, perfeitamente aceitável, mas um atraso, de toda forma. A performance deles, porém, compensou. Alexander Krull, vocalista e principal compositor, tem uma ótima comunicação com o público e consegue fazer até uma plateia pequena fazer barulho, tanto que muitos que não estavam ali para vê-los se entusiasmarem com seu show. Vieram desfalcados do baixista Andre Nasso, que não pôde vir por motivos de força maior, então tocaram com playback do instrumento. É um ponto negativo, claro, mas ao menos o motivo existe, e às vezes é incontornável, não como algumas bandas que nem sequer têm baixistas, algo que tem ficado um tanto frequente – esperamos, claro, que essa tendência não continue. Destaques ficam por conta de ótimas músicas, como Death by Metal, Necropolis e a excelente saideira, Reich of Phenomena – todas executadas com perfeição. Focaram bastante nos seus três últimos discos, a trilogia dos Okkult, que já chegou a seu terceiro e excelente disco (assim como os outros dois), de 2023, mas não deixaram de passear por sua carreira em dez músicas e cerca de uma hora de show. Teve até roda de bate cabeça, mesmo com pouca gente. Coisas legais dos shows de death metal, não?

Confesso que o Arkona me causou alguma estranheza ao vivo. Eu já esperava uma dinâmica de show diferente, até pela questão cultural – eles são russos e ainda fazem músicas folclóricas, o que deixa claro um certo abismo na forma como se vê o mundo e as manifestações artísticas. Isso não é uma crítica, vale dizer, apenas uma constatação de como diferentes culturas se portam perante diferentes situações e ocasiões; acho isso muito bonito de presenciar. De toda forma, para quem não é acostumado, acaba sendo um pouco estranho.

Pelo ligeiro atraso do Atrocity, o Arkona também foi afetado, e era cerca de 19h20 quando os russos foram ao palco. O som denso, que mistura um black metal com música folk, sempre muito pesado, reflete na atmosfera do show. Além de cantar muito bem, é nítido que a vocalista Masha “Scream” Archipova, o principal nome da banda, encarna a música – se ajoelha, bate cabeça, faz caras e bocas, realmente vivendo as letras das canções (mesmo que dificilmente alguém que estava por lá saiba o que está sendo cantado, já que são todas em russo). É impressionante como seu gutural é consistente e alterna perfeitamente com sua voz natural; muitas vezes, ela faz apenas uma ou duas sílabas em voz limpa, e volta para o gutural como se fosse nada – e vice-versa também –, chega a ser de cair o queixo. Todos os músicos são, na verdade, afiadíssimos e entrosados. Os visuais típicos folclóricos também são bem interessantes.

Mas os elogios também vêm com críticas, neste caso. Apesar da boa performance, a banda não falou um “a” entre as músicas. Comunicação zero – bem, no máximo um “boa noite” no começo e um no fim. Também quase não houve interação entre banda e público durante as canções, exceto algumas palminhas. Pareciam, no fim, apenas robôs no palco tocando músicas como se programados para isso. A introdução do show foi maçante, com mais de cinco minutos de música instrumental sem nada no palco, apenas uma imagem no telão. Chegou um momento do show que eu já estava ficando entediado e em nenhum ponto da apresentação senti qualquer tipo conexão com os músicos. Extremamente mecânico e frio. Talvez isso seja parte do como os russos ajam nesse tipo de evento, mas, sejamos sinceros, é algo muito difícil de assimilar aqui, onde os fãs são considerados dos mais barulhentos e animados do mundo. Mesmo os gritos de “Arkona, Arkona” que algumas pessoas tentaram puxar entre uma música e outra não pareceram surtir qualquer efeito nos músicos no palco, que nem deram bola; nem mesmo quando uma bandeira da Rússia foi jogada no palco. Masha apenas a pegou, levantou rapidamente e devolveu. Igualmente curioso foi não haver nenhum merchandising deles, quando havia boa variedade de itens das outras duas bandas. No fim, apesar da boa performance musical, foi extremamente cansativo, até por focarem mais em seu trabalho “black metal atmosférico” que no folk metal, como . Em defesa deles, creio que, na verdade, eles não falam bem inglês.

Serei honesto: a banda que mais gosto aqui é o Leaves’ Eyes. Talvez eu seja suspeito por isso, mas não dá para negar, foi um grupo que marcou muito minha vida por muito tempo. Criada como um projeto da ex-vocalista do Theatre of Tragedy, Liv Kristine, com seu então marido, o vocalista e compositor Alexander Krull, essa banda multinacional saiu de um gothic metal, por assim dizer, mais atmosférico, para um sinfônico de primeiríssima linha – quando Liv saiu e a atual vocalista Elina Siirala assumiu o microfone, isso foi ainda mais nítido. E, não, a banda não piorou com essa mudança, como muitos dizem por aí. Liv é uma das melhores cantoras do mundo, mas Elina, que é prima de Tuomas Holopainen, do Nightwish, diga-se de passagem, faz bonito!

Com a turnê do último disco, Myths of Fate, de 2024 – em minha humilde opinião, um dos melhores daquele ano –, essa é a primeira vez que vêm ao Brasil com a cantora finlandesa e isso gera desconfiança. Por sorte, tivemos, sim, uma ótima experiência, daquelas de tirar qualquer dúvida.

Quando subiram ao palco, muitos que estavam lá para ver o Arkona podem ter ficado um pouco sem entender: exatamente os mesmos integrantes do Atrocity, com exceção da presença de Elina. A formação pode ser quase a mesma, mas, definitivamente, o som não é igual – e a performance de palco também é bem diferente. Diferente, mas não pior. Focaram seu setlist nos últimos álbuns, gravados pela atual vocalista, mas não faltaram sons clássicos. Se eu precisar destacar, a excelente Hell to the Heavens, clássico do disco Symphonies of the Night, de 2013, foi a que mais animou, e a performance, impecável, assim como em Who Wants to Live Forever (não, não é a do Queen!), e em um de seus maiores clássicos, Farewell Proud Men. Pessoalmente, digo que fiquei muito feliz em ouvir duas canções do primeiro disco com a atual cantora, de 2018, a faixa-título Sign of the Dragonhead e o single que a apresentou, Across the Sea.

E teve um bônus para nós da América Latina: apresentaram, nessa turnê, pela primeira vez, uma nova música com exclusividade, Song of Darkness, de seu próximo EP ainda não lançado. Um privilégio!

Fora a notoriamente competente performance musical – novamente, sem baixista, por problemas já mencionados –, o carisma deles é grande; se comunicam com o público a todo momento, agitam, apresentam as músicas. E, em determinado momento, já no final do show, Krull veio à beira do palco com doses de bebidas alcoólicas (não sei qual, mas algum destilado) e ofereceu para quem estava na frente do palco. Isso, por si só, já os fez ganhar fãs, tenho certeza.

Os poucos presentes no evento podem se orgulhar de ter estado lá! Três ótimas apresentações de três (ou duas e meia?) bandas, com ótima qualidade de som para todas. Digo, novamente, que o Arkona me causou, e provavelmente vai continuar a causar – em mim e em muita gente –, estranheza por sua performance fria e distante. Bem, se é a proposta e a intenção deles, conseguiram! Mas, naquele contexto, acho que ficou um pouco fora. Eu diria também que poderiam ter escolhido uma casa mais condizente para o público, já que o Carioca Club ficou grande demais para a ocasião. De toda forma, quem foi, não tem do que reclamar!

Setlist Atrocity

Desecration of God

Death by Metal

Fire Ignites

Fatal Step

Necropolis

Spell of Blood

Faces from Beyond

Bleeding for Blasphemy

Shadowtaker

Reich of Phenomena

Setlist Arkona

Kob’

Ydi

Na Strazhe Novyh Let

Yav

Khram

Goi, Rode, Goi!

Zakliatie

Zimushka

(nota: alguns dos nomes estão transcritos do alfabeto cirílico para o latino, então pode haver divergências)

Setlist Leaves’ Eyes
Chain of the Golden Horn

Hammer of the Gods

Across the Sea

Serpents and Dragons

Edge of Steel

Who Wants to Live Forever

Sign of the Dragonhead

Song of Darkness

Realm of Dark Waves

My Destiny

Swords in Rock

Hell to the Heavens

Farewell Proud Men

Forged by Fire

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