NITE STINGER: O HARD ROCK VIVE!

Foto: Mazzei

Por Antonio Carlos Monteiro

Junte bourbon, fernet (que é um aperitivo de origem italiana), suco de limão e um xarope de açúcar simples. Essa é a receita do Midnight Stinger, drinque que vem se tornando popular nas casas noturnas. Mais que isso, foi ele que deu origem a uma das bandas mais interessantes do hard rock nacional. Abreviando o nome para Nite Stinger, o grupo surgiu em 2019, soltou seu primeiro disco, autointitulado, dois anos depois e foi sedimentando sua presença e sua importância na cena, dividindo palco com nomes de expressão, como Europe, Hardcore Superstar, Ron Keel, Marco Mendoza, Eclipse e Johnny Gioeli, além de participar da edição de 2024 do Summer Breeze Brasil, hoje Bangers Open Air. Após algumas mudanças na formação, o time passou a ser Jack Fahrer (vocal), Ivan Landgraf (guitarra), Bruno Marx (guitarra), Bento Mello (baixo) e Leandro Araújo (bateria) e agora trabalha na divulgação de seu segundo disco, What the Nite Is All About, que foi lançado pelo selo alemão Pride & Joy Music. Conversamos com Jack e Bento sobre a trajetória da banda e seu momento atual.

 

Pelo que consta, a origem do nome da banda foi um drinque. Contem essa história, por favor.
Bento Mello: A origem é exatamente essa. Estávamos procurando um nome que conectasse a música com a nossa personalidade. E como somos muito amigos e vivemos na noite paulistana, achamos que um bom lugar para procurar o nome seria numa carta de drinques. Mas as primeiras pesquisas não foram muito bem sucedidas. Lembro que o Jack gostou de um nome que era Breakfast Martini, mas não chegamos a cogitar esse. Nessa época, encontrei um amigo que é um dos melhores bartenders de São Paulo, o João Piccolo, que hoje está arrebentando com P’lek Bar, e comentei sobre essa questão do nome. Na hora ele falou que havia muitos nomes de drinques bons para bandas e, de cara, sugeriu Midnight Stinger. Eu adorei, falei pro pessoal e todos gostaram. Então, bem no início da banda chamamos de Midnight Stinger. Mas nesse período tinham duas bandas recentes aparecendo com Midnight no nome, aí decidimos mudar para Nite Stinger. Por incrível que pareça nunca experimentei o drink, mas imagino que seja muito bom.

Jack Fahrer: Eu arrisquei uma versão que ficou incrível, substituindo o xarope de açúcar por maple syrup (aquela calda doce das panquecas americanas) e ficou uma delícia (risos).

A banda passou por algumas mudanças de formação após gravar o primeiro álbum: saíram o guitarrista Roger Benet e o batera Ivan Busic para a entrada de Ivan Landgraf e Leandro Araújo, respectivamente. Por que essas mudanças ocorreram?
Bento: As mudanças ocorreram por questões ligadas a agendas, não tivemos problemas e continuamos grandes amigos. Tanto que o Roger é parte muito importante do novo disco. Fizemos juntos toda a pré-produção, ele participou da composição de algumas músicas e está no disco fazendo o solo de Only You. E aqui em primeira mão, o Leandro está de saída da banda também por questões de agenda pessoal, mas já temos um novo baterista, Gustavo Simplício, que inclusive fez o show na Hard N Heavy Party conosco.

Vocês acreditam que essas mudanças tenham impactado de alguma forma o som da banda?
Bento: Teve um impacto que eu acho que foi positivo porque nos obrigou a simplificar um pouco as composições e também focarmos mais no lado sleaze. Lembro que no meio desse processo eu e Jack conversamos sobre isso, e na hora de compor os riffs eu foquei para o que instrumental soasse um pouco mais ‘sujo’ do que melódico.

O hard rock é um estilo que vem desde o classic rock lá nos anos 70 até dias de hoje, com cada uma dessas fases trazendo elementos próprios ao gênero. Com qual deles o Nite Stinger mais se identifica?
Bento: A gente se identifica mais com os elementos dos anos 80. Gostamos de riffs de guitarra afiados, refrãos grandiosos, peso e melodias.

O disco está saindo pelo selo alemão Pride & Joy Music, mas, pelo menos por enquanto, não teve lançamento no Brasil. Não é algo frustrante uma banda nacional ter um disco lançado aqui com a informação ‘importado’?
Bento: Para nós é um pouco estranho, mas é a forma de a Pride & Joy trabalhar. Sugerimos fazer uma edição nacional, mas eles optaram por ficar com toda a produção e distribuição do CD. Mas é importante dizer que estamos muito felizes por estarmos trabalhando com eles e a atuação do selo tem sido ótima.

 

Vocês contaram com a participação de Stevie Rachelle, vocalista do Tuff, na faixa-título do disco. Por que, dentre tantas opções, escolheram fazer o convite a ele? E que tal foi trabalhar com ele?
Bento: Temos uma longa história com o Stevie. Eu e Bruno Marx tocamos com ele no Tales from the Porn e viramos grandes amigos. Jack se aproximou dele também algum tempo depois. Então, foi bem natural. Não lembro exatamente quem sugeriu a participação dele, mas mandamos a música e ele topou na hora. Ele gravou os vocais lá nos EUA, não acompanhamos a gravação mas ele arrebentou.

Jack: Algo que vale comentar é como as vozes se encaixaram bem. Além da vibe incrível do Stevie, os timbres se complementaram.

Por falar nessa música, ela tem uma pegada bem heavy metal. Essa é outra influência da banda?
Bento: Com certeza! Nosso instrumental tem bastante influência de heavy metal tradicional de bandas como Accept, Judas Priest e Ozzy.

De acordo com as plataformas de streaming, dá pra concluir em que país disco está indo melhor, além do Brasil?
Bento: Eu acompanho os números do Spotify e o resultado tem sido muito bom. Estamos com um ótimo número de ouvintes em pelo menos 10 países, entre eles EUA, Suécia, Alemanha, Reino Unido e Espanha.

Produção, mixagem e masterização ficaram a cargo de Henrique Canalle, do Spektra. Como foi a gravação em si e qual a importância de Canalle nesse processo?
Bento: O Henrique é um grande amigo, já trabalhei com ele diversas vezes e é sempre muito divertido. Afirmo que ele é um dos melhores produtores do mundo para esse estilo. Além de tirar o som, ele conhece muito profundamente o segmento, então as referências que ele traz para os detalhes dão grandeza para as músicas. Fora que o clima no estúdio é sempre leve, ficamos rindo e fazendo piadas o tempo inteiro. É muito bom trabalhar assim.

A banda investe nos refrãos grudentos, como o de Night Is Never Over. Isso é uma preocupação da banda, inclusive pensando em fazer o público cantar junto nos shows?
Jack: Os refrãos que colam na cabeça são bem característicos dos anos que mais nos inspiram. E lógico que é incrível quando cantamos e vemos e ouvimos o público cantando com a gente. Essa energia nos dá uma sensação boa demais. Um bom exemplo foi em um dos reviews sobre nosso novo álbum, em que o host Leigh Spencer, do canal inglês Iridium Rock, faz um quadro chamado ‘Reactions’, e quando chega no segundo refrão, pela primeira vez que ele ouve a música, já está cantando conosco. É uma grande motivação para nós saber que a música tem esse impacto quase que imediato.

A música High Above fala de um encontro entre Jack Fahrer e o saudoso Jani Lane, do Warrant. Como foi esse episódio?
Jack: Em 1997 eu tive a oportunidade e a honra de abrir para um show acústico do Jani com o guitarrista Rick Steier, que também já fez parte do Kingdom Come e do Wild Horses, e com o tecladista Danny Wagner, que tocou no Warrant e com Vince Neil. Acabei subindo no palco e toquei músicas no violão e no baixo com eles. Ao final do show, convidei Jani para ir a uma festa e lá ficamos batendo papo e tocando violão e cantando até as 7 da manhã. Ele me contou passagens incríveis da sua vida, e essa noite foi simplesmente incrível. E essa letra foi inspirada no teor da conversa dessa noite tão especial.

Essa mesma música no Spotify traz o nome de Hugo Mariutti junto ao de vocês. Ele tem participação na gravação ou na composição dessa música?
Bento: O Hugo gravou o solo dessa música. Ele criou o solo, mas a música já estava inteira composta. Tivemos mais participações de guitarristas no disco, como Chris Young (Midnight Danger e Crashdïet) em Fantasy, Leo Gon (Chromeskull) em Highway Bound e, claro, do Roger Benet, que já citei, em Only You.

Muita gente diz que o hard rock é um gênero de difícil aceitação por parte do público brasileiro. Vocês sentem isso ou diriam que é algo que está mudando?
Bento: Eu acho que o hard rock tem sim uma boa aceitação por aqui, basta ver a quantidade de bandas do estilo que vêm para cá e lotam estádios e arenas. O que eu vejo como um problema é que a maior parte do público que frequenta esses shows não se interessa por bandas novas. Não vão atrás e não existe um meio eficaz de divulgação para os grupos do gênero atingirem essas pessoas. Então, no final de tudo, vira um nicho pequeno, mas tudo certo sobre isso. Tenho visto um underground bem fortalecido e com menos barreiras entre estilos, o que é ótimo.

Pela gravação, percebe-se facilmente que o Nite Stinger é uma banda de nível internacional. Vocês veem o exterior como um caminho para a banda? Pretendem se apresentar por lá?
Bento: Com certeza. É o nosso principal objetivo com esse novo trabalho. Estamos agora na fase inicial da divulgação do disco, passando esse primeiro momento vamos analisar as possibilidades.

Como aqui tudo virou motivo para crítica e ‘cancelamento’, vocês já chegaram a ouvir comentários negativos pelo fato de fazerem um som alto astral e com letras que celebram festas e vida noturna num país tão repleto de problemas como o nosso?
Bento: Acho que nunca aconteceu, pelo menos nunca ouvi ou li algo a respeito. Somos uma banda pequena e acho que quem conhece nosso trabalho se diverte com nossas músicas. Nosso principal foco com nossa música é divertir as pessoas. Trazer uma leveza para a vida. Talvez se a banda crescer isso possa incomodar algumas pessoas. O rock no Brasil tem essa característica de ser politizado e é ótimo que ainda surjam bandas como Black Pantera e Project46, que questionam e tocam em questões problemáticas do nosso país. Mas assim como o rock pode ser politizado, pode ser também simplesmente entretenimento e é esse o caminho que queremos seguir.

Jack: E, além disso, o que cantamos é a pura verdade. Exatamente num momento de tantas diferenças e dificuldades que o mundo enfrenta, nós buscamos trazer leveza através da nossa música contando sobre o que fazemos para superar esses momentos, com diversão, amigos saindo juntos, noites longas e aquela vibe que faz a vida ser mais doce.

 

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Foto: Gabriel Torres