Por Antonio Carlos Monteiro
Fotos: Belmilson dos Santos
Todo mundo que curte heavy metal e não esteve em coma profundo nas últimas quatro décadas sabe muito bem o que é o Wacken Open Air. O festival de heavy metal, que começou lá em 1990 com uma plateia de aproximadamente 800 pessoas e com tudo na base do “faça você mesmo”, transformou-se no maior evento mundial do gênero, atraindo anualmente uma multidão de 85 mil pessoas, chegando até mesmo a esgotar os ingressos antes de as atrações serem divulgadas. Quem ja teve oportunidade de comparecer a alguma de suas edições sabe que é uma verdadeira celebração ao rock pesado, com gente de todas as partes do planeta juntos em torno de um dos poucos estilos de música que é capaz de promover algo assim.
Assim, para celebrar os 35 anos do Wacken, foi realizada uma comemoração muito interessante: sob o nome Party on till Wacken, em 35 países diferentes acontecerem shows para celebrar a data, todos eles no dia 18 de abril. E é claro que ao lado de Alemanha, Estados Unidos, Japão, Austrália e tantos outros, o Brasil não poderia estar de fora. Assim, naquele dia a Audio, em São Paulo, recebeu quatro dos mais expressivos nomes do metal nacional para celebrar o Wacken: The Mist, The Troops of Doom, Korzus e Krisiun. A produção ficou por conta dos mesmos produtores do Bangers Open Air, ou seja, garantia de um evento com nível máximo de organização.

Pontualmente no horário previsto, os mineiros do The Mist, liderados pelo lendário vocalista Vladimir Korg, começaram com The Tempest, do EP The Circle of the Crow (2022). Mas, naturalmente, o foco da apresentação foi o excelente The Dark Side of the Soul, lançado ano passado e cujo repertório respondeu por metade do show.
O som que vinha do palco era de ótima qualidade, mas muito alto (algo que não só continuou nas demais bandas, como até conseguiu ficar ainda mais alto!). E o que se viu em cena foi uma banda muito bem entrosada e com um excelente astral: todos sorrindo e interagindo entre si e com a plateia o tempo todo. Mas o destaque é mesmo Korg. É um frontman à moda antiga, sem frases ensaiadas e movimentação marcada. Sempre carregando (ou arrastando ou apontando com ele para o teto) o pedestal do microfone, o cara mantém comunicação constante com seus parceiros (até um beijo na testa do baixista Wesley Ribeiro rolou), anda o tempo todo e manda aquele gutural também old school que só os bons conseguem. Nem podia ser diferente: após dez músicas, Korg, Wesley, Edu Megale (guitarra) e Riccardo Linassi (bateria) se despediram debaixo de aplausos efusivos e ao som mecânico de uma improvável Paint it Black, dos Rolling Stones – que é uma das bandas do coração de Korg.

O som setentista também marcou a abertura do show seguinte. God of Thunder, super clássico do KISS, sempre embala a entrada em cena do The Troops of Doom. De cara, o quarteto, também mineiro, vinha com uma mudança na formação: ao lado de Alex Kafer (vocal e baixo), do lendário Jairo Guedz (guitarra) e de Alexandre Oliveira (bateria), não estava mais o guitarrista e colaborador da ROADIE CREW Marcelo Vasco. Seu substituto será Frank Gosdzik, conhecido pelas passagens por Sodom e Kreator, mas que ainda não se juntou ao grupo. Então, assumiu a outra guitarra Guilherme Costa, da banda multinacional Red Ravyn – e quem não soubesse dessa mudança sequer ia desconfiar que se tratava de alguém convidado tal a desenvoltura e a naturalidade com que Guilherme desenvolveu seu trabalho.

A essa altura, o público, que vinha aumentando desde o início do festival, já tinha atingido um bom número e foi nesse momento também que surgiu a primeira roda da noite.
A despeito de ser o mais novo dentre os grupos que se apresentariam no dia (foi fundado em 2020), o Troops of Doom tem uma respeitável discografia, com dois EPs e dois álbuns completos em seis anos de história. Então, foi possível fazer um belo repertório mesclando músicas de todos esses lançamentos, como The Devil’s Tail (do segundo EP, The Absence of Light, de 2021), Chapels of the Unholy (do segundo full length, A Mass to the Grotesque, de 2024) e Far from Your God (do álbum de estreia, Antichrist Reborn, de 2022), que abriram o show. Mas o quarteto também fez reverência ao passado e espalhou ao longo do set três temas gravados pelo Sepultura na época em que Jairo fazia parte da banda: Bestial Devastation, do aclamado split homônimo, gravado com o Overdose e lançado em 1985, e duas do disco de estreia, Morbid Visions (1986): a faixa-título e, obviamente, Troops of Doom, que fechou o set. Resumindo em poucas palavras: foi uma aula de thrash e death metal old school.

Um curto intervalo e era chagada a hora da atração mais aguardada da noite, Korzus. A banda paulistana que ostenta nada menos que 42 anos de atividades, tinha acabado de anunciar uma renovação na formação, com a entrada de dois novos guitarristas, Jean Patton (ex-Project46 e que já vinha se apresentando com a banda como convidado) e Jessica Falchi (ex-Crypta). O detalhe mais importante reside no fato de ambos serem de uma geração bem mais recente (quando Jessica nasceu, o Korzus já tinha lançado dois discos) e era uma verdadeira incógnita como a banda ia soar. Isso ficou claro logo no início. Com os guitarristas e o baterista Rodrigo Oliveira já em cena e tocando os primeiros acordes, Marcello Pompeu (vocal) e Dick Siebert (baixo), os veteranos da banda, entraram caminhando em cena, um de cada lado do palco. Cena emblemática e que mostrou com clareza que a banda ainda está viva e vendendo saúde.

Com todos em cena, ficou claro que o entrosamento entre os cinco era total. Além de afiadíssimos, os músicos interagiam entre si o tempo todo – parecia que tocavam juntos há anos! Jessica não tirava o sorriso do rosto e girava o cabelão como se não houvesse amanhã – teve até que tirar alguns fios que acabaram sendo arrancados e ficaram presos na guitarra. Em resumo, o que se via no palco eram cinco músicos muito felizes por estarem ali, tocando juntos.

Claro que isso se refletiu na performance. A galera entrou no clima rapidamente e os gritos de “Korzus, Korzus!” tomaram o ambiente várias vezes. Pompeu se mostrou o frontman talentoso de sempre, comandando o público com naturalidade. Lá pelas tantas, chamou Mayara Puertas (Torture Squad) para participar de uma música, mas… nada de ela entrar no palco. Pompeu então anunciou a música seguinte, Vampiro, e na sequência a desaparecida Mayara deu as caras para participar de Discipline of Hate. Mais próximo do fim, o vocalista conseguiu algo quase impossível: fez com que todos na pista se sentassem no chão. Começou então a introdução de Never Die e quando a música cresceu pra valer o que se viu foi algo próximo a uma catarse coletiva. Poucos (pouquíssimos!!) conseguem isso.
O Korzus provou mais uma vez que está mais vivo do que nunca e que o ingresso de Jessica e Jean foi uma decisão mais do que acertada. Agora, vamos ver os caras repetindo a dose no Bangers Open Air.
O fechamento da noite coube a uma banda que é, até certo ponto, injustiçada. Afinal, o Krisiun está na ativa desde 1990, já gravou 11 discos, toca no mundo todo e é, disparado, o principal nome do death metal nacional. Porém, quando se fala nas principais bandas heavy do Brasil só Angra e Sepultura são lembrados. A sorte é que os manos Alex Camargo (vocal e baixo), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) parecem estar pouco se importando com isso. Eles simplesmente sobem no palco e dão o recado.

Lembra que comentei que o som na casa estava alto? Pois bem, na hora do Krisiun estava mais alto ainda! Mas a galera pouco se importou: criou-se uma grande aglomeração na beira do palco e os berros de “Krisiun, Krisiun!” irrompiam a cada intervalo entre as músicas. Além disso, surgiam rodas em profusão ao longo da apresentação. Alex não é de muitas palavras e preferiu priorizar o som às conversas. Mesmo assim, fez questão de citar mais de uma vez a satisfação da banda por tocar em São Paulo.

No repertório, músicas de todas as fases da carreira da banda, desde Black Force Domain (faixa-título do disco de estreia, de 1995), até Necronomical e Serpent Messiah (ambas do trabalho mais recente, Morten Solis, que saiu em 2022). Ainda houve espaço para que Moyses e Max fizessem dois rápidos mas interessantes solos, mostrando (como se fosse preciso) os instrumentistas talentosos que são.

Não eram 22h quando se encerrou o evento, horário ótimo, principalmente para quem depende de transporte coletivo. Foram quatro excelentes bandas, quatro shows do mais alto nível e mais uma vez a prova daquilo que todo mundo sabe (ou, pelo menos, deveria): o heavy metal brasieliro tem representantes do mais alto nível, que não devem absolutamente nada aos maiores nomes internacional do estilo. Foi uma festa que honrou totalmente o Wacken Open Air.

Setlist The Mist
The Tempest
The Curse of Life
Peter Pan Against the World
Over My Dead Body
Name + Number = Namber
The Enemy
The Hangman Tree
The Dark Side of the Soul
Geppetto’s Song
My Inner Monster
Setlist The Troops of Doom
The Devil’s Tail
Chapels of the Unholy
Far from Your God
Bestial Devastation (Sepultura)
The Monarch
The Rise of Heresy
Denied Divinity
Morbid Visions (Sepultura)
The Confessional
Dethroned Messiah
Dawn of Mephisto
Troops of Doom (Sepultura)
Setlist Korzus
Guilty Silence
Truth
Raise Your Soul
Catimba
No Light Within
Agony
Victim of Progress
Vampiro
Discipline of Hate
Never Die
What Are You Looking For
Guerreiros do Metal
Correria

Setlist Krisiun
Kings of Killing
Scourge of the Enthroned
Combustion Inferno
Vicious Wrath
Hatred Inherit
Necronomical
Blood of Lions
Serpent Messiah
Messiah’s Abomination
Descending Abomination
Drum solo
Guitar solo
The Will to Potency
Black Force Domain
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