PUBLIC IMAGE LTD – SÃO PAULO (SP)

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Por Luiz Tosi

Fotos: Belmilson dos Santos

O Public Image Ltd, ou PIL, nunca foi uma continuação dos Sex Pistols. Foi uma ruptura. Formado em 1978 por John Lydon (então conhecido como Johnny Rotten) logo após o colapso da banda que ajudou a definir o punk, o PIL seguiu outro caminho, um “anti-rock” mais experimental, mais cerebral, mais desafiador. Misturando dub, pós-punk, noise e uma boa dose de provocação, construiu uma das discografias mais influentes daquele fim dos anos 70 e início dos 80. No palco, essa proposta segue intacta até hoje. Ao lado de Lydon, a banda atualmente conta com Lu Edmonds (guitarra), Scott Firth (baixo) e Mark Roberts (bateria), um time entrosado, experiente e totalmente alinhado com essa estética mais desconstruída. Não é um show de hits. Não é um show fácil. Mas quem esteve no Cine Joia naquela quarta-feira viu um show simplesmente espetacular.

A casa estava absolutamente lotada, mas talvez o mais interessante fosse o público. Poucas vezes vi uma mistura tão grande de tribos num mesmo lugar. Tinha de tudo: punks, góticos, alternativos, playboys, casais comportados acima dos 60, gente com cara de escritório que parecia ter saído direto do trabalho. Uma verdadeira festa estranha com gente esquisita. E o melhor: todo mundo convivendo bem, na mesma frequência. Não era só mais um show. Era um evento. Afinal, essa apresentação única no Brasil marcou apenas a terceira passagem da banda e o primeiro show do grupo no país em mais de 30 anos.

E teve ainda uma coincidência curiosa – e um tanto mórbida. O dia 8 de abril marcou o aniversário de morte de Malcolm McLaren, o controverso empresário por trás dos Sex Pistols, figura central naquele início de tudo. Um detalhe carregado de um certo simbolismo.

Com pontualidade britânica, às 20h30, os quatro integrantes do Public Image Ltd subiram ao palco sem qualquer introdução. Nada de trilha, nada de efeito. Apenas entraram, cada um tomou seu lugar e começaram a se preparar. Lydon chamou atenção logo de cara por um detalhe inusitado: trouxe uma pasta-fichário com as letras das músicas, apoiada em uma estante à sua frente. Coisa pouco comum para alguém com décadas de estrada. De bom humor, cumprimentou o público e comentou que haviam dormido apenas duas horas na noite anterior.

E aí veio Home. Uma escolha perfeita para abrir. Lenta, densa, quase hipnótica. Não é música que explode, mas que vai te puxando. E ali já ficava claro: quem estava esperando um show direto, com impacto imediato, teria que recalibrar. Know Now veio na sequência mantendo exatamente esse clima. A banda soava extremamente coesa, segura, sem pressa. Tudo muito bem encaixado, sem excessos. É aquele tipo de show que cresce sem você perceber.

Chamou a atenção a variedade de guitarras inusitadas do excelente Lu Edmonds, que até banjo tocou. O baixo de Scott Firth, mais comedido por conta de um tornozelo imobilizado, beira a perfeição. Já o som de bateria de Mark Roberts precisa ser estudado. Um absurdo.

Quando entrou Corporate, o público já estava mais dentro da proposta. Cabeças balançando e gente dançando numa conexão clara – e rara – entre banda e plateia. Com o hit World Destruction, colaboração de Lydon com o pioneiro do hip-hop Afrika Bambaataa, a energia subiu ainda mais, com o público reagindo de forma imediata. Numa segunda coincidência curiosa – e também um tanto mórbida –, Bambaataa faleceu horas após a apresentação, na madrugada de quinta-feira, por complicações de um câncer.

Mas foi em This Is Not a Love Song que veio o ponto de encontro mais evidente entre banda e público, com participação real. Poptones e Death Disco mantiveram o clima mais denso – especialmente a última, que ao vivo ganha um peso emocional maior, quase incômodo, como se a música estivesse sempre prestes a sair do controle. E nunca sai.

Flowers of Romance reforçou esse lado mais experimental da banda, enquanto Warrior trouxe mais corpo e presença, dando uma leve respirada no set. Shoom mergulhou de vez naquele território onde ritmo e repetição criam um transe. Quando Public Image apareceu, o impacto foi inevitável. Não como nostalgia, mas como referência.

Open Up veio mais solta, mais direta, preparando o terreno para Rise, que, como esperado, acabou sendo um dos momentos mais fortes da noite. Aqui, sim, a resposta do público foi mais clara, coletiva e emocional.

Na reta final, Annalisa e o bloco Attack / Chant fecharam o show mantendo a tensão até o último segundo. Sem concessões, sem finais “grandiosos” no sentido tradicional. Apenas coerência até o fim.

No meio disso tudo, Lydon foi exatamente o que sempre foi: imprevisível. Entre comentários irônicos, provocações pontuais e uma postura que oscila entre o desinteresse e o controle absoluto da situação, ele conduz o show no tempo dele, e não no do público.

O Public Image Ltd não é um show para agradar. É um show para quem aceita entrar em um terreno menos óbvio. Menos confortável. Mais desafiador. Num cenário em que tantos artistas vivem de repetir fórmulas, o PIL segue com seu “anti-rock”, fazendo o que sempre fez: indo na direção contrária. E isso, no fim das contas, continua sendo a coisa mais punk possível.

Setlist

Home

Know Now

Corporate

World Destruction

This Is Not a Love Song

Poptones

Death Disco

Flowers of Romance

Warrior

Shoom

Public Image

Open Up

Rise

Annalisa / Attack / Chant

 

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