Por Fernando Queiroz
Fotos: Belmilson Santos
Regozijai, fiel leitor e fã do Moonspell! Finalmente, após uma decepcionantemente curta passagem pelo Brasil em 2023, os portugueses fizeram o que todos desejavam desta vez – já com spoiler do resultado final: um show muito acima da média! Melhor ainda, um show com setlist único, no ótimo ambiente do Carioca Club, participação mais que especial e uma das melhores bandas de abertura que vi em muitos anos – que estou grato por ter conhecido naquela noite. Os comandados de Fernando Ribeiro vieram realmente para provar porque são os mais conceituados no cenário lusitano de heavy metal. Vamos conferir como foi a noite lusófona em São Paulo, que fez parte da turnê de comemoração dos trinta anos do álbum Wolfheart, o primeiro da atração principal da noite.
Tudo acontecia como deveria acontecer, e constatamos isso ao chegar, cerca de meia hora antes da abertura das portas, na frente do Carioca Club. Parecia como esperado: uma pequena quantidade de pessoas na fila, algumas nos bares ao redor e uns aqui e ali conversando em grupos. Só que o que percebi foi um movimento grande de pessoas que iam chegando. Aos poucos, mas chegando, e constantemente, até mesmo antes de as portas abrirem. Quando, pontualmente, liberaram a entrada, isso continuou, e a fila demorou para realmente acabar, pois ia se renovando. Quando finalmente resolvi entrar, faltando poucos minutos para o começo do ato de abertura, vi um considerável aglomerado de gente que ia até mais da metade do salão principal. Aparentemente, estavam curiosos e até mesmo animados pela apresentação que abriria a noite.

Desconhecidos ainda do público brasileiro, os também lusitanos do Sinistro vieram se apresentar pela primeira vez por nossas terras, em turnê de divulgação de seu quarto disco de estúdio, Vértice, lançado em 2024. Não havia sido, porém, o primeiro show deles – nos dois dias anteriores, tocaram em casas menores, também em São Paulo, e quem lá esteve elogiou muito. Pelos comentários que ouvi fiquei com boa expectativa e o que vi as superou. Mostraram um doom/gothic metal denso, lento e arrastado, no melhor sentido de todas essas palavras, com letras em português naquele jeito lusitano que combinou muito bem à sua clara influência de fado. A voz de Priscila da Costa não é agressiva e nem o tradicional lírico, ficando num agradável meio termo. A parte ruim é que vierem sem baixista, usando VS para o instrumento. Por qualquer motivo que tenha sido, é sempre uma falta considerável, mas muitas vezes infelizmente acontece, em especial em viagens internacionais de uma banda pequena. No geral, a impressão foi ótima nos cerca de 45 minutos que tiveram de palco. Tocaram para uma quantidade considerável de pessoas, o que reforça o quanto a banda chamou atenção de quem iria ao show. Que possamos conhecer mais grupos assim de Portugal e apreciá-los ao vivo.

Foi também pontual que a maior banda de heavy metal da história de Portugal subiu ao palco, após três longos anos, para um show de redenção. Da última vez que aqui esteve, o Moonspell dividiu as atenções com o Cynic, e por conta de atrasos por parte dessa banda, fez um show muito mais curto que o que se esperava. O vocalista Fernando Ribeiro mesmo comentou sobre isso brevemente logo no começo da apresentação – sem citar a dita banda, claro. A primeira metade do show foi composta, basicamente, por músicas do álbum que comemorou trinta anos em 2025, e foco central da atual turnê. Exceção fica por Tenebrarum Oratorium (Andamento I), que é do primeiro EP dos portugueses, de 1994.

Logo de começo, já se podia ver o quanto a banda estava preparada, afiada e com vontade de entregar o melhor show possível para os presentes. Tudo era tocado à risca como foi gravado, e os vocais de Fernando eram impecáveis, iguais a como fez três décadas atrás. Boa parte dos integrantes estavam presentes na gravação daquele disco – o tecladista Pedro Paixão, o guitarrista Ricardo Amorim e, claro, Fernando Ribeiro –, então era quase tudo natural para eles, mas mesmo o baixista Aires Pereira e o baterista Hugo Ribeiro (que não é parente de Fernando) faziam seus papéis perfeitamente. A vocalista de apoio para essa turnê, a excelente Eduarda Soeiro, fez muito bonito – aliás, vale dizer que os microfones estavam em excelente sintonia, e em duetos você ouvia claramente cada voz, sem uma sobressair à outra.

Outro ponto a se destacar são a educação e a finesse de Fernando Ribeiro perante o público. Sempre muito cortês, em determinado momento até tirou aplausos ao chamar os brasileiros de “povo trabalhador”, dentre outros elogios muito acima do que se espera; não eram elogios a como somos barulhentos ou como animamos, mas a nosso caráter, nossa cultura, à nossa forma de ser. Sempre, claro, em um português com sotaque, mas perfeitamente compreensível e cordial. Foi nesses discursos que, antes de tocarem um de seus maiores clássicos, e que fecha o álbum comemorado, o cantor, citando muitas bandas brasileiras que muitos ali sequer conheciam, chamou ao palco um de seus “mestres”: ninguém menos que Jairo Guedz, guitarrista original do Sepultura, e hoje do Troops of Doom. Nosso compatriota tocou com os patrícios a fantástica Alma Mater. Um momento, sem exageros, histórico! E em outra homenagem a nós, tocaram sua versão de Lanterna dos Afogados, originalmente gravada pelos Paralamas do Sucesso.

Dali em diante foi aquele mix de clássicos sortidos. Foram boas escolhas, no geral, com destaques para Opium, Extinct, e outro de seus grandes hits, esse da fase mais “gótica” da banda, Scorpion Flower, em que Eduarda fez muito bem as partes originalmente interpretadas por Anneke Van Giersbergen. Pessoalmente, achei que ficou faltando alguma canção do disco Memorial, de 2006 – teria sido incrível se tivessem tocado Finisterra, ou Luna; fica para uma próxima, não prejudicou em nada! A saideira ficou por conta de Full Moon Madness, também ótima escolha.

A redenção do Moonspell estava completa, e a alma (mater – risos) lavada! Foi com maestria, finesse, pontualidade, uma performance irretocável e uma das melhores bandas de abertura possíveis que a banda fez suas duas horas de show, mostrando porque são os grandes nomes do metal lusitano de todos os tempos até agora. Em um fim de semana com inúmeros shows, até mesmo de gêneros parecidos, o Moonspell conseguiu trazer um excelente e numeroso público ao Carioca Club, e se sobressair em qualquer aspecto. Daqueles shows impossíveis de se criticar.

Setlist
Wolfshade (A Werewolf Masquerade)
Love Crimes
… Of Dream and Drama (Midnight Ride)
Tenebrarum Oratorium (Andamento I)
Lua d’Inverno
Trebaruna
Ataegina
Vampiria
An Erotic Alchemy
Alma Mater
Lanterna dos Afogados
Opium
Awake!
In Tremor Dei
Extinct
Scorpion Flower
Everything Invaded
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