
Por Fernando Queiroz
Fotos: Daniel Agapito (Sonoridade Underground)
Quando vi o Katatonia ao vivo pela primeira vez, há alguns anos, não imaginava sua popularidade: tinham vindo fazia pouco tempo, e mesmo assim encheram o Carioca Club. Desta vez, o local escolhido foi outro, o belíssimo Cine Joia. Novamente, provaram que são uma das bandas de doom metal mais populares do planeta e lotaram a casa. Agora com nova e completa formação – com os guitarristas Nico Elgstrand e Sebastian Svalland no time –, os comandados de Jonas Renkse vieram divulgando seu mais recente trabalho, Nightmares as Extensions of the Waking State, de 2025, que foi relativamente bem recebido pela maior parte dos fãs – embora dificilmente seja colocado entre os melhores por qualquer um.
Criticadas por diferentes motivos, as duas apresentações anteriores não foram unanimidade – em especial a penúltima, em 2023 –, então esta tinha a missão de recuperar isso. Conseguiram? Sim, mas com ressalvas. Vamos ver agora.
Impressionante era a fila já uma hora antes do show – dava realmente uma volta, indo da porta do Cine Joia até o fim da rua, e então dobrando de volta. Muitos que iam chegando preferiam ficar sentados na mureta do outro lado da rua para esperar as pessoas irem entrando, e então também entrarem. Em grande parte dos shows, fazem isso sentados em bares ao redor, mas ali não há nenhum; o jeito era comprar latas de cerveja de ambulantes em frente. Sem atraso, as portas abriram e logo a fila foi andando com tranquilidade. Muitos, porém, preferiram ficar do lado de fora por mais algum tempo, já que banda de abertura nunca é unanimidade e, pior ainda, quando ela é uma totalmente fora da proposta do artista principal da noite – um erro que muitas produtoras cometem, e que em boa parte das vezes, é preciso dizer, prejudica o próprio artista da abertura. Acomodados quase todos, era hora de começar.

O inusitado ato de abertura ficou a cargo da banda da guitarrista Jéssica di Falchi, chamada apenas de Falchi. É verdade que indubitavelmente aquele é um som muito bem feito, elegante, algo que músicos na hora reconhecerão como algo de se tirar o chapéu. Mas há um porém: é música instrumental. Não, não é aquele trabalho solo de guitarrista que fica “fritando”, mostrando habilidades e debulhando. São realmente músicas com melodias e harmonias acessíveis, mas o problema era o ambiente. Ela estava abrindo para uma banda de doom metal, com a vibe depressiva, algo cuja atmosfera da música é algo muito diferente do proposto por Jéssica. Sua apresentação foi curta, cerca de trinta minutos, e seu EP tem apenas quatro faixas. Para completar o set, incluíram um cover de Metallica, The Call of Ktulu, música instrumental presente em Ride the Lightning. No fim das contas, o show foi muito bom. Não agradou nem desagradou, foi apenas “estranho” para a maior parte das pessoas ali (embora, sim, havia alguns depois comprando o merch dela, prova que conquistaram alguns presentes, e isso é sinônimo de sucesso). Houve muitos elogios à performance dos músicos, mas também muitos comentários de que estavam no lugar errado e na hora errada.

Também quase pontualmente, e com casa quase lotada, o Katatonia encarou seu público no último show da turnê latino-americana num dos ambientes mais propícios ao tipo de show deles. O Cine Joia é um ambiente em formato oval, com arquitetura interna elegante e deveras escuro – some isso ao fato de a banda ter também a proposta de tocar sob certa escuridão, o que caiu como uma luva, apesar de nossos colegas fotógrafos não gostarem nada. Vieram, pela primeira vez em bastante tempo, com formação completa, já que em anos anteriores houve membros faltando ou substituídos por convidados.

Por ser o disco mais recente, Nightmares as Extensions of the Waking State foi o mais contemplado no show. Embora compreensível, já que é uma turnê de divulgação dele, não dá para dizer que ele está entre os preferidos da maior parte dos fãs. Abriram, como era de se esperar, com Thrice, também abertura daquele álbum, mas não ficaram presos a ele no começo. Soil’s Song, de The Great Cold Distance, seguiu, para aí voltarem ao último com The Liquid Eye. A própria seleção do repertório, por si, não foi das piores, mas já esteve muito superior em apresentações anteriores – a performance, porém, era melhor.

A ordem das canções foi um pouco abaixo. As intercalações entre as mais pesadas e as mais lentas não caiu muito bem. Quando tocavam clássicos, era o momento de “alegria” (ou tristeza, dado o teor das músicas) do público, como com Leaders, Leathen e Old Heart Falls. Os integrantes pareciam bem à vontade no palco e muito bem entrosados; batiam cabeça e giravam os cabelos até em algumas faixas não tão pesadas. Estavam contentes. Jonas Renkse que parecia cansado, apenas andava um pouco pelo palco, e falava com o público de vez em quando. Sua voz também estava muito baixa, tanto cantando quanto falando. Era o último show de uma longa turnê, então dá para entender. No geral, não difere muito do que sempre apresentam em termos de harmonia entre banda e público – quer dizer que, nesse caso, quem já viu sabe que é realmente um pouco morno, e se você espera um show mais “conectado” com os músicos, não é isso que se tem. Foi muito legal ver como o single Wind of no Change com seu ‘hail satan’ pegou com os fãs. Mas, de fato, essa foi a única que realmente se destacou do disco de 2025.

A saideira depois do bis, os agradecimentos de Jonas e a apresentação da banda, com Forsaker, embora uma música muito querida, deixou um ar de que faltava algo. Sob gritos de “Katatonia, Katatonia”, a banda saiu definitivamente do palco sem tocar sua música mais popular, aquela que os fez explodir em popularidade e a mais querida dos fãs, My Twin. Tão conhecida é essa música, que até quem não é tão chegado na banda a conhece, então não fez sentido deixá-la de fora, assim como outras que poderiam ter sido trocadas por canções mais populares. Parece que eles têm algo com seu passado mais distante, e tentam substituí-lo pelo novo.

Definitivamente, foi uma boa apresentação, um show que entregou uma performance como não se via deles há tempos por aqui. Se ao menos tivessem caprichado mais no repertório, poderia ter sido uma daquelas noites inesquecíveis. Não foi o caso, será daqueles que ficará marcado como um bom show, mas não icônico. De toda forma, valeu ter presenciado! Estética e tematicamente, é uma banda que entrega uma experiência singular, e nisso não decepciona. Se é depressão, por assim dizer, que você quer, é isso que você tem, e se você está lá, provavelmente realmente é isso mesmo que espera.

Setlist
Thrice
Soil’s Song
The Liquid Eye
Austerity
Rein
Leaders
Dead Letters
Nephilim
Wind of No Change
The Longest Year
Old Heart Falls
July
Lethean
No Beacon to Illuminate Our Fall
In the Event Of
Forsaker

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