Por Marcelo Gomes
Fotos: Roberto Sant’Anna
O projeto Call The Police, liderado pelo lendário guitarrista Andy Summers, ex-The Police, lotou o The Cavern Club São Paulo por três datas consecutivas, todas esgotadas com antecedência. Tivemos a sorte de testemunhar a última apresentação, no dia 7, e o que rolou no palco foi uma homenagem vibrante ao legado da banda britânica, misturando nostalgia com uma energia à brasileira. Para os fãs que lotaram o local, essa foi mais uma noite para poder reviver aqueles clássicos dos anos 80. Vale lembrar que o The Police nunca se apresentou em São Paulo, embora tenha tocado no Rio de Janeiro em 1982 e 2007.

A formação do Call The Police é um sonho para qualquer admirador do rock. Ao lado de Andy Summers na guitarra, tínhamos João Barone, a lenda da bateria dos Paralamas do Sucesso, trazendo sua precisão rítmica e aquela pegada inconfundível, reproduzindo a complexidade rítmica de Stewart Copeland com uma fidelidade impressionante. Mas quem realmente roubou a cena foi Rodrigo Santos. Não apenas seu timbre vocal se assemelha de forma assombrosa ao de Sting, como sua presença de palco e até mesmo sua semelhança física contribuíram para uma ilusão quase perfeita, fazendo com que muitos fechassem os olhos e jurassem estar diante do próprio Sting.

A abertura com Driven to Tears já deixou claro que o show não seria um mero tributo; a magia do trio era evidente. A guitarra de Summers continua cheia de personalidade, com aqueles acordes cheios de textura que definiram o som do Police, e Rodrigo e Barone pareciam ter incorporado os ex-colegas de Summers. Aliás, o guitarrista foi logo ao microfone e fez questão de elogiar os músicos brasileiros antes de emendar a sensacional Synchronicity II. O Cavern Club, com sua atmosfera intimista inspirada no original de Liverpool, ampliava a sensação de proximidade: você podia ver o suor nos rostos dos músicos e sentir a vibração das cordas. Rodrigo não economizou nos vocais e embarcou todo mundo numa bela viagem.

Era um hit atrás do outro e Spirits in the Material World veio para provar isso. Ganhou um solo no meio, arrancou aplausos e Andy se empolgou. Tocou um acorde fora de tom, mas, sinceramente: quem liga? Aliás, quem percebeu? Provavelmente, ninguém. Ver essa lenda tão de perto, com seus 83 anos, bem e feliz, é o que vale. No entanto, a casa veio abaixo mesmo com Walking on the Moon e a pegajosa De Do Do Do, De Da Da Da. Os paulistanos cantaram alto e mostraram a que vieram. Para quem não conhece a casa, o público fica sentado, o que pode deixar o pessoal mais contido.

Já Invisible Sun e Tea in the Sahara trouxeram um clima mais introspectivo, permitindo que a genialidade instrumental do trio brilhasse ainda mais, enquanto a voz de Rodrigo Santos navegava pelas belas melodias das canções. Um dos pontos altos foram os clássicos: Can’t Stand Losing You incendiou o público, enquanto em Roxanne Rodrigo interpretou o desespero romântico de Sting com uma performance visceral. E o que dizer de So Lonely? O vocalista chegou a trocar um verso por “welcome to the Andy Summers show”, tirando um sorriso do compenetrado guitarrista. O clima era total de festa e parceria.

E então vieram os mega hits: a balada atemporal Every Breath You Take, que transformou o The Cavern Club em um grande karaokê, e o encerramento dessa parte do set com a espetacular Message in a Bottle, deixando os fãs extasiados e clamando por mais. O encore ainda guardava dois presentes. Next to You trouxe de volta a energia punk dos primórdios do The Police e Every Little Thing She Does Is Magic encerrou a noite em tom festivo.

Diante do sucesso das três noites, o Call The Police deixou São Paulo maravilhada com sua performance. A apresentação não se tratou apenas de revisitar um repertório clássico, mas de mantê-lo vivo no palco. Andy Summers mostrou que seu estilo continua único e cheio de personalidade, enquanto João Barone e Rodrigo Santos deram ao projeto uma identidade própria, sem jamais perder o respeito pelas versões originais. O resultado foi uma apresentação carregada de emoção, nostalgia e cumplicidade entre músicos e público. Ver um dos arquitetos do som do The Police tocando de perto, em um clube intimista, cercado por músicos brasileiros de alto nível foi uma oportunidade de celebrar canções que continuam atravessando décadas sem perder relevância.

Setlist
Driven to Tears
Synchronicity II
Spirits in the Material World
Walking on the Moon
De Do Do Do, De Da Da Da
Invisible Sun
Tea in the Sahara
Can’t Stand Losing You
Roxanne
So Lonely
Every Breath You Take
Message in a Bottle
Next to You
Every Little Thing She Does Is Magic

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