ALL METAL STARS – CAMPINAS (SP)

Por Antonio Carlos Monteiro

Fotos: Cristina Mochetti

Mesmo para nós que estamos calejados de tanto escrever sobre essa maravilha chamada rock faltam palavras para definir a falta que faz alguém como Andre Matos – sem dúvida alguma, ele não foi apenas um grande cantor de heavy metal, mas um dos maiores vocalistas da história do rock. E o projeto All Metal Stars deixa isso bem claro ao fazer um apanhado da obra de Andre, vindo desde o Viper até sua carreira solo, passando por Angra e Shaman, duas das grandes bandas que integrou.

A turnê passou por 16 cidades em três regiões do país e no dia 12 de março a escolhida foi Campinas, no interior de São Paulo. A casa em que aconteceu a apresentação, Brasuca, é digna de elogios. Porte médio, sem grandes frescuras, mas aconchegante, estacionamento fácil (e a preço justo, o que é raríssimo), equipe atenciosa e bom som. Condições perfeitas para uma noitada que se mostrou também perfeita.

A tour teve duas bandas convidadas e a abertura coube aos goianos do Krakkenspit e seu groove metal bem sacado. A banda de cara mostrou sagacidade ao não se estender em muitas conversas com a plateia, priorizando o que importa, que é o som. Mais que isso, tanto o Krakkenspit como a banda que viria a seguir, Phornax, provaram que o Brasil atingiu um nivel de absoluta excelência em relação à qualidade dos instrumentistas e vocalistas que produz. Márcio Cruvinel (vocal), Aldo Guilherme (guitarra), Julian Stella (baixo) e Bruno Dias (bateria) obviamente priorizaram o material de seu primeiro e recém-lançado full-length, Tides of Armageddon (apenas uma das faixas não fazia parte do álbum) e saiu de cena sob aplausos entusiasmados da ainda pequena plateia.

Em seguida, foi a vez dos gaúchos do Phornax, que tem como grande atração o guitarrista Eduardo Martinez, que durante muitos anos integrou o Hangar, banda de Aquiles Priester. Depois de alguns anos afastado da cena e agora adepto das guitarras de sete cordas, Martinez acaba sendo a atração num ótimo grupo por conta de sua presença de palco marcante e sua excelência nas seis (oops, sete…) cordas. Ele, Cristiano Poschi (vocal), Deivid Moraes (guitarra), Sfinge Lima (baixo) e Maricio Dariva (bateria) investem num heavy com muitos toques de thrash e uma sonoridade bem moderna, como ficou claro no set baseado no EP Silent War. A exemplo do Krakkenspit, o quinteto deixou o palco debaixo de aplausos.

Cabe registrar a organização da tour, que fez com que os grupos de abertura cumprissem rigorosamente os horários anunciaods. Ponto pras bandas e pra produção. E quando surgiu a informação de que a atração sofreria algum atraso (e todos já se preparavam para o pior), essa demora foi de apenas 10 minutos. De fato, o profissionalismo chegou de vez no heavy metal nacional. Que tenha vindo para ficar.

Explicando para quem talvez não saiba: All Metal Stars é uma banda formada exatamente por isso, estrelas do nosso metal: Thiago Bianchi (vocal), Edu Ardanuy (guitarra) e Aquiles Priester (bateria) comandam as ações, contando com o preciosíssimo auxílio de Fabio Laguna (teclado e backing vocal), que tem vasto currículo acompanhando o Angra, e Guilherme Torres (guitarra) e Saulo Xacol (baixo e backing vocals), ambos da banda Noturnall, de Bianchi, o que se mostrou uma escolha acertadíssima. Xacol é figura conhecida no rock nacional e Torres é um dos melhores guitarristas da nova geração.

O início foi pra mostrar que ninguém estava ali pra brincadeira: Carry On, uma das músicas mais marcantes da história do Angra e uma das mais difíceis de executar por conta de sua tonalidade lá nas alturas. E aí ficou claro que Thiago era a pessoa certa para a missão de homenagear Andre atrás de um microfone, já que sua execução honrou o maestro. A partir daí começou um desfile daquelas obras lindíssimas que Andre deixou registradas, como Time, Here I Am e a longa e complexa Carolina IV. A essa altura já tínhamos visto duas coisas: primeiro, supreendendo um total exato de zero pessoas, Aquiles continua sendo uma verdadeira máquina de tocar bateria. Além da precisão, do volume e da técnica exuberante, ele consegue fazer isso tudo sem soar mecânico, colocando muito feeling na execução. Além disso, estávamos presenciando algo que muitos tinham curiosidade de ver: como se sairia Edu Ardanuy executando as obras escritas e interpretadas por Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt? Pois ele surpreendeu o mesmo número de pessoas que Aquiles: Edu e guitarra parecem ser uma coisa só tal a naturalidade com que linhas intrincadíssimas fluem de seu instrumento. Ele consguiu o proeza de respeitar as frases escritas por Kiko e Rafael, além de colocar sua própria identidade nelas. Só um músico muito excepcional conseguiria isso. Edu é um deles.

O convidado mais que especial da noite foi chamado para participar de cinco músicas: Dani Matos, vocalista, baixista e irmão de Andre. Para quem não sabe ou não lembra, ele integrou nos anos 90 o Henceforth, que a galera passou a chamar de “banda dos irmãos”, já que comtava com Dani nos vocais e Hugo Mariutti, irmao de Luis Mariurtti, na guitarra. E ele mostrou que continua em forma. Após Wuthering Heights, outra daquelas que poucos conseguem cantar e que Thiago deu conta com tranquilidade, Dani assumiu o microfone para cantar um dos principais temas do Viper, Living for the Night. Sua voz não é semelhante à de Andre, mas sua interpretação foi irretocável em todos os aspectos.

A essa altura, a galera, já bem numerosa, participava ativamente de todas as músicas, comandada por um incansável Thiago Bianchi. Mais duas do Angra, Stand Away e Make Believe, e aquele se se tornou o maior sucesso do Shaman, Fairy Tale, vieram na sequência. Xacol voltou ao baixo e mais dois convidados foram chamados: dando um merecido descanso a Bianchi, Gui Antonioli, vocalista do Tierramystica, participou de Letting Go e Cristiano Poschi, do Phornax, cantou Lisbon – ambos foram corretíssimos, mas Lisbon é uma música que tem muito mais a ver com a voz de Bianchi.

Ainda teve espaço para algo que não é comum acontecer mas que foi bastante interessante: Thiago abriu mão de apresentar a banda, o que foi feito por Aquiles. Com aquele humor às vezes ácido que lhe é peculiar, Aquiles transformou o momento quase em um stand-up comedy.

For Tomorrow foi a última antes daquele finalzinho fake que não engana mais ninguém. O bis teve mais dois clássicos do Angra, Nothing to Say e Angels Cry, daquelas feitas pra todo mundo cantar junto – e foi justamente isso que aconteceu.

Foi uma noitada pra sair da casa de shows de alma lavada. Ótimo astral, excelentes bandas de abertura e um show/homenagem que fez total justiça a um dos maiores músicos que já pisou neste planeta e cuja obra merece sempre ser celebrada. Onde estiver, Andre Matos certamente se sentiu muito bem homenageado naquela noite.

Set list Krakkenspit

Tides of Armageddon

I’m Falling

They Won’t

Love Forever Dead

Fear My Name

Get Your Feet Off

Long Wild Roads

 

Setlist Phornaz

Hell’s Paradire

Dare Destruction

Final Beat

A Matter of Time

Silent War

A Ghost from the Past

Between Fear and Hope

 

Setlist All Metal Stars

Unfinished Allegro

Carry On

Here I Am

Carolina IV

Time

Wuthering Heights (com Dani Matos)

Living for the Night (com Dani Matos)

Stand Away (com Dani Matos)

Make Believe (com Dani Matos)

Fairy Tale (com Dani Matos)

Letting Go (com Gui Antonioli, do Tierramystica)

Lisbon (com Cristiano Poschi, do Phornax)

For Tomorrow

 

Bis

Crossing

Nothing to Say

Angels Cry

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