VOLA – SÃO PAULO (SP)

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Por Guilherme Gois

Fotos: Daniel Agapito

Reconhecida como uma das bandas mais criativas do metal moderno, o VOLA possui uma sonoridade difícil de rotular, mas extremamente cativante e capaz de dialogar com diferentes públicos. Formado em 2006, na capital dinamarquesa Copenhague, o grupo enfrentou ao longo dos anos diversas dificuldades e mudanças de formação. Ainda assim, conseguiu desenvolver um estilo próprio que combina elementos de metal progressivo, djent, rock alternativo e música eletrônica.

Com os álbuns Inmazes (2015) e Applause of a Distant Crowd (2018), a banda começou a consolidar seu espaço na cena e passou a excursionar ao lado de nomes importantes do metal mundial, como Katatonia, Dream Theater, Anathema e Haken. No entanto, foi com o excelente Witness (2021) que o quarteto alcançou repercussão significativa. Considerado por muitos como um dos trabalhos mais relevantes da nova geração do metal progressivo, o disco combina peso e melodias com passagens eletrônicas sofisticadas, chegando ao top 10 da parada de discos de rock do Reino Unido e figurando em rankings de diversos países europeus, como Alemanha, Finlândia e Suíça, impulsionando uma extensa turnê mundial que incluiu datas na América Latina.

Quase quatro anos após sua estreia em São Paulo, a banda retornou à cidade em 11 de março para uma apresentação no Hangar 110, tradicional reduto do punk rock paulistano que, recentemente, também tem aberto espaço para apresentações voltadas ao público do metal. O show fez parte da turnê de divulgação do álbum Friend of a Phantom, lançado em 2024.

Apesar de acontecer em plena noite de dia útil, a casa de espetáculos estava completamente lotada, em um nível de ocupação que tornava a circulação difícil e praticamente anulava o efeito do sistema de ar-condicionado. A situação chamou atenção, especialmente quando comparada à passagem anterior da banda pela cidade: quando o VOLA se apresentou na Fabrique Club, em 2022, o público sequer ocupou um terço do local. O contraste evidencia o crescimento da popularidade do grupo na capital paulista,  algo que certamente foi impulsionado pela boa repercussão de seu material mais recente.

Pontualmente às 21h, uma introdução sonora ecoou pelos alto-falantes, anunciando a chegada da banda. Um a um, Asger Mygind (vocal e guitarra), Nicolai Mogensen (baixo), Martin Werner (teclados) e Adam Janzi (bateria) tomaram seus lugares no palco e deram início ao set com I Don’t Know How We Got Here, faixa presente no último trabalho, Friend of a Phantom. A música, marcada por uma atmosfera lenta, foi recebida com entusiasmo, com os fãs cantando alto e demonstrando estar bem familiarizados com o material. Neste momento inicial, também chamou atenção o cuidado da banda com a produção visual. O grupo trouxe um conjunto próprio de tubos de LED para compor o cenário, adicionando uma camada estética sofisticada à apresentação.

Na sequência, veio We Will Not Disband, outra do novo álbum, sustentada por uma base de guitarra explosiva e uma linha de baixo marcante, que em diversos momentos se destacava sobre os demais instrumentos. Aqui, os LEDs contribuíram para enriquecer a experiência visual, iluminando o pequeno espaço do Hangar com efeitos que normalmente apenas são encontrados em casas de maior porte.

Após a dobradinha focada no último lançamento, Asger fez um breve comentário agradecendo a recepção da galera com o novo disco, mas destacou que o grupo revisitaria canções de trabalhos anteriores. Assim, a banda mergulhou em Witness (2021) com Stone Leader Falling Down, trazendo uma sonoridade mais pesada e uma bateria repleta de viradas complexas. Em seguida, These Black Claws, também do aclamado disco, começou com um curioso beat de hip hop, mas rapidamente evoluiu para um híbrido de metal moderno, com baixo estridente, batidas agressivas e camadas eletrônicas. Nesse momento, entrou também um playback com a participação do rapper SHAHMEN, presente na versão de estúdio da faixa, reforçando a versatilidade do grupo ao transitar entre diferentes linguagens musicais.

Voltando ainda mais na discografia, Ruby Pool, de Applause of a Distant Crowd (2018), trouxe uma belíssima introdução ao piano, seguida por linhas de baixo precisas executadas por Nicolai e um caprichado solo de guitarra de Asger, que arrancou aplausos da plateia. A iluminação também encantou nesse momento, com os LEDs tingindo o ambiente em tons roxos e vermelhos enquanto uma densa camada de fumaça tomava conta do palco. Ainda explorando o segundo álbum, Alien Shivers começou com riffs marcados por breakdowns e uma bateria agressiva, mas logo desacelerou para uma atmosfera mais cadenciada. O refrão acabou se tornando um dos momentos mais participativos da noite, com o público cantando em coro. Ao final da música, o frontman agradeceu a recepção calorosa, sendo imediatamente respondido por um animado coro “olê, olê, olê, olá, Vola, Vola!”

 

Aproveitando o clima de empolgação da galera, Asger comentou brevemente sobre um episódio delicado que marcou a trajetória recente da banda. No final de 2025, o galpão onde o grupo armazenava seus instrumentos e equipamentos foi atingido por um incêndio, causando perdas significativas. O vocalista destacou como o apoio recebido de fãs ao redor do mundo foi fundamental para que o VOLA conseguisse superar o momento difícil e seguir em frente. Encerrado o breve discurso, o repertório retomou o peso com Your Mind Is a Helpless Dreamer, do álbum Inmazes (2015), faixa marcada por forte presença da sonoridade djent. Em seguida, veio Head Mounted Sideways, que também exibiu breakdowns pesados e um interessante efeito vocal que simula vozes alienígenas – algo parecido com o que Paul Masvidal realiza no Cynic. Curiosamente, mesmo diante do peso agressivo dessas músicas, o público optou por uma postura mais contemplativa: em vez de mosh pits, a plateia permaneceu atenta à execução técnica dos músicos, acompanhando cada passagem com atenção. Mantendo a intensidade, a banda apresentou Cannibal, provavelmente a faixa mais pesada do novo disco. A execução contou com a participação especial do músico brasileiro Marcos Hunger nos guturais, e foi acompanhada por uma explosão de luzes que transformou o pequeno clube underground em algo próximo da atmosfera de um grande espetáculo de arena.

Já na reta final da apresentação, o grupo deixou um pouco de lado o peso e apostou em composições mais acessíveis. A sequência começou com 24 Light-Years, música de atmosfera mais pop e repleta de passagens eletrônicas. Nesse momento aconteceu uma das maiores interações entre banda e plateia: Asger Mygind deixou que o público assumisse o refrão, criando um coro poderoso que ecoou pelo clube. Na sequência vieram Applause of a Distant Crowd, Stray the Skies e Inside Your Fur, mantendo o clima mais melódico do set. Antes da última música do repertório principal, o vocalista perguntou quantas pessoas já haviam assistido ao VOLA ao vivo e quantas estavam vendo a banda pela primeira vez. O repertório regular foi encerrado com Bleed it Out, em um momento visualmente marcante: todo o cenário foi iluminado por luzes vermelhas, criando uma atmosfera densa que combinou perfeitamente com a intensidade da música.

Após uma breve pausa, os músicos retornaram ao palco para um pequeno bis, iniciado com Tray. Em seguida, Asger anunciou a última música da noite, dizendo que a banda pretendia gastar ali toda a energia restante e que gostaria de ver o público fazendo o mesmo. Foi então que Straight Lines tomou conta do ambiente, encerrando a apresentação com ânimo total.

O VOLA é, sem dúvida, um dos nomes mais relevantes do metal contemporâneo. Com uma sonoridade refinada e com um show absurdamente profissional, o quarteto dinamarquês consegue transformar até mesmo um clube relativamente pequeno em um espetáculo de proporções gigantescas, entregando ao público a sensação de estar diante de um show com dimensões de arena.

 

Setlist

I Don’t Know How We Got Here

We Will Not Disband

Stone Leader Falling Down

These Black Claws

Ruby Pool

Alien Shivers

Your Mind Is a Helpless Dreamer

Head Mounted Sideways

Cannibal

24 Light-Years

Applause of a Distant Crowd

Stray the Skies

Inside Your Fur

Bleed Out

 

Bis

Tray

Straight Lines

 

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