Por Fernando Queiroz
Quando falamos em doom metal, provavelmente um dos primeiros – se não o primeiro – nomes que nos vêm à mente é o Candlemass, da Suécia. Outro nome importante do gênero é a banda americana Solitude Aeturnus. O elo entre ambas? Robert Lowe! Com sua primeira passagem pelo Brasil em abril de 2026, com datas no Rio de Janeiro, Sorocaba e São Paulo sob a alcunha de Disciple of Doom, uma parte da história do gênero chega a nós acompanhado de grandes músicos locais. O vocalista, que participou de três discos da banda sueca entre 2007 e 2012 e desde os anos 80 no conjunto de doom dos Estados Unidos, concedeu entrevista à ROADIE CREW. Na conversa, Robert detalha o que esperar dos shows, sua história no metal, as influências e planos para o futuro de sua carreira – tanto como Disciple of Doom, quanto com o Solitude Aeturnus, que oficialmente está de volta à ativa.

Muitos conhecem seu trabalho com o Candlemass e com o Solitude Aeturnus, mas não estão familiarizados com o projeto Disciple of Doom. Nas suas palavras, como você descreveria o projeto para alguém que não o conhece?
Robert Lowe: Até onde eu levaria isso seria dizer que, sabe, com amigos brasileiros, América do Sul e por aí vai. Se você está nessa cena, o que eu quero trazer para isso é que a gente faça algo pesado. Que seja bom para as pessoas que apreciam certas coisas, seja Cathedral, Pentagram, Trouble e por aí vai. Quero dizer, precisa ser a verdadeira definição de uma boa noite.
Como é a primeira vez do projeto no Brasil, quais álbuns você acha que vai abordar mais nesses shows?
Robert: Essa foi uma das coisas em que eu estava pensando, e pensei bastante sobre isso. Obviamente, eu quero trazer aquilo que as pessoas esperam e talvez queiram ouvir, porque todos fazemos isso quando vamos a um show, certo? Você vai ver o Maiden e quer ouvir Run to the Hills; você vai ver o Judas Priest e quer ouvir Hell Bent for Leather, certo? Então, com tudo isso em mente, eu quero trazer os clássicos. Mas também vou incluir algumas outras coisas que talvez não tenham sido tocadas. Para mim, algumas dessas músicas que nunca tocamos vocês vão reconhecer, mas vão pensar: ‘Caramba, eles nunca tocaram essa ao vivo!’
Você pensa na possibilidade de ir para frente com esse nome e transformar em uma banda permanente, como uma carreira solo sua, da sua ‘persona’?
Robert: Sim, eu gostaria muito. Quer dizer, dá para ver o que está pendurado aqui atrás (N.R.: uma guitarra Les Paul). Seria ótimo fazer isso, expandir o que já fiz com Solitude e Candlemass. É importante para mim manter essa vibe, esse gênero vivo. Isso vai ser a única coisa que eu vou fazer na vida? Eu não sei. Mas quero continuar fazendo esse tipo de coisa. A gente chama de projeto, mas para mim não é isso. É um modo de vida. É um sentimento. É algo que eu, pessoalmente, tenho dentro de mim todos os dias.
Assim como o Brasil até o momento, muitos lugares ainda não tiveram a chance de ver e ouvir o seu trabalho ao vivo. Há alguma possibilidade de sair material ao vivo do Disciple of Doom em algum momento?
Robert: Se pudéssemos fazer algo ao vivo ou fazer algo como fizemos no Sweden Rock com o Candlemass, ter toda aquela estrutura para tornar isso possível, seria muito legal. Eu apreciaria muito isso. Mas, no fim das contas, tudo volta a simplesmente estar lá e viver o momento.
Durante seus anos no Candlemass, você sentiu muita pressão por parte de fãs sendo substituto de Messiah Marcolin?
Robert: Isso é algo óbvio. Quer dizer, você precisa entender e apreciar esse fato. Vou dizer para você: o Messiah foi um daqueles caras que eu ouvia quando estava escutando meus primeiros álbuns. Quando ouvi Nightfall, pensei: ‘Nossa, isso é incrível!’ E depois você tem Thomas Vikström ou mesmo Johann agora, que está novamente à frente da banda. Ainda é incrível. Quando estávamos no Hell’s Heroes em Houston, chegamos um dia antes porque eles eram headliners na sexta-feira e nós no sábado. Mas, para mim foi muito legal simplesmente estar com os caras de novo. Sabe, só ficar ali, seja lá o que for – tomar uma cerveja, fumar, qualquer coisa. ‘E aí, irmão, tudo bem?’, esse tipo de coisa.
Então não há ressentimentos de sua parte para com os membros do Candlemass?
Robert: Eu nunca tive ressentimento algum. Nenhum mesmo. E isso realmente nunca foi um problema. Como eu disse, lá em Houston foi tipo: ‘Ei, cara, vocês vão estar no Texas?’, ‘caramba, vão mesmo?’, ‘bom, eu moro logo ali perto. Então vamos!’
Quase quinze anos depois da saída, como vê hoje, em retrospectiva, o legado que os três álbuns que você gravou com a banda tiveram para sua carreira e para o gênero?
Robert: Eu volto a dizer que coloquei tudo o que pude nisso. Porque quando o Solitude estava se formando e tudo mais, John aparecia e dizia: ‘Ei, escuta Nightfall’ ou ‘confere isso aqui’. Era na época das trocas de fitas, sabe? Então, para mim era importante dar o meu melhor, porque isso importa mais do que qualquer coisa. Você perguntou sobre legado – e o legado é aquilo que você dá, não aquilo que você pode tirar. É o que você entrega.
Acha que estar em uma banda da Suécia foi algo que complicou, no longo prazo, sua passagem pelo Candlemass, por conta da distância e das diferenças culturais?
Robert: Não, na verdade não foi. Tudo volta simplesmente a fazer parte disso – fazer música e fazer o que você faz. Porque, quer dizer, Leif, Lars, Mappe e Janne são todos pessoas incríveis. Então, a distância não era necessariamente um problema. Era mais algo como: ‘OK, vou ter que voar por 42 malditos dias para chegar até aí… Então vamos fazer isso.’ Vamos lá e resolver. Sempre foi tudo muito preciso, sabe? Porque é uma questão de respeito por aquelas pessoas. Quando você diz que vai fazer algo, você faz – você precisa cumprir. Porque, se não cumprir, não é algo bom. Para mim, ser capaz de entregar o que prometi é muito importante.
Você se reuniu com o Solitude Aeturnus em 2023 e fazem alguns shows até hoje. Acha que há a possibilidade de fazer mais coisas com a banda ou mesmo uma volta mais fixa, com material novo?
Robert: O que está acontecendo agora é que estamos sentindo isso e estamos fazendo isso. Tocamos em alguns festivais e assim por diante. E vamos tocar na Grécia, depois vir para o Brasil. E acho que já foi anunciado que faremos um show no México. Os caras ainda estão todos na mesma sintonia. Nós nunca mudamos. Os dias podem passar, mas continuamos os mesmos. É tipo: ‘Quer fazer isso?’ ‘Sim, por que não?’ Nós nunca perdemos essa atitude. Ainda curtimos muito tocar juntos.
Dos seis discos que você gravou com o Solitude Aeturnus, qual você escolheria para apresentar a banda a alguém que é novo no estilo e por que?
Robert: É difícil escolher, porque trabalhar com esses caras e estar ali é tipo: ‘Ah, essa música é ótima’, ‘essa também é ótima’ ou então ‘essa é ruim’, ‘aquela é ruim’. Você sabe, é preciso escolher. Qual seria uma boa? Acho que um dos meus álbuns favoritos do Solitude seria Alone, porque naquele momento tinha muito significado. Como eu já disse antes, havia muito sentido e foco na música e as letras em geral significavam muito. Então, para mim, isso é algo bem pessoal. A personalidade que saiu através das letras e da música é algo que eu não me importo em compartilhar, mas também é algo com que todos nós podemos nos identificar quando se trata de coisas assim. Então, isso foi muito importante para mim.
Há a possibilidade de tocar músicas de alguns outros projetos seus, como o Tyrant, por exemplo?
Robert: No momento, acho que vamos seguir focando no SA e no Seamaster, mas eu não teria problema em fazer algo com outros materiais também, com Concept of God ou qualquer coisa assim. Mas, no fim das contas, tudo se resume ao que as pessoas querem ouvir. Quero dizer, você pode tirar coisas da cabeça o dia inteiro, mas pode não ser aquilo que o cara ao seu lado está esperando, aquele momento em que ele vira e diz: ‘Cara, eles tocaram mesmo essa música?’ ‘Tocaram!’ Todos nós queremos isso, certo? Quando vamos a um show é assim: ‘Eles tocaram aquela?’ ‘Sim, tocaram!’ Ou então você volta para casa pensando: ‘Caramba, eles não tocaram aquela música? Que porra é essa?’
Eu entendo bem! Fiquei um pouco desapontado ano passado, quando fui a um show do Scorpions e não tocaram algo que eu queria muito ouvir.
Robert: Eu sou um grande fã do Scorpions! E o Klaus Meine é um dos meus… não diria ídolos, mas o que o Klaus fez junto com a banda, coisas como Lonesome Crow e alguns dos primeiros discos como Fly to the Rainbow e coisas assim. Quer dizer, quem não ouve isso até hoje e pensa: ‘Caramba!’, sabe? Então, sim, isso torna tudo mais difícil, porque eles têm uma discografia tão grande que é tipo: ‘OK, escolha a música certa’, e assim por diante. Acaba sendo um desafio escolher as músicas, porque sempre vai ter aquela pessoa que diz: ‘Eles não tocaram aquela!’ Tipo Still Loving You. Se eu for ver o Scorpions, por exemplo… ou então, no meu caso, estou animado para ver o Rush. O Rush vai vir no ano que vem e eu mal posso esperar. Fantástico! Quer dizer, todos nós sentimos falta do Neil Peart e tudo mais. Você vê vídeos, vê apresentações, e pensa: Alex e Geddy ainda estão fazendo isso. Será uma honra poder ver esses caras, porque já vi tantas bandas na minha vida que essa é uma das poucas que eu ainda não vi.
Em se tratando de doom metal hoje, qual sua opinião sobre as bandas mais recentes do gênero?
Robert: Quanto às coisas mais novas, eu sou um grande fã e tenho muito respeito – dou muito crédito aos músicos. Mas acho que, em algum momento, eu meio que fiquei preso nisso… Todos nós fazemos isso, acabamos ficando presos em uma fase, certo? Então você quer ouvir Cheap Trick todo dia, por exemplo. Ou uma das bandas que tenho escutado bastante ultimamente é Witchcraft – coisas muito boas. Mas, no geral, as bandas de doom metal que estão surgindo agora são incríveis, artistas muito talentosos. E é preciso dar crédito aos músicos que estão pegando uma guitarra pela primeira vez ou simplesmente pensando: ‘Vou tocar esse acorde aqui! Opa, isso soou bem.’ Então pensam: ‘Sabe de uma coisa? Vamos gravar isso!’
Tem coisas muito legais saindo na Escandinávia nesse estilo!
Robert: Bandas como Mastodon e outras assim fizeram comigo a mesma coisa que eu espero conseguir transmitir para as outras pessoas. Porque, quando eu sento para ouvir… sei lá, escolha qualquer banda, aquelas que você ouve e simplesmente pensa: ‘Isso é foda pra caralho!’ É uma questão de gosto. E eu não estou muito acostumado com o modo como o gênero é nos Estados Unidos.
Em um gênero que é tão mais forte na Europa, e principalmente na Escandinávia, estar nos Estados Unidos foi um desafio extra?
Robert: Isso com certeza seria um sim. Porque existem algumas bandas, vou dizer de novo, como Pentagram ou Trouble… e, sabe, não foi fácil. Nós tínhamos espaço no rádio? As rádios tocavam nossas músicas? Não. Mas isso não nos impediu de fazer o que queríamos fazer. Porque o tempo no rádio e a execução nas emissoras são algo muito corporativo. E quer saber de uma coisa? Não importa. Mesmo assim nós vamos continuar fazendo.
Conseguiria dizer cinco bandas que te inspiraram a começar a cantar e tocar?
Robert: Eu diria que isso volta muito para aquela atitude do punk: simplesmente faça. Pegue a guitarra e toque aquele acorde. Talvez você não seja um Yngwie Malmsteen, talvez não seja um Michael Schenker, mas simplesmente toque. E se isso provocar emoção dentro de você, siga em frente. Acha que consegue cantar? Então cante. Apenas faça. Seja no seu quarto, no banheiro ou dirigindo no carro, simplesmente vá lá e faça. Pegue isso dentro de você e assuma. Você precisa assumir isso. Quanto às bandas, é difícil dizer. Podemos voltar para Judas Priest, podemos voltar para Iron Maiden. Uma das minhas bandas favoritas é Cheap Trick. E eu menciono o Cheap Trick porque Robin Zander tem vocais incríveis. E então eu tenho que voltar ao Scorpions, sabe? Porque esses caras são de altíssimo nível no que fazem. Cem por cento. Uma das coisas que eu aprendi com Robin Zander foi a habilidade dele de ir de um estilo para outro: de algo mais suave para algo bonito, depois agressivo, depois mais pesado ou maldoso… seja o que for – mas deixando de lado até as músicas de amor, sabe o que quero dizer?
Eles precisavam dessas músicas na época para vender e entrar nas rádios.
Robert: Voltamos direto para o rádio. Mas, sabe, se você olhar o álbum de estreia deles, é simplesmente pesado e sujo. Não sei como explicar melhor, mas é cru mesmo – com guitarra, baixo e Zander cantando. Lembro da primeira vez que ouvi Cheap Trick. Pensei: ‘Cara, isso é pesado pra caramba.’ E isso foi em 1978. Eu ainda devia ter, sei lá, pouco mais de um metro e meio de altura e só 12 anos.
Acho que aconteceu parecido comigo, mas com os Sex Pistols.
Robert: Ah, com certeza. E é outra banda de quatro caras que, na falta de uma palavra melhor, simplesmente não se importavam. Eles simplesmente foram lá e fizeram, mandaram ver. E adivinha? Nós ainda estamos falando deles até hoje.
Há alguma banda brasileira hoje que você conheça e admire?
Robert: Tenho que ser honesto nessa pergunta. Eu meio que fico dentro do meu próprio pequeno universo. Então, na verdade, não ouço muita coisa nova. Não recebo muito material novo para escutar. E, com tudo o que fazemos o tempo todo, é meio como eu disse antes. Às vezes, você finalmente ouve alguma coisa e pensa: ‘Caralho, eu não conhecia isso seis anos atrás? Que diabos!’ Então, estou tentando acompanhar todas as músicas e coisas que existem por aí – e, obviamente, tem muita coisa, né? Quero dizer, você me diria: qual é a sua banda favorita no momento? Qual é a sua banda favorita agora?
Creio que é o Nightwish.
Robert: Bem diferentes, certo? Mas, quer dizer, é isso que você escuta, não é? E, de novo, é um monte de músicos excelentes.
Não pude deixar de reparar na guitarra na sua parede, então gostaria de perguntar se você também vai tocar por aqui ou apenas cantar?
Robert: No momento, vai ser apenas vocal. Mas também continuo escrevendo música e fazendo outras coisas. Inclusive, falamos sobre isso no Candlemass: eu e o Mappe comentamos algo como ‘seria ótimo tocar essa música ao vivo’. Mas, na verdade, eu nunca quis ser vocalista. Eu sempre quis ser guitarrista. Só acabou acontecendo assim. E tudo bem também, não tem nada de errado com isso. Mas eu ainda fico aqui tocando o tempo todo. Eu também escuto músicas aleatórias para tocar junto – não para aprender a tocar exatamente, porque eu já sei tocar, mas para praticar. Tudo isso é importante para o conjunto de coisas que acabam fazendo tudo acontecer.
Gostaria de mandar uma mensagem para os brasileiros que irão vê-lo?
Robert: Claro! Estou extremamente, extremamente feliz por essa oportunidade de estar aí. Porque, quer dizer, tem muita gente envolvida: a Som do Darma, Eliton Tomasi e os outros caras, Fabio, Bruno, Rodrigo… Esses caras são incríveis. Sinceramente, mal posso esperar para pegar o avião. E preciso dizer que todos estão fazendo um excelente trabalho na promoção, a Susi organizando as coisas. Todas essas pessoas merecem um enorme reconhecimento e muitos elogios, porque sem elas nada disso aconteceria. Mas são essas pessoas – e pessoas como você, com quem podemos conversar – que precisam ser valorizadas. Tenho muita gratidão por todos. Mal posso esperar para chegar aí embaixo. Bom, digo ‘aí embaixo’ porque no momento estou na Noruega. E a única coisa que eu realmente quero garantir é que as pessoas saiam felizes do local quando o show acabar.

SERVIÇO:
Disciple of Doom em São Paulo
Data: 10 de abril de 2026
Local: La Iglesia
Endereço: R. João Moura, 515, Galpão 06, Pinheiros, São Paulo/SP
Horário: 18h
Bandas convidadas: Loss e Midgard
Disciple of Doom em Sorocaba
Data: 11 de abril de 2026
Local: The Devil’s Pub
Endereço: R. João Mendes Gomes, 31, Sorocaba/SP
Horário: 17h
Bandas convidadas: Loss, Midgard, Nightspell e banda surpresa
Disciple of Doom no Rio de Janeiro
Data: 12 de abril de 2026
Local: Experience Music
Endereço: R. Riachuelo, 20, Lapa, Rio de Janeiro/RJ
Horário: 17h
Bandas convidadas: Loss, Midgard e Pombajira
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